Always Right
1 A Dark Room
Notas iniciais
Boa leitura nee.
O cômodo estava parcialmente escuro, dificultando qualquer troca de olhares entre os dois rapazes que estavam ali. Não é como se eles fizessem questão de se encararem, eram inteligentes e tinham a mínima consciência de que se olharem não resultaria em nada.
E também, não se fazia necessário no momento.
O moreno encontrava-se sentado em uma cadeira giratória de seu jeito bizarro e único, tendo apenas os pés encostando no banco e praticamente abraçando as próprias pernas. A tela do computador iluminava um pouco o quarto, mas não era de grande ajuda. O local era imenso e a luz não ia tão longe. O fato era pouco importante, mas ele estava finalizando mais um caso simples que lhe entregaram. Era tão comum vê-lo trabalhando sem sequer se esforçar que os sucessores nem se surpreendiam quando viam o detetive se distraindo com qualquer outro passatempo.
Do outro lado, encontrava-se o loiro de cabelos chanel deitado na cama com uma expressão entediada. Os belos olhos azuis cristalinos fitavam uma embalagem de chocolate já na metade, que fora devorada por si mesmo, e ele não parecia ter nenhuma vontade de continuar o que estava fazendo.
Era irritante ficar parado sem fazer nada. Principalmente no escuro. Por que aquele maldito havia lhe chamado para auxiliá-lo a solucionar um caso sabendo que conseguiria sozinho? E mesmo quando tentava dar um palpite, o mais velho negava-se a escutar na hora e ignorava completamente as suas falas.
Não compreendia.
O que ele queria que Mello fizesse ali, afinal de contas? Estava na cara que não precisava de alguém para finalizar o caso ao seu lado. O chocólatra perguntou a si mesmo se aquela era a primeira vez que fora chamado para um caso importante e não ajudou em nada. Mas ele tentou.
- Como está indo aí? — Questionou com pouco interesse, mexendo-se na cama para que conseguisse olhar para o mais velho de um ângulo melhor. Apenas perguntou para ver se L não queria ouvir nada sobre o caso ou só estava ignorando a sua presença.
- Acho que solucionei. — Concluiu com a voz superior, levando o polegar até os lábios e mordendo a ponta do mesmo sem a intenção de machucá-lo. — Agora só preciso entregar o resultado para a polícia e estarei livre. — Pausou por um momento. — Obrigado pela ajuda.
... O que diabos?
Sentiu a raiva devorando cada parte de seu corpo por dentro e predominando cada canto de seus pensamentos. Como ele conseguia agradecer sendo que sequer aceitou o que ele dizia?
- De nada. — Respondeu por pura educação, agora se levantando em um pulo da cama do outro com a barra de chocolate em mãos. — Já posso ir embora?
- Qual o motivo da pressa? — O detetive tombou levemente a cabeça pro lado, parecendo curioso com a reação estressada do mais novo. Parecia até que não o conhecia.
- O escuro. Seu quarto não tem iluminação alguma e isso me incomoda. — Murmurou. Não era a verdade completa, apenas uma parte dela; realmente detestava lugares escuros, mas esse não era o fato que lhe incomodava. Achava apenas que o outro não precisava saber mais que isso.
- Tem medo de escuro, Mello? Por essa eu não esperava. — Falou com o mesmo semblante de antes.
Merda.
- Não! — Negou na mesma hora, cruzando os braços e desviando o olhar para qualquer outro ponto do quarto. Não fazia diferença, pois tudo tinha o mesmo maldito tom negro. — Você me entendeu errado.
- Algo me diz que você está mentindo. — Levantou-se da cadeira, curvando as costas e observando o menor atentamente. O loiro tremeu, dando um passo para trás na tentativa de se afastar.
- Que bobagem. Ter medo de uma coisa dessas seria infantil de minha parte. — Emburrou-se.
- Então você é infantil.
Não podia se irritar com alguém como ele. No fundo, tinha certeza que ele estava certo. Ele é L e nunca erra. Mas não é por isso que pararia de teimar.
- Tsc. — Resmungou, dando as costas para ir até a porta. — Você não respondeu a minha pergunta. Eu já posso ir embora? Não tenho o que fazer aqui, e...
Sentiu uma mão fina e fria agarrar o seu pulso, impedindo-o de prosseguir o seu caminho e calando-o no mesmo instante. Encarou o mais velho com os olhos arregalados, surpreso com a ação repentina.
- Você é interessante, Mello. — Admitiu, puxando-o sem pressa para perto de novo. — Sua personalidade é explosiva e você fica irritado quando lhe contrariam. Isso é adorável.
Mais perto.
O loiro não tentou fugir dessa vez. Estava pasmo com a fala do detetive e o ato tão inesperado.
Perto demais.
- Isso não é adorável, idiota. — Não alterou o timbre da voz, mesmo que internamente estivesse inexplicavelmente nervoso com o que estava acontecendo. Mesmo em momentos como aquele, o menor tentava manter a pose superior.
Falhou totalmente quando sentiu os lábios do moreno unidos aos seus e as mãos do mesmo enlaçados em sua cintura.
Encontrava-se muito mais perplexo que antes. O que se passava na cabeça dele? Beijar um de seus sucessores sem mais nem menos não era normal. Chamar um de seus sucessores apenas para ficar deitado em uma cama não era normal.
L nunca foi normal e agora só parecia mais estranho do que aparentava.
Depois que o maior percebeu que o outro não iria correspondê-lo tão cedo, separou os lábios com um sorriso leve estampado no rosto. E vê-lo dar um daqueles era extremamente raro.
Mello fez de tudo para não sorrir também.
- O que pensa que estava fazendo? — Bufou, pousando suas mãos nas do detetive a fim de tirá-las de sua própria cintura.
- Testando as suas reações. São adoráveis também. — Fez o que o chocólatra pediu, agora deixando as mãos e a cintura do mesmo livres.
- Que droga, pare de dizer que sou adorável! — Revoltou-se. — Não se faz isso com ninguém, principalmente porque somos dois homens... — Foi calado com mais um beijo rápido.
- Você realmente ficava melhor quieto.
- Cala a boca! — Corou de raiva, levando os dedos até a boca e limpando-a. — Da próxima vez que me chamar, pode ter certeza que não vou vir. Você é idiota. — Correu até a porta, colocando a mão no trinco e abrindo-a com pressa.
- Ah, certo. De toda forma, obrigado novamente. E juro que, da próxima vez, tentarei iluminar mais o meu quarto. — Brincou.
L o irritava profundamente ao se fazer de inocente. Ninguém fazia ideia do quanto.
- Até mais. — Fechou a porta com certa força, abandonando o detetive ali.
Mas aquela era a única raiva que gostava mesmo de sentir.
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