Altos e Baixos

11 Capítulo 10


Passaram-se 2 meses. Katie continuara em sua indecisão. Ainda namorando Pitt, enquanto envolvia-se cada vez mais com Dolly.

Katie acordara no seu quarto, levemente desorientada diante da forte iluminação que invadira seus olhos. Fizera toda a sua rotina de sempre, tomara banho, colocara a melhor roupa que encontrara, escovara os dentes, e descera para tomar café com os pais.


– Filha, Pitt deixou um recado pra você — contara a mãe, sorrindo.

– O que ele disse?

– Que vocês tem uma viagem marcada pra domingo... - completara.

– Pra onde? - questionara, ainda processando as últimas palavras da mãe.

– Ele vai jogar em Mussurú... disse que marcou um lugar no ônibus da escola pra você acompanhá-lo.

– E o que meu pai achou disso? — perguntara, já ponderando quais desculpas poderia arranjar para negar o convite.

– No início não gostou não, mas Pitt pediu pra falar com ele, e inclusive pediu para que o treinador lhe explicasse a situação. Você irá dormir no quarto de hotel com a namorada de um dos jogadores, e ficará sob a supervisão expressa dele. Então, seu pai acabou aceitando.

– E eu, não tenho que aceitar? — uma ponta de irritação, refletiu-se em sua voz.

– Por que você não aceitaria viajar com o namorado?

Katie silenciou. Realmente não teria uma explicação no momento, precisaria de mais tempo para elaborar uma resposta.

– Todas as garotas da sua idade não vêem a hora de viajar, e ficar longe dos pais...

Horas se passaram. Katie continuara evitando Pitt, que dera vários toques em seu celular, sem resposta. Teria um encontro com Dolly em cinco minutos, e já estava atrasada. Saíra correndo de casa, em direção ao ponto de encontro.

Chegara em frente à sala onde Dolly estivera se apresentando, e logo a avistara nas proximidades.

– Oi, Dol...

– Tenho uma novidade.

– Qual? - perguntou já aguniada, hoje o dia estava cheio de surpresas...

– Falei com meus pais, irei viajar para Mussurú final de semana. Nádia e Anne foram convidadas por um amigo delas para assistir o jogo de nossa escola, e vão estar lá. Passarão lá o final de semana. Aí decidir ir também.


Só em ouvir o nome, Katie ficara alerta. Desde que elas foram embora, Dolly evitara falar em Anne, talvez por perceber o quanto a irritava. Mas Katie sabia que elas nunca perderam o contato depois daquela noite. Anne tornara-se muito especial na vida de Dolly, e aquilo a deixava muito enciumada.


Pensara imediatamente no quão sonso o ser humano poderia ser. O nome Nádia teria sido pronunciado antes, "disfarçadamente", tentando induzir uma falta de importância que não existia realmente. Sentira um ponta de raiva. Era óbvio que Anne realmente exercia influências na garota... e que Dolly realmente sentia algo forte por ela.

– Nós vamos né? - disse, tirando a outra de seus pensamentos.

– Sim, Pitt me convidou para acompanhá-lo.


Dolly ficara em silêncio. Fechou a cara, e questionou:


– Como assim? Pensei que nós iríamos fazer nossa primeira viagem juntas...

– Parece que eu vou com ele no ônibus do colégio.

– Cara! Não acredito que você vai fazer isso! — disse, virando às costas para Katie e seguindo o caminho oposto a ela.

Katie a seguira correndo, e a agarrara pelo braço, virando-a.

– O que eu podia fazer? Ele falou com meu pai!

– E o que? Agora você vai me dizer o que? Que vai passar a noite com ele também?

– Claro que não! — gritou, mas abaixou a voz em seguida, observando o movimento. - Dol, eu irei dormir no hotel com outra menina, namorada de algum jogador...

– Ah, Katie! Fala sério! Você acredita mesmo nisso?

– O que você acha? Que eu vou dormir com ele estando com você?

– Comigo? - Dolly sorriu, sarcástica — Oficialmente, você está com ele, Katie. Eu sou apenas a reserva, está bem? Sua reserva... e nova experiência...

