Altos e Baixos

6 Capítulo 5


Anne caminhara até a cozinha, encontrando Dolly com o rosto de contra à parede da cozinha, dizendo pra si mesma:


– Idiota!


Chegando por detrás da porta, Anne apenas disse:


– Dolly...


Assustada, Dolly virou-se em direção à amiga.


– O-oi


– Vim te ajudar com a bebida... - Falou, disfarçando o real motivo de sua presença


Dolly forçou um sorriso diante da gentileza da amiga.


– E como você está? – Perguntara, já sabendo a resposta.


– Eu... não sei.


– O que você acha de eu te ajudar a arrumar os nossos colchões?


– Por mim tudo bem.


As duas foram até o quarto de Dolly, que permanecera em silêncio todo o tempo. Na hora que começaram a arrumar o lençol no colchão de casal, Anne começara:


– É impressão minha ou você e Katie... – pensara rapidamente... - está acontecendo alguma coisa? – disse, decidida, encarando-a nos olhos.


Ao ouvir aquelas palavras, Dolly ficara vermelha instantaneamente, e respondera desviando o olhar.


– N-não! O que poderia tá acontecendo? – Reagira automaticamente.


– É sobre o namorado dela não é? Por que você não gosta dele? Ele te fez algu...?


– Não... - Interrompera imediatamente. Não poderia deixar que Anne pensasse que Pitt teria lhe feito alguma coisa. No fundo, ela reconhecia que Pitt era um cara legal. - Ele realmente gosta muito dela.


– Mas...? — Anne parecia ler todas as entrelinhas, o que deixara Dolly levemente desconfortável.


Dolly praticamente jogou-se na cama, caindo sentada no colchão. Chegara a seu limite. Decidira admitir o que vinha escondendo à quase um mês para si mesma e para os outros, especialmente para Katie.


– A única razão pela qual não gosto dele é...


Anne, que terminara de arrumar o lençol, sentara ao seu lado, mas permanecera encarando-a, num misto de curiosidade e preocupação pela resposta.


– O que está acontecendo? Pode confiar em mim. Eu vi que tinha algo errado pela forma que você ficou quando Nádia perguntou a Katie sobre o namorado.


Fizeram um minuto de silêncio. De repente, uma lágrima caiu do rosto de Dolly. Anne começara a entender o que estava acontecendo, e o que ela estaria sentindo, sem nem mesmo Dolly precisar explicar. E ela mesma continuou:


– Aconteceu alguma coisa entre vocês não é? - Disse, conseguindo um olhar rápido de Dolly, que logo retornou seu olhar para o chão do quarto. Anne suspirara profundamente, procurando coragem e força para continuar. Chegara o momento de dar um exemplo, ajudando a amiga a admitir o que sentia - Eu gostei de você por um tempo...


Dolly paralizara, parando até mesmo de chorar.


– Você alguma vez desconfiou disso?


Anne conseguira pela primeira vez um olhar de Dolly, que ainda se mostrava chocada com a notícia. Percebera que sua resposta seria provavelmente "não".

– N-nã...o– Disse, falhando a voz, mal conseguindo pronunciar a palavra toda.


– Mas sim, isso aconteceu. Esse tipo de coisa acontece, Dolly. Não é o fim do mundo.


As duas ficaram em silêncio, novamente. Dolly não sabia o que era mais constrangedor, se era a idéia de que Anne estava pensando que ela estava apaixonada por Katie, a idéia da amiga ter praticamente se assumido gay e admitido que gostou dela no passado, ou se a necessidade dela de conversar sobre um assunto com Anne que provavelmente significaria a concretização de todas essas situações como verdadeiras e absolutas.


– Ela me beijou... – Disse, finalmente, rompendo o silêncio do local. Anne sorrira.


– E você gostou... – Completou, sem precisar de respostas


Dolly parara por alguns instantes, implorando desesperadamente por coragem, e evitara o olhar de Anne, voltando a observar o colchão de casal arrumado no chão.


– Sim.


– E vocês estão namorando?– disse, naturalmente.


– Não! Claro que não. Ela tem namorado. – negou com ênfase, consternada, esquecendo-se até mesmo que não queria encará-la.


– Mas ela te beijou...


– Sim!


– Tendo namorado...


Embora tivesse coerência o que Anne estava dizendo, na cabeça de Dolly não deixava de ser errado a idéia de uma traição.


– Eu sei que ela gostou... eu senti... e depois senti a reação dela... e a atitude depois... - disse, enquanto Anne lhe encarava em silêncio.


– Ela voltou atrás?


– Sim, tipo isso...


– Tentou te fazer parecer que não tinha sido nada demais.


– É.. – silenciou-se, pensativa - Mas, na verdade, nem falamos muito sobre o assunto... simplesmente evitamos.


– Sabe, Dolly. Uma das coisas que eu aprendi desde que me descobri, é que uma garota hétero mesmo dificilmente irá te beijar... Ainda mais no caso de vocês que são amigas a tanto tempo... Se ela te beijou, alguma coisa ela sente... e não importa o que, mas algo está confundindo-a, e certamente ela deve estar sentindo algo muito forte por você, também.


