No dia seguinte eu acordei assustado com o barulho da porta do meu guarda-roupa batendo, abri um olho e era a Alyssa, ela estava com uma das minhas camisas, era uma branca social de botão. Ela percebeu que estava olhando-a e jogou sua blusa em mim, a blusa dela estava molhada e com cheiro de leite.

— Que ótimo! Além de ser intrusa ainda assalta a geladeira dos outros de madrugada. — Resmunguei enquanto me levantava.

— O quê? Eu estava com fome.

— Claro, que horas são?

— São três da madrugada. — Ela riu.

— Por que está com minha camisa? — Perguntei.

— A minha está suja de leite. — Retrucou.

— Sua irmã mais velha é bonita! — Eu disse interessado para que ela me contasse quem era aquela.

Ela ergueu as sobrancelhas e sentou-se na cama. — Minha irmã mais velha? Quando foi que você viu a Emily?

— Ontem. — Sentei ao seu lado na cama. — Vocês estavam discutindo.

Ela riu, um riso de deboche e ao mesmo tempo engraçado, ela colocou uma mecha atrás de seu cabelo e por fim olhou para mim. — Aquela é minha mãe.

Eu ri. — Mãe? Ela é muito bonita. — Ela simplesmente balançou a cabeça afirmativamente e sorrio fraco, eu olhei para o chão e mergulhamos em um silêncio profundo. Ficamos minutos ali, sentados, sem falar nada. — Por que estavam brigando? — Disse quebrando o silêncio.

Ela suspirou e olhou para o teto. — Coisa pessoal! — Empurrou seu corpo para fora da cama, levantou-se. — Eu vi que tem um violão. Toca para mim. — Ela andou até o guarda-roupa, pegou meu violão e me entregou, sentou-se no chão de frente para mim. — Toca!

Eu suspirei, não sabia o que tocar, fiquei um tempo pensando no que tocar para ela. Quando eu me dei conta eu já estava tocando “I Won't Let You Go” do James Morrison. Fiquei com vergonha de cantar e então só toquei, estava concentrado nas cordas quando eu ouvi a Alyssa cantar.

— When it's black take a little time to hold yourself take a little time to feel around before it's gone.

A sua voz me enfeitiçou, ela cantava tão bem, fiquei paralisado olhando-a, ela parou de cantar, fechou os olhos e balançou a cabeça no ritmo da música, a música já estava no final. Parei de tocar e continuei olhando-a, ela sorriu para mim.

— Você toca muito bem! — Ela sorriu excedente.

— E você canta muito bem! — Sorri de volta.

— Vamos para escola?

— Não tenho carro. Você não tem uma roupa limpa. Minha mãe vai pirar. Eu não sei se...

Ela me interrompeu colocando o seu dedo indicador em meus lábios, sinalizando silêncio. — Tenho roupa e tenho carro. — Ela sorriu. — Se vista rápido.

Eu me arrumei o mais rápido que pude, peguei a chave de casa e fui entrando no quarto — Eu esto... — Me interrompi ao vê-la, olhei admirado, ela usava uma blusa vermelha, uma calça jeans e um tênis branco. Sim, estava linda, uma roupa comum, mas linda.

— Vamos babão!

Saímos de casa pela janela e entramos no carro. Estava cedo para chegar ao colégio naquela hora e Alyssa sabia disso, por isso ela me levou a praia.

— Vem sempre aqui? — Perguntei enquanto caminhávamos na areia, sem rumo.

— À noite! Para pensar um pouco e você?

— Não muito. — Entortei os lábios.

— Me fale de você! — Ela sentou-se na areia e me puxou para que eu sentasse também, sentei ao lado dela e a olhei. Seus cabelos balançavam ao vento, estava linda, linda como sempre foi.

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— Você dormiu na casa de um cara que nem conhece. — Rimos juntos. — Bom... eu assassinei meus pais quando eu tinha cinco anos, fui adotado com oito e matei meus pais adotivos, essa família me adotou quando eu tinha dez, eu estou pensando se mato eles, sabe? Eu mato tantas garotas que dormem na minha casa. — Olhei para ela e ela estava com os olhos arregalados olhando para mim, ri. — É brincadeira!

Ela soltou o ar. — Idiota! Sério, me fala de você. — Ela deitou sua cabeça em meu ombro.

