Always at your side
28 P.S.: Eu sou uma grande fã
Notas iniciais
P.O.V. Castle
Acordo sentindo um cheiro bastante conhecido invadir o quarto: café. Abro os olhos para constatar que a pessoa que ocupava o outro lado da cama – ou talvez eu não deva dizer assim, já que estávamos praticamente grudados um ao outro –, não está mais aqui. Deixo um sorriso enorme se formar em meu rosto ao me lembrar da noite que tivemos, e, se eu não tivesse a certeza de que é ela quem está na cozinha agora mesmo, diria que foi um sonho. A lembrança dos seus toques, seus beijos, seu corpo, ela totalmente entregue, ainda tão presente em minha mente, me causa arrepios. Faz crescer dentro de mim aquela sensação de se estar prestes a sufocar por não suportar tantas emoções de uma vez só. Um anseio forte e físico, como uma falta de ar debaixo d’água. Ela é uma mulher fascinante e única. E, Deus, como eu queria poder mantê-la aqui! Como vou aguentar vê-la ir embora?
O barulho de algo quebrando vem lá de baixo, fazendo-me despertar de meus pensamentos. Balanço a cabeça ao imaginar o que ela pode estar aprontando. Levanto-me para ir ao banheiro, antes de colocar uma das minhas calças de pijama e ir até lá. A visão que tenho dela ajoelhada ao chão limpando alguma coisa, vestindo a camisa que eu estava usando ontem à noite e com o cabelo preso em um coque bagunçado, faz as palavras sumirem da minha mente por um instante. Como ela pode ser tão linda, mesmo fazendo uma coisa simples e doméstica como essa? Sinto meu coração acelerar, e um sorriso espontâneo se forma em meu rosto.
—Está tudo bem aí? – digo, dando os primeiros passos em sua direção.
Ela levanta o olhar, assustada, seu rosto ficando vermelho imediatamente.
—Ai meu Deus! Eu te acordei? – pergunta num tom de voz culpado, ao mesmo tempo em que fica de pé.
—Não, não você. O cheiro maravilhoso do café, sim. Eu estava me preparando para descer quando...
—Foi um acidente. – ela me interrompe, mexendo as mãos nervosamente. – Eu juro. Me desculpe, Castle, por favor. Eu estava distraída e...
—Ei, calma. – aproximo-me dela para dar uma olhada no que aconteceu. – Você quebrou uma xícara? – pergunto, vendo os cacos amontoados em um canto.
—Você está bravo ou... – ela diz, me encarando de um jeito que preciso me segurar para não rir.
—Kate, é só uma xícara. — faço uma pausa. — A não ser que seja a preferida da Alexis, nesse caso teremos uma conversa séria. – vejo seu olhar mudar de aliviado para preocupado numa fração de segundos.
—Ah, ótimo. Parabéns, Kate, por ser tão desastrada! – respira fundo, um pouco irritada. Dessa vez não consigo me segurar. – Do que você está rindo?
—Eu estava brincando. Não tem problema nenhum, pode ficar tranquila.
Vejo-a revirar os olhos, antes de me dar um tapa no braço.
—Não teve graça.
Aproveito para puxá-la para mais perto, beijando-a demoradamente.
—Bom dia. – faço uma pausa. – Eu acho. Ainda tenho a sensação de que é madrugada.
—Bem, talvez seja. Não passam das 5h. — ela responde, fazendo uma careta que a deixa ainda mais adorável, antes de continuar. – Me desculpe, eu realmente não queria ter te acordado.
—Não faz mal, desde que isso signifique que eu vou poder passar mais tempo com você, antes de ter que ir embora. – envolvo-a pela cintura, fazendo-a sorrir.
—Oh, então você vai adorar saber que ainda temos aproximadamente duas horas para... – ela deixa o olhar percorrer todo o meu rosto. – passar o tempo.
—Eu realmente adorei saber disso. – volto a beijá-la, dessa vez com um pouco mais de vontade, e quando nos afastamos, ela coloca os braços em volta do meu pescoço, puxando-me para um abraço bem apertado, eu diria. Entendo o gesto e absorvo as sensações desse simples, mas significante momento.
—Esse é um ótimo jeito de começar o dia. – ela diz, voltando a olhar em meus olhos. – E – completa. –, não me fazer ficar com raiva de você por ter me dado aquele susto por causa da xícara.
—Sendo assim, acho melhor eu continuar... — distribuo vários beijinhos pelo seu rosto e uma parte do pescoço, escutando sua risada gostosa ecoar pela casa.
—Bobo! – se desvencilha dos meus braços, voltando para o que estava fazendo antes.
—Apenas não estou a fim de ver você com raiva de mim. – brinco, e apoio os cotovelos na bancada apenas para observá-la. – Bela camisa essa que você está usando.
—Ah, isso, me desculpe. Eu não queria... Mas acordei assustada com o barulho do meu celular vindo da sala, e vesti a primeira coisa que vi pela frente.
—Ainda bem. – sorrio, e vejo-a cerrar os olhos, pegando o pano de prato mais próximo na tentativa de jogá-lo sobre mim. – Ouch. Essa foi por pouco.
—Na próxima prometo que não vai ser. – diz, tentando parecer séria, mas sua expressão facial diz totalmente o contrário.
—Então, alguém te ligou?
—Não, era só o meu despertador. Eu te disse que precisava acordar cedo hoje. – ela morde os lábios, como se estivesse pensando, e em seguida vai em direção à geladeira em busca de algo.