Dolly partira, irritada, enquanto Katie a observara sair de suas vistas, sem reação. Notara no olhar da amiga um forte sentimento de raiva contida, refletida também na sua voz, o que lhe dera novamente aquela certeza de que estaria prestes a perdê-la. Uma lágrima saiu de seus olhos, mas ao observar um movimento de pessoas próximo dali onde estava, ela rapidamente limpou o rosto, e seguiu para casa.

Alguns dias se passaram, desde a última discussão. As duas ainda não haviam se falado desde então. Katie nunca havia ficado tanto tempo sem se comunicar com Dolly. Sentira que a relação delas de amizade havia sido abalada pelos novos sentimentos, a ponto delas estarem arriscando perder a essência de sua relação. Dias atrás, Katie confirmara com Pitt a viagem, que já tinha tudo arranjado.

Na véspera da viagem, ela decidira conversar com Dolly. Fora até sua casa, e a encontrara na varanda, lendo um livro. A amiga apenas levantou o olhar em sua direção, e depois voltou-se para o livro, ignorando-a.

– Não faz isso comigo... - disse, tirando o livro das mãos de Dolly, que lhe recriminara com o olhar. - Só vim aqui conversar...

– Vai me dizer o que agora? Que decidiu ficar com ele?

– Não!

– Então o que... ? - esperançosa

– Também não...

Dolly puxou o livro das mãos da amiga, e virou-se de costas para ela, enquanto tentava forçar seu cérebro a ler.

– Olha, eu passo um tempo com você lá... posso fugir do Pitt...

– Não se preocupe comigo, me virarei lá com as meninas.

Katie respirara fundo, sabia muito bem que Dolly quisera lhe provocar com esse comentário, e até conseguira imaginar por alguns segundos, como ela se "viraria" com Anne em uma outra cidade, e ambas sozinhas... Não que Nádia fosse invisível, mas sabia que ela simplesmente se "viraria" por lá também, com algum garoto do futebol. "Provavelmente elas estão indo pelo mesmo motivo, mas por diferentes pessoas", pensara.

– Dol, não quero você sozinha com a Anne.

Dolly lhe encarara como se tivesse acabado de ouvir a frase mais ridícula do planeta. Lhe dera um olhar sarcástico, no qual levantara a sobrancelha direita.

Katie se sentira extremamente patética pelo seu comentário.

– Você devia ter pensado nisso antes de decidir ir sozinha com o Pitt.

– Mas eu...

– Não! Quer saber, Katie? — Disse, irritadíssima, aumentando a voz e levantando-se do banco. Respirou fundo por um momento, e virou-se, ainda de pé defronte à outra - Eu realmente planejei ir com você, independente de encontrar Anne ou seja lá quem por lá. Claro que eu quero vê-la, isso é óbvio, mas...

Katie a olhara, visivelmente irritada. Controlou-se de todas as formas, para não dizer nada. "Claro que eu quero vê-la, isso é óbvio!! Precisava de tanta ênfase?! Que merda!", pensara, irritada.

– Mas não, como sempre você planejou ir com seu namorado...

– Eu não plane-....

– Não importa. Você sempre vai fazer isso, por que você está com ele. Eu não sou nada pra você.
– Não fale idiotisses, Dol!! Claro que...

– Katie... - interrompera a amiga. Seus olhos tornaram-se tristes - por favor... Vai embora.

Dolly caminhara lentamente até a porta, demonstrando uma forte decepção no olhar. Quando ela chegara bem perto de fechar a porta, Katie decidira agir:

– Eu te amo!

Ela parou. Pensara no que poderia dizer... Após refletir sobre o assunto, saíra da casa novamente, e sentara-se no banco, em silêncio. Katie sentara ao seu lado, ainda preocupada, encarando-a. Fez-se um rápido silêncio, até que Dolly decidira rompê-lo.

– Também amo você, mas... - longa pausa — Não estou feliz em saber que faço planos em vão para nós duas.

– Mas você não fez-...

– Katie. - interrompera — Não acho que possa dar certo...

– O que? - perguntara, temendo a resposta como nunca temera tanto algo na vida.