– Eu sei que está. Mas ela está com Pitt e ...


– O que?


– Eu nunca gostei dele por ciúmes, mas nos últimos dias eu pude avaliar meu comportamento... depois do beijo... eu percebi que na verdade minha possessividade era medo de perdê-la... medo dele me tirar a Kat, sabe?... E ele também sempre teve ciúmes de mim, provavelmente também tenha medo que eu faça isso, mesmo que nem consiga imaginar a razão desse medo. Então, ele é um cara legal... gosta dela e...


– Mas eu acho que isso seria uma decisão dela, e não sua. - disse, interrompendo-a.


– Sim... você tá certa. - respirara fundo.


– Se ela perceber que não é capaz de fazer ele feliz, e que sua felicidade é com você, ou vice versa, ela é a única que tem o poder de tomar essa decisão. Você não pode fazer isso por ela.


– Mas eu poderia ajudar me afastando... ou...


– Fingindo? Fingindo ser uma pessoa que você não é?


Anne respirara fundo, levemente contrariada, como se procurasse por paciência. Sempre detestara fingimentos e mentiras, por isso sempre que não encontra palavras, não quer dizer algo, ou não tem o que dizer, simplesmente mantem-se em silêncio.


– Dol, não acho que isso seja certo. Talvez se ela não souber a verdade, nunca tenha coragem de se expor novamente pra você por medo de te perder, e isso resulte na infelicidade dos três. Ela tem que tomar uma decisão sozinha e a partir daí, você e Pitt iriam se adaptar as mudanças e as novas posições, seja quais fossem os tipos de relações escolhidas para cada um.


– Mas e se ela... escolhesse ele?


– E se ela escolhesse você? É um perigo que os três terão que correr, inevitavelmente. E fazer isso logo evitaria que no futuro as coisas piorem, e tomem um rumo ainda mais complicado do que já está agora.


– É, você tem razão. Vou pensar nisso.


– Pense. - Pausara por alguns instantes, olhando o colchão. Sua expressão tornara-se muito séria - Bom, vamos descer?


Anne foi adiantando-se até a porta, mas Dolly segurou-a pelo braço. Levemente estremecida pelo toque, ela virou-se:


– Você pode dormir na cama comigo? Não quero que... você sabe... quero evitar...


– Não sei se seria uma boa idéia comigo tampouco... - Anne forçara um sorriso, evidentemente desconfortável com sua própria sinceridade - Chame a Nádia.


Dolly observou-a caminhar até a porta, e desaparecer na escuridão do corredor. Não pôde deixar de sorrir, pelo que tinha ouvido... Aquilo significaria que ela ainda sentia alguma coisa.


– Anne.


Dolly chamara Anne novamente, no corredor escuro e silencioso, sem saber se haveria resposta. Retornara até o quarto e logo o silêncio rompeu-se, com a aparição da garota que passara novamente pela porta:


– Que foi?


– Você precisa me contar isso direito. Eu quero muito saber...


– O que?


– Você... como você... o que você viu...?


– Em você? - Anne sorrira. Dolly sempre fora assim, desvalorizando-se e escondendo-se detrás de Katie, que sempre fora mais sociável e espontânea.


– Ora, vamos. Você é linda! O que você viu em mim?


Anne refletira por um segundo, poderia lhe responder tantas coisas, mas infelizmente sabia exatamente qual resposta deveria lhe dar. Seria a mais importante para ela ouvir, nesse momento.


– Provavelmente o mesmo que Katie viu. Por que você não pergunta a ela, Dol?


– Mas eu quero saber de você... — Disse, sincera, conseguindo romper algumas de suas próprias muralhas, e desconcertando a amiga.


Anne, que se controlara por tanto tempo no passado para não ter essa reação, chegou a um momento em que a explosão de sentimentos há muito tempo recalcados fora inevitável, e a loira tomou a outra em seus braços, beijando-a apaixonadamente.


Anne fez uma breve e dolorosa viagem ao passado. Por alguma razão, revê-la, trouxe todos os sentimentos que sentira por tantos anos passados de volta, com capacidade total. Precisava parar. Dolly já estava confusa o bastante por Katie, não era certo o que elas estavam fazendo.


Forçando-se a parar, Anne afastou-se, evidentemente desnorteada.


– Desculpa... - disse, com a respiração pesada, virando-se até a porta, e saindo do quarto em direção a varanda, deixando uma petrificada Dolly para trás.


Nunca poderia ter imaginado que Anne teria sentido alguma coisa por ela... E seu beijo fora mais do que uma indicação de que ainda havia algo, e que Anne ainda tinha sentimentos por ela. E para piorar a situação toda — ou seria melhorar? -, em recíproca, ela também sentira algo muito forte durante o beijo, quase tão forte ao que sentira por Katie.


Após quase 1 minuto sentada na cama, pensativa, ela voltara a si, e resolvera retornar à varanda.