Renesmee


Duas semanas haviam se passado desde a tarde no topo da torre da Black Enterprises. Quinze dias em que tentei ao máximo retomar o controle da minha vida. Eu não voltara à lanchonete, mas consegui alguns trabalhos temporários fazendo faxinas discretas em um prédio residencial próximo, pagando o suficiente para garantir o aluguel e a comida.

A van preta continuava aparecendo na esquina de tempos em tempos.

A tarde de sábado estava surpreendentemente amena para os padrões de Chicago. O sol de outono aparecia fraco entre as nuvens, tornando o ar agradável. Decidi que Mateo merecia uma tarde ao ar livre. Fomos até o Navy Pier, um dos lugares mais vivos da cidade, onde famílias costumavam levar as crianças para caminhar, ver a roda-gigante e olhar os barcos no lago Michigan.

Ver o sorriso de Mateo ao apontar para as gaivotas e para a imensa estrutura de ferro da roda-gigante fez todo o cansaço dos meus ombros se dissipar por alguns instantes. Comprei um sorvete para ele e nos sentamos em um dos bancos de madeira voltados para o calçadão.

— Olhe, mamãe! O barco grande! — Mateo exclamou, com o rosto sujo de baunilha, pulando devagar no banco.

— Eu estou vendo, meu amor. Lindo, não é? — sorri, ajeitando o casaco dele para protegê-lo da brisa que vinha da água.

— Ele tem os seus olhos, sabe?

A voz feminina, suave e refinada, veio de logo atrás de nós.

Instintivamente, puxei Mateo para mais perto de mim antes mesmo de me virar. Ao meu lado, uma mulher jovem e elegante observava meu filho com um sorriso gentil. Ela tinha traços marcantes, pele morena viçosa e cabelos escuros brilhantes caindo sobre os ombros num corte impecável. Trajava um sobretudo de tom creme de caimento perfeito.

No entanto, o que me fez gelar instantaneamente não foi a presença dela, mas os dois homens de terno escuro parados a poucos metros de distância, mantendo uma postura rígida de escolta e varrendo o calçadão com o olhar.

— Desculpe se te assustei — disse a mulher, dando um passo à frente de forma serena, sem qualquer sinal de intimidação. Ela se abaixou ligeiramente na altura de Mateo. — Olá, rapazinho. Como você se chama?

Mateo olhou para ela com a curiosidade típica dos três anos, escondendo metade do rosto no meu casaco.

— Mateo... — murmurou ele, tímido.

— É um lindo nome — ela sorriu abertamente, os olhos brilhando com uma sinceridade que quase me fez baixar a guarda. Em seguida, ergueu o corpo e encarou-me diretamente. — E você deve ser a Renesmee.

Senti o estômago dar um nó. A sensação de estar sendo constantemente rastreada voltou com força total.

— Quem é você? — perguntei, a voz caindo para um tom frio e defensivo. — O que você quer com o meu filho?

— Por favor, não se alarme. Os seguranças estão apenas fazendo o trabalho deles — ela indicou os homens com um gesto discreto da mão e estendeu os dedos para mim. — Meu nome é Rachel. Rachel Lahote.

Ao ver minha expressão continuar enigmática e desconfiada, o sorriso dela se tornou um pouco mais contido, mas profundamente caloroso.

— Eu sou irmã do Jacob.

O ar pareceu escapar dos meus pulmões por um segundo. Encarei a mulher à minha frente, buscando qualquer semelhança. A altivez e a firmeza no olhar eram idênticas às dele, embora a postura de Rachel fosse infinitamente mais leve e acessível.

— A irmã do Jacob... — repeti, dando meio passo para trás, trazendo Mateo para trás das minhas pernas. — Ele mandou você aqui?

— Não. Na verdade, se o Jacob souber que eu vim até aqui pelas costas dele, ele vai ter um ataque de fúria — Rachel soltou uma risada baixa e genuína. — Meu irmão é extremamente controlador quando quer proteger algo ou alguém. Mas eu não podia deixar de vir.

— Vir para quê?

Rachel suspirou, o olhar suavizando-se ao me encarar com uma admiração que me pegou desprevenida.

