Alvo Potter E O Mensageiro De Boráth
21 O embarque
Notas iniciais
Fingir que estava tudo bem era, definitivamente, uma coisa para poucos, Alvo que o diga. Não conseguira se concentrar em absolutamente nada, não prestara atenção em nenhuma aula, mal ouvira o que Neville falara no almoço, e teve quase certeza de que Tiago apresentara melhoras nos estudos para os NOM’s, mas não soube dizer se era isso mesmo, pois quando o irmão viera lhe contar, os pensamentos de Alvo estavam muito mais longes do que deveriam.
Rosa também não estava nada calma. Fez várias tentativas de leitura durante o dia, pois isso a distraía, mas sempre que lia uma ou duas páginas acabava realmente se distraindo, de modo que lia o mesmo texto várias vezes.
Mas, se já era difícil ficar se concentrando nas aulas só com o nervosismo que já estavam, a coisa toda só piorava somada ao fato de que Scorpius Malfoy ficara no encalço dos primos o dia todo. Sentou-se junto com os dois na aula de Feitiços, na frente deles na hora do almoço e até ficara próximo da poltrona da lareira.
– Espero que ele não esteja achando que é nosso amigo agora – comentou Alvo, ao observar o loiro passar com os olhos grudados nos dois em direção ao banheiro.
– É, acho que ele também espera... – disse Rosa.
Já eram quase nove horas e Alvo ainda não tivera tempo para pensar sobre toda a confusão que havia se formado em sua cabeça. Não que houvesse dúvidas, é claro, já estava decidido. Mas ainda havia algo no seu estômago que revirava sempre que ele consultava o relógio. O pior era que o garoto era péssimo em guardar as coisas só para si. Sentia que ia explodir sempre que Tiago ou algum Weasley vinha falar com ele.
– Então, o que fizeram hoje? – perguntou Fred, atirando-se no chão.
– Ah, nada – respondeu Alvo. Depois sentiu uma ligeira aflição e achou melhor acrescentar: — Nadinha. Nadinha mesmo. Nunca fazemos nada, hoje então... Posso afirmar que não fiz nada... É, nada...
Rosa e Fred olharam para ele, com as sobrancelhas arqueadas.
– Ok... Como foram as aulas? Ouvi que o Draco tá sendo substituído pela Magdoll... – comentou o ruivo.
– Ah, é — afirmou Alvo, apreensivo. – Mas não é nada envolvido com coisas estranhas. Deve ter dado uma volta, dormido demais, problemas familiares, quem vai saber? Coisas normais, nada fora do comum, só o normal, sabe? Bem normal... Normal...
Rosa agora lhe lançou um notável olhar de “cala a boca, seu palerma”, e Fred apertou os olhos, sem entender.
– Sério, cara – disse, o olhando de cima a baixo. – Acho que você anda passando tempo demais com a Alice...
– Eu ouvi isso! – gritou a garota, em algum ponto atrás dos garotos.
– Desculpe! – gritou Fred de volta, embora com um sorriso nada arrependido. O garoto deu um suspiro e voltou-se para Alvo. – Enfim... Se a Dursley gosta de você, isso é o que importa.
– Ela não gosta de mim – retrucou Alvo, com um tom de irritação na voz que ele imediatamente tentou disfarçar com um sorriso que ele achou ser bem simpático ao fim da frase.
– Oh, vocês já terminaram? – perguntou Fred, forçando uma expressão inconveniente. – Oh, desculpe...
– Vê se não enche, Fred – respondeu Alvo, dessa vez tão indiferente quanto podia ser após uma pergunta dessas.
Fred deu uma piscadela e desapareceu entre os alunos. Alvo consultou o relógio uma vigésima vez: nove e meia, ainda faltava um pouco...
– Agora esperamos, não é? – pergunto Rosa, apreensiva.
Alvo assentiu e se recostou na poltrona, encarando o fogo crepitante da lareira...
Aos poucos a sala comunal da Grifinória foi se esvaziando, á medida que o sono alcançava os alunos. Alvo e Rosa ficaram trocando olhares angustiados até o último aluno do quinto ano deixar a sala e subir para os dormitórios.
– É isso, vinte para meia-noite – conferiu Alvo, levantando-se.
