Altos e Baixos

7 Capítulo 6


Anne retornara para a conversa, aonde ainda estavam [Na verdade, Nádia estava] discutindo o seu último relacionamento, trazendo como dicas para a forma que Katie deveria se comportar com a pessoa misteriosa.


– Anne, que bom que você voltou. – Disse, Nádia, já visivelmente bêbada.


– O que houve?


– Eu tava contando para Katie sobre Bruno.


Anne fez um simples gesto sonoro, e sentou-se, evidentemente ainda sem graça pelo que acontecera. Quando ouviu Dolly descendo às escadas, não pôde evitar morder os lábios em sinal de nervoso, e evitou encará-la por um bom tempo, ao longo da conversa. Assim que Dolly chegou à varanda, sorriu para as três, e sentou ao lado de Anne, única cadeira vazia. Anne afastara-se um pouco, quase que instantaneamente reagindo a aproximação da outra.


– O que vocês estavam fazendo até agora? - Disse Nádia, conhecedora do fato da amiga ser gay, e provavelmente da 'queda' de Anne por Dolly, dando uma breve risadinha sarcástica as duas, durante a pergunta.


Katie percebera todas as reações estranhas, desde as atitudes involuntárias das duas no retorno de cada uma, até o comentário estranhamente sarcástico de Nádia, que parecera intuir alguma coisa que, embora não reconhecesse, lhe parecera muito desagradável. Tudo isso lhe invadira em uma sensação inexplicável de desconfiança, medo e dúvida.


– Arrumando o colchão onde você e eu vamos dormir. – Respondera Anne, imediatamente, com o rosto bastante sério.


Dolly ficara muda, e apenas encarara Anne, após ouvir sua resposta. A observara em silêncio, embora realmente tenha sentido vontade de dizer outra coisa, contrariando-a.


– Bom, mudando de assunto. Anne, sabia que Katie está apaixonada? – Disse, Nádia, sem nem imaginar que era para ser segredo.


– Ah, sim? – Disse Anne, com a certeza de quem era a paixão da garota, enquanto tomara outro gole de seu drink. Nesse momento, ela chegara a conclusão de que precisaria beber muito mais para suportar o resto da noite.


– Nádia, deixa esse assunto pra lá. – Katie tentara evitar, em vão, que Dolly se desse conta do que estavam falando, mas fora impossível. A isca já tinha sido colocada, e já havia capturado o peixe.


– Por que? Desculpa, não sabia que era segredo. – Disse inocentemente, com um singelo toque de "Sinto muito", na perna da amiga.


– Não é segredo... - Tentara se desculpar, extremamente constrangida, sabendo que pareceria uma grosseria, se a situação fosse colocada dessa forma.


– Ah. Então, boba, você só está entre amigas. - Aliviara-se


Enquanto Nádia estava ainda entretida, falando com Katie, Anne olhara pela primeira vez para Dolly, que lhe sorriu, e pegou em seus cabelos. Anne reagira ao comportamento carinhoso e impulsivo de Dolly, tirando a mão da amiga de trás dos seus cabelos rapidamente, e falando em seu ouvido:


– O que você está fazendo?


Dolly imediatamente a respondeu:


– Você acha que pode me beijar e sair como se nada tivesse acontecido?


Nádia olhara para o lado, e percebera a movimentação "silenciosa" das duas e, curiosa, acabou por alertar Katie:


– Ei, que tanto cochicho é esse de vocês?


Katie encarara Dolly, com ciúme, e uma leve pontada de raiva. Ainda não sabia ao certo o que estava acontecendo, nem o que estava sentindo, mas seu coração lhe disse que não era nada bom.

– Eu vou dormir. Com licença.


Surpreendendo as amigas, Dolly levantou e foi para o quarto. Aproveitando-se do silêncio e da tranquilidade do quarto, ela anotou algo em um papel e fora até a mala de Anne. Katie, que logo em seguida de sua saída, saíra também, pedindo desculpa as meninas, chegara na porta do quarto, a ponto de avistar Dolly colocando algo dentro da mala de Anne.


– Então... o que está acontecendo entre vocês? – disse, traduzindo em sua voz uma infinita irritação e contrariedade.


– O que?– Dolly virou-se, assustada. — Que susto, Kat...


– Você sabe que ela é gay, não sabe?


Dolly a olhara com certa curiosidade. Pelo visto todos sabiam disso, menos ela.


– Como você sabe disso?


– Nádia me disse, enquanto vocês passavam duas horas aqui em cima nesse quarto.


– Que exagero. Nós só passamos meia hora, no máximo. – Dolly sorrira em sua resposta, adorando os ciúmes de Katie, embora naquele momento estivesse bem balançada pela presença de Anne.