—Verdade. – respondo, perdendo-me no ato de observá-la. Vê-la se movendo livremente pela minha cozinha com uma peça de roupa que mal cobre até a metade das suas coxas é certamente um acontecimento para se guardar na memória. E saber que ela não está usando nada por baixo é ainda mais...
—Castle... Castle! – ela estala os dedos, fazendo-me piscar. – Terra chamando!
—Precisa da minha ajuda? – pergunto, sem saber se ela já tinha tentado chamar minha atenção outras vezes.
—Não, já está tudo pronto. Eu estava dizendo que preparei torradas e queijo para a gente, mas caso queira comer outra coisa, posso preparar. Fiquei meio perdida nessa cozinha, e sem muitas opções, mas agora você está aqui...
—Não, não, torradas e queijo soam ótimos. Aliás, você deveria ter me chamado antes, eu poderia ter te ajudado.
—Bobagem. Você já fez o maravilhoso jantar de ontem para nós. Encare isso como uma visão de mim, cozinhando para você. – e então completa de um jeito engraçado – Embora... bem, não seja nada disso.
—Posso usar a minha imaginação. – sorrio, e ajudo-a a levar as coisas para a mesa. Nos sentamos um de frente para o outro e, enquanto sirvo café para nós dois, volto a falar. – Posso te perguntar uma coisa?
—Está aí uma frase que sempre anuncia a chegada de um assunto sério. – apesar do pequeno sorriso que ela me lança, posso ver uma mudança no olhar.
—Não dessa vez. Pelo menos não a meu ver.
—Ok, pergunte. – ela leva a xícara aos lábios, sorvendo uma boa quantidade do líquido.
—Por que você decidiu ir tão cedo? Quero dizer, com certeza há outros voos à tarde, ou talvez à noite.
—Bem, há dois motivos. Um: porque o quanto antes eu chegar lá melhor vai ser para mim; preciso me acomodar, e tudo mais. – faço um movimento positivo com a cabeça, concordando com ela. – E dois: porque quando tomei a decisão nós dois não tínhamos conversado ainda e, resumindo, eu meio que só queria... sumir logo daqui.
—Entendo. De certa forma, a culpa é minha.
—Não, claro que não...
—Eu sinto muito. – a interrompo. – De verdade. Talvez se eu tivesse feito algo para conseguir conversar com você antes...
Ela segura uma das minhas mãos, apertando levemente.
—Nem pense em se culpar por isso. – diz quase num sussurro. – Tudo em que consigo pensar agora é no quanto eu gostaria de passar o resto do dia com você, mas nenhum de nós tinha como saber que terminaríamos assim. Quero dizer, quem iria imaginar?
Aperto a mão dela de volta.
—Você tem razão. Estou feliz por estarmos aqui agora. Por termos tido a oportunidade de compartilhar nossos sentimentos mais verdadeiros. Isso é o que importa no momento. — vejo seus olhos brilharem, enchendo-se de água. — O que foi?
—Nada. – ela sorri, e isso faz uma lágrima escorrer. – Só estou pensando no quanto eu tive sorte em ter te encontrado. Mesmo que eu esteja perdendo você aos poucos, a cada segundo que passa.
—Ei, você não está me perdendo. Ainda posso te ligar, mandar mensagens, emails, sedex, pombo-correio... – uso uma mão para limpar o seu rosto, e vejo seu sorriso aumentar consideravelmente, apesar de seus olhos estarem me dizendo que um pouco de tristeza ocupa o seu coração, por um motivo que eu não posso entender no momento. – Vou te irritar muito, senhorita Beckett.
—Claro que vai. – ela diz, tentando brincar. Bebe mais um pouco do café antes de mudar o assunto. – Então, agora que a história que nós dois criamos meio que "saiu dos planos", o que você pretende fazer?
—Publicá-la, é claro. Ficou ótima, não acha?
—Acho sim, só não pensei que iria mesmo ir em frente com ela. O que é ótimo, porque vou adorar ver nossas ideias ganhando vida a cada linha.
—Sim, eu também. Gina com certeza irá gostar, e os leitores mais ainda.
—Vou ganhar os meus créditos, Sr. Castle? – ela me lança um olhar ameaçador.
—Espere e verá, Sra. Beckett. – respondo misteriosamente, e continuo a falar sobre a publicação. – Além de termos criado um enredo envolvente e claro, misterioso, cada partezinha dele vai ter um pouco de nós dois, lembranças do que passamos juntos. Vai ser um livro especial, com certeza.
—Mas ninguém vai saber disso.
—Não, mas com toda certeza irei passar muito mais emoção pelas palavras. Isso, eles vão captar. E o mais importante, nós iremos saber o que tudo realmente significa.
—Obrigada. — é tudo o que ela diz, dando um sorriso significativo.
—Acho que sou eu quem deve agradecer aqui. E vamos relembrar que eu estava completamente certo quando disse que você daria uma ótima escritora aquele dia na biblioteca.
—Longe de mim ter duvidado das suas habilidades de percepção. – ela pisca um dos olhos, antes de colocar um último pedaço de torrada na boca, e beber o último gole de café. – Podemos subir? Eu preciso, você sabe, tomar um banho, trocar de roupa... se não for um problema, é claro.
—Problema nenhum. – respondo rapidamente. – Fique à vontade, eu só vou arrumar tudo isso aqui.
