Alvorada

3 Meias verdades


Ryus dava as últimas orientações ao comandante do exército de Jaspe quando sentiu o incômodo familiar na nuca. Elodie sabia que, se tentasse sair pelos portões principais, seria vista. E Ryus cuidaria disso.

Por isso, ela tentou o portão lateral, por onde entravam as cargas vindas da cidade. Mal pôs os pés no pátio de pedra, a mão pesada de um guarda se fechou em seu braço.

Minutos depois, foi levada até a sala de chá. Ryus já a esperava, com duas xícaras fumegantes servidas.

— Elodie, toma um chá comigo?

Com um gesto seco, dispensou o guarda. Elodie sorriu e caminhou até ele. Apesar de tudo, ela tinha Ryus como um tio. O conselheiro era leal ao império de Aya, mas nunca concordou com a forma como Jasper tratava a filha e a primeira esposa.

— Você foi pega. Por que está sorrindo? — ele perguntou, confuso.

— Porque eu estou exatamente onde queria estar — disse ela, pegando a xícara entre as mãos.

Ryus soltou uma risada curta e divertida.

— Você é uma caixinha de surpresas, Elodie. Se fosse um menino, eu com certeza faria de você uma comandante do exército real.

O sorriso dela morreu.

— Eu não sou digna porque sou uma moça ou porque sou amaldiçoada?

Ryus parou a xícara no meio do caminho até os lábios. Devolveu-a ao pires devagar, o som de porcelana ecoando alto demais, e olhou para Elodie. Ela não desviou.

— Me desculpa...

— Você não precisa pedir desculpas.

— Elodie, eu sei que as coisas não são fáceis pra você...

— Pra dizer o mínimo — interrompeu ela. Respirou fundo e sua voz ficou mais baixa, quase um sussurro. — Tio, me diz uma coisa. Se houvesse uma forma de quebrar a maldição, você me ajudaria?

O silêncio de Ryus foi mais longo do que qualquer resposta. E foi o suficiente para Elodie entender o dilema dele.

— Eu não o culpo — disse ela, simples. — Como conselheiro, precisa ser leal ao império e ao imperador.

— Você não deveria desafiar o imperador assim. Seu vigésimo primeiro aniversário está chegando e isso está o deixando mais nervoso do que de costume.

— E deveria mesmo estar.

A frieza e a determinação no olhar da jovem o espantaram.

— O que quer dizer com isso?

— Eu pretendo tomar o trono do imperador.

Ryus pousou a xícara sobre a mesinha com um pouco mais de força do que pretendia. O chá chacoalhou e manchou o pires.

— Esqueça essa história. Isso só vai te causar mais dor desnecessária.

— Onde está a pedra mágica?

Os olhos de Ryus saltaram. Ele não conseguiu esconder a surpresa misturada com puro pavor.

— O-onde... quem te contou sobre isso!?

— Como eu disse, tio, eu pretendo comemorar meu vigésimo segundo aniversário. Você vai me ajudar?

Ryus se levantou de repente, sem encará-la, como se olhá-la doesse.

— Esqueça! Ou isso ainda vai te machucar mais do que você imagina.

Saiu da sala apressado, nervoso. Ele temia pela jovem que parecia empenhada em provocar a ira do imperador.

Elodie não podia culpá-lo. Era uma história muito antiga e muito delicada para os Whritemore. Mas ela não desistiria.

...

Ryus ainda estava inerte em seus pensamentos quando passou pela sala do conselho. Jasper lia uma carta, de pé perto da janela, quando notou a preocupação no rosto do conselheiro.

— Ryus!

Ryus parou à porta, tentando recompor o semblante depressa.

— Sim? Senhor Jasper.

Jasper caminhou até ele, medindo-o dos pés à cabeça.

— Aconteceu alguma coisa?

Aconteceu o que não deveria ter acontecido. Mas ele temia pela jovem. Sabia o que Jasper faria se soubesse o que Elodie descobriu.

— Não, nada — mentiu, rápido demais. — Apenas estou preocupado com a comitiva de Aya.

Jasper levou um segundo a mais do que o normal para acreditar. Um segundo que fez o estômago de Ryus revirar. Depois suavizou o semblante e estendeu a carta, com um sorriso que não chegava aos olhos.

— O príncipe herdeiro está a caminho de Jaspe. Chega amanhã.

— O príncipe Haru é viúvo, não é? Ouvi dizer que sua esposa morreu em um acidente.

— Sim. Uma fatalidade — respondeu Jasper, sem piscar. — Trágica e muito conveniente para nós. Agora, seu pai arranjou outro casamento para ele. O rei pretende coroá-lo logo após seu casamento com Elodie.

Ryus sentiu o sangue gelar com as questões políticas que envolviam aquele casamento. Além de Elodie, que era apenas uma menina.

— Senhor, acha prudente dar Elodie em casamento para o príncipe? Ela fará 21 em algumas semanas.

O semblante de Jasper se enrijeceu por completo.

— É costume em Aya que o casamento aconteça na mesma semana em que se conhece a noiva. Não vamos questionar os costumes de nossos aliados, vamos?

— Senhor...

— Está decidido, Ryus. Elodie se casará com Haru Tetsuro, do império de Aya.

Ryus não contestou. Não adiantaria.

— Eu ficarei de olho em Elodie. A trarei pessoalmente para o banquete de amanhã.

— Assim está melhor.

Jasper saiu, deixando Ryus sozinho. Ele caminhou até a varanda, com vista para o jardim. Lá embaixo, Ruby passeava com uma dama de companhia. As preocupações de mãe estavam evidentes em seus olhos cansados e na forma como ela segurava o xale.

Ryus suspirou e desviou o olhar rápido, como se tivesse sido pego roubando.

Não deveria olhar. Não deveria sentir. Não deveria esperar por um sorriso de Ruby.

Mesmo que o imperador a rejeite, ela ainda é a esposa dele.