Mal tivera tempo de pôr os pés no chão e Scorpius que, aparentemente, estava cochilando em cima de uma escrivaninha ali no canto, saiu cambaleando na direção deles.
– Vamos? – perguntou o loiro, em uma pose séria de quem está bem por dentro do assunto.
– Tem baba no seu queixo, Malfoy – avisou Alvo, rindo pela primeira vez naquele dia.
O garoto, com um certo rubor nas bochechas, limpou o queixo e depois se recompôs, mal-humorado.
– Vamos de uma vez – resmungou, tomando a dianteira.
Alvo e Rosa trocaram um último olhar de angustia (muito embora este último tivesse uma ponta de irritação) e seguiram o garoto. Passaram o retrato da Mulher Gorda, ignorando completamente as indagações que esta fizera sobre onde estavam indo a essa hora, e, após jogarem a capa por cima dos três – com certa dificuldade, pois Malfoy era alto demais e se recusava a andar curvado — desceram o mais silenciosamente que puderam as escadas. Não havia ninguém no caminho, como o esperado. Rosa havia calculado o exato lugar que Pirraça ficava nas quintas-feiras à noite (rondando a sala de Guelch com um uma buzina e uma bombinha de tinta preparada), de modo que não encontraram o poltergeist também.
Quando chegaram na grande porta, no Saguão de Entrada, foi realmente arrepiante Alvo dar uma última olhada antes de ir para o lado de fora. Ele estremeceu de frio e sentiu uma sensação estranha no estômago que o fez pensar que aquele seria realmente a última olhada.
– Vamos, Potter! – disse Scorpius, dando um chute na canela de Alvo.
O garoto teria lhe dado uma boa resposta, mas estava ocupado demais tentando não dar um urro de dor, porque o frio só piorava a situação. Scorpius, sem a menor sutileza, deu um empurrão na enorme porta que se fechou com um estrondo nada impercebível.
– Idiota! – guinchou Rosa, beirando ao desespero.
– Sem fiasco, Weasley – retrucou Scorpius.
– Vamos antes que alguém venha ver o que foi essa barulheira que você fez – apressou Alvo, dando um empurrão em Scorpius.
O trio se deslocava tão rapidamente quanto uma tartaruga. O vento frio ignorava o fato de os dois estarem por baixo de uma capa, fazendo com que cada passo fosse um sacrifício para quem ainda estava tentando fazer as pernas pararem de tremer. E isso, somado ao fato de que estava escuro como breu lá fora, definitivamente não foi algo que ajudou. A cabana do Hagrid estava completamente apagada, de modo que era quase impossível distinguir onde esta terminava e onde iniciava a orla da floresta.
Aos tropeços e esbarrões, os garotos passaram pelo Lago Negro com um certo temor, porque a luz da lua dava às árvores terríveis sombras fantasmagóricas, e o uivo do vento não era nada confortador levando em conta o lugar em que estavam. Alvo quase caiu umas quatro vezes, de modo que acharam melhor tirar a capa.
Após um grande esforço, chegaram ao grande portão.
– Como diabos vamos abrir isso? – tiritou Rosa.
Alvo já ia pôr a cabeça para pensar nessa quando aconteceu uma coisa terrível. Ou melhor, apareceu alguém terrível.
– Ei!
Era Tiago. Vinha andando com certa dificuldade, arfando e sacolejando, num passo rápido para encontrar os três. Vestia um roupão grosso por cima de uns três ou quatro casacos, uma calça de moletom com meias que vinham até o joelho e pantufas enormes e roliças de coelhinho. E, mesmo com toda aquela vestimenta, parecia estar congelando de frio.
– O que... O que estão... F-fazendo? – arquejou ele.
O ar entrou queimando em seus pulmões e o coração do garoto parecia ter mergulhado em um copo de água gelada, e isto, Alvo tinha certeza, não tinha nada a ver com o frio.
– Tiago... – ele começou a explicar, sem fazer a menor ideia de como terminaria. – Como... Como você nos achou?
O irmão tirou de dentro do roupão um pergaminho que Alvo imediatamente reconheceu: o Mapa do Maroto.