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— Não é muito interessante, mas... meu pai deixou eu e minha mãe quando eu tinha apenas dois anos de idade, minha mãe nunca foi uma das melhores, sabe? Ela bebida muito, e como já era de se esperar, dirigiu bêbada, eu tinha dez anos, estava dentro do carro, ela bateu em uma moto, estava sem cinto. — Suspirei e olhei para a areia. — minha mãe voou para fora do carro, eu não tive nenhum arranhão. Fui parar em um orfanato logo depois que sai do hospital, dois anos depois fui adotado pelo Eliot e Pamela Harris, eles me criaram muito bem, adoro meus irmãos, eles me consideram de verdade, sabe? Eu nunca fui bom em ser aceito socialmente, então nunca tive nenhum amigo além dos meus pais e da minha irmã. — Passei a língua em meus lábios que estavam secos.

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— E eu! — Ela disse me olhando. — Estou com você, sou sua amiga. — beijou minha bochecha, sorri ao senti o beijo dela.

— E você?

— Não peça autografo, meu nome é Alyssa Stand, sim sou filha do grande escritor Mark Stand e da apresentadora de tevê Elizabeth Stand. — Ela riu. — É tudo uma grande bobagem, não é mesmo? Minha irmã mais velha, Emily é escritora também, ela lançou um livro chamado “Dupla personalidade”, a minha irmã caçula, a Crystal é modelo. — Ela riu nervosa. — Só eu não presto pra nada, eu não sei escrever, não sei apresentar, não sei tirar foto. QUEM EU SOU NA MINHA FAMÍLIA? — Ela se levantou da areia e começou a andar de um lado para o outro, nervosa. — Sempre tive que me mudar, me separei de amigos que eu amava. Eu perdi meu pai, sabe? Ele era tudo pra mim. Mas eu tenho minha mãe e ela também é tudo pra mim, mas... eu sinto saudades dele.

Eu levantei, fiquei na frente dela e segurei em seu ombro. — Você canta muito bem é uma ótima pessoa. — Eu abracei-a, eu nunca havia tomado essa atitude com ninguém.

— Obrigada! Você toca muito bem... e escreve muito bem também.

— Escrevo? — Soltei-a e a olhei, ela tirou um papel de seu bolso.

— “Dizem que a vida é uma escola, eu discordo, porque se você errar na escola pode tentar outra vez, mas se você errar na vida não terá outra chance, outra chance que dependa de você, quando você se der conta já perdeu aquilo que era mais importante para você” — Ela leu o que tinha no papel, soou tão perfeito em sua voz. — Me promete uma coisa?

— O quê?

— Escrever sobre mim?

— Prometo! — Sorri. — Vamos, já deu o horário.

— A minha irmã te acha um gato. — Ela riu.

Peguei em sua mão e sai da praia, procurei o carro no estacionamento. — E você acha o quê?

Ela apertou um botão que fez o carro alarmar, andamos até o mesmo, entramos no carro. — Você é muito feio. — Ela zombou e riu logo em seguida.

— Qual das duas?

— A Crystal.

Seguimos o caminho até o colégio calados.

Alyssa estacionou o carro e saiu do carro, eu sai logo em seguida, pude ver minha irmã e então virei o rosto tentando me esconder dela, mas não foi o suficiente porque ela correu até mim.

— NICHOLAS JOSEPH PRICE HARRIS! — Ela gritou, pude ouvi a risada de Alyssa. — Nicholas! — Maya tocou em meu ombro.

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— Tem nenhum Nicholas aqui, não Dona. — Fiz uma voz de velho. — Eu sou um pobre velhinho. — Alyssa riu de novo. Eu tinha medo da minha irmã, ela era malvada, me batia.

— VOCÊ SUMIU! QUER DEIXAR A MAMÃE LOUCA? — Maya gritou novamente.

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— Bate nele! — Alyssa dissera enquanto ria.

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É... eu tinha mais medo da Alyssa do que da Maya.

— Acho bom você correr, mocinho. — Quando ela disse isso eu não pensei duas vezes, joguei minha mochila para dentro do carro pela janela e corri para uma floresta que tinha ao lado do colégio. — NICHOLAS! — Pude ouvir Maya gritando. — Corri mais rápido. – Aquela floresta era muito sem graça, a única saída que tinha era uma que dava no colégio, só que do outro lado, mas era na entrada também, então...