– Nossa relação... Você sempre irá viajar com Pitt, curtir aniversário de namoro, beijar ele durante os encontros, ou fazer qualquer outra coisa. E eu sempre ficarei na espera de você me ligar, quando não estiver ocupada com ele... ou esperando que você simplesmente sinta minha falta, mesmo que seja durante seus encontros ...

– Não faça isso com a gente...

– Eu não estou fazendo nada, Katie. Nada...
Dolly se levantara, e Katie a seguira em um impulso, puxando-a para um abraço apertado. Começara a chorar. Dolly fora fria, logo afastara-se e despedira-se, entrando dentro de casa e fechando a porta.

No outro dia, Katie pedira um vestido para a mãe, que lhe dera dinheiro para que pudesse comprar. Pensara em fazer uma coisa por Dolly, e imaginara que isso poderia fazê-la desviar dos problemas em que estavam enfrentando. Não aguentava pensar nela aborrecida, e decidida a terminar a relação. Não admitiria isso.

Horas depois, Dolly batera em sua janela, sorrindo. Katie a abriu, confusa.

– Kat, preciso falar com você.

– Por que não entra?

– Não dá, meu ônibus sai em duas horas...

O sorriso de Dolly se entristecera instantaneamente, cortando o coração de Katie. Mas ela continuara seu discurso:

– Só queria dizer a você que eu vou pegar o ônibus de 16h40, e que estarei no assento 12.

Katie lhe encarara com a expressão de que nada entendia.

– Caso você queira aparecer por lá.

– Dolly, eu... - Katie não sabia como dizer, mas não precisava, pois Dolly acabou entendendo seu silêncio.

– Então você não pensou melhor?

– Não posso, eu já -...

– Tudo bem... - interrompera - tudo bem. - silenciara como se esperasse uma reação da outra que não houve - Estou indo pra casa me arrumar... Tchau.

Dolly se inclinara sobre a janela, e dera um singelo beijo no rosto de Katie, em sinal de despedida, e partira em seguida.


Uma hora se passara, e Katie não conseguira pensar em mais nada a não ser nessa maldita viagem. Pensara em Anne e Dolly sozinhas num dormitório vazio. Arriscara perder a garota de verdade dessa vez. A relação triangular entre os três amantes estava cada vez mais complicada de se manter daquela forma, mas ela continuara com medo de terminar com Pitt, e assumir a nova relação.


Pitt chegara, e ficara esperando-a na porta. O ônibus estava programado para sair em 35 minutos, e ela estava correndo contra o tempo para terminar de se arrumar. Se atrasara, chorando, refletindo sobre a briga com Dolly, e suas prováveis consequências. Quando finalmente terminara de se aprontar, encontrara um Pitt apressado já sentado no sofá da sala.

– Vamos, vamos, que só falta 20 minutos para chegarmos lá... — disse, estendendo sua mão para Katie que a aceitara, seguindo-o até o próximo quarteirão.

Mas ela de repente, relutara, parando.

– Nós temos que ir, Katie.

Pitt tentara segurar sua mão novamente, mas ela retraira-se.

– O que foi? Esqueceu alguma coisa?

– Sim, esqueci... espera.

Katie voltara correndo em casa, fora até seu guarda roupa e pegara o vestido que comprara, localizado na parte superior do móvel, onde ela mesma haveria deixado. Lembrara de Dolly, ela já deveria estar na rodoviária esperando o ônibus. Poderia ter dado o presente naquele momento em que ela aparecera... Por que fica sempre tão calada, quando discute com ela? Antigamente elas trocavam farpas em cima de farpas, discutiam, e logo depois voltavam às boas.

Hoje em dia, após o surgimento dessas novas sensações, ela comportava-se sempre como uma idiota, mantendo-se em silêncio quando mais tinha o que dizer. E Katie permanecera parada de frente ao guarda roupa, com o presente na mão, admirando-o num saco embrulhado, com uma cartinha grudada.

– Vamos, Katie? - ouvira uma voz, acordando-a de seus pensamentos.

– Que susto, Pitt! Como vc chega em silêncio atrás de mim assim... quer me matar?

– O que é isso?

