Além Do Fraternal

2 Quando o passado bate a porta...


Notas iniciais
Hey! queria agradecer a todos pelos comentários e favoritos, fiquei impressionada com a repercussão da fic apenas no primeiro capitulo. Obrigada a todos! Boa leitura.

O despertador parecia estar gritando dentro do sonho de Karina. Um sonho bem estranho por sinal: ela estava em um enterro e ao seu lado sua mãe chorava muito, dizendo que sempre amaria a pessoa que estava sendo enterrada. De repente um som alto chamou a atenção de todos, um bip prolongado, seguido de batidas distantes e, do nada, sua mãe começou a lhe dar fortes cutucadas na costela.

—Que isso mãe?

—ACORDA KARINA!

Karina levantou-se assustada e só então percebeu que estava sonhando. Pedro agora gargalhava ajoelhado ao lado da cama, enquanto a irmã procurava algo bem pesado para jogar na cabeça dele.

—Você tinha que ver! _ ele disse, limpando as lágrimas que escorriam._ Você murmurando: “Para mãe! Tá me machucando”!

Karina cruzou os braços e ficou observando aquela cena patética: um rapaz de 17 anos quase rolando no chão, rindo de uma besteira.

—Já acabou?_ ela perguntou depois de um tempo.

Pedro se pôs de pé e encarou a irmã, tentava segurar o riso.

—Sim... Então... Mamãe pediu para eu vir te acordar.

—Ok. Já acordei. Saia.

Pedro caminhou em direção a porta e fez menção de sair, até fechou a mesma. Porém, abriu novamente e gritou: “Tá me machucando!”. Karina não pensou duas vezes e jogou um bibelô que estava ao lado da sua cama na direção dele, que foi mais rápido e fechou a porta. Ao longe, ela ainda o ouvia rindo e imitando a voz dela e não pôde segurar o sorriso que brotou em seus lábios. Amava aquele idiota, fazer o que?

Minutos depois, ela já estava na cozinha.

—Bom dia! _ deu um beijinho na mãe, que preparava o desjejum com o carinho de sempre.

—Bom dia minha querida, que confusão foi aquela lá em cima?

—Ah, o idiota do seu filho, como sempre. Sabe mãe, às vezes acho que ele foi trocado na maternidade ou algo parecido.

Dandara odiava quando um dos dois dizia que não eram irmãos, mas contornava bem e sorria docemente e sempre dizia a mesma coisa:

—Nunca mais repita isso!

—Repetir o que?

Gael tinha acabado de entrar na cozinha e deu um beijinho em cada uma.

—Nada meu bem. Está indo para o trabalho?_ Dandara mudou o assunto.

—Sim, você quer carona?

—Claro!

Pedro juntou-se aos outros e sentou-se ao lado da irmã, que lhe lançou um olhar de repulsa. Gael e Dandara perceberam o clima, mas decidiram não se meter, os dois já eram bem grandinhos para resolverem seus problemas sozinhos.

—Então, como pretendem aproveitar as férias?_ Dandara tentou amenizar a situação.

—Bom, eu ainda não sei. Mas tenho certeza que assim que a senhora voltar do serviço terá uma lista das minhas tarefas._ disse Pedro.

—E você querida?_ Gael dirigiu-se à filha.

—Estudando não é pai? Ao contrário de uns eu me preocupo com meu futuro e a faculdade me espera!

—Essa é minha garota!

O assunto do café da manhã não teve muitas novidades e pontualmente, como todos os dias, Gael e Dandara se despediram dos filhos e foram para seus respectivos empregos.

Um silêncio perturbador caiu na cozinha, sendo quebrado às vezes por mordidas nas torradas ou goles de suco.

—Vai ficar com raiva de mim o dia todo?_ Pedro quebrou o silêncio.

—Por que se importa?

—Por nada, é só para saber mesmo.

Karina o observou e disse:

—Então? Vai ou não vai à casa da Barbára hoje?

—Como sabe disso?

Karina riu e levantou-se, retirando as louças sujas da mesa.

—Responde! Como sabe disso?

Ela não respondeu de imediato. Antes, colocou as louças sujas na pia, guardou a cafeteira, colocou a torradeira no lugar e, por fim, disse:

—Da próxima vez que resolver conversar ao telefone às 2h da madrugada, certifique-se de que todos estejam dormindo e, principalmente, de falar mais baixo. Mas me diga, o que vai ter lá?

—Nada, só uma festinha, nada de importante. Talvez se você não fosse tão “bicho do mato” te convidariam também.

—Como se eu estivesse louca de vontade de ir! Acredite, o nível de QI dos seus amigos é inferior ao de uma lesma.

Ela terminou de lavar os pratos, enxugou as mãos e continuou:

—Mamãe e papai sabem dessa festinha?

—Eu ia contar assim que chegassem, mas pelo visto...

—Pelo visto o que? _ ela o encarou raivosa._ Acha que vou perder meu tempo te dedurando? Sinto te decepcionar, mas minha vida não gira em torno de você e das coisas que você faz, por tanto fique tranquilo, da minha boca não vai sair nada. Só fique ciente de uma coisa: mamãe não gosta da Barbára e você sabe muito bem disso.

Pedro ia revidar quando viu que o carteiro tinha acabado de deixar as correspondências. Decidiu não esticar aquele assunto e foi até lá receber as correspondências. Enquanto isso o telefone tocou e Karina atendeu. Do outro lado a voz irritante de Barbára soou:

—Olá K, o Pedro está?