—Não mesmo. – ela se levanta, e estende a mão para mim, convidando-me a ficar de pé. – Isso pode esperar. Eu quero que você me acompanhe. – começa a passear com os dedos por toda a extensão do meu peito, causando-me arrepios. – E faça amor comigo uma última vez.
Posso ver a mudança no seu olhar, o castanho intenso predominando em meio à fina camada do verde quase inexistente devido à pupila dilatada. Uma onda eletrizante sendo transmitida para mim, deixando-me imerso em sensações. Levo a mão até o seu rosto, acariciando sua bochecha levemente, antes de puxá-la para mais perto, e depositar em seus lábios um beijo singelo que diz “isso é tudo o que eu mais quero”. Sinto seus dedos se entrelaçarem aos meus, ao mesmo tempo em que um pequeno sorriso se forma em seus lábios. Dessa vez, ela toma a iniciativa de me levar até o quarto, soltando a minha mão assim que atravessamos a porta. Ela caminha até a beirada da cama e, ainda de costas para mim, deixa a minha camisa deslizar pelos seus braços numa lentidão incrivelmente sexy. Balança a cabeça ligeiramente, desfazendo o coque para deixar seus fios castanhos caírem livremente pelos ombros, fornecendo a mim uma bela visão, e uma pontada imediata em minha virilha. Aproximo-me dela e, envolvendo-a pela cintura, distribuo vários beijos pelo seu ombro, pescoço, até mordiscar levemente a sua orelha. Posso escutar sua respiração pesada, o som de um quase gemido escapando pela sua boca. Ela se vira de frente para mim, sorrindo, tendo meu rosto entre as mãos. Deixa o polegar passear pela minha bochecha até parar em meus lábios, como se quisesse gravar cada detalhe, antes de avançar contra eles num beijo calmo, porém cheio de desejo. Aprofundamos o contato, explorando a boca um do outro, instigando, movendo-nos em perfeita sincronia. Segurando-a firmemente, deito-a na cama com cuidado, e sinto sua mão ir em direção à minha calça novamente, até chegar ao lugar desejado. Ela sorri contra os meus lábios ao perceber que essa é a única peça que estou vestindo, e começa a se livrar dela. Ajudo-a a fazer isso e, uma vez livre, começo a explorar todo o seu corpo, deixando beijos pelo seu pescoço, colo, até alcançar um de seus seios. Deixo a minha língua contornar o seu mamilo, provocando-a, antes de começar a chupá-lo. Escutando os gemidos que saem da sua boca, faço o meu caminho de beijos pela sua barriga, antes de voltar para o outro seio. Minha mão vai descendo pela lateral do seu corpo, contornando o seu bumbum e o interior da coxa, até chegar em seu centro. Posso sentir a umidade tomando conta, e o calor, quando começo a massagear o seu clitóris.
—Castle... – ela diz num sussurro, e eu mordo o seu mamilo levemente, fazendo-a gemer um pouco mais alto. Sorrio e, voltando a deixar nossos olhares à mesma altura, começo a beijar o seu queixo, até ir de encontro aos seus lábios entreabertos.
—O quê? – pergunto, sem desviar o olhar por um segundo, quando introduzo um dos meus dedos nela. Vejo-a fechar os olhos com força, e começo a fazer movimentos de vai e vem.
—Oh, Deus... — ela morde os lábios, tentando conter os sons.
—Olhe para mim, Kate... – peço, antes de introduzir apenas mais um dedo, e ela abre os olhos, me encarando de um modo diferente; inocente e calmo, selvagem e inquietante. Intenso.
—Estou olhando. — responde, com a voz rouca. Brinco com ela, fazendo movimentos circulares, lentos, rápidos, assistindo a todas suas reações, sentindo-a se contorcer embaixo de mim, empurrando o quadril contra o meu corpo, com os olhares presos um no outro. Percebo que ela está prestes a atingir o primeiro orgasmo, e colo os seus lábios nos meus para abafar o gemido que veio logo em seguida. Retiro os meus dedos de dentro dela, deixando minha mão percorrer todo o seu corpo, até parar em sua cintura, onde aperto levemente. Ela sorri contra a minha boca, mordiscando meu lábio inferior, antes de forçar uma mudança de posição, sentando-se sobre as minhas pernas. Ela joga os fios de cabelo que caíam em seu rosto para trás, passando as mãos por toda a extensão do meu peito antes de se debruçar sobre mim. — Minha vez. — sussurra, mordiscando o lóbulo da minha orelha, e fazendo o seu caminho torturante do meu pescoço, até a minha barriga, indo e voltando, ora usando apenas os lábios, ora usando os dentes, beijando-me com vontade, antes de recomeçar o ciclo, enquanto uma de suas mãos segura o meu membro firmemente, fazendo movimentos precisos e que não demorariam muito a me levar à loucura. Dessa vez ela leva os beijos até a minha virilha, usando a língua só para me provocar, antes de voltar para a minha boca, apertando-me com um pouco mais de força. — Aaaahh.— deixa escapar sensualmente entre os meus lábios, o que desencadeia uma mistura de emoções e sensações que acabam fazendo eu me entregar ao prazer, apenas sobre o efeito dela, sobre o controle dela. O gemido que escapa da minha boca a faz rir, beijando-me repetidas vezes.
