Altos e Baixos
5 Capítulo 4
Katie voltara às boas com o namorado que teria se aborrecido inicialmente por ela ter preferido ir à apresentação da melhor amiga, ao invés de prestigiá-lo, como já estava programado há um mês; ao mesmo tempo, voltara às boas também com Dolly, que teriam discutido após Katie beijá-la.
Assim, aparentemente, sua vida voltara ao normal. Ao menos fora o que Katie pensara. Mas não, sua vida nunca mais poderia ser a mesma. Algo dentro de si havia se destacado, tomado forma, invadido seu coração rapidamente, de forma surpreendente, e agora controlava sua cabeça, provocando-lhe atitudes, pensamentos e sensações novas.
Um mês se passara.
Dolly e Katie chegam a uma festa de aniversário de uma amiga de Katie chamada Jaqueline. Dolly sabia que só tinha sido convidada, a pedido de Katie. Não gostava da aniversariante, e esse sentimento era mútuo. Só teria aceitado acompanhar Katie realmente porque a amiga insistira muito. Katie também não gostava muito dos amigos de Jaqueline. Elas não sabiam, entretanto, que Nádia e Anne, suas amigas de infância, que estavam morando fora da cidade há 5 anos, chegariam logo à festa.
Nádia era uma morena, de etnia indiana, de cabelos lisos e longos, e de olhos verdes. Anne, ao contrário da outra, era loira, possuía cabelos cacheados, também longos, e olhos castanhos claros.
Com 18 anos, e já fazendo faculdade, as duas amigas que retornaram juntas para participar de um congresso que haveria na cidade, aproveitaram para comparecer no aniversário, e rever os amigos. Desde que as moças viajaram, elas sempre mantiveram a amizade e o contato pela internet, mas as duas decidiram fazer uma surpresa para Dolly e Katie, não contando que voltariam à cidade para uma visita.
Surpresas, Dolly e Katie, que pensavam que a festa seria um tédio total por não se darem bem com quase ninguém no local, abraçaram as amigas, evidentemente contentes e aliviadas. Tendo finalmente pessoas agradáveis no local, as meninas isolaram-se do restante da festa, mantendo-se conversas fechadas entre elas. No fim da noite, as quatro foram embora mais cedo. Anne, que viera de carro à cidade, levara Dolly em casa com as outras meninas. Paradas no local, a anfitriã chamara as meninas para dormir lá, e evitar o gasto desnecessário de hotel. Katie, obviamente, aproveitou para se auto-convidar a também ficar por lá. Desde aquele incidente do beijo, e de ter entrado em contato com sentimentos que afloraram, de repente, em seu coração, Katie teria ficado receosa em dormir na casa de Dolly, mas diante da presença das outras duas meninas, ela não se preocupara.
Elas ficaram conversando na varanda, por um bom tempo. Nádia era a mais falante, e discutira sobre todos os assuntos possíveis e imaginários, enquanto Anne apenas permanecia em silêncio, observando a conversa, e sorrindo aqui ou alí a algum comentário engraçado. Dolly permanecia da mesma forma.
E a conversa fora bastante animada, até que o assunto mais incômodo possível para Dolly e Katie surgira:
– E então, como está o namoro? - Perguntou Nádia apontando para Katie, animada, após contar sobre seus milhões de relacionamentos, desde que saíra da cidade.
Estranhamente, Katie demorara pensando, e não pôde evitar deixar de olhar para Dolly, que desviara imediatamente o olhar. O assunto fez com que ela recordasse o beijo, e o incômodo foi traduzido em gestos contínuos no cabelo, e em alguns movimentos perpendiculares em uma de suas pernas cruzadas.
– Bem...
– Nossa, que empolgação! - Praticamente gritou Nádia, que sempre fora conhecida por suas apresentações teatrais dramáticas, na escola. Recompondo-se, ela continuou - Por que isso?
– Ah... - dera uma pausa, tentando arduamente encontrar palavras - é que...
Dolly não pôde deixar de mostrar um certo desconforto no olhar, e movimentou-se de forma tensa na cadeira. Anne, que sempre fora muito observadora, logo pegara alguma coisa no ar.