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Sai da floresta e fui parar no colégio. Alyssa ainda estava encostada no carro. Corri até ela. — Cadê a Maya?

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Ela riu. — Entrou na floresta. Você está soado.

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— Daqui a pouco passa. — Peguei minha mochila que estava dentro do carro dela.

— Alyssa? — Era um voz feminina, me virei para ver quem era, era uma menina baixinha e loura, bonita, parecia com a Alyssa.

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— Crystal esse aqui é o Nicholas, Nicholas essa é a Crystal.

— Olá, Crystal! — Acenei.

— Olá Nick. — Ela sorriu. — Me chama de Crys.

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— Sua irmã está vindo! — Alyssa riu.

Olhei para a floresta e era verdade. — Vocês são lindas, por que não entramos e conversamos lá dentro? — Puxei as duas pela mão e entrei no colégio.

— Eu tenho que ir pra sala! Sua irmã é a Maya Harris? — Ela riu.

— É por quê?

— Não gosto dela! — Ela deu de ombros e entrou na sala.

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— Vamos medroso. — Alyssa riu e segurou em meu braço me guiando até a sala. Era aula de história. O que a Alyssa estava fazendo ali? Me perguntei. — Transferi meu horário de história e acabei ficando na mesma turma que você. Vai ter uma festa hoje à noite, vamos, por favor.

— Eu não sei.

— Ah, Nite. Por favor, qual é? Vai ser legal. Minha irmã pediu para que eu te convidasse, ela quer ir com você.

— Você vai com quem? De quem é a festa? — Enfraqueci minha voz ao perceber que fiz minha pergunta na ordem errada.

— Eu vou com o Jack Walker, a festa é dele. — Ela entortou os lábios.

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Eu sorri falso. — Claro, vamos. — Ela sorriu.

Depois da aula de história nos separamos novamente.

Quando acabou a última aula eu fui direto para a saída, senti alguém segurando meu braço. Era Alyssa.

— Você tem que ser cavalheiro e convidar a Crystal.

Bufei. — Não sou cavalheiro.

— Por favor.

Revirei os olhos. — Tudo bem!

— Oi, Alyssa. Olá, Nick. — Virei-me para ver quem era e era a Crystal.

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— Olá. — Alyssa beliscou minha barriga, eu olhei feio para ela e ela pigarrou. — Crystal...

Ela me interrompeu. — Crys, por favor.

Respirei fundo. — Crys, quer ir à festa do Jack Walker comigo?

— Claro! Me pegue às 15:30.

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— Viu? Não foi difícil. — Alyssa riu.

— Alyssa...

Ela me interrompeu. — Aly. — Ela disse debochada, imitando sua irmã.

— Você é uma idiota!

— Claro! Me pegue às 15:30. — Ela riu, não pude deixar de rir. Imaginei que ela estivesse zombando da irmã. — Então tá. Te vejo mais tarde. — Ela beijou meu rosto. — Te passo uma mensagem com o endereço.

— Mas você não tem meu número.

— Tenho sim e você tem o meu! — Ela riu e andou até o seu carro, aquela bobona tinha feito alguma coisa.

Procurei minha irmã, mas não a achei, olhei em volta para vê se achava o carro de minha mãe, mas também não achei, sentei na escada. Quase todos haviam ido embora quando minha mãe chegou, eu entrei no carro e mamãe me olhou feio.

— Cadê a Maya? — Perguntou.

— Eu não sei!

— MAYA! — Maya apareceu logo após ouvir o grito da mamãe, ela estava com um grupo de adolescentes, por isso não a encontrei. — Por que sumiu Nicholas? — Mamãe perguntou séria.

— Eu sai para pensar um pouco. — Abaixei a cabeça. — Desculpe isso não irá se repetir.

— Assim eu espero. Não contarei ao seu pai. Nick... quando sair me avisa, por favor.

— Posso ir à festa do Jack Walker? — Eu e minha irmã perguntamos juntos, minha mãe e meus irmãos me olharam supressos.

— Nick? Você quer ir à festa? — Mamãe perguntou, surpresa.

— Quero! Eu vou com a...

— Alysson? — Maya disse de um jeito debochado.

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— Crystal! Irmã da Aly.

— Claro que pode, filho. Você vai usar o meu carro?

— Vou! Aposto que a Maya já tem carona.

— Tenho mesmo.