Recuperado, deito-me sobre ela novamente, ainda podendo observar o sorriso maravilhoso em seu rosto. Deixo meu nariz roçar no dela, e percorrer todo o seu rosto, e pescoço, inalando o seu cheiro, espalhando beijos pela sua pele, dando leves mordidas. Sinto seus dedos brincando com o meu cabelo, seu coração batendo forte contra o peito, seus lábios beijando o meu ombro, e os suspiros contra a minha pele; concentro-me em nós, deixando-me ser totalmente envolvido pelo momento, antes de penetrá-la lentamente. Instintivamente, ela empurra o corpo contra o meu, e começamos a nossa dança do prazer, juntos, ritmados, unidos como um só. E devo dizer, somos realmente muito bons nisso. Busco o seu olhar, e fico apenas a encarando por tempo o suficiente para que a realidade do que está prestes a acontecer, de que estamos prestes a nos separar, chegue até mim de uma maneira ainda mais dolorosa. Ela parece perceber o que se passa comigo, porque quando abro a boca para falar alguma coisa, ela simplesmente balança a cabeça, fazendo um movimento negativo quase imperceptível, enquanto lágrimas sobem aos seus olhos. "Eu sei", é o que leio em seus lábios, antes de eles se unirem aos meus. Tudo isso numa fração de segundos. E então, atingimos o ápice do prazer. Juntos.
***
Após tomarmos banho juntos, vejo-a se arrumar calmamente, recolocando o vestido, subindo nos saltos novamente, penteando o cabelo, uma vez ou outra me lançando olhares significativos e sorrisos, ao que eu retribuo, enquanto, apesar de meus olhos estarem grudados nela — ou talvez por causa disso -, deixo minha mente divagar para lugares perigosos, uma realidade sem Kate Beckett. Vai ser difícil, penso. Muito. Mas eu a respeito por estar fazendo isso pelo pai. É um motivo forte, compreensível, nobre, e que mexe com ela de maneiras profundas. Esse pensamento faz um momento específico da nossa noite brotar em minha mente, seguido da sua voz dizendo para mim "Eles me machucaram, e eu perdi a consciência", naquele dia, na lanchonete.
—Kate... — chamo, já sentindo o estômago revirar diante das suposições que estou fazendo, torcendo para que não seja nada disso. Ela olha para mim como se dissesse "fala". Levanto-me da cama e, dando passos lentos em sua direção, continuo. — Posso te fazer uma pergunta, que talvez soe um pouco estranha?
Ela se vira para mim, me analisando.
—Eu poderia dizer que lá vem mais uma de suas ironias, mas esse tom de voz... O que foi, Rick? Você parecia tão bem...
—Eu estou bem, estou ótimo, por causa de você. – faço uma pausa, vendo um sorriso se formar em seu rosto. – É só que eu estava pensando sobre nós agora mesmo, e algo me ocorreu.
—Pensando no que sobre nós? — ela pergunta num tom casual, ainda sem entender a seriedade da minha parte.
—Você sabe, no futuro, no motivo de estar indo embora e no quanto é importante para você que tudo dê certo, no quanto você foi afetada pelo que aconteceu, e... isso me levou à nossa noite de ontem.
Vejo-a franzir a testa, e com razão. As palavras soaram desconexas até para mim.
—Acho que eu não entendi a ligação entre as duas coisas.
Hesito um pouco antes de continuar.
—Eu não prestei muita atenção antes, porque bem, estávamos em um momento bastante intenso. – desvio o olhar, buscando a melhor maneira de dizer o que estou pensando. — Mas agora... Kate, enquanto eu estava te beijando, notei algo, uma marca, que pode até ser confundida com uma marca de nascença, na região do seu abdômen, e... — vejo o seu olhar mudar rapidamente, seu corpo ficar tenso, os lábios se comprimindo. — Acho que foi isso o que meu subconsciente disse para mim, que não era nada demais, mas aí eu me lembrei que...
—Você está certo. — ela me interrompe, como se ouvir o resto da minha sentença fosse de algum modo doloroso. — É uma cicatriz. Eles... — respira fundo, fechando os olhos por alguns segundos. — Ele usou uma faca, e fez isso comigo.
As palavras dela chegam ao meu ouvido como um tiro certeiro.
—Esfaquearam você? — digo, com certa dificuldade, não exatamente esperando uma resposta. — Eu... — sinto lágrimas subirem aos meus olhos, e um nó se formar em minha garganta. Estou chocado demais para conseguir sequer me expressar. Como foram capazes de fazer isso com ela? Como puderam ser tão cruéis? Por que toda essa raiva por sua família?
Ela dá o último passo para que fiquemos bem próximos, tomando o meu rosto entre as mãos. Posso perceber sua luta para não deixar as lágrimas rolarem.
—Eu sei o que está pensando, vivo cercada por esse turbilhão de perguntas todos os dias, e só posso pedir para você não se prender a isso. Estou bem agora, ok? – acaricia a minha bochecha. – Eles vão pagar pelo que fizeram em breve. E eu sei uma sensação de dever cumprido irá se instalar em meu espírito assim que isso acontecer. Não terá nada mais me “impedindo de ser totalmente feliz”, como você mesmo disse. Essa cicatriz vai estar comigo para sempre, essas lembranças vão estar comigo para sempre, mas aí... – ela sorri, dando livre curso às lágrimas. – Aí, eu irei saber que fiz a coisa certa, que fiz justiça à ele, à nós, e aquela tristeza não irá mais existir. Tudo vai ficar bem.
—Você é uma mulher tão forte, Kate... — passo a mão pelo seu cabelo, acariciando a sua bochecha, enquanto meus olhos percorrem todo o seu rosto, gravando cada detalhe. – Deus, como eu queria poder te manter longe de todo esse mal...
