Notas iniciais
*Atualizada 13/07/2018* Espero que gostem das mudanças!

Aquele elemento, trajando um capuz preto que cobria inteiramente sua cabeça e boa parte de seu rosto, marchava pela rua Saint Drummond há alguns minutos, localizada em um dos bairros mais luxuosos de Ashford, com seus coturnos de militar fazendo um estrondo ecoar pelo caminho deserto assim que pisavam em algum galho ou folha seca.

Parou bruscamente enfrente ao seu destino, uma casa estilo vitoriano, branca e marrom, de dois andares localizada no final da via. O telhado em preto deixava à mostra duas ou três chaminés, sendo que apenas uma expelia a densa fumaça cinza que se fundia com o céu nublado e tempestuoso, janelas demais para que se pudesse contar, todas com os vidros fechados e grossas cortinas que escondiam seu interior, e o estreito caminho de pedras que atravessava o jardim florido e se findava em uma pequena varanda de entrada, onde uma mulher o aguardava.

— Bom dia, Sidney – ela o saudou em tom alto, dando um sorriso que expunha seus dentes amarelos e tortos antes de levar a piteira, com o cigarro já pela metade, aos lábios e dar uma profunda tragada.

Deveria ter cerca dos seus sessenta e poucos anos e era inexistente qualquer vestígio de boa aparência antes que a velhice lhe atingisse. Estava envolvida por um xale vermelho sobre o habitual vestido preto, qual deixava à mostra seus tornozelos magros cobertos por suas botas de couro marrom e de bico fino. Os dois antebraços estavam cobertos por pulseiras douradas, que insistiam em fazer um som irritante ao se entrechocarem durante seus movimentos e em cada dedo se encontrava um anel velho e de aparência suja. O esmalte vermelho em suas unhas estava começando a descascar e, entre seus dedos magros e ossudos, encontrava-se um cigarro queimando lentamente dentro de sua piteira comprida e preta.

Sentada em uma cadeira de balanço feita de algum tipo de madeira escura, parecia deliciar-se enquanto analisava o ser sob o capuz, mesmo não podendo ver nada além de seus lábios rosados e a ponta do nariz fino.

Sidney fez um breve aceno com a cabeça ao passar pela portinha de madeira, que combinava com as cercas brancas, do jardim e demorou-se ao passar pelo pequeno caminho de pedras que o levaria até ela – talvez para aproveitar ao máximo o maravilhoso cheiro das gardênias espalhadas por ali ou para apreciar o som da água correndo pelo pequeno chafariz que se encontra bem ao centro do quintal ou porque sentia repulsa do cheiro de cigarro impregnado em suas roupas.

— Por que tanta demora? – perguntou ela após a figura encapuzada se postar ao seu lado e “encará-la” dando outra tragada no cigarro. O observava com aqueles olhos azuis que pareciam grandes demais para seu rosto por causa dos óculos com lentes de fundo de garrafa que usava enquanto tentava arrumar o cabelo grisalho e volumoso, que enroscavam nas argolas grandes e douradas que usava como brincos.

— Não pude aparatar, Sibila – disse Sidney, que tinha a voz rouca e baixa.

— O que houve com a porra da sua voz? – questionou a velha, erguendo uma das sobrancelhas.

— Achei que alguém poderia me reconhecer por aqui – contou, puxando ainda mais o capuz para baixo, escondendo totalmente seu nariz, quando uma senhora de meia idade surgiu à porta da casa vizinha segurando a mãozinha pequena de um garotinho de não mais de dois anos. — Usei o feitiço de alteração vocal.

— Ficou uma merda – concluiu a mulher, acenando amigavelmente para a vizinha que passeava com o neto pela calçada, qual retribuiu o gesto com um sorriso sincero.

— O Departamento de Transportes Mágicos, principalmente aquele nojento do Weasley — seus lábios se contorceram ao cuspir aquele nome, como se acabara de disparar o mais horrível dos xingamentos, ignorando totalmente o comentário maldoso sobre sua voz—, está fazendo questão de observar cada movimento mágico por aqui.

— Eu lhe disse para não brincar com os trouxas, mas óbvio que a besta tinha que fazer merda. – Ela revirou os olhos em direção às águas cristalinas que caíam da bacia que o anjo de mármore segurava no pequeno chafariz – A culpa é sua por termos que ficar nos esgueirando por aí.

— Não tinha nada para fazer – admitiu o encapuzado, deixando escapar um pequeno sorriso no canto dos lábios ao recordar-se do ônibus de dois andares elevando-se no ar, a mais de sete metros do chão, apenas com um pequeno aceno de sua varinha mágica. A expressão do mais puro pânico dos turistas que ali estavam permanecia em seus sonhos mais felizes – e, pelo jeito, não fiz um bom trabalho, afinal, todos sobreviveram – disse, dando de ombros.

