Além
1 O Mago
Olá. Como você está? Gostaria de ouvir uma história? Muito bem, então. Ela começa numa noite chuvosa, na cidade mais ao leste, chamada Darai.
Eu estava todo encharcado, chovia muito forte, e, por sorte, acabara de achar um bar com dormitórios para passar a noite. Entrei, pendurei meu capuz escuro e, logo de cara, vi dois homens brigando. Obviamente, estavam bêbados.
Eu me sentei, pedi uma Arroxada, bebida típica do lugar. Muitos visitantes vêm para cá só para degustá-la. Não era minha prioridade, mas uma naquela hora caíra bem até.
Mas voltando á briga... Os dois, na realidade, ainda nem tinham começado a trocar e desferir golpes, ainda estavam apenas ofendendo um ao outro, ainda.
Comecei a coçar a barba e ver no que dava. Um deles era alto, quase uns dois metros e trinta e dois de altura, com uma grande pele de urso em suas costas, um colete de couro forrado, uma calça larga de pano e uma cara muito ameaçadora, era um bárbaro. Ele tinha uma monocelha escura e um cabelo negro espetado para frente. Do lugar onde eu estava já podia sentir o cheiro do álcool vindo dele. Já o outro, um paladino, tinha um tamanho de um homem comum, usava uma capa com um vermelho esvoaçante, e seu principal destaque era a bainha que carregava no lado esquerdo do cinto. Usava botas de couro, e, provavelmente, uma armadura por debaixo das vestes. Tinha os cabelos e os olhos castanhos. Eu me aproximei uns dois passos para ouvir um pouco mais de perto a discussão. E ela foi mais ou menos assim, se não me engano:
-Seu brutamonte fedido. É quase impossível de olhar para a sua direção sem que os olhos se encham de lágrimas. – Disse o da capa, cujo descrevi por último.
-Hahaha! Aposto que essas lágrimas são de medo! – Disse o maior – Você é um franguinho. Então por que não foge agora enquanto lhe restam chances?
-Como ousa? – Ele pareceu se sentir insultado – Jamais recuarei perante um covarde!
-O que disse? – Eles começaram a ficar nervosos. – Vou lhe mostrar uma coisa!
Então o grandão partiu para cima do outro, mas apenas usando as mãos nuas, ele o agarrou e o ergueu para o alto. Ele estava ficando sufocado. Se eu podia fazer algo? Mas é claro! Mas por que eu faria? Deixei acontecer!
O grandão começou a sorrir. Pelo menos até seu sorriso ser tirado do rosto. Seu adversário lhe deu uma joelhada no queixo, cujo bárbaro não esperava (apesar de ser um golpe óbvio, mas afinal, ele estava bêbado). Ele então soltou seu oponente, que caiu no chão recuperando o ar perdido, enquanto o outro ajustava a posição da cabeça após o deferimento. Então o paladino resolveu segurar na bainha, e foi retirando devagar o que residia nela. Uma espada de prata totalmente polida! Ela estava tão reluzente, que ao tirá-la da bainha, fez um som fino emitido pela lâmina que poderia ser música para os ouvidos de qualquer guerreiro destas terras. Mas o grandão não pareceu se preocupar com aquilo, já esperava por tal, acho.
— Agora é a minha vez! – Disse o paladino de capa.
— Não tem essa de “vez”! – Disse o maior
O que estava armado com a espada investiu contra o grandão, e o mesmo se esquivou dando um rasante para o seu lado direito. Ainda assim, a espada lhe fez um pequeno corte.
Mas ele voltou com tudo, ergueu a espada novamente e tentou outro ataque. Para a surpresa de todos (inclusive a minha!) o brutamonte segurou a espada entre suas duas mãos, a girou e a jogou para longe. Em seguida, para o contra-ataque, deu uma pisada no oponente e o jogou no chão.
-Desiste? – Disse
-Jamais – Ele então sacou um estilingue de seu cinto de utilidades, cuja continha vários bolsos, e de outro, uma bolinha de chumbo. Equipou o estilingue com a bola de chumbo e disparou de modo certeiro na testa do grandão, que cambaleou para trás.
Sua testa estava escorrendo muito sangue. Eu paguei minha bebida, me aproximei dele e lhe dei um pano e um pouco d’água.
O outro se levantou do chão (também dolorido) e se sentou do lado do homem que acabara de atingir. Os dois pediram uma bebida, bateram os copos, tim tim, mas quando estavam para beber eu os peguei.
— Acho que já foi suficiente por hoje... – Foi o que eu disse
Os dois me olharam estranho, mas eu não hesitei, não devolvi os copos de jeito nenhum.
Passou-se um tempo, os dois já estavam mais calmos, olharam um para o outro e o maior disse:
— Belo tiro! – E deu uma cotovelada no paladino. E o mesmo retrucou:
— Você até que é forte. – E embainhou a espada novamente.
Eu os olhei, e olhei, e olhei... E me decidi! Eu simplesmente havia visto honra neles, pois, mesmo inimigos numa batalha, ainda reconheciam o valor do outro (apesar de que as primeiras palavras e insultos foram pronunciados por duas pessoas totalmente bêbadas)!
— Vocês iriam comigo para uma aventura? – Eu perguntei, de repente.
Para a minha surpresa, os dois já estavam no milésimo sono.
Aluguei um quarto para mim, mas aproveitei para pegar os dois caídos no chão e babando, e os levei para cima.
Abri as cortinas, a luz entrou no quarto. Já estava de manhã. Chacoalhei o dorminhoco. Não acordou. Chacoalhei mais forte até ele cair no chão. “Ai!”, foi o primeiro som que ele emitiu no dia. Depois fui tentar acordar o maior. Ao empurrá-lo, ele apenas arrotou com um hálito horrível no meu rosto. Eu tossi um pouco, depois cerrei minhas sobrancelhas e fiquei zangado. Ergui o cajado e conjurei um pouco de eletricidade. Toquei o cajado com meu dedo indicador, e dele para o traseiro do preguiçoso, que deu um salto até o teto e bateu a cabeça. Foi engraçado, o outro também riu. Ele se levantou (óbvio, se não se levantasse eu já ficaria preocupado) e coçou a cabeça com uma mão e o traseiro com a outra. Olhou para mim e me dirigiu a palavra.
-Ei! O que pensa que está fazendo? – Rosnou.
-O que acha? Acordando-te! Seu javali preguiçoso! – Respondi duramente.
Em seguida o paladino me chamou.
-Então você é um mago? – Ele questionou, mesmo já tendo a resposta.
E era isso mesmo. Sou um mago, sempre fui (não digo sempre, não nasci vomitando bola de fogo se é o que vocês pensam).
Então descemos para tomarmos o desjejum. Peguei uns pães e passei manteiga (isso já bastava para mim). O grandão pegou umas torradas e passou muita, mas muita geleia. O outro pegou umas fatias de queijo e um suco de Maomu, uma fruta muito deliciosa que temos por estas terras. Todos nos sentamos e começamos a comer. O clima estava muito parado, então eu comecei.
-Então, até agora não me disseram seus nomes.
Eles continuaram comendo. Engoliram, e aí responderam.
-Por que deveríamos? – Disseram – Nos colocou no mesmo quarto que você e acha que não suspeitamos de nada? E ainda por cima é um mago.
Eu fiquei realmente bravo ao ouvir aquilo.
-Seus mal agradecidos! – Rugi – É pelo fato de acolhê-los que preciso ter isso em troca! Seus nomes, vamos!
Eles ficaram pensativos, mas abriram a boca por fim.
-O meu é Alfaghar, filho de Alfaghal, filho de Alfaghon. – Esse era o nome do paladino.
-E o meu é Bartholomero – respondeu o bárbaro -, filho de Bartholomega, filho de Bartholomora.
-Hmm... – Eu cocei minha barba, como de costume. – Fascinante! Gostei de vocês!
-O que quer dizer com isso? – Perguntou Alfaghar.
-Quero lhes fazer um convite! – Foi o que eu disse.
-Que tipo? – Questionara Bartholomero.
-Vamos terminar o desjejum, depois subimos, arrumamos nossas coisas e terminamos esta conversa. – Falei.
E assim foi feito. Chegando ao andar superior, aprontamos nossas bagagens, eu paguei o dono do bar e paramos do lado de fora. Eles cruzaram os braços, esperando explicações, é claro. E explicações eu vos dei.
-Então... – comecei – Quero convidá-los para me fazer companhia... Em uma aventura!
-E qual o objetivo? – Perguntou Bartholomero.
-Eu não sei ainda, mas descobriremos quando chegarmos lá. O que acham? – Propus.
-Você ao menos sabe em que direção iremos? O que enfrentaremos, e, acima de tudo, — Alfaghar estava curioso, eu percebia! – por que aceitaríamos?
