Always on my mind
3 Indiferença
Notas iniciais
Indiferença é o que vai dizer se a pessoa é humana ou não. Um ser indiferente não é tirado do sério, mas por quê ? A resposta chega a ser ridícula de tão simples; Ele não se importa com nada. Indiferença é como pimenta, você põe uma pequena quantidade em alguns lugares. Se por demais, as pessoas ao seu redor não vão querer provar da sua comida, entende ? A indiferença é o maior castigo que você pode impor a outra pessoa, porque ela fere nosso ego. Parece confuso agora, porém, depois que você pega o jeito consegue entender melhor. E qual o motivo de eu ter introduzido dessa forma ? Sempre utilizei essa arma para não me envolver com outras pessoas, se elas sentiam frieza, logo se afastavam. Antes, fazia sentido afastar as pessoas de mim, mas agora é diferente. Tudo é diferente.
As semanas se passaram e eu estava me acostumando com a ideia de ter o Prescott no meu pé. Fizemos um acordo, ele não iria me seguir no colégio, mas podíamos nos encontrar depois da aula pra conversar. Foi incrível também como a memória do Ethan progrediu. Conseguiu se lembrar da família, da namorada e dos melhores amigos de infância. Não é que eu esteja com ciúmes, mas não gosto de vê-lo com Elisabeth, só que não o impeço já que ele parece estar começando a ter sentimentos recíprocos. Ainda não deixei de virar assunto no colégio, e algumas pessoas passaram a querer me bajular.
— Hey ! — Ethan disse surgindo do nada no corredor.
— Brotou de onde ? — Perguntei fechando a porta do meu armário.
— Engraçadinha. — Fez uma risada forçada e depois voltou com seu tom de animação. — Hoje vai ser o dia em que eu vou voltar a treinar no time. Vai lá pra torcer por mim.
— Sua namorada é líder de torcida sabia ? — Caçoei.
— Para com seus ciúmes e vai, por favor. Será depois desse último tempo, te vejo lá. — Ele bagunçou meus cabelos e continuou andando, cumprimentando todos que passavam pelo corredor.
Revirei os olhos o observando caminhar, percebi que um sorriso involuntário havia se formado no meu rosto. O desmanchei e voltei minha atenção para frente. Brooke Hunter estava vindo em minha direção correndo. Seus cabelos ruivos na altura dos ombros balançavam pra lá e pra cá. Tudo o que sei é que ela é a melhor amiga de infância do Ethan e toca violoncelo — muito bem por sinal -. Fiquei a observando parar ofegante e ajeitar a roupa.
— Oi eu sou a Brooke, e você Marlee não é? Muito prazer. — Exibiu seus dentes perfeitos e me puxou para um abraço.
— Ethan nos fala tanto de você que acabei ficando curiosa pra te conhecer. — Mesmo depois de ter parado, sua fala continuava cansada.
— Nem quero imaginar o que ele diz. — Dei um sorriso fechado e fui andando até o refeitório, sendo acompanhada por Brooke.
— Você não quer almoçar com a gente? — Ela perguntou apontando para uma mesa com algumas pessoas.
— Não quero incomod... — Antes de continuar fui interrompida. Brooke ignorou minhas palavras e me arrastou até a mesa.
— Conheçam Marlee Armstrong, em carne e osso. — Brooke disse em um tom brincalhão. — Essa é a Amélia Carter, mas só a chamamos de Amy. — Apontou para uma menina de cabelos castanhos com californianas, que acenou.
— Tyler Smith, meu namorado.
— Seja bem-vinda Marlee. — Ele disse com a boca cheia de salgadinhos fazendo todos da mesa gargalharem.
— Eu sou Rose Meyer. — Disse uma loira baixinha com óculos redondos, combinava bastante com seu estilo meio alternativo.
— Graças a Deus alguém que me apresentou a Armstrong. — Disse um moreno alto que levantou e pegou minha mão para beijar. — Muito prazer sou...
— Chris Harper ! — Brooke disse o fuzilando com o olhar. Foi mais uma chamada de atenção do que uma apresentação.