— Para conhecer a mulher que salvou a vida do meu irmão — disse ela com sinceridade absoluta. — Jacob é o pilar da nossa família, Renesmee. Quando ele levou aquele tiro na zona portuária, nós quase o perdemos. Se não fosse pela sua coragem e pelas suas mãos naquela madrugada, meu irmão não estaria respirando hoje. Eu devia um agradecimento pessoal a você.

Apesar da gentileza de suas palavras, a lembrança de onde aquela família pisava e do perigo que os cercava me fez erguer as defesas imediatamente.

— Não precisa me agradecer, senhora Lahote — respondi, mantendo a voz ereta e distante. — Eu fiz o que qualquer médica faria naquele momento. Mas se você veio até aqui esperando que isso mude alguma coisa, sinto muito.

Rachel piscou, surpresa com a minha rigidez.

— Renesmee, eu só queria...

— Eu não quero nada com a família Black — interrompi com firmeza, olhando-a bem nos olhos. — Eu já disse isso ao seu irmão e digo a você. Não quero dinheiro, não quero empregos e não quero favores. Tudo o que eu preciso é de paz para criar o meu filho nesta cidade sem ter pessoas de terno nos seguindo ou abordando a minha família nos parques.

O silêncio caiu entre nós por alguns segundos. Os dois seguranças ao fundo deram um passo discreto à frente ao ouvirem meu tom elevado, mas Rachel ergueu a mão para eles, ordenando que ficassem onde estavam.

Ela me observou em silêncio, estudando a determinação no meu rosto. Em vez de raiva ou ofensa, vi um profundo respeito surgir em seus olhos.

— Você realmente é diferente de todas as pessoas que costumam se aproximar do meu irmão — murmurou Rachel, balançando a cabeça devagar. — Agora eu entendo perfeitamente por que o Jacob não para de falar de você.

Senti meu rosto esquentar ligeiramente com a menção, mas mantive a postura inabalável.

— Tenha uma boa tarde, senhora Lahote — disse, pegando a mão de Mateo. — Vamos, meu amor.

— Renesmee, espere — disse Rachel suavemente. Ela não tentou me segurar, apenas deu um passo para o lado. — Eu vou respeitar o seu espaço. Mas saiba de uma coisa: os Black nunca esquecem quem fez algo por eles. Se um dia você ou o seu filho precisarem de qualquer coisa, você tem uma amiga na nossa família.

Não respondi. Apenas acenei com a cabeça de forma fria e guiei Mateo pelo calçadão do pier, afastando-me o mais rápido possível. Enquanto caminhava entre as famílias e os turistas, senti o olhar de Rachel e dos seguranças em minhas costas.

Minhas pernas se moviam rápido pelo calçadão de madeira do Navy Pier, impulsionadas pela urgência de colocar distância entre nós e os seguranças de Rachel Lahote. O ar frio do lago Michigan parecia cortar meus pulmões, mas a ansiedade no meu peito era bem mais dolorosa.

— Mamãe, você tá indo muito rápido! — reclamou Mateo, tropeçando nos próprios pés enquanto tentava acompanhar meus passos largos.

— Desculpe, meu amor — murmurei, desacelerando um pouco e soltando o ar devagar. Paramos perto de uma grande estrutura de entretenimento, onde uma multidão de pais e crianças se aglomerava em volta de um carrinho de pipocas e balões coloridos.

Olhei por cima do ombro. Rachel e seus homens já não estavam mais à vista, engolidos pela massa de turistas. Soltei os ombros, sentindo uma ponta de alívio.

— Fica bem pertinho de mim, tá bom? — pedi, me abaixando por um segundo para ajeitar a touca de lã na cabeça dele.

— Olha, mamãe! O balão de cachorro! — Mateo apontou com entusiasmo para um vendedor a poucos metros de distância, os olhos brilhando.

— É lindo, meu filho. Mas agora nós precisamos voltar para...

Antes que eu pudesse terminar a frase, um grupo grande de adolescentes passou correndo e rindo entre os pedestres, me empurrando levemente para o lado. Instintivamente, dei dois passos para trás para não me chocar contra eles.

Foram apenas três segundos de distração.

Quando busquei a mãozinha de Mateo, só encontrei o ar gelado.

— Mateo? — minha voz falhou de imediato.