-Eu sei por onde devemos ir, também sei que haverá oponentes perigosos, e, como você disse, não têm porque aceitar, é apenas uma proposta de um velho como eu, certo? – Eu estava confundindo eles. Era a única maneira, acho eu.
Eles pensaram bem, até que se decidiram, mas acho que vocês já sabem a resposta.
-Tudo bem. Estou dentro. – Alfaghar falou primeiro.
-Conte comigo! – Bartholomero sorriu com uma batida no seu peito estufado.
-Ótimo! Ótimo! – Eu fiquei bem feliz. – Neste caso, vamos indo! Para que esperar? Que emoção!
Eu bati meu cajado no chão de tão ansioso que até as pombas mais bem camufladas voaram apavoradas. Coitadas... Mas bem, os dois me seguiram fielmente para o norte. Estávamos deixando a cidade de Darai, até que ouvi os dois cochichando atrás de mim. Então Alfaghar falou comigo.
-Espere!
Eu parei.
-Não pode nos levar adiante... – Bartholomero tocou em meu ombro – Sem que nos diga seu nome primeiro!
Ora, era verdade! Enquanto estava contando esta história para vocês, até me esqueci desse pequeno detalhe!
-Hohoho! – Eu ri bastante – Mil perdões! Meu nome é Badwif! – Eis meu nome.
Eu achei engraçada a reação deles, até que eles começaram a gargalhar também. Enfim, continuamos a estrada.
-Onde estamos indo? – Perguntaram
-Para o norte. – Respondi
-Não ajuda muito. – Disse Bartholomero – Onde, exatamente?
-Por favor, me diga que não vai ficar falando a viagem toda. Mas que reclamão! – Eu berrei – Apenas continue andando!
Ele fez uma cara feia para mim, e quando eu me virei, sem que ele visse meu rosto, dei algumas risadas.
Em certo ponto da viagem, chegamos á uma taberna. Os dois estavam esfomeados, eu podia até ver seus estômagos roncando feito um velho com muito sono. Então decidimos entrar.
Lá dentro, havia anões sobre uma grande mesa de madeira redonda, avistamos aquilo logo que entramos. Penduramos nossos casacos e nos sentamos em alguns banquinhos de madeira que houvera lá. Ficamos observando o ambiente por um tempo. Nos arredores havia muitos quadros de vikings matando ogros, não sei por que, talvez o dono do lugar gostasse dessas decorações. Um fetiche bem estranho, eu diria.
Então voltamos o olhar para as grandes prateleiras atrás do balconista, que servia bebidas deliciosas. Observamos os drinks e todos nos decidimos. Eu peguei um Suor de Amigo, e não queira nem saber quais os ingredientes dele, só precisa saber que tem bom gosto. Alfaghar pediu um copo de Lágrima pastosa Azul, muito boa também. Quanto á Bartholomero, pediu um Quentume, uma bebida vermelha e extremamente quente, podia-se ver e sentir o vapor de longe.
-Vai mesmo aguentar beber isto? – Eu perguntei para ele.
-Mas é claro, por que não? Hum? – Ele levantou uma de suas sobrancelhas, depois apenas ignorou e bebeu.
Sua cabeça ficou laranja igual lava, e, no momento em que abriu sua boca, um grande vapor saiu para todos os lados. Mas ele não fez nem ao menos uma careta feia sobre a bebida, parecia estar engolindo tudo normalmente. Alfaghar ficou boquiaberto, e pra fingir que não viu nada, deu uma descontraída e bebeu sua Lágrima pastosa.
Eu então bebi também, dei umas goladas, aos poucos, e de vez em vez fui esvaziando o copo.
-Bem! – Bati o copo no balcão – Devemos ir?
-Ah! – Esperneou Bartholomero – Vamos ficar mais um pouco!
Eu olhei para Alfaghar, e ele deu uma mexida com a cabeça, dizendo que concorda com Bartholomero. Fazer o quê, ficamos.
Nos levantamos dos bancos e nos dirigimos mais ao centro, onde 4 anões muitos felizes dançavam (bêbados, mas felizes) , com o rosto todo vermelho por causa do álcool, e sapateavam rapidamente. Ás vezes nem éramos capazes de ver seus movimentos! Chegou até uma hora em que um subiu em cima do outro e começaram a bater palmas, pedindo para que o público que os assistia, incluindo eu, Bartholomero e Alfaghar, batêssemos palmas juntos. O lugar ficou agitado e o balconista aumentou o som, atraindo mais gente de fora para ver o que se passava lá dentro.
Que festança! Ficamos quase uma hora ali, com aqueles anões cheios de energia (que já haviam cochilado no momento) e vigor! De qualquer forma, já tínhamos passado tempo de mais lá, e não vou mentir, mas eu estava com pressa! Alfaghar e Bartholomero então concordaram, pagamos, pegamos nossas coisas e seguimos em frente.
Quando saímos da taberna, do lado de fora, já estava ocorrendo o pôr do sol, eu fiquei então um tanto quanto decepcionado, já queria estar lá na frente do caminho ainda com o céu claro, mas mesmo eu sendo um mago, não tinha um sequer feitiço que voltasse no tempo, mesmo que fosse por segundos.
Então metemos o pé na estrada (hum, que expressão mais moderna esta, não?).
Andamos bastante, bastante mesmo, mas tínhamos trazido suplementos da taberna, e não passamos fome em nenhum momento.
Chegamos a um ponto, onde, até onde aparentava, não podíamos passar. Havia uns quarenta guardas vigiando um muro de pedras, que bloqueava nosso caminho. Era do Departamento das Fronteiras, um esquadrão muito bem treinado, que dividiam as fronteiras e os distritos uns dos outros, e não se podia passar sem pagar uma passagem, que infelizmente não eram vendidas por eles, mas sim em revendedores das cidades que compõe cada área, fronteira ou distrito. E, como vocês já perceberam, não pegamos nenhuma passagem, senão eu os teria dito. Ficamos desesperados, “e agora?”, “como avançamos?”, eram nossos pensamentos do momento.
Eu era o organizador da viagem, logo, era meu problema cuidar daquilo, pelo menos era o que meus companheiros pensavam (eu fui acusado, sério!). Tive que pensar em algo, e, mesmo não gostando de burlar as regras, assim eu fiz. Ergui meu cajado e fiz que algumas nuvens parassem por cima de cada guarda e os seguisse caso se movessem. Encantei as nuvens para que soltassem trovões, mas, como vocês sabem (e espero que saibam, senão podem ir estudar!), trovões apenas causam altos estrondos, o que deixou os guardas muito assustados. Bartholomero e Alfaghar viram tudo, e pensaram que aquela era nossa brecha para sair correndo, quando eles dispararam em direção ao portão da grande parede (oh, como são tolos!)!
-Ei, seus idiotas! Aonde pensam que estão indo! – Eu gritei para aqueles dois de longe. – Voltem aqui já!
No início eles mal me ouviram, mas em seguida dei um grito tão alto que parecia até um dragão! Os dois se viraram e me viram fazendo um gesto para voltarem, e assim fizeram.
-O que foi? Vamos! – Disse Alfaghar
-Não seja ingênuo, filho de Alfaghal! – Eu disse rudemente – Há dezenas de bilhares de guardas na entrada principal! E minhas energias já estão se esvaindo, logo o feitiço desaparecerá! Sigam-me!
E eles me seguiram, fomos até a extremidade do canto esquerdo do muro (ou até onde desse tempo de ir antes que minha magia acabasse) e eu pedi á Bartholomero que removesse algumas pedras dali. Ele concordou com a cabeça. Alfaghar o ajudou, investiu a lâmina de sua espada e fez uma rachadura, em seguida Bartholomero colocou seus dedos ali e, com uma força que até eu nunca houvera visto antes, a rocha começou a se mover (mesmo cimentada a outras grandes rochas), suas veias começaram a aparecer, e em certos momentos me dava uma aflição, pois pareciam que elas iam saltar para fora! Ugh! Não queria nem me lembrar desta parte!
Ele enfim retirou a pedra atijolada e a jogou para trás, longe, bem quando minha magia terminou, o barulho chamou a atenção dos guardas e a maior parte deles (a maioria, ainda restavam alguns ali) foi em direção ao local de pouso da pedra.
Agora já tinha ficado mais fácil para Bartholomero, que foi puxando (não foi tão difícil quanto a primeira, mas ainda não era leve como minha descrição sugere ser) as outras pedras, as removendo uma por uma.
Até que ele ficou cansado, estava bufando, e eu pedi á Alfaghar que lhe desse uma garrafa d’água.