—Me deseje sorte. – usa os dedos para secar as lágrimas que deixei escapar.
—Farei melhor. – digo, me afastando dela para ir até a sala em busca do presente que eu iria entregá-la ontem. Quando reapareço, tiro de dentro da caixinha de joias um colar com um pingente de diamante solitário, vendo-a me encarar surpresa. – Vire de costas. – peço gentilmente, e ela o faz, expondo a pele antes coberta pelos fios de cabelo. Passo as mãos em volta do seu pescoço, prendendo o colar. – Agora, eu estarei sempre com você.
Ela se vira, instintivamente levando a mão ao pingente.
—É lindo. – sorri, levantando o olhar para mim. – Obrigada.
—Sempre. – retribuo o sorriso, envolvendo-a num abraço apertado em seguida, antes de juntar nossos lábios num beijo calmo, e apaixonado. – Vai dar tudo certo. – digo, ao nos afastarmos.
~~
Às 6:30h em ponto, acompanho-a até a porta. Johanna acabou de ligar, dizendo que já estava em seu apartamento e preocupada quanto ao que poderia ter acontecido para a filha não ter ido dormir em casa. Kate parece ter dado uma explicação curta e convincente para o momento, e logo depois veio me avisar que precisava ir.
Então é isso, estamos nos despedindo. Tê-la frente a frente comigo, e pronta para ir embora me causa uma sensação de desespero, um vazio antecipado, e aflora o medo por todas as coisas e perigos que ela ainda vai enfrentar.
—Por favor, vamos tentar fazer desse momento algo especial, e não triste. – ela diz de repente, com o olhar fixo no meu, analisando-me atentamente. – Eu não quero chorar, e não quero que você chore.
—Esse é um pedido difícil... – respiro fundo. – Mas para falar a verdade eu não sei o que dizer. “Adeus” daria a impressão de que nunca mais irei te ver, “Até mais” ou “Te vejo em breve”, soariam como uma mentira.
—Que tal um simples “Tchau”?
—Exatamente. Simples.
Ela balança a cabeça como se dissesse “bom ponto”, e ficamos apenas nos encarando.
—Acho que me juntar a você foi o melhor acordo que eu poderia ter aceitado na vida. – diz depois de alguns segundos, lançando-me um pequeno sorriso. – Digo isso partindo da perspectiva de estar prestes a ouvir muitas tentativas de acordo como uma detetive.
Isso consegue me arrancar uma risada.
—Ah, é verdade. Os vilões da história sempre tentam se safar através deles. Mas tenho certeza de que você será uma ótima policial. E a mais bela também. – completo, franzindo a testa diante do pensamento. – O departamento todo irá se apaixonar por você. Acho que não gosto dessa ideia. – brinco, e recebo um tapa no braço em seguida.
—Bobo. Não vai ser nada disso.
—Eu sei, vai ter muita ação também. Você já pensou em como vai ser quando tiver que bancar a Beckett durona, correr atrás de bandidos, vasculhar várias casas...
— “NYPD, abra a porta!” – nós dois dizemos juntos, a frase que constantemente ouvimos em séries, ou filmes e que vai se tornar bem familiar para ela. E então, escuto-a rir. – Vou sentir falta desse som. – completo.
—E eu vou sentir falta da nossa estranha, mas brilhante capacidade de pensar nas mesmas coisas nos momentos mais improváveis. – sinto sua mão envolver a minha. – Obrigada por acreditar em mim. Vou levar isso comigo pra sempre. – e então seus lábios encontram os meus para um longo beijo. Nosso último beijo.
Ao me afastar, nossos olhares se encontram intensamente, e eu sei que o que ela está tentando dizer. Ela precisa ir. Mas nenhum de nós quer dizer em voz alta aquela palavrinha que irá oficializar essa realidade. Entrelaço os meus dedos nos dela, apertando levemente, como se esse gesto pudesse falar melhor por nós dois. E então, ela começa a se afastar.
—Fique longe do perigo. – ainda digo, mesmo sabendo que exercer esse trabalho é quase sinônimo de se estar sempre na mira.
Ela olha para mim sobre o ombro, e pisca um dos olhos.
—Eu sou o perigo.
P.O.V. Beckett
Assim que dou os primeiros passos para dentro do meu apartamento, posso ver minha mãe apoiada na bancada bebendo uma xícara do que eu tenho certeza ser café. Não é a toa que eu sou uma completa viciada em cafeína. Ela olha para mim atenta, como se procurasse vestígios de tudo o que aconteceu comigo apenas pela minha linguagem corporal.
—Estou muito atrasada? — pergunto, diante da sua expressão, enquanto me aproximo.
—Bem, nós ainda temos uns 10 minutos.
—Você está brava comigo?
—Nem um pouco, mas...
—Ótimo. — a interrompo, jogando-me em seus braços e puxando-a para um abraço apertado, não mais contendo o choro.
Ficamos assim por longos segundos, até que ela decide quebrar o silêncio.
—Não foi apenas um jantar, não é? — diz baixo, enquanto uma das mãos mexe em meu cabelo. Apenas balanço a cabeça negativamente, antes de apoiá-la em seu ombro. — Ah, Kate...
—Estou pronta para ouvir você dizer o quanto eu sou irresponsável. — minha voz sai abafada. — Talvez eu precise ouvir.
Ela se afasta de mim o suficiente para poder me encarar, com uma calma e cumplicidade que só o olhar dela poderia transparecer.