— Pelo jeito — rosnou ela, mirando-o severamente ao erguer-se de sua cadeira sem pressa —, a única coisa que conseguiu com esse pequeno divertimento foi tirar o sono do Potter. – Sibila o observava de maneira desgostosa, como se não conseguisse esconder a repulsa que sentia – A sua brincadeirinha idiota podia ter posto tudo a perder se ele…

— Se ele o quê? Se ele me pegar? – questionou Sidney com um ar de deboche, cruzando os braços sobre o sobretudo preto com botões cinzas que trajava antes de soltar uma alta gargalhada. – Potter está parecendo um cachorro correndo atrás do próprio rabo, não sabe nem por onde começar a procurar e sabe o porquê? – Ergueu seu dedo indicador na direção dos olhos da mulher ao disparar aquela pergunta, mas não houve tempo da mesma elaborar uma resposta: – Porque eu não erro! Você devia ter visto, Sibila, foi perfeito! Se eu tivesse aparatado teriam me rastreado na mesma hora, mas não! Não! Não ia deixar que me pegassem, desci pelos esgotos, quebrei aquela varinha e consegui sair de lá antes... – sua voz, apesar de um tanto falha, não escondia a satisfação que o mesmo sentia, como uma criança que acabara de ganhar um brinquedo novo, andando pela varanda visualizando aquela cena com os mínimos detalhes em sua mente e encenado todas as suas ações para que a mulher que o analisava com desagrado se deslumbrasse com sua majestosa técnica e inteligência.

— Sabe que ele está te caçando, não é? – perguntou a velha, cortando a fala do outro antes de levar a ponta da piteira aos lábios e chupá-la com gosto, cruzando os braços sobre o peito – Selwyn disse ter o ouvido dizer, para quem quisesse ouvir, de que não descansaria até ter uma cela em Azkaban com o seu lindo nome.

— E você se importa com isso? – quis saber Sidney, voltando-se em sua direção e perdendo todo aquele ar animado de quando fazia sua narrativa – Não tenho medo do Potter e, muito menos, de seus subordinados. São todos vermes insignificantes com palitinhos em mãos. – O homem bufou. Contornou Sibila e, com um chute forte, abriu a porta de entrada da bela casa, dirigindo-se para um belo e espaçoso aposento logo em seguida.

Sofás de couro negro, postos em frente à uma lareira de mármore branco, com suas chamas dançando e fazendo sombras estranhas ao fundo, eram o que davam o grande charme do local, com exceção das estantes cheias de livros com capas de couro e os enfeites feitos do mais fino cristal. Entre os acentos e as flamas encontrava-se um urso pardo como tapete, com as patas abertas, igualmente como sua boca, que deixava expostas suas grandes presas peroladas, e, sobre ele, uma mesinha de centro marrom com uma garrafa cheia de um líquido amarelado, dois copos, um já com marca de batom vermelho na beirada, e um cinzeiro de vidro com inúmeros cigarros usados.

— O que importa — continuou Sibila, entrando atrás de Sidney e batendo a porta com força atrás de si. Sem a luz da manhã que passava por aquela abertura, a sala parecia muito mais sombria do que realmente era, apesar da luz emitida pelas chamas da lareira – é que você não pensou nas consequências, seu quadrupede! – bradou ela enquanto caminhava em sua direção, com um dos punhos cerrado e o outro apertando a piteira com força – Potter vai ter sua cabeça sobre uma bandeja!

— Ele que venha tirá-la de meu pescoço, então! – exclamou em alto e bom som, andando pelo aposento – Espero há anos por um encontro com aquele maldito dos infernos! – disse, girando por sobre os tornozelos, abrindo os braços e, logo em seguida, caiu esparramando em um dos sofás com um sorriso irônico nos lábios.

Trelawney revirou os olhos, cruzou os braços, novamente, sobre os seios quase inexistentes e deu um suspiro de desaprovação.

Sidney bufou, perdendo o sorriso. Quando essa velha vai parar de achar que sou aquela mesma criancinha sem proteção que ela conheceu? pensou, tentando manter o sangue frio.

Sibila Trelawney havia sido a professora de adivinhação na época em que o mesmo estudava na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, há alguns anos. Foi ela que o amparou todas as vezes que um grupo de vândalos, que se autodenominavam como “As Cobras”, faziam algo para ele se sentir mais menosprezado e inferior do que já se sentia por conta de vários problemas pessoais. Sibila havia sido de extrema importância naquela época e, desde então, tinha por ela um carinho fraternal, apesar de não demonstrar, e sabia que o mesmo se aplicava em relação à ela.