Olhei ao redor em pavor desmedido. A multidão parecia um mar de casacos e rostos desconhecidos. O chão pareceu fugir sob os meus pés. O pânico primordial de qualquer mãe me atingiu com a força de uma avalanche.

— Mateo! Mateo! — gritei, correndo entre as pessoas, ignorando os olhares surpresos.

Girei sobre os calcanhares, varrendo o calçadão até que, a cerca de vinte metros de distância, avistei o pequeno casaco azul dele. Ele estava parado em frente ao carrinho de balões, totalmente alheio ao pânico, olhando para o teto de lona colorida.

— Mateo! — soltei o ar num soluço de alívio puro.

Minhas pernas me levaram até ele em disparada. Ajoelhei-me no chão de madeira e o puxei para o meu colo com tanta força que o garoto soltou um pequeno ganido de surpresa, passando os bracinhos ao redor do meu pescoço.

— Nunca mais faça isso, Mateo! Nunca mais saia de perto da mamãe! — sussurrei com a voz embargada, beijando o topo da cabeça dele, o coração martelando descontrolado contra as costelas.

— Desculpa, mamãe... eu só queria o cachorro — murmurou ele, envergonhado.

Ainda ajoelhada, consolando o meu filho, percebi uma sombra projetar-se sobre nós dois. Um homem parara a poucos passos de distância. A princípio, pensei ser apenas mais um pedestre curioso com o meu pânico, mas ao erguer a cabeça, o ar travou na minha garganta.

Ele usava uma jaqueta de couro preta aberta, o colarinho ligeiramente dobrado para o lado. E ali, subindo pelo lado direito do pescoço até a linha da mandíbula, estava a marca inviolável: o desenho escuro da Santa Morte entrelaçada com ramos de espinhos. A marca registrada das fileiras do cartel de Monterrey.

Ele não era da cúpula, tampouco alguém do círculo próximo do meu ex-marido cujo nome eu soubesse de cor. Era apenas um soldado de patrulha, um dos dezenas de homens armados que prestavam serviço à organização no México.

O homem deu mais um passo lento na nossa direção, os olhos semicerrados em dúvida, até baixar o olhar diretamente para o rosto de Mateo e, em seguida, travar no meu.

O choque do reconhecimento estalou no rosto dele no mesmo instante. Os lábios do sujeito se entreabriram, a mão descendo instintivamente para o cós da calça, sob a jaqueta.

— Dra. Mendoza...? — sussurrou ele, pálido de surpresa, a voz carregada com o sotaque denso do norte do México.

O som do sobrenome que eu carregava no México e a confirmação de que ele sabia exatamente quem nós éramos fez o sangue fugir completamente do meu rosto. Aqui eu havia me apresentado como Renesmee Swan, tentando me blindar sob o nome de solteira da mulher que constava no meu registro de nascimento. Mas para aquele homem, eu continuava sendo a esposa que ousara fugir da gaiola do cartel.

A certeza aterrorizante me atingiu como um soco: o cartel já estava infiltrado em Chicago.

Sem pensar, sem hesitar por meio segundo, puxei Mateo para os meus braços com toda a força que me restava, coloquei-me de pé num salto e dei meia-volta, disparando desesperadamente contra o fluxo da multidão no calçadão.

O ar frio queimava meus pulmões enquanto eu corria, apertando Mateo contra o meu peito. As risadas dos turistas e o som ambiente do Navy Pier pareciam distantes, abafados pelo som estrondoso do meu próprio coração batendo na garganta. Olhei para trás por uma fração de segundo e vi o homem de jaqueta de couro cortando a multidão com passos largos e decididos.

Entrei em um corredor lateral, desviando da área principal do pier para buscar uma saída mais rápida. Foi um erro. Em poucos segundos, percebi que havia me enfurnado em uma área de serviço semi-isolada, cercada por contêineres de carga, equipamentos de manutenção e o muro de contenção voltado para as águas escuras do lago Michigan. Sem saída.

Girei sobre os calcanhares, mas o soldado do cartel já bloqueava a entrada do corredor. Ele mantinha a mão dentro da jaqueta, o olhar fixo em mim com uma mistura de triunfo e incredulidade.