Quanto notamos, o muro era realmente alto (fomos meio estúpidos, pra falar a verdade...) então o que nos veio a mente foi usar as pedras que foram removidas, eram grandes, e pensamos em usá-las como escadas. Então esperamos Bartholomero se recuperar, mas não esperamos muito, pois o barulho da primeira pedra deixou a guarda suspeita, e logo mais estariam voltando. Quando Bartholomero fez um sinal de “estou bem” com o polegar, ele encheu o peito, estalou os dedos e foi colocando uma pedra em cima da outra, de maneira que a menor viesse primeiro e fosse aumentando, deixando um espaço na ponta para ficarmos de pé em cima delas e avançássemos para a próxima. Estava feito, uma espécie de escada de rochas, e fomos subindo, como combinado. Bartholomero era o mais pesado e subiu por último, eu e Alfaghar lhe estendemos a mão para ele subir.
Logo nos deparamos em cima do muro, e, como já estávamos imaginando, havia guardas na parte de cima também. Eles estenderam seus arcos com flechas flamejantes e dispararam na nossa direção, claro. Eu bati meu cajado no chão e uma esfera sonora nos cercou por pouco menos de um segundo, mas eu a invoquei no momento em que as flechas estavam próximas, fazendo-as se apagarem e caírem no chão. Os guardas ficaram até impressionados (mas sério, será que nunca viram um mago na vida? Que pessoal mais mal treinado!). Então resolveram mudar de tática, guardaram os arcos e desembainharam suas espadas, que nada se comparava a de Alfaghar, que também desembainhara a sua. Ele correu em direção aos três primeiros que vinha na sua frente, com um único movimento do braço direito, cortou seus peitos protegidos por um metal vagabundo. Sangue se esvaiu e veio até mim um cheiro de sangue no ar! Quando me virei, Bartholomero já esmagara um guarda com o pé direito, enquanto estrangulava outro com a mão esquerda, e, após soltar os corpos no chão, deu um chute pesado com a perna esquerda no outro guarda que vinha e o impacto o jogou contra outros dois que vinham atrás, que caíram do muro e, como se espera, morreram lá embaixo. Enquanto os dois batalhavam, eu encontrei uma porta camuflada no chão (nem tão camuflada, havia uma maçaneta! Sério, que gente burra!), me agachei no meio a luta e a puxei, ela fez um crec crec bem desconfortável para os meus ouvidos, e se abriu lentamente. Uma escada espiral se revelou com tochas acesas nas paredes. Bartholomero tinha acabado de quebrar as costas e o pescoço de mais alguns, e se dirigiu a mim.
-É por aí que vamos? – Me perguntou
-Sim, isso mesmo. – Respondi.
Olhei para o outro lado e Alfaghar acabara de cortar a cabeça de um guarda, e a mesma saiu rolando no chão até parar na minha bota, que melou com um pouco de sangue. Alfaghar limpou a lâmina prateada na roupa do homem sem cabeça e ela ficou brilhante de novo. Ele a embainhou e todos descemos pelas escadas. Enquanto descíamos, a porta acima se fechou, o que não me impressiona, já que provavelmente ou estavam com medo de nós, ou queriam nos prender aqui mesmo. E definitivamente, era a segunda opção, pois o que realmente me impressionou foi que, durante a descida, as paredes da escada em espiral começaram a chegar mais perto, estávamos sendo esmagados! Começamos a correr o máximo que podíamos degraus abaixo. As tochas não se apagaram, e começamos a sentir muito calor, estávamos suando muito, começamos a descer mais rápido ainda, nos preocupando em não sermos esmagados e não tropeçar nos degraus para quebrar a cara no chão. Como eu estava na frente, Bartholomero atrás e Alfaghar por último, obviamente Alfaghar era o que mais estava apavorado. Então Bartholomero me pegou e me carregou no ombro, Alfaghar, totalmente em pânico, deu um salto de um dos lados do cilindro que nos encontrávamos e parou do outro lado, indo na frente agora. Os degraus estavam sumindo conforme a parede ia chegando mais perto, até que eu me soltei de Bartholomero e, ainda cansado das duas magias usadas anteriormente, me esforcei uma vez mais e fiz os degraus se tornarem uma descida de gelo. Tropeçamos propositalmente e começamos a escorregar. Por sorte Bartholomero estava por último na fila, pois pelo seu peso, onde passava escorregando o gelo se trincava, mas eu e Alfaghar tínhamos de pegar velocidade com as mãos, pois Bartholomero era pesado e estava nos alcançando.
Mas vocês nem imaginam, o pior aconteceu. Assim como pesado, Bartholomero também era largo, e a parede que chegava cada vez mais perto o relou primeiro. Ele perdeu o equilíbrio e deslizou para o lado no gelo, saindo da pista e quase (disse quase!) caindo, quando eu peguei seu braço com minha mão esquerda, mas acreditem, mais dois minutos segurando ele, e eu iria acabar lhe soltando, pois vou lhes dizer, ele era muito pesado! Já estava começando a sentir uma câimbra. Não dava mais, eu realmente o soltei, mas lembrem-se, não estávamos em dois, mas sim em três! Isso mesmo, Alfaghar, quem arremessou sua espada numa extremidade do gelo e ela enfincou ali mesmo, paradinha. Bartholomero bateu o pé na espada, e deu um impulso tremendo, retornando a pista (finalmente uma vantagem em ser tão pesado!)! Alfaghar chegou ao lugar onde a espada estava presa e a arrancou enquanto continuava escorregando. Porém mais um problema vinha aí. Como lhes disse antes, Bartholomero era pesado e deixava rachaduras no gelo, e já que agora estava escorregando na frente dificultou para mim e para Alfaghar. Quantos devaneios ao mesmo tempo!
A parede ainda estava lá, se movendo na tentativa de nos esmagar, e já estava muito próxima. Não dava mais, a parede estava bem do lado de mim e de Alfaghar, e ainda com o gelo se quebrando (ou melhor, se quebrou!). Isso mesmo, o gelou quebrou de vez e a parede só piorou, fomos empurrados e começamos a cair. A última coisa que vimos foi Bartholomero ainda escorrendo e gritando em vão nossos nomes. A última coisa que senti foi minha nuca batendo em uma planície rochosa e bem dura, e imagino que Alfaghar sentiu isso também.
Relaxe, não caímos mortos, senão, como espera que esteja lhe dizendo todas estas coisas? Você vai achar até engraçado, mas quando o gelo quebrou, já estávamos perto do chão, no final da escadaria, e Bartholomero nos contou isso quando acordamos com um saco de gelo na cabeça.
-Logo quando vocês sumiram da minha vista, eu só escorreguei mais um pouco e a pista já havia chegado ao fim. – Contava ele – Mas as paredes ainda não haviam terminado de se mover, então peguei vocês dois, e havia uma porta de madeira na frente, ela estava trancada, e eu podia ouvir uns dois ou três guardas rindo de nós do outro lado. Eu então chutei a porta, que caiu encima de um deles e o matou. Peguei os outros dois e os joguei lá dentro, morrendo esmagados. Haha!
Ás vezes eu até agradecia por ele ser um aliado! Era um pouco assustador! Mas essa não era a maior dúvida de Alfaghar e minha, e sim onde estávamos, já que cria que Bartholomero não escapara sozinho. Mas ele nos deu uma explicação.
-Não escapamos – disse ele – logo que terminei com aqueles guardinhas, entrei num depósito que havia mais a esquerda, onde há uma grande porta de metal, como vocês podem ver.
E podíamos ver mesmo, uma grande porta de metal atrás dele, que falava conosco.
-Você a trancou, não é? – Perguntou Alfaghar.
-É claro! – Disse ele, com um tom revoltado, já que o modo que Alfaghar perguntava soava como se ele fosse um burro.
-Ah, vai saber! – Retrucou Alfaghar
-Parem vocês dois! – Eu disse – Vamos continuar, precisamos sair daqui!
Antes de sairmos, percebemos alguns alimentos dentro do depósito, como frutas, vegetais, etc. Pegamos o podia e abrimos aporta, preparados, bem lentamente.
A porta estava aberta, e vários guardas nos aguardavam do outro lado. Felizmente eu já estava me sentindo bem melhor, então analisei a situação. Era um corredor revestido de pedras, onde, do nosso ponto de vista, tinha uma abertura a direita, onde provavelmente foi o lugar de onde Bartholomero nos tirou, e onde não desejávamos jamais voltar, e mais para frente o corredor ia fazendo duas curvas, uma para direita, e outra para esquerda. Então, eu me virei aos dois e lhes disse o seguinte:
-Lá na frente, estão vendo? Eu irei pela direita e vocês dois pela esquerda! Algum de nós terá de sair!
-Mas e se não for você? – Perguntaram preocupados.
-Eu vou sair, agora vão! Rápido!
Eles concordaram com a ideia, apesar de que no momento onde nos encontrávamos a situação não nos permitia pensar muito!