— Não vai me oferecer uma bebida? – perguntou, apoiando um dos cotovelos sobre o braço do estofado, pousando o queixo delicadamente sobre uma das mãos, cobertas por luvas marrom, e estendendo a outra diante do encosto do mesmo – Aonde foi sua educação?

— Pro inferno, junto com sua inteligência – respondeu Sibila, revirando os olhos mais uma vez, fazendo Sidney dar uma gostosa risada, tirando o cigarro da piteira e o apagando no cinzeiro. Ela deu um pequeno sorriso ao ouvir aquilo. Sidney, seu pequeno pupilo, talvez não fosse mais tão pequeno assim, pensou ela.

Assim que tirou a rolha de vidro da garrafa, ele soube que aquele líquido amarelado era a bebida favorita da mesma: xerez. Um dos mais deploráveis que existe concluiu, assim que Sibila lhe passou um dos copos, aquele que não estava sujo de batom, e deu o primeiro gole, se controlando para não fazer uma careta ao sentir a bebida cortar sua garganta.

A antiga professora sempre andou aos tropeços pela escola por causa quantidade generosa de xerez fedorento que bebia antes de dar aula, por isso ele considerava a aula de adivinhação a melhor já que nela dava as maiores gargalhadas com a mestra bêbada. Teve de morder o lábio inferior para controlar seu riso ao recordar-se de Trelawney rolando escada abaixo e pousando sobre o nanico professor de feitiços.

— Falou com a família do Travers? – perguntou Sibila, acordando Sidney de seu devaneio, enquanto sentava-se no divã negro, cruzando uma perna esquelética por cima da outra de maneira elegante.

— Hein? Ah, sim. – O encapuzado se ajeitou no lugar, pousou uma das canelas sobre o joelho da outra perna e começou a contar, depois de sentir o xerez queimar sua garganta após outra golada: – Aquela mulher, Sabine, acho que é assim se chama, praticamente deu pulos de alegrias quando soube quem eu era – disse ao recordar-se da mulher pulando em seus braços, dando-lhe um grande e pegajoso abraço, que se estendeu durante vários minutos e lágrimas da senhora. – Já foi dizendo “sim” antes mesmo de eu dizer alguma coisa. – Outro gole, outra queimação.

— “Já foi dizendo ‘sim’”? – perguntou a mulher, fazendo as aspas no ar, sem nunca largar seu precioso copo com marcas de batom.

— Eu não a culpo. – Sidney fazia movimentos circulares com o copo enquanto “observava”, distraidamente, o resto da bebida balançar por todo o objeto – Ela só quer ver o marido fora daquela cela, Sibila, mas só espero que ela não acabe dando com a língua nos dentes. Começou a gritar como uma louca quando mencionei o Travers. Sabe, não cheguei a conhecê-lo, mas, com certeza, ele é um homem muito paciente. Aquela mulher fala e chora demais! – contava alisando algo em seu pescoço, sob o sobretudo. – Travers tem que ser o primeiro a sair quando descobrirmos como fazer isso. – Pra lá, pra cá, pra lá, pra…

— E por que se importa com isso? – quis saber a velha.

— Eles tiveram três filhos juntos – contou, ainda brincando com o objeto que segurava. – Ela me disse que estava grávida quando o marido foi preso e que o menino, hoje em dia, ainda acredita que o pai está morto e não preso. Ela não lhe disse a verdade em dezenove anos...

— Se identificou com a história deles, foi, orfãozinho imundo? – zombou ela, passando o dedo indicador ao redor de toda beirada do copo ao dar-lhe um sorriso intimidador.

— Claro que não! Quero mais que o Travers e sua família nojenta vão todos para o meio do inferno! – disparou em voz alta, batendo o copo sobre a mesa e se levando do sofá com um pulo. "Vai começar..." sussurrou Sibilia ao revirar os olhos, ainda com aquele sorriso provocativo e fazendo um movimento com o dedo indicador no ar, como se estivesse em um rodeio – Aquele moleque melequento, pelo menos, teve a mãe para cuidar dele! Eu tive que ficar na merda de um orfanato graças ao maldito Potter! – gritou andando pela sala, irritadiço.

Ficou resmungando algo incompreensível durante alguns instantes, tentando acalmar os nervos que começavam a fazer sua pele formigar. Aquele era um dos poucos assuntos que ferviam seu sangue com extrema facilidade.