– Droga – murmurou Alvo, aborrecido, porque fora realmente um idiota, Tiago vivia com aquele mapa.
Virou-se para Rosa, que estava desesperada demais para bolar um plano agora, depois para o portão lá fora que, ele sabia, não conseguiria abrir sem a mente brilhante de um verdadeiro maroto e, por último, voltou-se para Tiago, que esperava uma explicação com um olhar impaciente e confuso.
– Olha, vai parecer estranho, mas... – e, neste exato momento, seu relógio bipou, o que significava que só tinham dez minutos. – Ah, droga... Tiago, olha... Precisamos sair do castelo, é estranho, eu sei, mas é muito importante. Precisa abrir esse portão para nós.
Tiago fez uma expressão tão terrivelmente desconfiada que Alvo teve certeza que sua chance de descobrir algo sobre Carlos e Lilí tinha ido por água baixo.
– Isso é quebrar as regras! – disse Tiago, olhando de um para outro.
– Então não vai fazer? – choramingou Rosa (era difícil dizer se estava triste com o imprevisto ou com o frio).
– Claro que vou, traquinagens são a minha sina – respondeu ele, fazendo um gesto com a mão. Depois ficou sério outra vez. – Mas ainda é quebrar as regras.
Alvo mal pôde acreditar na sorte que estava tendo.
– Mas – disse Tiago, repentinamente. Aquele “mas” fez as entranhas de Alvo revirarem outra vez. – O preço é me dizerem o que vão fazer além dos limites da escola.
– Estamos meio sem tempo agora, sabe – contestou Alvo, consultando o relógio.
– Sou monitor, seria muita irresponsabilidade deixar três jovenzinhos saírem escola afora assim, sem mais nem menos...
–... Te conto no caminho...
–... Então vou com vocês!
Tiago imediatamente começou a trabalhar no portão. Tentou todas as barras falsas que ele conhecia, mas nenhuma deu resultado. Por fim teve que usar, relutantemente, a chave super confidencial e importantíssima que os monitores tinham permissão para usar em ocasiões extremas.
– Ok, vão desembuchando – disse ele, fechando os portões.
Enquanto corriam o mais rápido que podiam, Alvo se esforçou para contar ao irmão uma mentira que parecesse verdade, o que não funcionou, é claro, porque ele era um péssimo mentiroso.
– Então deixa eu ver se entendi, o espírito de Dumbledore apareceu pra você e mandou você ir dar um pulo em Hogsmeade e conseguir um sorvete de limão pra ele poder descansar em paz, é isso? – disse Tiago, sério.
– É – assentiu Alvo, ofegante. – Esse Dumbledore... Tio Rony estava certo, um gênio, mas louco...
– Fala sério, Al, não sou idiota – retrucou Tiago. – Eu sou monitor, posso te arrumar uma baita encrenca.
E então Alvo viu que não havia outro jeito, teria de contar. E contou. Não contou toda a história de Brubock, porque realmente não tinham muito tempo. E, quando terminou, Tiago ficou tão sério que parecia estar bravo. Mas não estava, é claro, ele sabia, assim como Alvo, que aquilo era uma oportunidade.
– Vamos lá – disse ele, após digerir a coisa toda.
E foi o que fizeram. Não cabiam os quatro na capa, portanto ficaram realmente aliviados quando viram que não havia viva alma pelo povoado. Estava tudo vazio e silencioso, a não ser pelo farfalhar das árvores, provocado pelo vento forte e gelado.
Havia umas poucas luzes que iluminavam as quatro figuras que se deslocavam rapidamente (ou tão rapidamente quanto podiam) pelo solitário. Alvo nunca tinha estado ali de noite antes, e podia dizer que era apavorante. Não fazia ideia de onde ficava o cais de Hogsmeade, mas, segundo Tiago, ficava na rua de trás da Casa dos Gritos.
– Eu nem sabia que tinha um cais aqui – disse Scorpius.
Alvo estranhou que Tiago não fez nenhuma piadinha como “e o que você sabe?”, mas tinha certeza que saber da notícia dos embarcadores fez com que Tiago retomasse o mesmo ar sério que tinha adquirido na madrugada de Natal.