Bartholomero já começou surrando os guardas menores na frente, que mal houve tempo para revidar. Alfaghar veio atrás e decepou os membros de outros guardas mais a esquerda, enquanto eu fiz meu cajado pegar fogo e incendiar os mais para direita. Assim fomos fazendo nos guardas mais á frente até que finalmente nos separamos entre as duas curvas.
Na direita, por aonde eu ia, escutava o barulho de cortes e ossos quebrados, e vários e vários gritos e gemidos de guardas. Mas eu tinha que me concentrar também, então alternei minha mágica. O fogo se foi, e no lugar dele meu cajado começou a criar vigas e cipós, que começaram a estrangular os guardas que chegavam perto de mim num raio de cinco passos. Cheguei ao final do percurso, e me deparei com uma porta de madeira, entrei nela, e, lá dentro, havia um elixir negro, que só de vê-lo e senti-lo, eu senti um calafrio. Fiquei apavorado, meu coração foi parar na minha garganta! Lembro-me daquele dia, foi inesquecível! Jamais sairá da minha cabeça.
Logo mais guardas chegaram atrás de mim, porém, quando viram o que eu vi, seus cabelos ficaram claros e suas peles enrugadas, ficaram com muito mais pavor do que eu, e por fim caíram no chão, inconscientes. O que só significava que eles não sabiam que aquela coisa maligna residia aqui. O que era bem estranho, não acha? Há mais de cem destes muros que dividem as áreas destas terras, mas por que uma energia tão malvada estava aqui? Não chegou a hora de eu lhes responder isso ainda, então paciência.
Voltando ao enredo, eu estava pasmo, quando pisquei três vezes, senti algo me sugando e então aquilo desapareceu. Eu caí de joelhos, me apoiando no cajado, respirei fundo, expirei, respirei, expirei, e continuei neste ciclo. Eu estava suando bastante, o frio na barriga ainda não tinha passado, mas me levantei, e havia uma abertura na parede com umas grades de ferro no meu lado esquerdo, e dele, vi duas figuras pulando de várias vitrines, fazendo um chamativo plim e, quando observei bem quem poderia ser, era Bartholomero e Alfaghar, saltando para fora do alto muro de pedras contra uma horda de guardas que os seguia. Eu fiquei assustado, achando que eles iam cair e se machucar todos, ou até mesmo morrer! Mas não era pra ser, me aproximei mais da grade e vi que eles, felizmente, haviam caído numa área diagonal da parede do muro, e assim escorregaram até caírem (não ilesos) no chão macio da grama no outro lado. Para aliviar meu medo recente, dei uma risada abafada. Que dois sortudos, aqueles são, sim!
Logo me virei, e vi uma escada do outro lado da sala (apesar do trauma de escadas que eu tive momentos atrás) e desci por ela, lá embaixo, havia três guardas de lanças e um maior, servindo de barreira. Sem tempo para eles, bati o cajado no chão e transformei a área quadrada do lugar num imã, que fez as lanças se prenderem na parede, no teto e no chão. Mas até que eles foram inteligentes, antes das armaduras serem atraídas, eles as tiraram, mas logo se mostraram covardes por estarem desarmados e correram. Porém o maior ainda estava lá, e nem precisou tirar sua armadura, pois era pesado. Eu estava prestes a lançar uma magia nele, mas nem precisei, da porta detrás saiu um punho, que logo se revelou um braço, e o mesmo braço agarrou o guarda grandão pelo pescoço e o puxou para trás, despedaçando a porta. Do outro lado vi Bartholomero, lutando com alguém do seu tamanho. Alfaghar verificou se eu estava lá dentro, e eu saí, deixando a luz do sol me tocar por inteiro. Alfaghar ficou feliz em me ver, e quando olhamos Bartholomero, ele já tinha finalizado seu adversário. Finalmente, todos do lado de fora, ouvimos botas de aço bater do lado de dentro em nossa direção. Corremos para o caminho que devíamos ter percorrido antes mesmo de entrarmos nesta enrascada, e talvez ter ido direto pelo portão da frente não tivesse sido má ideia! (O que estou dizendo? Se fosse diferente talvez estivéssemos todos mortos agora!).
Continuamos correndo até que ficássemos cansados. Pegamos uma maçã (esqueci de mencionar, que também existe este tipo de furta mais conhecido) cada um, mordemos com muita vontade e continuamos a viagem para ver o que havia mais adiante!
Estávamos realmente exaustos da correria, da pressão e dos reflexos da fuga, então andamos um pouco e resolvemos descansar logo em seguida. Mas o que mais me pesava a consciência era o fato de que o fizemos era contra a lei. Mas, era necessário, acreditem ou não. Vamos ser sensatos, o que você faria no nosso lugar? Todo aquele desespero e pavor naquelas escadas não fariam bem para ninguém, sabe!
Alfaghar e Bartholomero foram cochilar primeiro, enquanto eu havia me oferecido para fazer o primeiro turno de vigia. Oh, como aquele Bartholomero roncava! Quando chegou o turno de Alfaghar, eu mesmo não consegui dormir com todo aquele ronc ronc do meu lado. Até hoje me lembro daqueles zunidos na minha cabeça! Quando o turno do roncador chegou, eu finalmente consegui dormir, assim como Alfaghar também conseguiu.
Quando a noite chegou (naquele dia resolvemos trocar o céu claro pelo escuro, estávamos muito cansados, como já lhes disse) todos nos preparamos para continuar a viagem, pegamos nossas bagagens e suplementos e fomos adiante, até um lugar chamado de Cemitério de Caninos, um lugar que mesmo tendo um nome tão pavoroso, não era tanto assim. Muitos coveiros trabalhavam lá e ganhavam um bom dinheiro por enterrar de cachorros de estimação até os maiores lobos albinos e selvagens. Era necessário passar por lá para chegarmos ao nosso próximo objetivo, que logo mais lhes direi qual é.
Quando chegamos, havia apenas um único coveiro enterrando um lobo de pelo azulado e barriga clara, com duas presas saindo da boca. Eu o cumprimentei primeiro, e em seguida fizeram Bartholomero e Alfaghar. Ele disse chamar se chamar Pardo, tinha um bigode cinza e, mesmo usando um boné de início, logo vi seu cabelo grisalho, que na verdade só cobria suas laterais, com uma parte da cabeça careca. Eu realmente achei sua pá curiosa, ela era, de relance, uma pá como outra qualquer, mas eu reparei que o cabo não estava perfeitamente encaixado na pá, e mais trade lhe direi o motivo.
De qualquer forma, ele nos convidou para entrar na sua barraca (cada coveiro precisava levar uma barraca e sua própria pá para ir trabalhar), lá dentro nos ofereceu um chá (que por sinal estava delicioso) e alguns marshmellows, que eu recusei, mas meus companheiros não. Eu lhe disse que estávamos com pressa, ele compreendeu e nos deu alguns saquinhos de chá e cafés instantâneos, além de um pouco de saquê. Mas havia algo muito peculiar nele.
Ainda no cemitério, já distante de onde Pardo estava, vimos algo totalmente inesperado: cadáveres de vários coveiros jogados no chão. O motivo? Isto se descobriu logo em seguida, detrás de alguns túmulos, saíram lobos ferozes rosnando para nós. Alfaghar já desembainhou sua espada e Bartholomero começou a estalar os dedos. Eu também me preparei para lutar.
Seis lobos nos cercavam, como se estivessem analisando as presas, já que, afinal, éramos um velho barbudo com uma roupa mais velha ainda, um brutamonte cheirando a álcool e um homem com uma espada extremamente cortante e com uma armadura muito resistente, que os lobos perceberam que seus dentes não perfurariam tão facilmente. Éramos o jantar deles, bem variado por sinal. Desculpem-me, mas acho que dei a impressão de que viraríamos jantar mesmo. Mas é claro que não foi isso o que aconteceu. Os lobos então pararam de andar em torno de nós, em círculos perfeitamente sincronizados. Então, começaram a cheirar profundamente, lamberam os beiços e, finalmente, resolveram atacar. O primeiro pulou para cima de mim, ignorando os outros.
-Sou a presa menos deliciosa aqui, isto te garanto! – Disse para ele, sem esperar resposta.
Lancei uma bola de fogo direto no focinho dele, ele fez um som de choro (pelo menos é isso o que parecia) e pulou para trás, depois rosnou zangado e, parecendo não ter aprendido a lição, pulou para cima de mim de novo. Mas! Só parecia não ter aprendido, pois no momento em que eu lançara uma segunda bola de fogo, ele a desmanchou com suas garras completamente revestidas e resistentes, e, com a outra pata, desferiu um golpe sucessivo no lado esquerdo do meu rosto, deixando dois cortes profundos de suas garras. “Ah!”, foi minha reação, estava doendo, é claro. Para revidar, segurei meu cajado pelo lado oposto e o nocauteei bem no olho esquerdo, ele chiou, mas eu não lhe dei uma brecha para atacar novamente, usei dois segundos do meu tempo enquanto ele se recuperava da dor, e lancei uma bola de fogo ainda maior, fazendo sua cabeça inteiro ser tostada. Ele caiu morto.