— Não adiantou nada fugir para o norte, Doutora — disse ele em espanhol, o tom baixo, mas carregado de uma ameaça sutil. — O chefe passou meses revirando o México atrás de você e do garoto.

Dei passos lentos para trás até sentir a madeira fria do contêiner contra as minhas costas. Ajoelhei-me levemente, cobrindo o rosto de Mateo contra o meu pescoço para que ele não visse o que estava prestes a acontecer.

— Por favor... — minha voz saiu num fio rasgado, entrecortado pelo terror. Suportei a humilhação de implorar, engolindo qualquer vestígio de orgulho. — Finge que você não me viu aqui. Por favor. Eu não tenho nada, não quero nada... só me deixe criar meu filho em paz.

O homem deu um sorriso frio, sem demonstrar pingo de compaixão.

— Você sabe muito bem que ninguém engana o chefe. Você vem comigo.

Ele deu mais um passo na minha direção, sacando parcialmente a empunhadura de uma pistola do cós da calça. Fechei os olhos, o desespero me paralisando por completo, quando o som de passos pesados ecoou pela entrada do corredor.

Três homens altos vestindo sobretudos escuros surgiram das sombras. O meu estômago despencou no mesmo instante, por um segundo aterrorizante, pensei que a equipe de busca do cartel estivesse completa e que aquele era o meu fim.

Mas não havia sotaque mexicano no comando que se seguiu.

— Nem mais um passo — ordenou uma voz grave e firme.

Antes que o soldado do cartel pudesse girar o corpo ou puxar a arma, dois dos homens moveram-se com uma rapidez e precisão assustadoras. Um deles travou o braço do sujeito pelas costas em uma alavanca perfeita, enquanto o outro pressionou o cano de um silenciador discretamente contra as costelas dele, sob a jaqueta, imobilizando-o por completo sem produzir um único ruído que pudesse atrair a atenção dos civis na área movimentada.

O soldado do cartel soltou um ganido abafado de dor, tendo sua arma tomada em segundos sem nem conseguir reage.

A multidão a metros dali continuava andando sem ter a menor ideia da execução cirúrgica que acabara de acontecer ali.

Passos suaves de saltos altos ecoaram sobre o piso de madeira. Rachel Lahote aproximou-se devagar, contornando a cena com uma calma absoluta. O terceiro segurança posicionou-se à frente dela, mantendo o perímetro totalmente coberto

— Nós dissemos que a área estava coberta, Renesmee — disse Rachel, a voz serena, embora seus olhos estivessem frios como gelo ao encarar o homem rendido. Ela fez um gesto sutil para os seguranças. — Levem este sujeito para um dos nossos carros pela saída dos fundos. Jacob vai querer saber exatamente o que esse homem está fazendo andando no nosso território.

Os dois homens arrastaram o soldado do cartel com extrema discrição, fazendo parecer que apenas ajudavam um amigo embriagado a caminhar até a saída.

Fiquei estática contra o contêiner, o peito subindo e descendo descontroladamente, tentando absorver o que acabara de presenciar. A linha entre o pesadelo e a salvação havia se cruzado de forma brutal na minha frente.

Rachel aproximou-se devagar, ajoelhando-se com elegância na minha altura. Ela não tentou me tocar, apenas manteve o olhar acolhedor fixado no meu rosto pálido.

— Você está segura agora — disse ela suavemente. — Ele não vai tocar em você. Nem ele, nem ninguém.

Respirei fundo, tentando conter o tremor que dominava meu corpo inteiro enquanto abraçava Mateo, que choramingava baixinho no meu colo.

— Vocês... vocês estavam...— murmurei, a voz ainda trêmula.

— Nós estávamos garantindo que nada de mal acontecesse a você ou ao Mateo — corrigiu Rachel com brandura. Ela se levantou e estendeu a mão para mim. — Meu irmão sabia que você podia estar em perigo, mesmo quando você se recusou a ver isso.

Olhei para a mão estendida de Rachel e, em seguida, para o meu filho. A ilusão de que eu podia enfrentar aquilo sozinha em Chicago havia ruído completamente no momento em que a marca da Santa Morte surgiu na minha frente.

Sem dizer uma palavra, segurei a mão de Rachel e me levantei.