—Essa pode não ter sido uma das suas melhores decisões, mas, filha... — ela limpa as lágrimas do meu rosto. — O que está feito, está feito. E quer saber? Quem sabe não era disso que vocês dois precisavam? Devemos focar na parte boa de tudo, não? Ainda mais agora. — faço um sinal positivo, impossibilitada de falar devido à vontade de chorar novamente. — Como você está se sentindo?
—Muito mal. — desabafo. — Eu gosto dele mãe, realmente gosto dele. Mas eu fiz algo que pode deixá-lo tão chateado comigo, e... Meu Deus, só a possibilidade de isso acontecer me assusta tanto!
—Seja o que for que tenha feito filha, eu sei que você fez para o melhor, exatamente por "gostar muito dele", já que quer dizer assim.
—Você não sabe o que é. Como pode ter certeza?
—Eu sou a sua mãe. E sei muito bem como essa cabecinha aí funciona. Ele irá entender. Talvez demore, mas acho que já sabemos que ódio é algo impossível de se existir entre vocês.
—Não sabe o quanto quero que tenha razão. — digo, e quando ela está prestes a responder, meu celular toca. Respiro fundo. — Oi, Maddie. — atendo. — Estou em casa. É, nos atrasamos... Sim. Você já está aí? Tudo bem, já estamos indo. Beijos.
—Ela já está lá? — minha mãe pergunta, assim que desligo.
—Sim.
—Devemos ir também, ou não fará o check-in a tempo. Se sente bem?
—Posso fazer um esforço.
Ela acaricia o meu rosto, lançando-me um pequeno sorriso.
—Vai dar tudo certo. — e então nos abraçamos novamente.
—Obrigada, mãe.
Pegamos as malas e aproveito para substituir o vestido por jeans confortáveis e uma blusa xadrez, e os saltos por uma sapatilha. Dentro da bolsa que irei carregar comigo, coloco o livro que o Castle me entregou na biblioteca, e que pretendo ler durante a viagem, juntamente com outros objetos de valor. Respiro fundo, dando uma última olhada pelo quarto. Fecho os olhos por alguns segundos, como se me despedindo de tudo que vivi aqui. Foram bons momentos, que deixaram boas lembranças.
—Vamos, Kate? — minha mãe diz, aparecendo na porta.
—Vamos. — e, enquanto saímos, pergunto meio brincando, meio falando muito sério. — Você vai cuidar bem de tudo isso aqui pra mim, não é?
Ela sorri.
—É claro que sim.
~~
Após fazer o check-in, e ficar a par de tudo sobre o meu voo, volto para o local onde minha mãe e a Maddie disseram que estariam me esperando.
—Para onde foi a Sra. Beckett? — pergunto, notando que ela não está aqui.
—Foi atender uma "ligação importante" e aproveitar para ir ao banheiro.
—Hum. Não duvido nada que essa ligação importante tem a ver com o caso de um cliente que ela disse para mim que não iria mais olhar durante o fim de semana.
—Ah, você sabe como ela é quando se trata de trabalho... Agora vem aqui. — ela me puxa pelo braço, grudando-se em mim, enquanto começamos a andar sem destino por um corredor. Ela deita a cabeça em meu ombro, um hábito desenvolvido durante os anos. — Você parece um pouco distante, o que foi?
—Eu... — instintivamente levo a mão ao pingente em meu pescoço, ao me lembrar dele. Gesto que não passa despercebido por ela.
—Ah, adorei o colar. Quase me esqueci de te dizer. Quando comprou?
—Na verdade, eu ganhei. Era o que o Castle iria me entregar como um símbolo de compromisso... você sabe, naquele nosso encontro.
—Ah. — é tudo o que ela diz, até perceber a incoerência. — E quando isso aconteceu?
—Ontem à noite. — percebo que ela me lança um olhar confuso. — Você irá surtar se eu disser que fui jantar com ele e que... muita coisa aconteceu?
—Katherine Beckett, não me diga que...
—Kate! — uma voz bem familiar para mim ecoa atrás de nós, fazendo-nos virar instintivamente. Um sorriso se abre em meu rosto. — Estou atrasada demais para me despedir da minha melhor companheira de trabalho?
Afasto-me da Maddie para receber o seu abraço.
—Não mesmo, Suzan! Que bom que você veio. — aperto-a mais contra o meu corpo. — Vou sentir tantas saudades! De você, de estar rodeada por todos aqueles livros! — digo, e é verdade. Criamos uma ótima relação de amizade.
—Ah, eu também! Mas vá se acostumando com a ideia de que agora tudo terá mais ação na sua vida. "Detetive Beckett", huh? Não é que combina com você?
Começo a rir do jeito que ela falou.
—Isso é ótimo, não? Pelo menos no quesito nome já comecei bem! — brinco.
—Você será uma ótima policial. Te desejo muito sucesso, e terei você sempre em meu pensamento. É uma profissão de risco.
—Com todos vocês me protegendo daqui, ficarei bem. Obrigada por tudo Suzan, por tudo mesmo. Você foi uma pessoa muito importante em todos esses anos. — aperto levemente a mão dela.
—Não me faça chorar, por favor.
—Okay. — finjo estar fechando um zíper sobre os meus lábios, o que a faz sorrir. — Funcionou? — dou-lhe um beijo na bochecha, antes de mais um abraço rápido.