Olhei para os meus amigos (acho que nesse ponto da narração já posso considerá-los assim. De qualquer forma, é isso que seremos até o final desta história) e Bartholomero acabara e quebrar a mandíbula de um deles, enquanto já havia outro com os membros tortos no chão. Do outro lado, Alfaghar estava com dificuldades, um deles estava avançando repetida e rapidamente contra ele, e ele apenas se defendia com sua espada, mas o lobo era esperto! Apenas a abocanhava e tentava empurrá-la contra seu próprio dono. Eu pensei em ajudar, mas Alfaghar já estava farto daquilo e, antes que o lobo retornasse para outra investida, ele retirou uma de suas bolinhas de chumbo (que ele usara lá no começo, se lembram?) e fez o lobo engolir. Ele engasgou e Alfaghar não precisou fazer mais nada, ele já estava morrendo ali mesmo. Então ouvi uma voz gritando:
-Alfaghar, cuidado! – Me virei e vi que era Bartholomero, depois me virei novamente e um filhote de lobo traiçoeiro (que eu não tinha visto antes) pular pelas costas de Alfaghar, o mordeu e ainda arrancou um pedaço de sua capa. Alfaghar logo se soltou, se virou para o filhotinho e, sem misericórdia, lhe seu um forte pontapé. Enquanto voava pelo ar, o lobinho foi perfurado por uma bola de chumbo jogada pelo estilingue de Alfaghar. E não se enganem, mesmo sendo um filhote, se ficasse sobre duas pernas já daria a altura de um homem, só para vocês terem uma ideia de que não são lobos normais. Dois lobos ainda faltavam, Alfaghar felizmente viu o próximo chegando e o decapitou rapidamente com sua espada. Ouvi um grito. Bartholomero fora mordido, com raiva, pegou o lobo pelo pescoço e o estrangulou. Acho que não preciso dizer que a morte aguardava este último lobo.
Para poupar o trabalho dos coveiros, fiz um movimento cilíndrico com o cajado, o que resultou numa ventania que arrastou os corpos para os túmulos. Limpamos a bagunça, depois ficamos uns dez minutos verificando se mais nenhum lobo se escondia por ali, a quantidade de mortos já era grande, envolvendo coveiros mortos pelos lobos, e os lobos mortos por nós. Tudo feito, continuamos em frente até sairmos do Cemitério.
Como disse que lhes contaria, nosso próximo objetivo era um lugar bem conhecido, mas pouco visitado, se localizava mais a leste dali, a Floresta Vermelha.
Após sairmos do Cemitério de Caninos, chegamos numa fazenda, lá paramos e pedimos um pouco de leite em troca de trabalho. Os fazendeiros donos de lá nos pediram para que, se tirássemos leite de suas vacas, poderíamos pegar parte. Fizemos isto, e levamos uns três potes cheios conosco, porém, antes de partirmos, pegamos emprestados alguns cavalos, que devolveríamos antes de entrarmos na Floresta Vermelha, eles foram bem simpáticos conosco, apesar da má impressão ao ver Bartholomero, que realmente tinha uma aparência ameaçadora, afinal, ele é um bárbaro, oras! Pegamos os cavalos e partimos.
A viagem se tornou bem mais rápida e prática com o auxílio dos cavalos, e eles corriam muito rápido. A cavalgada não pareceu durar muito ao chegarmos à entrada da floresta quanto seria se fôssemos a pé. Descemos dos cavalos e, inteligentes, já sabiam o caminho de volta para sua casa. Então os mandamos para o lar, enquanto adentrávamos a grande Floresta Vermelha, deixando a luz do sol pouco funcional para nós, restando só à sombra diante de nossas cabeças.
Finalmente, entramos. Aqui estávamos pisando no solo da Floresta Vermelha!
Começamos a caminhar, acabaram de entrar e logo meus dois companheiros de viagem já estavam querendo sair. Íamos com passos muito largos com o intuito de sair de lá o mais rápido possível. Ah, uma curiosidade interessante sobre a Floresta Vermelha é que, não preciso nem dizer que tudo nela é vermelha! Mas digo tudo vermelho mesmo! A grama,, a terra, os troncos, as folhas das árvores, as frutas, tudo, tudo em um tom avermelhado! Fascinante, não?
-Ouvi dizer que este lugar é perigoso! – Comentou Alfaghar, enquanto andávamos.
-E vai ouvir de novo, de mim! Porque realmente é muito perigoso! – Eu respondi
-Há boatos que têm ursinhos fofinhos, e totalmente inocentes aqui! – Disse Bartholomero
Eu e Alfaghar o olhamos com uma cara estranha, “como assim?” descrevia melhor nossa careta.
-Bom, isso de fato lhe afirmo que continua sendo boatos. – Falei – A propósito, onde ouviu sobre eles?
-Na verdade eu li... – Ele dizia – num livro infantil. Mas sei lá, deve ser verdade a parte dos ursos-
-Só que de um jeito bem menos infantil, né? – Interrompeu Alfaghar
-É... – Bartholomero se sentiu envergonhado.
Depois ficamos quietos por um bom e longo tempo, e não sabíamos o que pensar direito. Não sabíamos se estávamos esperando um ataque surpresa, ver a saída, encontrar água (mesmo com os potes de leite, que Bartholomero já tomara um inteiro. E sozinho! Não sei se sabem, mas bárbaros adoram leite,) ou até mesmo confirmar sobre os ursinhos, para deixar de ser boato.
Se passaram mais de duas horas e lá estávamos nós, ainda andando e cada vez mais imaginando onde estaria o fim daquela floresta. Até que...
Alguns arbustos bem altos apareceram no caminho, checamos se havia espinhos ou animais perigosos e felizmente, nada do gênero. Então entramos neles e começamos a afastá-los para abrir caminho para o de trás e ver o que vinha pela frente.
Os arbustos tinham acabado, e chegamos do outro lado, e para nossa completa surpresa, uma fonte apareceu. Uma água cristalina caía numa poça e era de dar uma sede! Chegamos mais perto e, sem muita surpresa, vemos que a água era vermelha. Os dois se recusaram a beber no início, e já estavam para desperdiçar mais leite, mas eu os impedi e, como obviamente o mais sábio dali, lhes assegurei que aquilo ainda era água, como a nossa, porém vermelha, devido ao lugar onde estava, a Floresta Vermelha. Os dois hesitaram no começo, mas depois resolveram experimentar. A água estava uma delícia! Sinceramente, não me lembrava de ter bebido água melhor. Ás vezes, ao olhar para água, dava a impressão de ser sangue, mas era só ignorar.
Antes de continuarmos, pegamos o primeiro pote de leite que fora esvaziado por Bartholomero e o enchemos de água. Molhamos o rosto e bebemos mais um pouco mais uma vez, e daí partimos.
Refrescados, tínhamos retomado um pouco do nosso ânimo. Ficamos mais atentos do que minutos atrás e, valeu a pena, e já saberão porquê.
Quando a noite veio, as fendas que o sol ainda conseguia iluminar se foram, então resolvemos que estava perto da hora de ir dormir. Achamos umas rochas confortantes (não confortantes como um travesseiro, afinal, eram rochas...). Colocamos um lenço dobrado por sobre elas, a bagagem foi despejada no chão ao nosso lado e os suplementos entre nossos braços, para evitar sermos extorquidos durante a noite, fechamos os olhos e dormimos, exceto por Bartholomero, cujo foi o último a fazer no turno na noite passada, e agora era sua vez de começar, depois Alfaghar, e por fim, eu.
Durante a noite, abri os olhos, já não era mais Alfaghar ao meu lado, e sim Bartholomero. Alfaghar estava de pé, no seu turno de vigia, mas eu não quis incomodá-lo. Fiquei olhando para o céu, e, de relance, reparei que, visto de onde estávamos a luz era vermelha. Sim, do ponto de vista da Floresta Vermelha, a luz estava escarlate como se houvessem derramado sangue nela, ou como um tomate. Eu dei uma gargalhada bem baixinha, achando tudo aquilo peculiar, e que, o fato de já estar a tal ponto da aventura (não quis dizer no final) me agradava um tanto quanto pensei que agradaria. Depois fechei os olhos de novo e dormi, mas não muito, logo me senti chacoalharem, e já era hora do meu turno. Alfaghar foi dormir, e eu me sentei numa rocha, prestando atenção em qualquer movimento, já que era meu trabalho ali.