Karina ia responder que sim, mas se surpreendeu quando o som que saiu dos seus lábios foi um firme: “Não.”

—Ah... Você sabe a que horas ele volta? É um assunto importante que eu...

—Se quiser liga mais tarde, no momento ele não está. Até logo!

E desligou o telefone. Sua respiração estava acelerada, não era acostumada a mentir! Além disso, um sentimento de raiva daquela garota brotou em seu peito. Esse sentimento já tinha sido semeado no dia em que ela pegou os dois aos beijos no quarto dele. Naquele dia, Barbára tinha ido até a casa de Karina com a desculpa de estudar com sua, até então, amiga. Porém, quando Karina foi buscar alguns petiscos, a outra foi até o quarto de Pedro dizendo que tinha errado o caminho para o banheiro. Pedro, que há algum tempo já estava a fim da moça, não pensou duas vezes e a beijou. Karina, que seguia em direção ao seu quarto, flagra os dois no maior amasso e chama sua mãe. Daquele dia em diante, Pedro e Barbára mantêm um relacionamento estranho, nada muito esclarecido. E, claro, a amizade entre as duas, se é que algum dia houve alguma, terminou.

—Quem era?_ Pedro tinha acabado de entrar na cozinha com as cartas nas mãos.

—Ninguém, engano. Tem alguma carta para mim.

Ela fez menção de pegar as cartas, mas Pedro ergue os braços. Ele era um pouco mais alto que ela, era humilhante! Karina dava pequenos saltos tentando alcançar as mãos dele, mas era irrelevante. Então, ela o atacou em seu ponto fraco: cócegas.

O rapaz tenta se controlar, mas quando percebe já está correndo pela sala, com a irmã em seu encalço insistindo nas cócegas. Até que ele tropeça no tapete e cai no sofá, levando a irmã junto. Karina cai no peito dele e os dois soltam gargalhadas. Enfim, ela tinha pegado as cartas e se aconchegou no peito dele. Começou a olhar uma por uma.

—Conta, conta, conta, propaganda... Olha só, carta para a mamãe.

—Quem enviou? _ ele pega a carta e lê o nome do remetente._ Marcelo Fernandes.

Karina se senta no sofá e o irmão faz o mesmo.

—Tem o mesmo sobrenome da mamãe._ ela diz, lendo os dados do remetente junto com ele._ Olha, vem do Canadá!

—Droga! Fiquei curioso._ ele disse, erguendo a carta, tentando, em vão, ler algo.

—Bom, vamos esperar ela chegar não é?

Ele coloca a carta junto com as outras na mesinha de centro da sala.

—Então... Me atacando com cócegas agora? É assim?_ ele diz, lançando um olhar suspeito para Karina, que começa a rir.

—Não! Mas é seu ponto fraco, fazer o que?

—Você me paga tá?_ ele responde sorrindo.

O resto do dia foi tranquilo. Cada um cuidou dos seus afazeres e Karina adiantava o jantar quando seus pais chegaram. De imediato ela deu a notícia da carta que tinha chegado àquela tarde. Dandara e Gael trocam olhares apreensivos.

—Eu... Vou ler... Karina meu amor, você se importa de continuar o jantar, é rápido...?

—Tudo bem.

Os dois pegam a carta e correm para o quarto. Gael tranca a porta e se senta na cama, enquanto Dandara anda de um lado para o outro, lendo a tal carta.

—O que diz?_ ele pergunta após alguns minutos.

Dandara se senta ao lado dele e responde com lágrimas nos olhos:

—Nos descobriram! Nos descobriram Gael, querem vir aqui nos visitar! Meu Deus!

Gael pega a carta e lê:

“Querida irmã,

Que saudades! Minha nossa, mas que dificuldade em encontrar você hein? Como que você se casa, muda para São Paulo e não me manda nem uma carta para avisar? Ficamos preocupados, Delma e eu. Espero que não ache ruim, mas tivemos que contratar um detetive particular para encontrar vocês! E esse Gael? É um bom marido? E a Karina, como está? Deve estar moça, sem dúvida, assim como o minha Tom Tom! Enfim, estamos entrando de férias semana que vem e gostaríamos de ir te visitar! Não aceito desculpas, não precisa fazer cerimônia! Semana que vêm estaremos aí, talvez no sábado. Não precisa ir nos buscar no aeroporto, já sabemos o endereço e pegamos um táxi lá mesmo.

Saudades!

Marcelo.”

Gael deixa a carta cair no chão e passa as mãos no cabelo, um sinal de puro nervosismo.

—O que faremos Gael?_ Dandara insiste.

—Não sei... Ligue para o Nando.

Dandara corre para o telefone e liga para o amigo dos dois, Nando. Desde que chegaram em São Paulo, Nando foi como um irmão para eles. Era colega de trabalho do Gael e vivia indo à casa dos dois para visitar seus “sobrinhos”. Era o único que sabia da verdade.

—Ele disse que vem o mais rápido que puder._ Dandara se senta ao lado do marido novamente.

—MÃE! PAI! O JANTAR ESTÁ NA MESA!_chama Karina do andar de baixo.

—É VENENO!_ Pedro provoca, fazendo Gael e Dandara rirem por um breve momento.