Vejo minha mãe se aproximar, já com um sorriso estampado no rosto ao perceber a presença da Suzan. Posiciono-me ao lado da Maddie e iniciamos outro assunto, falando sobre tudo um pouco, e esquecendo-nos por um instante da minha partida, até que o meu voo é anunciado.
—É o seu? — Suzan é quem pergunta.
—Sim. — respondo, sentindo meu coração acelerar de repente, uma corrente de adrenalina percorrer pelo meu corpo e o nervosismo bater.
Elas parecem perceber a minha reação, e a minha mãe é quem resolve falar.
—Não vá desmaiar agora, hein!
—Que isso, eu estou bem. Só... absorvendo tudo isso.
—É, garota, está acontecendo. — Maddie diz toda sorridente, e posso notar as lágrimas se formando em seus olhos. Me puxa para um abraço longo e bem apertado. — Por favor, se cuide. — sussurra em meu ouvido, a voz já ficando carregada de emoção. Não consigo segurar as lágrimas também. — Nada de se meter em problemas, ok?
—Pode deixar. Vou sentir taaaanto a sua falta! — começo a balançar nossos corpos de um lado para o outro, até ouvir a risada dela, e então me afasto. — Eu te amo. Se cuide também, e te desejo toda a sorte do mundo na sua futura nova vida em DC.
—Obrigada. Também te amo.
Antes de me virar, acrescento.
—Ah, e... sobre aquele assunto, te conto tudo assim que puder.
Ela apenas me responde com um gesto de cabeça. E então me viro para a minha mãe. O seu olhar faz as lágrimas descerem pelo meu rosto com ainda mais facilidade.
—Mãe... — abro os braços para recebê-la em um abraço. — Você sabe o quanto eu te amo, e o quanto sentirei sua falta. — sussurro. — Estarei de volta quando você menos esperar. Prometo.
—Ah, minha preciosa Kate.. — ela busca o meu olhar, levando uma das mãos até o meu rosto. — Que esse seja o primeiro passo para você encontrar o que procura. Por favor, aproveite bem o tempo que passar lá, afinal, é Londres, não é? — um pequeno sorriso se forma em seus lábios. — E lembre-se sempre de que eu também te amo muito.
Retribuo o sorriso.
—Com toda certeza irei me lembrar.
E por último, me despeço da Suzan com um abraço, agradecendo mais uma vez por tudo o que ela fez por mim. Por estar perto do portão de embarque, caminho até lá rapidamente, parando para acenar para elas a todo instante, ou apenas checando se ainda estavam lá, como se essa fosse a minha primeira viagem.
Minutos depois, já dentro do avião, e com o olhar perdido na paisagem lá fora, tiro um momento para deixar a ficha cair aos poucos. É, está mesmo acontecendo, penso. Tudo pelo que eu venho desejando, e lutando, está acontecendo. Estou fazendo isso por nós, pai. Fecho os olhos, ao visualizá-lo em minha mente. Finalmente. Prometo não decepcionar. Você sempre vai estar comigo. Eu te amo.
Deixo uma última lágrima rolar, antes de limpar o rosto com as mãos. Respiro fundo e, para conter a ansiedade, retiro de dentro da minha bolsa o livro do Castle. Nada como uma boa leitura, ainda mais dos mistérios dele, para me entreter e acalmar. Porém, ao abri-lo, congelo diante do texto escrito por ele na contracapa. A dedicatória. Eu havia me esquecido completamente. Meu coração volta a bater descompassado e, em uma mistura de urgência e hesitação, deixo os meus olhos percorrerem cada linha atentamente.
“Para aquela que com apenas um olhar fez despertar em mim a vontade de me aventurar nos caminhos da paixão novamente. Que me cativou com o seu jeito teimoso, que compartilhou comigo acontecimentos especiais da sua vida e me deixou descobrir o quão amorosa e extraordinária pode ser. Que me encantou com apenas um sorriso, e que me deixou viciado no som da sua risada. Que me proporcionou momentos inesquecíveis, e me fez sentir real e verdadeiramente conectado a alguém. Que reviveu um coração que há muito não batia no mesmo ritmo da felicidade de se estar com alguém especial. Para você, Katherine Beckett, com todo o meu afeto e sinceridade.
Sempre.”
P.O.V Castle
Muitas horas depois, no escritório...
—Richard, já está tarde, não acha melhor ir dormir? – minha mãe diz, apoiada na maçaneta da porta. Seu olhar cúmplice tenta me transmitir tranquilidade. Tivemos uma longa conversa quando ela chegou em casa, e eu não poderia esconder dela tudo o que aconteceu. Nem mesmo se eu quisesse.
—Já tentei mãe, mas não consigo. Minha mente está agitada demais.
—E suponho que o motivo tenha nome e sobrenome. Estou certa?
—Sim. Pretendo extravasar tudo isso escrevendo um pouco. Quem sabe não ajuda?
Ela vem em minha direção, abraçando-me por trás para depositar um beijo no alto da minha cabeça.
—Dê tempo ao tempo, você vai ficar bem.
—Eu sei. – procuro pela mão dela, apertando levemente. – Alexis já está dormindo?
—Sim, ela está bem cansada. Foi um final de semana bem intenso.
—Nem me fale. – penso alto, distraindo-me por rápidos segundos. – A senhora também deve estar, precisa descansar. Não se preocupe comigo.
—Prometa que não vai passar a noite em claro, ok? Não vai ajudar em nada, eu te garanto.
—Eu prometo. Obrigado por me ouvir, e pelos seus conselhos. – viro o rosto para beijá-la na bochecha. – Durma bem.