Estava de manhã, eu estava babando sobre meu cajado (nem eu acreditara que havia desmaiado de sono!) Bartholomero me acordou e ele e Alfaghar me deram uma bronca, que eu merecia.
Assim como de noite a lua brilhava avermelhada, o sol não mais era amarelo, e sim escarlate e, mesmo não sendo, dava uma impressão de causar bem mais calor, e suávamos bem mais com isso em mente. O cansaço vinha mais rápido, mas não havia porque reclamar, já estávamos com as energias restauradas após uma noite de sono.
Durante uma parte da caminhada, começamos a pisar em poças da água, imaginando que haveria outra fonte mais á frente. Até que, a vimos, outra fonte. Andamos velozes até lá querendo molhar nosso rosto e encher dois dos três potes que haviam acabado antes de chegarmos lá. Quando nos aproximamos e fomos colocar as mãos na água, a fonte desapareceu!
-Mas... sumiu! – Disse Bartholomero
-Uma miragem... – Falou Alfaghar, decepcionado
-Isso mesmo – confirmei – fomos enganados por nossas próprias cabeças, pensando haver água aqui.
Todos ficamos ainda mais tristes, mas nada podíamos fazer a respeito, então continuamos andando, como deveríamos.
Não tínhamos noção da hora dentro daquela floresta, mas podíamos deduzir que já não era mais de manhã, o sol estava em uma posição mais distante desde a última vez que observávamos ele.
Caminhamos mais ainda, até que árvores com frutas começaram a aparecer, sendo que as nossas já acabara há dias (sim, só lhes descrevi uma única noite, mas já estávamos lá faz dias, talvez semanas!). Pegamos as frutas (Maomus vermelhas, uvas vermelhas, bananas vermelhas e até mesmo laranjas vermelhas!) e lhe demos uma primeira mordida com muito vigor. “Hum, isto está delicioso!”, foi nosso pensamento. Pegamos muitas, até encher nossas mochilas ou até acabar das árvores. Então seguimos adiante, apenas um pouco mais satisfeito.
Ainda na floresta, algo nos chamou a atenção durante a caminhada, havia duas sementes enormes (por enormes digo de tamanho anormal, como uma semente não deveria ter) no chão. Eu peguei meu cajado e, curioso, cutuquei uma delas, a da esquerda. Nada aconteceu, então resolvi a da direita. Sem resposta. Demos a volta nelas e continuamos, ignorando. Porém! Um “hey!” foi pronunciado pelas minhas costas. Todos nos viramos.
-Você nos cutucou? – Disse uma criaturinha muito esquisita. Como descrevê-la? Era cabeçuda, tinha um rosto parecido com o de uma pessoa, porém com um papo enorme. Era careca, e era meio gorda embaixo do corpo (apesar de seu corpo não ser nada largo). Tinha pernas muito fininhas, porém não parecia se desequilibrar, ou melhor, pareciam! Pois, havia duas sementes, duas daquelas! Sua barriga parecia à de uma joaninha, toda listrada, e suas costas eram as sementes que estavam no chão.
Agora tudo estava resolvido, aquelas sementes era uma espécie que residia na floresta.
-Nossa! – Espantou-se Alfaghar
-O que é isso? – Disse Bartholomero
-Não sejam rudes! – Gritei – Olá, pequenos, de que espécie vocês são?
-Somos Sementes Escarlates! – Respondeu um deles – Meu nome é Ruth, e esse é meu irmão Kuth!
-Hey!! – Disse Kuth
-Ho ho! – Eu os achei divertidos – Impressionante! Meu nome é Badwif, eu sou um mago!
-Ohhhh! – Expressaram – Um mago! Que legal! Mas por que nos cutucou?!
Haviam mudado para um tom mais bravo.
-Ah, aquilo? Sinto muito! Foi sem querer. Perdoam-me? – Eu disse
-Hum... – Eles batiam o pé no chão, com a mão no queixo e uma sobrancelha em pé – Ta legal! Tudo bem, mago Badwif, mas nos leve com você!
-O quê? Ho ho ho – Eu arregalei meus olhos com o que acabava de ouvir – Eu não sei se posso fazer isso! É perigoso!
-Mas, Badwif! – Interrompeu Alfaghar
-Agora não! – Interrompi de volta
-Eles podem saber a saída mais fácil! – Retrucou Bartholomero
-Vocês dois! Aproveitadores! – Fechei um dos meus olhos e os olhei zangado com o outro.
-Mas vocês já estão indo pelo mais fácil! – Disse um deles
-Viu só? – Perguntei retoricamente
-Porém há um mais curto! – Disse Ruth (ou era Kuth? Sempre me confundo, só conseguia diferenciá-los pois Ruth havia apenas o dente esquerdo, e Kuth havia ambos).
-Porém mais difícil, imagino! – Eu disse em resposta
-E qual seria? – Perguntou Bartholomero
-Não contamos!
-Ah! Por que não? – Intrometeu Alfaghar
-Só se nos levarem!
-Espertinhos! – Eu disse – Muito bem, então! Para onde fica o tal caminho mais curto?
-Têm certeza de que querem ir? – Perguntou Kuth – O caminho atual é mais seguro!
Eu olhei para os dois, mas eles já estavam decididos.
-Mas é claro que sim! – Disse Alfaghar.
-Com certeza! – Completou Bartholomero.
-Então vamos! – Finalizei nossa decisão.
-Então sigam-nos! – Disseram Kuth e Ruth.
Eles pularam para dentro das árvores, e fomos atrás deles. Andamos um pouco em uma área apertada, mas logo saímos dali e entramos em outra trilha, um pouco mais estreita e torta que a anterior, já que, imagino eu, era muito pouco usada. Continuamos andando.
A trilha que andávamos nunca mantinha um só caminho, sempre fazia curvas estranhas e esquisitas e depois de um tempo não sabíamos mais onde estávamos indo e se este era de fato o caminho certo. Bartholomero e Alfaghar mostravam uma cara de desconfianças, eu não queria pensar como eles, mas havia uma probabilidade das duas Sementes Escarlates estarem nos enganando. Mas não tínhamos mais noção de tempo e lugar, a Floresta Vermelha estava nos deixando paranoicos, e caso decidíssemos não segui-los mais, poderíamos (e provavelmente iríamos) nos perder. A única opção que nos restavam era continuar, porém com mais atenção.
Então começamos a perceber que o tamanho das árvores diminuíra após um longo tempo de caminhada, o sol havia se posto, e estávamos nos aprontando para dormir.
Kuth e Ruth foram até gentis, se ofereceram para fazer o turno de vigia primeiro, mas eu percebi meus companheiros cochichando e, após Bartholomero dar uma cotovelada no braço de Alfaghar, o mesmo negou a oferta dos pequenos e ele mesmo fez a vigia primeiro.
Logo depois veio Bartholomero e depois eu (por insistência dele) , depois Ruth e por último, Kuth.
A noite foi até tranquila, nada do que temíamos acontecera. Os dois não eram traidores.
Comemos as frutas e tomamos os últimos goles da última garrafa de leite. Estávamos sem refresco. Agora era hora de terminar a caminhada. Isso mesmo, terminá-la.
Não aguentávamos mais, a floresta estava nos cansando. Nossas pernas já estavam bambas e nossas bocas muito, muito secas. Não nos importávamos com mais nada a não ser a luz do sol, a brisa do vento e cores que não fossem vermelho diante de nossos olhos. Nossos corpos estavam fracos e completamente sem energia alguma. Porém, Kuth e Ruth estavam totalmente a disposição, dando passos largos e rápidos, e nos incentivando a continuar.
Até que, parecia ser mentira, outra miragem, mas desta vez não era, finalmente chegou o momento de vermos um clarão bem á frente, por mais que pequenos graças á distância, mas podíamos vê-lo. Uma abertura, a saída!
-Finalmente! – Esperneou Bartholomero
-Achei que nunca sairíamos daqui! – Comemorou Alfaghar também.
-Estamos agradecidos, meus pequenos amiguinhos – eu disse à Kuth e Ruth, com um sorriso.
-Oh, sim, sim! – Deram em resposta
Aceleramos o passo, com uma ansiedade sem igual. Pouco distante da saída, inimigos surgiram! Eram nativos da floresta, e, ao que pareciam, já estavam nos seguindo há muito tempo, talvez logo depois que entramos no lugar, lugar deles, território deles.
-Vocês têm de nos deixar passar! – Eu disse gritando
Sem resposta. Os nativos, sem camisa e apenas com uma veste de pano na cintura, equipados com lanças feitas de madeira e osso, e várias marcas tribais pelo corpo. Um silêncio se fez durante um tempo ali, ninguém se movera, Alfaghar estava com as mãos na bainha e as duas Sementes, somente apavoradas.