Tomaram um caminho tortuoso cercado por terrenos baldios que rodeavam a Casa dos Gritos, e foi preciso que acendessem suas varinhas, pois era impossível ver alguma coisa ali. À medida que iam se aproximando Alvo pôde ouvir o marulhar das ondas, coisa que não ouvia a um longo tempo. Quando já estavam quase chegando, Alvo soube que tinha que fazer alguma coisa. Parou.
– O que foi? – perguntou Tiago.
Alvo esgueirou o olhar o máximo que a iluminação rarefeita das varinhas lhe permitiu, e conseguiu enxergar um navio logo à frente. Isso deveria lhe trazer alívio, mas, por alguma razão, só o deixou mais angustiado.
– Precisamos... Precisamos nos organizar – disse, com o que lhe vinha à cabeça. Trocou um rápido olhar que Rosa, mas esta devia estar realmente nervosa, pois não estava entendendo o que os olhos de Alvo queriam dizer. Voltou-se para Tiago. – Precisa ficar aqui. Nós três vamos lá, vemos o que é e se... Se algo acontecer... Lançamos labaredas vermelhas e você vem nos ajudar.
– O que? – exclamou Tiago, o tom de reprovação visível em sua voz. – Não vou ficar fora dessa, não dessa vez.
Alvo olhou para o relógio e depois para o navio, ainda estava ancorado.
– É o único jeito! – disse, cada vez mais nervoso.
– Mas... Então... A gente vai lá sozinho? – perguntou Malfoy, receoso.
– Tá vendo – contrapôs Tiago, apontando para o loiro. – Preciso ir lá pro Malfoy não borrar as calças!
Scorpius deu um muxoxo, mas Alvo continuou olhando sério para o irmão.
– Preciso ir lá pra você não borrar as calças! – retrucou Tiago, achando que aquilo era um ótimo argumento.
Alvo olhou outra vez para o navio.
– Escuta – virou-se para o irmão. – Alguém tem que ficar aqui para garantir que... Olha, se acontecer lá lá pelo menos vai poder nos ajudar.
– Algo lá? – guinchou Tiago, exasperado. – E se acontecer algo aqui?
Alvo bufou, tentando achar um jeito, mas era impossível discutir com Tiago, ele sempre tinha uma resposta.
– Você é o melhor em estuporação – rebateu Alvo, pensando rápido. – Isso aqui tá deserto, Tiago, mas se vier alguém você dá conta.
O maior pareceu balanceado, elogios eram seu ponto fraco, mas ainda havia uma ponta de teimosia em sua feição.
– Olha – acrescentou Alvo, vendo que não tinham muito tempo. – Eu juro que lanço labaredas vermelhas se precisar de ajuda, tudo bem? – Parou e pensou em dizer que lançaria labaredas verdes se a coisa ficasse realmente feia à ponto de que Tiago tivesse de fugir e salvar sua vida, mas o irmão jamais o deixaria. – Só vou descobrir se eles sabem algo sobre o paradeiro de Rondres. Se souberem... Venho te chamar e nós vamos juntos até lá, ok? Juro de mindinho que vou.
Estendeu o dedo para Tiago, em expectativa. Tiago hesitou, deu um olhar cobiçoso para o navio, depois um muxoxo e, finalmente, enrolou seu dedo no do irmão.
– É uma promessa, está entendendo? – disse ele, bravo.
– Pode deixar – respondeu Alvo, engolindo em seco, lembrando da última vez que fizera isso.
Tiago ainda insistiu em ir com eles até o final da rua. Alvo tentou contestar, mas não tinham tempo, então cedeu. Andaram rápida e silenciosamente até o final da ruela que desembocava numa enorme praia. Deixaram Tiago ali e, com as entranhas revirando de nervosismo, seguiram caminho.
Era ainda mais frio ali, o vento era mais forte e o barulho do mar mais intenso. Estava deserto, à primeira vista, mas Alvo forçou a visão. Ancorado no cais estava o enorme navio que ele avistara e, andando sobre a pequena ponte, havia um grupo de pessoas andando de lá para cá, carregando enormes caixas de uma pilha nas margens do mar para dentro do navio. O trio trocou um último olhar seguido por um suspiro e se aproximaram, o coração batendo tão alto quanto as ondas na areia.