Sibila pôs o copo quase vazio sobre a mesinha de centro, tirou um maço de cigarros de dentro de seu vestido, provavelmente estava guardado em seu sutiã, abriu um pequeno compartimento secreto na base de sua piteira, qual nunca saiu de seu lado, com o polegar e de lá escorregou um fino pedaço de madeira, de aproximadamente vinte e cinco centímetros. “Peguei essa ideia da varinha/bengala de Lúcio Malfoy” contou, após mostrar como o covil funcionava pela primeira vez ao parceiro.

A mulher retirou um dos cigarros do maço, o pendurou em seus lábios vermelhos e o acendeu encostando a ponta da varinha no mesmo. Sidney parou no lugar, atrás do sofá onde antes estava sentado, e observou Sibila ao admirar o cigarro queimando entre seus dedos.

— Por falar em inferno – recomeçou –, por que quis me encontrar aqui? – apoiou as mãos sobre o encosto da poltrona, aguardando uma resposta e tentando desviar os pensamentos de sua infância nem um pouco agradável.

— E onde queria se encontrar? Em Hogwarts? – devolveu ela, ainda admirando a cigarrilha – Sei que fui substituída por aquela vadia mexicana – “Espanhola” corrigiu ele, sorrindo com a resposta não verbal dela: um grande e ossudo dedo médio em sua direção –, mas ainda moro lá, sabia? Bondade da Minerva deixar que eu permanecesse no castelo até terminar a desintoxicação porque, se dependesse de você – ela o fuzilou rapidamente com olhar antes de se voltar, novamente, para as cinzas –, eu estaria em um quarto d'O Caldeirão Furado.

— Acha mesmo que eu pagaria para você ficar n'O Cadeirão Furado? – Escapou um pequeno sorriso no canto da boca de Sidney assim que aquelas palavras foram emitidas— Poderia dormir no meio do Beco Diagonal que eu não iria me importar, velha asquerosa— riu, fazendo Sibila estender, novamente, o dedo médio para ele.

Sibila revirou os olhos e, com uma relativamente forte batida com o polegar no filtro do objeto que segurava, fez com que suas cinzas se espalharem por todo urso pardo. Admirou o tapete rapidamente e deu de ombros sem se importar com o estrago. Se o capuz não cobrisse seus olhos, podia-se afirmar que Sidney acabara de revirar os olhos, também, quando retornou a falar:

— Agora, pode me dizer porquê eu estou aqui? – e abriu os braços para que soubesse que se referia ao ambiente ao seu redor.

— Pensei que fosse gostar da decoração – ela deu de ombros.

— Sabe do que eu estou falando... – rosnou, apertando o encosto do sofá.

— Sei? Apenas achei que queria reviver os maravilhosos momentos de infância que passou aqui com o Sc...

— NÃO DIGA O NOME DELE – mandou ele, aos berros.

— Por quê? Ainda não consegue aceitar que o perdeu para sempre por culpa de Sir...

— EU VOU TE MATAR SE NÃO CALAR A SUA MALDITA BOCA! – Sidney sacou sua varinha de dentro do sobretudo, pulou o estofado à sua frente e apontou o objeto entre os olhos da antiga professora.

Aqueles nomes... Não podia ouvir aqueles nomes... Todo seu mundo acabou por conta daqueles nomes...

— Me matar? – repetiu ela com desdém – Ora, Sidney, não tem idade nem para limpar a própria bunda, seu pedaço de merda! – E, dizendo isso, levou o cigarro entre os dedos até a boca e o tragou, apoiando o cotovelo nas costas de sua outra mão, mirando sem piscar o objeto com o qual estava sendo ameaçada.

O encapuzado parou, ainda com a respiração ofegante, a “encarou” por trintas segundos e se jogou sentado no mesmo lugar que estava antes, pressionando com uma das mão o capuz no lugar onde deviam estar seus olhos.

— Está precisando dormir com alguém, meu amor. Está muito sentimental ultimamente... – disse Sibila, abrindo um sorriso de quem havia atingido seu objetivo.

— Cala a boca, por favor... – pediu, tentando se acalmar.

Após vários minutos de apenas o som do estalar da madeira pelas chamas ser emitido pelo local, Sidney retornou a fala:

— O mínimo que você poderia fazer, Trelawney – fungou ele—, seria me dizer qual a merda – sua voz subiu três oitavas, fazendo com que ela afinasse um pouco e a antiga professora levantar uma das sobrancelhas em sua direção – do motivo de eu estar aqui! Se quer companhia, compre a droga de um gato porque não estou com tempo nem paciência para você e suas…

— Se eu te chamo é porque, obviamente, tenho um bom motivo para isso – disse simplesmente, mirando-o como seus olhos fossem duas pistolas prestes a disparar.