De repente eles soltaram um grito forte e arremessaram as lanças na nossa direção, Alfaghar desembainhou sua espada e se defendeu, enquanto eu me aproximei de Bartholomero e criei um escudo do vento que vinha da saída afora que tanto desejávamos. Rapidamente, após as lanças caírem no chão, Bartholomero socou meu escudo e o quebrou, em seguida dando um salto e se agarrando numa árvore. Escalou até o galho mais próximo e começou a jogar os nativos de lá de cima. Todos caíam numa queda tremenda e, sem dúvidas, morrendo ao chegarem no chão.
Alfaghar também agiu, sacou seu estilingue e, errando algumas, mas acertando a maioria de suas esferas de chumbo nos nativos, que, sem proteção alguma, já morriam antes mesmo de relarem no chão. Kuth e Ruth se esconderam atrás de mim até tudo acabar. Os nativos não foram um grande problema e, logo já estavam todos mortos e caso houvesse algum vivo, definitivamente não iria se levantar.
Já estávamos exaustos, e, depois disso, quase caímos no chão. Eu não poderia usar outra magia de maneira alguma. Alfaghar embainhou sua espada novamente, e de acordo com ele suas bolas de chumbo estavam no fim. Esperamos Bartholomero descer das árvores, o que não demorou muito, e terminamos, por fim, o percurso da Floresta Vermelha.
Não acho que tenho uma forma de descrever para vocês o que foi sentir, como posso dizer, o mundo novamente. Não estávamos mais isolados, e até mesmo Kuth e Ruth nunca tiveram saído para o lado de fora. Os dois começaram a puxar minha roupa, e eu lhes dei atenção.
-O que foi? – Eu perguntei
-Você vai nos mostrar o há adiante, não é? – Eles perguntaram com os olhos decididos
-Hahahaha Ha! – Dei uma gargalhada velha e principalmente roca, já eu estava desidratado, com fome e sede – Mas é claro que sim! Vocês desejam ver o que tem pela frente, certo? Que assim seja!
Eles pareciam felizes com a resposta, então pularam na minha mão, subiram pelo meu braço e pararam nos meus ombros.
-Ei, ei! Vocês não podem ficar aí! – Disse – São muito pesados!
-Hey! Isso foi indelicado! – Disseram em troca – Mas tudo bem!
Os dois começaram a brilhar, com um vermelho-escarlate muito forte, até começarem a se encolher e ficaram do tamanho de duas sementes comuns.
-Oh! Isto é incrível! Fascinante! – Pedi para que Bartholomero os guardasse. Ele concordou, e eu os coloquei dentro de sua pochete.
-Certo! Finalmente saímos, vencemos a Floresta Vermelha! – Alfaghar disse todo orgulhoso. Daí então se dirigiu a mim – E agora, Badwif?
-Nosso próximo destino é a Lagoa de Madeira! – Respondi
-Nunca cruzei esta Floresta antes, para mim isto soa bem, quero ver até onde vamos. – Disse Bartholomero
-O mesmo vale para mim! – Falou Alfaghar
-Vou ser sinceros com vocês, que não desistiram de mim até aqui, mas eu só fui até aquele lugar uma única vez, há muito tempo atrás, e as coisas provavelmente mudaram! Não posso lhes garantir a vida daqui para frente! – Eu declarei que a aventura continuava com o mesmo pavor que passamos na floresta atrás de nós.
-Nossa vida nunca fora garantida, Badwif – disseram – E não vamos desistir agora! Este é um novo solo para nós, e garantimos, não é mais vermelho!
De fato, apontamos nossos olhares para o céu, e lá estava ele, azulado com seu companheiro Sol, amarelado e escaldante.
-Feito! – Falei – Pois me sigam, fiéis companheiros... E amigos!
Queríamos nos distanciar quanto mais da floresta possível! E não queríamos retornar tão cedo! Andamos mais um pouco (mesmo aparente e emocionalmente sem energias para tal) passamos por campos verdes e um delicioso vento por todo nosso corpo. Até que, por fim, encontramos um rancho, onde hospedava alguns viajantes. Nós encontramos primeiramente um lugar para sentar, depois alugamos um quarto para ficarmos. Três camas e, com a desculpa de que tínhamos um cão e um bebê, um berço e uma cama para animais domésticos onde Kuth e Ruth passariam a noite (apesar de discutirem quem dormiria em qual).
-Calados! Apenas deitem-se! – Eu, Alfaghar e Bartholomero gritamos, tentando sossegá-los.
E funcionou, os dois acabaram dormindo onde um não queria e o outro também.
De manhã, tivemos um bom desjejum incluso e eu, particularmente, comi mais do que qualquer outra vez na minha vida. Saímos de lá satisfeitos e com sete galões de leite, porque, não tínhamos a intenção de encontrar outra “Floresta Vermelha” no caminho. A aventura continuava, sem previsão para um fim! Afinal, agora deveríamos chegar até a Lagoa de Madeira, um lugar distante da onde estávamos naquele dia, e precisávamos chegar logo! Quem sabe se não tivéssemos seguido Ruth e Kuth? Talvez ainda estivéssemos andando por lá... Ou então, mortos.
Havíamos andado bastante desde que saímos da Floresta Vermelha, mas mesmo assim a sensação era bem melhor, afinal, estávamos fora de lá, o que já vale muito.
Kuth e Ruth nos acompanharam até o fim, e pareciam tão felizes e ao mesmo tempo confusos com o mundo, com outras cores, e acho que esta aventura era mais importante para eles do que para mim e meus dois amigos.
Como havia dito, tínhamos andado muito até que chegamos num lugar nublado, e havia neblina por todos os lados, nossa visão não estava muito funcional, nem mesmo para Kuth e Ruth, que eram muito atentos. Chegou um momento que percebemos que aquilo não era um fenômeno natural, alguém provavelmente armara aquilo para nós. Eu levantei meu cajado e numa distância de nove passos a neblina não chegava mais perto de nós, a ponta do meu cajado se iluminava fortemente.
-Magia... – Suspirei
-O quê? – Perguntaram, dando a atenção direta para mim.
-Alguém, muito provavelmente um mago, usou esta magia e causou essa neblina, com a intenção de que ela cruzasse nosso caminho.
-O quê? Como? – Perguntou Alfaghar
-Para expulsar uma neblina comum, causada pelo clima, simplesmente precisaríamos de um vento forte, mas esta neblina é um cinzenta e só se repele com luz, provavelmente feitiçaria negra. – Expliquei
-E qual o problema? O que essa neblina causa? – Perguntou Bartholomero, preocupado
-Se ficássemos muito tempo nela, provavelmente nossa pele começaria a cair, até ficarmos apenas osso.
-Como você sabe?
-Pois isso é Neblina Cinzenta, ela despedaça qualquer ser ou objeto que se move, e, sendo sincero, minha luz não vai durar para sempre.
-O que fazemos quanto a isso? – Perguntou Alfaghar, entrando em pânico como Bartholomero e as Sementes.
-Apenas... Corram! Corram! – Gritei
Isso fizemos, começamos a correr como loucos, como filhotes de lobos dentro de uma guerra sangrenta. Não sabíamos que direção corríamos, não estávamos sendo afetados, mas logo seríamos. Parece exagero, mas ficamos em média uma hora inteiras correndo, e a neblina não parecia sumir.
-O que está havendo, Badwif? – Perguntaram assustados – Por que não acaba?
Eu fiquei em silêncio.
-Badwif!! – Gritaram comigo
-Eu não sei! – Rugi de volta – Mas talvez...
-Talvez o quê?
-É isso, só pode ser!
-Fale!
-Há um mago por perto, um poderoso, pelo jeito, que ainda está fazendo a neblina, por isso ela não tem fim, por isso ela não desaparece!
-E onde ele está?
-Se eu soubesse, eu diria, seus tolos!!
Então eu comecei a girar meu cajado numa posição espiral e o joguei para o alto, enquanto corria. O peguei na minha mão e o bati fortemente no chão. Um clarão iluminou tudo ao nosso redor e eu vi um cavalo alto, albino e de olhos vermelhos, com uma carroça atrás, e uma pessoa de mangas longas e com um capuz na cabeça, vestido de roxo, e com um cajado branco e fino na mão. Logo a luz se reduziu e eu fui na sua direção. É claro que ele havia notado que minha presença se aproximava, então, ainda dentro da neblina, ouvimos galopes de cavalo.
-Você... – Eu disse
Corremos ainda mais rápido.
Bartholomero me agarrou, me girou três vezes e me arremessou para o alto e além. Eu me vi jogado no ar, me aproximando da carroça.
Do alto, apontei meu cajado para ela.
-Não vai...