— Você sempre foi a crush dele. — Disse outro menino ruivo que estava com a cara enfiada em um livro até agora.
— E esse é meu irmão, Charlie Hunter.
Todos eles pareciam muito legais, e falavam tantas coisas que não se importavam se eu preferia ficar quieta — o que amei -. Pela primeira vez em anos, não me senti desconfortável em um grupo de pessoas. Na verdade, eu já sabia um pouco sobre cada um, mas não sabia que eram tão legais assim. Brooke conseguia ser muito extrovertida, eu nunca iria imaginar que aquela garota séria tocando violoncelo fosse assim. Amy estava mais aérea que um avião, pois terminou um relacionamento agora. Quando souberam disso, todos os garotos se mobilizaram para conseguir o máximo de atenção dela. Amy faz parte das líderes de torcida, mas é a única menina não superficial que existe ali. Tyler era de longe o mais engraçado, ficou fazendo palhaçadas o almoço inteiro e conseguiu me arrancar boas risadas. Ele é conhecido por ser o palhaço do colégio, sempre caçoando dos professores a aprontando pegadinhas. Rose sempre andou com eles, mas a única coisa que sei sobre é que ela é uma verdadeira cinéfila e tem um blog de resenhas famoso. Chris apesar de passar uma primeira impressão atrevida, não é nada daquilo. Ele normalmente acompanha Tyler nas brincadeiras e tá sempre dando festas, mas quando está perto de um relacionamento sério sai correndo. Pra finalizar, sobre Charlie só sei que ele é irmão gêmeo da Brooke e um ótimo nadador, já que sempre trás medalhas pro colégio.
— Por que o Ethan parou de falar com vocês antes ? — Perguntei o que tanto queria saber.
— Você não sabe ? — Perguntou Amy parecendo despertar.
— Não, ela entrou no primeiro ano. — Chris acrescentou.
— Quando estávamos no ensino fundamental, Ethan era nosso melhor amigo. Vivíamos saindo, frequentando a casa um dos outros e fazendo essas coisas que amigos fazem. — Começou Brooke.
— É, até ele virar um babaca. — Charlie disse ainda com os olhos pregados no misterioso livro.
— Quando chegamos no ensino médio, ele passou a andar com a galera da Thompson e nos largou. — Disse Brooke um pouco chateada.
— Nos largou ? Ele foi um completo imbecil. — Rose disse incrédula. — Sério, se ele fizer aquilo tudo de novo vou chutar o saco dele tão forte que...
— Vai crescer primeiro Meyer. — Disse Chris dedilhando o óculos de Rose, a deixando furiosa.
— Acho que vou redirecionar essa ameaça, Harper!
— Continuando. — Brooke pigarreou. — Eu não sei, pode parecer egoísta, mas fico feliz que ele tenha perdido a memória. Qual é, ele tem uma outra chance de ser uma boa pessoa.
— Devemos aplaudir nossa compaixão. — Tyler disse batendo as caixinhas de suco, como se elas estivessem aplaudindo.
— Fala sério, se alguém deve ser aplaudida aqui esse alguém é a Marlee. — Disse Amy prendendo os cabelos em um coque.
— Eu ? — Perguntei juntando as sobrancelhas.
— Depois do que o Ethan fez no primeiro ano contigo, e você continuar ajudando... — Continuou Amy balançando a cabeça positivamente.
— Não quero lembrar disso. — Eu disse com um sorriso sem graça.
Balancei a cabeça tentando livrar meus pensamentos. Eu estava pronta para seguir meu caminho para casa, já que um silêncio constrangedor se instalou na mesa. Me lembrei do treino no qual havia "prometido" ir. Brooke e Amy disseram que também iriam. Atravessamos o colégio até a quadra, todos nos olhavam surpresos por me ver socializando com alguém. Na verdade, até eu estava surpresa. Já tenho meu tempo em casa, o que custa conversar um pouco? Sentamos em uma bancada afastada, que nos dava uma boa visão da quadra. Amy se despediu indo em direção às líderes. Os meninos já estavam em campo, e foi bem difícil achar Ethan no meio deles. Rolei meus olhos por toda a quadra e pude ver ele conversando com o treinador, que parecia o incentivar ao máximo. A quadra estava lotada, todos queriam ver o primeiro treino da estrela Prescott.