Ela sorri para mim, antes de se afastar e sair fechando a porta atrás de si. Respiro fundo, tentando transformar esse turbilhão de emoções em inspiração para começar, desde já, a dar vida à nossa história. Talvez isso me proporcione a sensação de tê-la aqui, de alguma forma. Ao avançar a mão em direção ao notebook sobre a mesa à minha frente, noto a ponta de um papel cuidadosamente colocado sob o aparelho. Franzindo a testa por ter a certeza de que isso não estava aqui antes, empurro-o para o lado, e só então tenho a visão completa do que parece ser uma folha retirada de algum caderno. Pego-o em minha mão, e me deparo com um texto que de primeira não identifico sobre o que é, deixando o meu olhar percorrer todas as linhas rapidamente, até notar que, com toda certeza, a caligrafia é dela. Ela deve ter deixado isso aqui assim que acordou. Sinto o meu coração perder o ritmo, ansioso e ao mesmo tempo com medo de saber o que ela poderia ter para me dizer que não o fez enquanto ainda estávamos juntos. Buscando concentração, começo a ler em voz alta.
— "Querido Rick,
Antes de escrever aqui tudo o que eu preciso, quero que saiba que ter tido a oportunidade de te conhecer, de viver tudo isso, sentir tudo isso, foi e sempre será uma das melhores coisas que poderia me acontecer.
Quando acordei hoje, ao som insistente do meu despertador, passei longos minutos apenas te observando. Você sabe, como naqueles filmes românticos onde quando os casais acordam juntos, após uma noite maravilhosa, tiram um momento para se perderem no olhar um do outro. Eu queria mesmo ter me perdido na imensidão azul dos seus olhos... mas não poderia te despertar. Fiquei relembrando e revivendo o curto, mas intenso caminho que nos trouxe até aqui, até a nossa noite de ontem, a todas as declarações feitas silenciosamente. Te ver dormindo calmamente ao meu lado provocou em mim sentimentos controversos. Eu queria poder te abraçar e mantê-lo perto de mim para sempre. Me manter perto de você para sempre. Você tem uma maneira de lidar comigo que me surpreendeu completamente. Desde o início, desde a primeira vez que nos falamos. Eu nunca imaginei que teria a chance de viver algo assim com você, porque sim, você já fazia parte da minha vida, mesmo que eu não fizesse parte da sua. Não acho que eu possa encontrar as palavras certas para descrever tudo o que passou pela minha cabeça quando você me propôs aquele acordo. Um assassinato perfeito? Eu não conseguia entender. Tudo em que podia pensar era: "o que ele viu em mim?", "por que eu?", "por que agora?".
No começo, eu não sabia lidar com o modo como me sentia em relação à você: todos aqueles arrepios, o coração disparado, o nervosismo. Pensava ser uma bobagem, uma reação ao fato de estar "trabalhando" com um escritor incrivelmente sexy. Mas agora posso dizer que nunca foi nada disso. Você me faz bem, e eu te faço bem. Agora eu não tenho dúvidas de que somos incríveis juntos.
Mas estou contando com você para que possamos nos fazer bem e sermos incríveis, mesmo estando longe, mesmo não tendo *nenhum contato. Sim. Eu não quero destruir o que nós temos, mas não vejo como seria certo alimentar isso ainda mais. Não quero que você se prenda a mim durante esses anos que virão. Nós dois sabemos que manter uma relação por telefonemas, mensagens, emails, só serviria para nos enganar e, de certo modo, acabaria nos afastando. Eu não quero isso. Quero que continuemos com essa sensação de proximidade, companheirismo e amizade para sempre. Minha vida vai ser uma bagunça a partir de agora, você sabe disso. Posso parecer indiferente e fria, mas não quero que tenha que se preocupar. Viva a sua vida e seja feliz. Você merece o melhor que o mundo tem a oferecer, e não uma vida dividida entre mim e tudo o que ainda pode lhe acontecer. Pense em nós como um daqueles sonhos dos quais sempre acordamos na melhor parte. Eles guardam em si algo muito bom por sempre provocarem um sorriso quando trazidos à memória, e algo muito ruim, por infelizmente, serem apenas isso, uma criação do nosso subconsciente. Mas peço a você que se apegue ao que eles guardam de muito bom e eu prometo fazer o mesmo.
Mais uma coisa: eu quero me desculpar. Colocando tudo o que veio depois do nosso primeiro beijo e nos trouxe até aqui à parte, eu sei que deveria ter pensado em você também, dado atenção não fato de eu ter me envolvido, mas sim de ter deixado você se envolver, sabendo que eventualmente tudo iria ser interrompido. Pensar nisso é complicado, porque se excluíssemos qualquer acontecimento, eu não teria descoberto o quão incrível você realmente é. Mas por outro lado, agora não estaríamos prestes a sofrer a dor de ter que se separar de alguém que te cativou da melhor maneira possível.
Já li em algum lugar que somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. Então, se você também se sentiu cativado por mim, saiba que estarei sempre tomando conta de você, em meus pensamentos. Sempre.
P.S.: Eu sou uma grande fã."
* * *
Em algum lugar não muito distante dali...
X:
—Beckett já está fora do país? — digo, soltando a fumaça do cigarro junto com as palavras, enquanto espero a resposta do outro lado da linha.
Y:
—Sim. O que quer que eu faça? — pergunta.
X:
—Apenas mantenha os olhos nela. Ninguém precisa se machucar. Não ainda.
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