Com mais uma magia, fiz o solo do campo terroso se levantar alguns passos à frente do cavalo. O mesmo tombou e a carroça se despedaçou na batida. Eu me aproximava do chão, e já podia ver o mago inimigo saindo da carroça, com a perna machucada e todo sujo, com o capuz rasgado, tentando fugir. Dirigi o peso do meu corpo para a direção da qual ele ia.
Com o lado oposto do meu cajado, fui retardando minha queda, até a palma das minhas mãos e meus dedos começarem a se rasgar. Sangue começava a enfeitar o céu, eu gritava de dor.
Entretanto, sucessivamente caí, com apenas um rápido choque nas minhas pernas, de frente ao meu alvo, e completei, bufando.
-Você... Cof cof... Não vai... – Ele se aproveitou do meu cansaço e tentou me lançar uma magia, porém corri em sua direção e com a ponta do meu cajado, o joguei para trás. – FUGIR!!!
Ele tentou fazer exatamente isso, começou a correr, como um carneiro covarde, mas eu o impedi, criando, com minhas últimas forças, um tsunami enorme (sério, ele era gigante mesmo, quase devorou o campus inteiro) que começou a engolir as árvores mais próximas do lugar. Bartholomero, Alfaghar, Kuth e Ruth se aproximavam, pareciam impressionados com meu poder (não quero me gabar, mas é o que a expressão deles demonstrava) na verdade, acho que estavam assustados também. Eu cuspia sangue durante o uso da minha magia. O mago resolveu olhar para a minha cara. Ele tinha cabelos brancos que desciam até os ombros, várias rugas e uma monocelha roxa.
-Quem... É... Você?! – Eu perguntava com dificuldades.
-Um mensageiro. – Ele respondeu
-De quem?
-Dos pombos!
Logo ele jogou uma bola de fogo em minha direção, mas foi em vão. O tsunami fez a bola imediatamente se esvair logo que foi conjurada.
-O que isso quer dizer? – Perguntei novamente
-Você não precisa saber, não é? – Ele respondeu friamente – Continue com sua aventuri-
Ele foi interrompido... Por uma lâmina de espada. Alfaghar o havia atravessado.
Eu já estava fraco, larguei meu cajado e caí inconsciente no chão.
Meus amigos me contaram que Bartholomero me carregou até um lugar bem longe dali, onde fui medicado até acordar.
Me lembro de que, depois de acordar, estava encima de um cavalo, com Ruth encima de Kuth, cavalgando o cavalo. Me levantei e assumi o controle. Perguntei para onde estávamos indo e Alfaghar respondeu que já estávamos na estrada para a Lagoa de Madeira. Eu fiquei mais aliviado, mas mesmo assim não entendia o que significava as palavras daquele mago, e compartilhei esse pensamento com meus companheiros.
-Acho que esses tais “pombos” devem ser uma organização, ou sei lá. – Opinou Bartholomero
-Pode ser um grupo de pessoas que estejam lhe caçando, Badwif. – Acrescentou Alfaghar
-São muitas hipóteses, de fato – Eu cocei minha barba – Bem, esperemos respostas durante a viagem. Agora, em diante, a Lagoa de Madeira está próxima, imagino. Não é?
-É sim – disse Kuth, pegando um mapa – As pessoas que te curaram nos deram isso, Badwif.
-Oh, obrigado, Kuth. – Eu agradeci.
Sei que vocês estão muito ansiosos por respostas, mas agora não é a hora, em breve vos contarei sobre tudo.
Depois de alguns dias de cavalgada, com suprimentos suficientes, o caminho começou a ficar úmido. Passagens molhadas e algumas poças fundas que evitamos os cavalos de pisarem, e, finalmente, lá estava, a Lagoa de Madeira.
Havia um arco de madeira, já gasto e pouco quebrado, escrito com tintas, porém bem secas e quase sumindo:
LAGOA DE MADEIRA, NÃO ENTRE, CAMINHO SEGURO AO LESTE.
Algo assim, e realmente no mapa, não havia a Lagoa, apenas um desvio que dava á volta nela, e, é claro, meus aliados me questionaram.
-Badwif, por que não dar a volta? – Perguntou Alfaghar – Por acaso é masoquista? Porque eu não vou entrar nessa.
-Isso mesmo, por que entrar aí? O que procura? – Disse Bartholomero
-Me seguiram até aqui, não foi? Estão duvidando de mim? Este é o caminho, estou dizendo. – Insisti
-Te salvamos, Badwif, nos deve essa.
-Sim, sim! E é por isso que vos agradeço muito, e também é por esse mesmo motivo que sei que posso confiar em vocês. Além do mais, cuidei de seus traseiros bem mais do que vocês cuidaram do meu. – Depois dei uma risada abafada.
Eles riram junto, e resolveram não questionar mais.
-Certo, Badwif, sem mais perguntas, vamos entrar, então.
-Acho que, na verdade, lhes devo esta. – Disse – O motivo é que, eu optaria, definitivamente, pelo desvio, mas aí sairíamos do caminho certo.
-E que caminho seria este? – Perguntaram
-O que aconteceu com o ‘sem mais perguntas’? Hahaha! Mas certo, certo. Dentro da Lagoa, há um alçapão no chão, uma entrada de pedra pesada, e Bartholomero seria ótimo pro trabalho. De lá, continuaremos nossa jornada.
-Tudo bem, me parece justificável. – Disse Alfaghar – Então... Vamos?
Eu e ele olhamos para Bartholomero, que concordou.
-E vocês dois? – Perguntei para Kuth e Ruth
Os dois pareciam apavorados, mas responderam o seguinte:
-Estamos com um pouco de medo... M-Mas, aceitamos. – Gaguejava Ruth – V-Vamos com vocês.
Então Kuth deu um sorriso, e Ruth (com seu único dente) deu outro em seguida.
-Certo, então. Todos iremos. – Declarei
Fizemos os cavalos irem adiante, mas eles se recusaram, então tivemos que descer e ir a pé. Mandamos os cavalos de volta e atravessamos o arco de madeira. Logo nossas botas estavam encharcadas e a água que pisávamos parecia pastosa. Tartarugas boiavam mortas e muitos caranguejos se escondiam em buracos na pouca areia que tinha.
-Tá legal, já entendi a parte da lagoa, mas e a madeira? – Perguntou Bartholomero
-Acho que é por isto... – Apontou Alfaghar
Pedaços de madeira começaram a aparecer boiando na imensa Lagoa, e não se enganem, o ambiente era escuro ali. O dia parecia o início da noite, com um céu um pouco azul, mas mais puxado para o escuro das noites.
A areia molhada do solo da lagoa tinha sumido, e não sabíamos no estávamos pisando, e nem queríamos descobrir.
Chegou um momento em que uma placa apareceu, apontando para uma canoa ao lado e dizendo “Esta é a única madeira amigável que encontrarão. Pegue-a, ou não terão outra chance”.
-Só pode ser uma armadilha. – Disse Alfaghar
-Acho que não – Falei – A placa parece legítima, assim como a entrada da Lagoa. A pessoa parece ter vindo até aqui, colocado a placa e daí vêm duas opções, ou seguiu em frente e morreu, ou deixou avisado que esta é nossa única ajuda para o que vem a frente e retornou. Gosto de acreditar que não é uma ameaça. Vamos, subam.
-É... Vão vocês primeiro. – Disse Bartholomero, o mais pesado.
Nós concordados e subimos, ele nos ajudou empurrando a canoa, e, antes que pudesse subir, algo o pegou pela perna e o puxou para o fundo da Lagoa.
-Bartholomero! – Gritamos. Eu estendi meu cajado e o senti pegá-lo.
Alfaghar agarrou minhas costas e o puxamos para dentro da canoa. A canoa balançou e vimos um braço deformado de madeira abrindo o punho e voltando para a água.
Bartholomero estava todo molhado e resfriado.
-Que água “bria” – Ele quis dizer fria, só estou reproduzindo sua voz de resfriado.
-Daqui para frente, não temos mais volta. – Eu disse, agora atento com o que estava vindo.
Ouvimos um grito grosso e agressivo, vindo muito mais a frente de onde estávamos. Começamos a ouvir um barulho de madeira velha se mexendo e percebemos a mesma coisa se deslocando das extremidades da Lagoa em nossa direção.
Alfaghar desembainhou a espada e sacou o estilingue, Kuth e Ruth se encolheram na canoa e Bartholomero se levantou, serrando os punhos.
Eu olhei para os lados, e os vários membros, como braços, pernas, e outros objetos pontiagudos se aproximavam de nós. Eu ascendi meu cajado com fogo. Minhas energias estavam cheias, e a deles também. Eu disse aos dois:
-Preparem-se...
Outro rugido veio de longe, agora ainda mais zangado e furioso.
A história continua.
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