Além da Vida

1 As Linhas que Anunciam o Fim


Notas iniciais
Capítulo introdutório. Se gostou, me deixe um comentário :) Adoraria ouvir o que vocês tem a dizer.Antes de mais nada, divirtam-se!

–E com isso, terminamos a aula de hoje.

Meu professor parecia bem animado. Ele nos ensinava sobre os tecidos que deveríamos utilizar em cada tipo de roupa e a melhor aplicação para cada um dos mesmos. Apesar de ser o primeiro dia de aula, nós já estávamos recebendo tarefas para serem entregues na próxima aula.

Arrumei minhas coisas e me preparei para sair. Um dos outros alunos da minha sala veio até mim para tentar puxar assunto. Tentei ser o mais simpática que consigo, mas não tenho interesse nesse tipo de coisa.

–Olá! Me chamo Guilherme. Muito prazer — disse ele, sorrindo pra mim.

–Olá. Sou Mia Demoiselle. Prazer.

–Eu e meus amigos vamos aproveitar que acabamos saindo mais cedo e ir em um bar. Quer ir conosco?

–Não, obrigada.

Com isso, levantei e fui saindo pela sala. Antes que eu passasse pela mesma, consegui escutar os outros meninos cochichando: "Ah, você não aprende mesmo. Aquela é a Mia, a garota mais fria da faculdade. Ela não ia dar bola pra você mesmo", eles riram.

Não que eu não queira ter uma família ou um relacionamento. Apenas não acho que vale a pena me apegar a alguém ou algo.

Tudo nessa vida é passageiro e acaba da mesma forma: a morte.

Não podemos fazer nada para impedí-la nem criar vida. Tudo que podemos fazer é adiar que a pessoa morra o máximo possível. E depois que tudo acaba... acabou.

Quando eu tinha 5 anos, perdi meus pais quase que de uma vez. Meu pai foi assassinado voltando da rua uma noite e, após algum tempo, minha mãe entrou em depressão e se matou.

Meus avós me adotaram, mas eles logo irão embora também.

A vida me ensinou que não devo me apegar com coisas sem sentido como as pessoas que encontro ou coisas assim. Se você abrir uma brecha, isso vai te magoar e eles sempre vão embora no final. Então, não se apegue.

Por conta disso, não quero encontrar ninguém. Não quero mais amar nem ser amada pelas pessoas. Apenas vivo minha vida seguindo em frente até que minha hora chegue.

Vocês podem achar que é um exagero a minha visão sobre morte e que nós... como as pessoas dizem mesmo? Ah sim, nunca sabemos o dia de amanhã.

Feliz ou infelizmente, benção ou maldição, a vida também me fez nascer com essa capacidade.

Não sou médium, muito menos clarividente. Não consigo ver o futuro nem nada. Meus olhos, porém, conseguem enxergar uma linha que sai de cada pessoa.

Essa é a linha da vida. Ela se extende até quanto a pessoa tem para viver. São invisíveis para as pessoas normais, mas eu sempre consegui enxergá-las, desde que me lembro.

Se eu tocar nessas linhas, consigo enxergar como será a morte da pessoa, como se todo universo simplesmente conspirasse para que a pessoa morra de alguma forma. Mesmo agora enquanto ando até o metrô, eu enxergo a linha de todas as pessoas que passam por mim.

Devem pensar que isso é bom e que eu posso salvar muitas vidas com isso, não é?

Mas a história também não é essa. Meus poderes possuem limitações. Eu não consigo enxergar a minha própria linha, então não sei quando nem como morrerei. Além disso, mesmo que eu mude o futuro de alguém pelo que eu enxergo, a imagem simplesmente muda para outra coisa e o novo evento acontece dentro de um dia.

Como eu disse, nós só conseguimos adiar a morte de alguém, não impedí-la.

–Aah! Por favor, alguém ajude!

Me virei para o local de onde veio o grito.

Deitado na calçada, um homem apertava o peito com força enquanto contraía o rosto de dor. Uma mulher, sua esposa provavelmente, estava com a cabeça dele no colo dela e gritava para que alguém o ajudasse.

Qualquer esforço, porém, seria inútil.

Sobre a sua cabeça, eu enxergava a linha se extinguir aos poucos, mas continuamente.

5... 4... 3... 2... 1...

O corpo do homem amoleceu e ele simplesmente tombou para o lado.

A mulher, desesperada, começou a chorar enquanto algumas pessoas ao redor tentavam confortá-la. Outras, simplesmente cochicavam entre si sobre como havia sido uma tragédia.

Um garoto, porém, chamou minha atenção.

Ele tinha cabelos pretos e rebeldes. Seu olhar era frio diante aquela situação e seus olhos castanhos carregavam um peso diferente do normal. Era magro, usava uma regata preta e calça jeans. Para resumir, ele era completamente normal. Então, por que ele me chamou atenção dentre tantas pessoas?

Encarei atentamente o garoto enquanto ele se aproximava mais do corpo que estava no chão. Olhando fixamente para o corpo, fez um gesto com as mãos e, num instante, pareceu mais aliviado.

Ninguém ao redor deu qualquer sinal de achar aquilo estranho, uma vez que é totalmente normal um garoto chegar do lado de um cara morto e fazer um gesto com as mãos, sem nem abrir a boca para dizer nada.

Mesmo com a nossa distância, ele percebeu meu olhar e me encarou de volta. Quando seus olhos cruzaram com os meus, senti um certo conforto, como se eles me dissessem "Eu entendo você...".

Levei um susto e fiquei paralisada, mas logo em seguida meu queixo caiu, quando finalmente percebi porque ele me chamou a atenção.

Simplesmente não estava lá. Eu não conseguia encontrar em lugar nenhum a linha da vida dele.

Notas finais
Mia é um personagem pequeno de uma história minha muito maior. Mas pela complexidade e profundidade de informação que eu coloquei nela, queria que ela tivesse uma história própria.Espero que gostem e comentem o que acharam.