Tal era a concentração no que estavam fazendo que ninguém parecia ter notado a chegada dos três. Alvo pigarreou. Ninguém ouviu. Pigarreou outra vez. Nada. Scorpius, irritado fingiu uma tosse tão exagerada que o cara que estava carregando a caixa mais perto apontou a varinha para eles, quase disparando um feitiço.
– O que... Quem... Quem são vocês? – perguntou, alarmado.
– Calma, nós...
– Olhem lá, a casa caiu, chefia! – gritou um outro homem que vinha vindo do navio.
Essa frase surtiu efeito imediatamente. Quem estava carregando caixas soltaram-nas na mesma hora e quem saía do navio para pegar mais, voltou.
– Nós não queremos... – começou Alvo, mas outra vez, foi interrompido.
– O que diabos é isso? – perguntou um outro, saindo do navio. Esse era um homem de meia idade já, alto, mal-encarado, mancava, usava uma barba comprida e mal feita, espessa assim como os cabelos que lhe batiam nos ombros. Sua pele era macilenta e seus olhos tinham um olhar... Louco.
Primeiro ele olhou bravo para o homem que estava logo à frente da pilha de caixas, depois seu olhar se desviou para as crianças e ele soltou uma pequena exclamação, surpresa.
– Oh... – disse, fitando-as. Se aproximou, mancando. – Quem são seus amigos, Norton?
O rapaz que estava à frente, Norton, balbuciou alguma coisa, mas ninguém entendeu.
– Somos... Na verdade, nós... – começou Alvo, percebendo que não tinha a menor ideia do que dizer. – Estamos à mando de Hector, vocês são os embarcadores?
Imediatamente o murmúrio começou a correr pelos outros homens que estavam por ali.
– Hector, foi o que ele disse? – cochichou um.
– Não seja burro, são crianças – murmurou outro.
– Mesmo assim, é Hector!
– Silêncio! – bradou o mais velho, dirigindo seu olhar louco para as crianças. Ele as observou por um bom tempo, depois disse, lentamente: — Sim, somos nós. – ele estendeu a mão para Alvo, meio desconfiado. – Capitão Jones, à seu dispor. Você disse que está á mando de Hector, eh?
– É – assentiu Alvo, nervoso. Depois, tentando achar um jeito de conseguir reais informações, acrescentou: — Ele nos disse... Disse que talvez vocês... Soubessem algo sobre... Bob Rondres.
Os murmúrios voltaram, mas o capitão Jones os calou com um gesto de mão.
– Escuta, garoto... – disse, quase sussurrando. – Não sou informante ou coisa do tipo...
– Sou Alvo Potter – disse Alvo, puxando o cabelo da testa para mostrar a cicatriz.
Dessa vez todos murmuraram e o capitão pareceu perplexo demais para manda-los se calar.
– Oh – disse, assoviando baixinho. Completamente surpreso, fitou a cicatriz. Depois, percebendo a magnitude da coisa, deu uns passos para trás, nervoso. Fez algo que lembrava uma mesura desajeitada e depois balbuciou qualquer coisa antes de realmente dizer algo. – Perdão, garoto... Digo, senhor... Digo...
– Sabe algo sobre Rondres? – perguntou Alvo, com mais urgência na voz. Ele olhou por cima do ombro para as dunas onde Tiago estava escondido.
– Ah, bem... – o capitão Jones pigarreou e depois trocou um rápido olhar com os outros homens. – Senhor... Sr. Potter, nós vamos ao fim da linha. Os... Bem, os caras deles tem negócios pessoais conosco, entende? Não sabemos muito, mas dá pra tirar uma conclusão, eh?
Alvo se esforçou para entender o que o capitão queria dizer.
– Então, você sabe onde ele está? – disse, formulando várias hipóteses. – Segundo os... Comensais?
– Shhh! – fez o capitão Jones, olhando para os lados, como se houvesse uma grande multidão ali que pudesse ouvi-los. – Não há provas concretas nem nada, mas sabemos que tem uma grande concentração do pessoal dele lá.
– Lá onde? – quis saber Malfoy que, repentinamente, ficara muito interessado.