Brooke e eu ficamos na expectativa, mas ele pareceu não nos notar nas arquibancadas. Devo confessar, Ethan estava indo muito mal. Perdia todos os passes, caía o tempo todo e não respeitavas regras do jogo. Lisa berrava no canto da quadra, mais dando bronca do que o incentivando. Era nítido em seu rosto que ele estava apenas nervoso, e isso era muito compreensível. Eu já estava agoniada de vê-lo receber tantos olhares de reprovação, precisava fazer algo a respeito. Me levantei e fui correndo até a ponta do campo, todas pessoas — menos os jogadores presentes — pararam para prestar atenção em mim. Ignorei os "holofotes" e limpei a garganta.
— Ethan! — Gritei alto o suficiente para que ele virasse para me olhar. — Você sabe o que fazer, tá tudo aqui. — Apontei para o meu coração.
Sei que parece uma forma bem tosca de incentivá-lo, mas foi o único meio que encontrei. Ele olhou para baixo e quando ergueu o rosto estava sorrindo. Sabe a metáfora idiota ? Funcionou. Ethan tomou posse da bola e conseguiu driblar todos os jogadores que o impediam até o gol. A plateia foi a loucura. Era o oficial Ethan Prescott havia se lembrado como domar uma bola em um campo. Ele olhou pra mim com um ar de vitória no rosto, sorri e levantei o polegar em aprovação. Quando voltei para o meu lugar, Brooke estava boquiaberta.
— Marlee, isso foi incrível. — Seus olhos verdes estavam deslumbrados.
— Não acredito que tive coragem de fazer isso. — Sorri ainda com meus olhos pregados no jogo.
O time de Ethan ganhou de 3x2. O resto do time o ergueu gritando à plenos pulmões "The captain is back". Eu estava prestes a ir parabenizá-lo, mas quando nossos olhares se encontraram, Lisa pulou em cima dele. Recuei com um passo para trás quando a observei praticamente comer a boca de Ethan. Amy nos encontrou na saída, dizendo que se sentiu em High School Musical quando me viu no campo. Chris surgiu do nada com dedões de espuma e um apito.
— Hey, as três. — Ele chamou passando seus braços pelos ombros de Brooke e Amy. — Vou fazer uma festa lá em casa pra comemorar a volta do Ethan, e vocês vão ir.
— Ah, eu não sei... — Disse desanimada.
— Marlee! Não me faça ir te buscar na sua casa. — Após concluir sua ameaça Chris saiu convidando o resto das pessoas que via passar.
— Ah, Rose me mandou mensagem dizendo que é para irmos nos arrumar na casa dela. — Disse Brooke mexendo no seu celular. — Que droga, meu carro ainda não voltou.
— A gente pode ir de ônibus. — Sugeriu Amy não muito animada.
— Se vocês não se importarem, podemos ir em um fusquinha super charmoso. — Eu disse sorrindo amarelo.
— Até se você dissesse que iriamos de camelo eu aceitaria! — Disse Brooke animada.
Apresentei o azulão pra elas, e eu estava esperando caras de desaprovação e uma troca de olhares esquisita, mas ao contrário recebi sorrisos e elogios como; "É realmente um fusquinha muito simpático". Fui sendo guiada, até que o carro morreu no final da rua de Rose e não queria andar por nada. Tentamos empurrar o azulão com todas nossas forças, mas é um pouco difícil se concentrar quando se está morrendo de rir.
— Melhor experiência com carros que já tive em toda a minha vida. — Brooke disse com as falas pausadas por suas risadas.
— Pelo menos somos bem fortonas, não acham ? — Eu disse exibindo meus "músculos".
— Marlee, você por aqui ?
Quando olhei pra trás meu coração quase saiu pela boca. Lembra do papo da indiferença? Eu deveria usá-la, mas com essa pessoa vai ser praticamente impossível.
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