– É um presente... - Silenciara por alguns instantes, mas logo percebera que faltava mais explicações - Nada demais... é para Dolly. Nós discutimos.

– Ah... - aliviara-se — Então, vamos?

Katie refletira por alguns segundos, e percebera que sua dúvida era entre seguir a cabeça e o coração. Precisava escolher um... não seria fácil, mas naquele momento ela precisaria escolher um.

– Pitt, eu...

– Ah, não, Katie, não vai me dizer que... - Ele entendera finalmente. A discussão provavelmente teria a ver com a viagem deles - De novo? Você me deixará plantado por ela de novo?

– Ela é minha melhor amiga! - gritara, de forma nada convincente

– E eu sou seu namorado, Katie. - ponderara, calando-se por alguns segundos, observando um olhar cada vez mais distante encarando-o - Ou pelo menos era.

Pitt saira, e Katie decidira deixar ele ir, em silêncio. Conversaria com ele depois, não gostaria de perder sua amizade. Mas, agora, não podia perder mais tempo, já estava em cima da hora. Faltava apenas 35 minutos para ela embarcar. Pegara suas coisas, correndo, e fora até sua mãe.

– Mãe, preciso de você. Por favor. Me leva até a rodoviária.

– Por que? Cadê Pitt? - disse, sem entender nada

– Foi embora.

– Como assim? Ele nã...

– Mãe... por favor. Dolly vai viajar em 30 minutos. E ela tá aborrecida comigo... por favor.

Uma lágrima caiu dos olhos de Katie, e a mãe sorrira, ingênua. Entendera a situação, embora que pela metade.

Pegara sua bolsa, e levara a filha até a rodoviária.

Faltando 10 minutos para embarcar, Katie chegara no local. Correra para comprar sua passagem, usando as instruções que Dolly lhe 'dera' quando fora visitá-la, na esperança daquilo realmente acontecer. Depois, seguiu para encontrá-la.

Ela vira uma Dolly triste, sentada no banco defronte a um ponto de ônibus, mechendo no celular. Katie a chamara, e ao receber um sorriso em resposta, correra até ela para um abraço, enquanto a mãe de Katie assistia a cena, divirtindo-se.

As duas se abraçaram forte. Dolly afundara o rosto no ombro de Katie, lhe dera um beijo no pescoço, e dissera em seu ouvido: "obrigada por vir...". A amiga lhe sorrira de volta, e lhe dera um grande beijo na bochecha, bastante estalado. A mãe assistiu toda a cena, acreditando completamente que a amizade das duas moveriam fronteiras... não sabendo ela que essa amizade estaria além de qualquer dicionário ou definição.

Lembrando-se da mãe, ela se afastou da amiga. Mesmo assim, Dolly a olhara, emocionada. Novamente ela teria sido escolhida. Entre dois caminhos, Katie de novo a teria escolhido. E nada a fazia mais feliz, do que a percepção de que Katie a amava mais do que ao namorado... que a amava mais do que qualquer medo que pudesse sentir ... e a fazia feliz saber que ela sentia exatamente a mesma coisa.


A mãe de Katie abraçou Dolly, desejando-lhe boa viagem, depois virou-se para Katie e lhe dirigiu um olhar curioso.


– E você vai precisar daquele vestido mesmo? Pra que você pediu?


– Vou sim... mas é Surpresa mamãe... Surpresa... - Respondera pausadamente, sem conter a sua felicidade por estar ali, e sem evitar encarar Dolly durante a resposta. A mãe entendeu que deveria ter algo a ver com a briga. Era um presente.

Sorrira. Despedira-se, e partira, deixando as duas pra trás, finalmente sozinhas.

Em outro lugar, próximo dali, já estava na hora de Pitt embarcar no ônibus. Ao subir o primeiro degrau, ele olhara em vão para trás, procurando por uma mera sombra da namorada. Mas nada viu. Triste, subira no ônibus quase lotado, que possuía apenas uma carteira vazia sobrando, exatamente ao seu lado. Percebera então a verdade, ele estava sozinho. Katie, por mais que tentasse, nunca poderia colocá-lo acima de seus sentimentos por Dolly.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!