O capitão Jones olhou para ele com as sobrancelhas quase grudadas e depois virou-se para Alvo, ignorando Scorpius completamente.
– Está procurando pela sua irmã e o garoto, não, Sr. Potter? – perguntou o capitão, com um tom muito gentil e doce para sua carranca inicial. – Suponho que Hector o tenha mandado para embarcar.
Ele fez uma pausa e Alvo achou que seria sensato assentir.
– Bem, seria um prazer tê-lo conosco até o fim da linha.
Aquilo era exatamente o que Alvo precisava ouvir.
– Como... Como faríamos? – perguntou, dando uma olhada não muito discreta para os homens mal-encarados parados à porta do navio.
– Nós não nos envolvemos com os problemas da sociedade – respondeu o capitão Jones, achando estar sendo bem específico. – O levaríamos até lá e depois disso “nunca o vi”.
Alvo cruzou os braços. Estava confuso, mas, ao mesmo tempo, decidido. Era sua culpa, tinha que fazer algo. No entanto, parecia egoísmo de sua parte levar os outros dois consigo. E também, como teria certeza se não o matariam ao embarcar assim com estranhos? Bom, simplesmente não teria.
– Pode nos dar um minuto? – pediu, finalmente
O capitão Jones assentiu e foi reunir-se com sua tripulação. Alvo fez o mesmo.
– Ok – disse, virando-se para Rosa e Scorpius. – Eu vou, está decidido. Vocês não precisam...
– Sem essa! – Interrompeu Malfoy, um tanto quanto desesperado, como uma criança mimada quando os amiguinhos dizem que ela não pode brincar com eles. – Eu já vim até aqui! Não vai me impedir! Conto ao diretor, juro que conto a ele se você não...
– Tudo bem, Malfoy, já entendi! – cortou Alvo, irritando-se. Virou para Rosa. – E você?
Ela olhou para Alvo com pena, embora fosse difícil dizer se do primo ou dela mesma.
– Al, é perigoso... – sussurrou ela, lançando um olhar aos caras do píer. Alvo virou a cabeça e conseguiu ouvir alguns murmúrios:
– Não podemos levar o garoto com a gente! Ele pode nos entregar!
– É um garoto! E está à mando de Hector!
– Não é qualquer garoto, é Alvo Potter!
– É, ele está tão desesperado quanto nós.
– Mesmo assim, não é como se o nosso trabalho fosse o mais honesto do mundo!
– E o que diabos ele teria a ver com isso?
– Hector o mandou, não devemos questionar!
Virou-se para Rosa novamente.
– Não vou deixar você sozinho com essa gente – disse ela, por fim. – Mas se algo acontecer, mato você!
– Bom, acho que esse “algo” já se encarregaria disso... – murmurou Alvo, andando de volta até o píer. O capitão Jones, que estava em um círculo com sua tripulação, discutindo ideias, deu uns passos à frente e lançou um olhar indagador à Alvo. – Vamos com vocês. Todos nós.
O “todos” definitivamente pegou o capitão Jones de surpresa. Ele pareceu até mesmo um pouco aborrecido. Cruzou os braços, bufou e depois revirou os olhos.
– Bem vindos à bordo – disse, finalmente, fazendo uma reverência forçada.
Os três, hesitantes, se dirigiram à passos lentos por entre as pilhas de caixas até a entrada do navio. A tripulação, parada em volta da porta, lançaram olhares intimidadores aos garotos. Logo antes do entrar, Rosa o puxou:
– O Tiago! – lembrou ela.
Alvo, sentindo as entranhas revirarem mais uma vez, parou.
– É, vão... Vão indo na frente que eu o chamo – disse, fazendo sinal para o navio.
Rosa lançou um olhar confuso e um tanto que preocupado ao primo, depois ela e Scorpius se encararam mortalmente e seguiram.
Alvo fitou as dunas, onde Tiago deveria estar atento ao céu, ansioso por labaredas. Ergueu o punho fechado e esticou o mindinho. Um peso em seu coração e a triste lembrança de mais uma promessa quebrada. Não posso te condenar a isso, pensou, é o meu fardo, não o seu.
– Me desculpe – foi o que ele disse, logo antes de entrar no navio e embarcar numa jornada rumo ao inesperado.
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