Katie a olhara, magoada. Podia sentir o que estava acontecendo. Ela sentara na cama, acompanhando os movimentos de Dolly, que começara a trocar de roupa para dormir. Ficara em silêncio, encarando-a.


– Dolly.


– O que? — Disse, contrariada, tentando evitar uma declaração de Katie.


– Eu...


– Você já ligou para Pitt para dizer boa noite? – Dolly cortara a amiga sem piedade, e ela desistira de conversar e fora até o banheiro, chorar.


Nádia tinha razão, ela tinha que dizer a verdade. Na verdade, tinha que ter dito logo quando a beijou. Havia deixado as coisas passarem, dias se passarem, aonde mantivera-se em sua posição cômoda e segura... agora sabia que estava sentindo exatamente o que Dolly havia sentido quando sentira-se ameaçando a relação dela com Pitt, e ao mesmo tempo, os próprios ciúmes dela por Pitt...


Ela saíra do banheiro decidida. Dolly estava deitada, e havia desligado a luz. As outras duas ainda não tinham voltado, e ela não sabia quando poderiam retornar, mas precisava agir.


Katie subira na cama de Dolly, e deitara ao lado da amiga.


– Dol...


– Hm– expressou, limitando-se apenas a um sinal sonoro.


– Aquele beijo...


Dolly abrira seus olhos, de modo a encontrar os de Katie, que estavam inchados. Dolly tocara em seu rosto:


– O que foi?


– Eu... – Katie começara a chorar


– O que foi? – disse, puxando-a para um abraço, extremamente preocupada, e arrependida pela grosseria de antes – Me desculpa, Kat, não devia ter te tratado daquela forma... Me desculpa... – o desespero passou a soar em sua voz. Sentira-se muito mal, de repente.

Katie abraçara Dolly ainda mais forte.


– A culpa foi minha... – disse em um fio de voz, atraindo a atenção da amiga.


– A culpa do que? E de que beijo você está falando?


– Eu... e você.


– Tá tudo bem, você já...


– Não. Eu menti. – Disse, recebendo um olhar de surpresa. – Eu acho que estou apaixonada por você.


Embora Dolly já imaginasse a verdade, e pudesse sentir o que estava acontecendo com Katie, ouví-la dizer, assumir o que estava sentindo, lhe surpreendera. Anne tinha razão, depois de tudo.


Mas ela não tivera a reação esperada... Apenas acariciara o rosto de Katie, que ficara séria por alguns instantes, e logo perguntou:


– Você e... Anne...?


Dolly pensara por alguns minutos na resposta, embora só estivesse tentando tardar o óbvio. Ela não poderia mentir para a amiga.


– Sim.


Dolly lhe abraçara novamente, em mais uma tentativa de acalmar o choro de Katie, que se amplificara, em soluços. Sentindo-se em segurança, ela foi tranquilizando-se aos poucos, novamente, embora não se afastasse momento algum dos braços da amiga.


– E você gosta dela?


– Eu... - Dolly dera um beijo na testa de Katie, e dissera: - É melhor a gente ir dormir.– depois virou-se de lado na cama e concluira - Conversamos depois.


– Você quer que eu durma com Nádia para ela dormir com você?


– Não.


Dolly fechara os olhos, enquanto Katie levantou-se para escovar os dentes. Em seguida, ela retornara até a cama, e abraçara a amiga por trás:


– Acho que essa não é uma boa idéia... não acha?– Perguntou Dolly, angustiada.


– Eu sei que você gosta disso. – Dolly respirara fundo, enquanto Katie sussurrara essas palavras em seu ouvido. Em resposta à respiração, Katie colocara-se totalmente por de trás de Dolly, unindo-se corpo a corpo, e pausando o seu rosto no ombro esquerdo de Dolly..


Dolly se virou, e agarrou Katie num beijo. Estar com Katie fazia ela esquecer de tudo, até mesmo das duas amigas lá embaixo, dos seus pais no corredor ao lado, e também do que tinha acontecido entre ela e Anne. Por alguns minutos elas não quiseram pensar em mais nada, a não ser em curtir o momento a dois.


Minutos depois, com o clima já esquentando — com Katie já tirando a blusa de Dolly, que teria acabado de tirar o cinto da outra -, tocara um celular no quarto, que as duas logo reconheceram o som. Dolly respirara fundo, e largara Katie, levantara-se da cama irritada, vestiu-se, e descera as escadas num impulso. Katie, absurdamente atordoada, ficara no quarto decidindo se deveria atender Pitt ou não.