Notas iniciais
Possivelmente a última nessa temática, mas eu tinha que postar se não não ia sossegar. Vamos ver se vocês vão gostar. Kkkk

Chicago, 02:14 AM


A chuva gelada de Chicago batia contra a janela com a insistência de um aviso. No pequeno apartamento de dois cômodos no andar térreo, o único som que rivalizava com a tempestade era a respiração compassada e suave de Mateo. Renesmee cobriu o pequeno corpo de três anos com o cobertor puído, ajustando os cantos com o carinho minucioso que só uma mãe conhece. Observou as feições serenas do filho por um longo minuto. Ali, no escuro, ouvindo o coraçãozinho dele bater ritmado, ela se permitia lembrar por que havia feito o que fez.

Três meses. Fazia exatamente três meses desde a noite em que deixou tudo para trás no México. Três meses desde que pegou a mochila, o pouquíssimo dinheiro que conseguiu esconder e a certidão de nascimento do filho, correndo sob a sombra da noite para cruzar a fronteira. O pavor de ser alcançada pelos homens de seu ex-marido ainda fazia seus joelhos tremerem sempre que uma porta batia com mais força ou uma sirene uivava pela avenida distante.

Abaixo da cama, guardada em uma pasta surrada de plástico, estava sua vida anterior: o diploma de Medicina com honras, as especializações, os artigos publicados. Mãos que já haviam costurado artérias em salas de cirurgia de ponta agora passavam dez horas por dia esfregando pisos de escritórios no centro da cidade para pagar o aluguel em dinheiro vivo.

Ela olhou para as próprias mãos, com as unhas curtas e a pele ressecada pelo sabão industrial. Não importava. Sem documentos, sem visto, ela era uma fantasma em Chicago. E fantasmas não salvam vidas; fantasmas apenas tentam não ser vistos.

Um estalo seco vindo da viela ao lado da janela a fez congelar.

Nessie prendeu a respiração. Seu corpo reagiu por instinto: instintivamente deu dois passos para trás, posicionando-se entre a janela e o berço de Mateo. Seus olhos vasculharam a penumbra através da cortina fina.

Apenas o vento, tentou se convencer, sentindo o pulso acelerar na garganta. Apenas o vento.

Mas então veio o som. Um baque pesado contra a porta de madeira da entrada, seguido pelo rangido abafado da fechadura sendo forçada.

A adrenalina disparou em suas veias como um choque elétrico. Nessie correu até a cozinha em passos silenciosos, pegando a maior faca de corte que encontrou. Ela não voltaria para o México. Não deixaria ninguém tocar em seu filho.

Ela se encostou na parede do corredor, com o metal frio da faca firme em sua mão direita, a respiração presa, os ouvidos atentos ao menor ruído.

A porta da frente cedeu com um estalido baixo. Uma sombra alta e ostensiva cambaleou para dentro do apartamento, trazendo consigo o cheiro forte de chuva, asfalto e um odor metálico inconfundível.

Sangue. Muito sangue.

O homem fechou a porta com as costas, escorregando pesadamente por ela até cair sentado no piso. A luz fraca do poste de luz da rua, refletida pelo vidro da janela, iluminou o contorno do seu rosto: traços marcantes, mandíbula forte, pele bronzeada e olhos escuros que brilhavam em meio à dor.

Ele mantinha uma das mãos pressionada com força contra a lateral do abdômen, mas o líquido escuro já vazava entre seus dedos, empapando o paletó escuro e manchando o chão.

Nessie deu um passo à frente, a faca ainda erguida, o coração martelando contra as costelas.

— Quem é você? — ela sussurrou em inglês, a voz firme apesar do pavor. — Saia da minha casa ou eu chamo a polícia!

O homem levantou o olhar devagar. Seus olhos encontraram os dela na escuridão. Não havia medo neles, apenas uma determinação feroz e um cansaço profundo.

— Se chamar a polícia... — a voz dele veio grave, rouca, entrecortada por um grunhido de dor — ...nós dois somos presos. E se eu morrer aqui... eles vêm atrás do que sobrou.

Ele soltou o ar com dificuldade e a cabeça pendeu para trás, batendo levemente contra a porta. A mão dele escorregou do ferimento, revelando um rasgo na roupa e o buraco limpo e profundo causado por um projétil de arma de fogo.

Nessie olhou para a faca em sua mão, depois para o ferimento que sangrava profusamente no corpo daquele estranho. A médica dentro dela, adormecida há meses sob o peso do medo e da clandestinidade, despertou instantaneamente.

A fronteira que ela havia cruzado não era apenas de terra e mapa. A partir daquela noite, ao lado daquele homem ferido, não haveria mais volta.