— É mesmo? – zombou ele, incrédulo. Sibila concordou com um aceno de cabeça e ergueu as sobrancelhas – E você tem um bom motivo, por acaso? – perguntou, desafiando-a ao cruzar as mãos sobre o colo.

— Claro que sim, ou pensou que, por um momento, eu realmente fosse querer a sua ilustre companhia? – ela tragou o cigarro mais uma vez, porém, deixou a fumaça branca sair lentamente de sua boca. Sidney permaneceu em absoluto silêncio, esperando que ela continuasse, seu interesse havia sido despertado – Achei que gostaria de saber sobre a visão que tive ontem à noite. – Sibila desviou-se do encapuzado por um instante, pegou de volta seu copo de xerez e engoliu o pouco que restava ali dentro de uma vez só, batendo-o sobre o tampo de vidro cinco segundos depois de tê-lo agarrado.

— Visão? – perguntou, aproximando o corpo da antiga professora ao apoiar os antebraços nas coxas e mantendo as mãos cruzadas entre as pernas – Que tipo de visão?

— Uma ressurreição – contou, voltando a admirar o objeto, quase no fim, queimando entre seus dedos magros.

— “Ressurreição”? – repetiu Sidney, incerto do que havia ouvido – Como Jesus Cristo?

Sibila deu uma sonora gargalhada, curvando o corpo para frente e quase deixando o cigarro cair sobre o cinzeiro de urso pardo. O encapuzado mordeu o lábio inferior, constrangido pelo que havia dito, e apertou suas próprias mãos, controlando a imensa vontade de socar a maldita mulher.

Após a sessão de riso de Trelawney ter cessado, ela pegou sua varinha, que estava ao seu lado no divã junto com a piteira, e começou a fazer alguns estranhos movimentos com ela. Por onde a ponta da varinha passava, deixava-se um rastro de luz verde, como se fosse uma fita de lã brilhante, que, aos poucos, foi se formando um desenho.

Sidney saltou de seu lugar quando a imagem finalmente tomou forma: um crânio com uma cobra saindo de sua boca, como se fosse uma língua, flutuava em sua frente, subindo lentamente em direção ao teto do aposento.

— A… A... Marca... Negra… – Sidney finalmente tirou o capuz, deixando os cabelos negros caírem por sobre os ombros e costas pequenas, erguendo o dedo indicador em direção à figura, como se fosse tocá-la, e postando-se a frente de Sibila, de maneira que a mesma não conseguisse ver seu rosto. – O… O Lorde…

— Sim – Sibila o interrompeu ao se levantar do divã, tocando os ombros do outro levemente com ambas as mãos – O Lorde das Trevas retornará.

— Co-como? – gaguejou, não conseguindo esconder o espanto em sua voz, sempre mantendo uma posição em que Sibila Trelawney não conseguisse admirar sua face ao andar lentamente ao redor do crânio.

— O rebento daquele que o eliminou irá nos ajudar – contou-lhe, apagando o cigarro que havia caído com a sola de sua bota e, em seguida, pegando a varinha e a piteira, colocando uma dentro da outra logo em seguida.

— Harry Potter?! – perguntou ao fazer sua voz aumentar de tom novamente.

— Exato – ela girou a maçaneta de prata da porta de entrada. – Podemos continuar essa conversa em outro lugar? Os cadáveres da família trouxa que morava aqui estão começando a feder no andar de cima – e deu um sorriso psicótico. – Achei que gostaria disto. Aqui será a nossa sede! – Sidney continuou imóvel em frente à Marca Negra, apenas dando um pequeno sorriso de canto de lábio ao ouvir a revelação da mulher e observando cada detalhe da maravilhosa imagem a sua frente – Sidney – chamou ela mais uma vez –, já pensou em cortar esse cabelo? Está parecendo uma mulher – e seu sorriso se alargou mais, igualmente como o do outro.

Colocou o capuz negro de volta onde estava, escondendo completamente seu cabelo, e abaixou a cabeça ao passar por Sibila.

— Agora tenho um motivo decente para explodir um ônibus, não é? – perguntou ironicamente, fazendo a antiga professora de adivinhações dar outra gargalhada ao bater a porta de madeira atrás de si.

Notas finais
— Olha eu aqui de novo! — E aí? Gostaram do capítulo? Vamos, não tenha medo de deixar um comentário me dizendo o que achou. Eu não mordo. Juro! — Não se esqueçam de comentar/favoritar/recomendar a história porque isso me incentiva (e muito) a continuar! — Beijos da autora estranha ♥