– O que aconteceu? - Repetiu Nádia, começando a ficar curiosa. - Ele fez al...?
– Não, nada! — Dissera prontamente — Ele é maravilhoso.
– Bom, eu tenho que admitir que esse menino gosta de você. - Disse Dolly, por fim, tentando finalizar o assunto de alguma forma, embora parecesse contrariada com sua própria voz.
Incomodada com o assunto, aproveitou-se do copo de Anne estar vazio, para se retirar, saindo imediatamente do local. Anne, que observara sua saída, falou pela primeira vez desde que sentara na varanda:
– Com licença... — Caminhara para dentro da casa de Dolly, em direção à cozinha.
Nádia, de tão curiosa com a relação de Katie, nem prestara atenção no que acabara de acontecer às outras duas. Katie, no entanto, percebera o desconforto da melhor amiga com o assunto e, de fato, ela sentira-se da mesma forma.
– E então? - Disse Nádia, trazendo-a de novo à realidade.
– Eu sei... - Katie sorrira - Ele é perfeito, Nad... - Cortara a frase, com uma expressão de que surgiria algo a seguir ...-
– Mas... ?
– Sei lá, eu...
– Você gosta dele?
– Gosto sim, muito... — Katie, que fora incisiva em suas palavras iniciais, sentira-se obrigada a admitir o que depois dos últimos acontecimentos, pôde auto-analisar: - Mas como amigo.
– Mas isso é bom sabia?! Homem quando você gosta demais, começa a esnobar... É bom que você goste menos que ele... Esse é o tipo de relacionamento que dura!
Em outro momento, Katie provavelmente iria rir muito de Nádia, diante desse comentário. Mas, contrário à isso, fez-se um minuto de silêncio. Permanecera tensa com o que o assunto Pitt a fazia recordar.
– Mas ele é bom pra você?
– É, é muito bom pra mim...
– É carinhoso?
– Sim... bastante.
– Então o que está errado? - Disse, cada vez mais curiosa.
– Eu acho que...
– Está apaixonada por outro? - disse, cortando Katie, e assustando-a com o comentário. Fez-se um minuto de silêncio absoluto. Enquanto Nádia a encarava, Katie refletia sobre o que ela havia dito, totalmente chocada com seus próprios pensamentos. — É isso?!
Quanto mais Katie refletia, mais chegara a conclusão de que Nádia poderia estar certa.
– Eu... bem... teve um... episódio... — disse pausadamente, levando quase meio minuto para concluir cada frase. - eu beijei...
– MENTIRA! — Interrompeu a amiga, com um grito.
– Shhhhh! — Disse Katie nervosa, tentando calar a boca da amiga, para não acordar toda a família de Dolly, vizinhança, mas o pior ainda para ela naquele momento, seria trazer a garota de volta à varanda. Não poderia falar sobre o assunto com a amiga do lado, e precisava desabafar.
– Nossa... você sempre foi tão... arggg de certinha, nunca pensei que fosse... - Nádia falava, e ao mesmo tempo que fazia gestos e sons, auxiliando na sua frase.
Nádia começara a gargalhar, enquanto Katie tentava fazê-la rir mais baixo:
– Shhhh, os pais de Dolly!
Surtiu efeito... Recompondo-se, Nádia continuou.
– E você gosta dele?
– De quem? — Disse Katie, confusa. Por alguns instantes, ela se perdera na conversa totalmente.
– Do menino que você beijou, oras!
– Ah... o menino...
– Sim, você gosta?
– Sim... - Katie sorrira, involuntariamente - Muito.
– Está apaixonada?!
– Não! - Katie a interrompeu imediatamente, sem nem dar tempo da moça planejar outro escândalo de "emoções" - Não me entenda mal, Nad. Eu gosto... dele, mas ele é só meu amigo. Gosto dele, mas como amigo, entendeu? Ele é só meu amigo...
– Eu entendi, mas parece que você que não entendeu... - Disse Nádia, rindo bastante.
– Por que? — Dissera paralizada, voltando a se confundir na conversa.
– Por que você está repetindo a mesma coisa várias vezes como se quisesse SE convencer do que está dizendo.
Katie sorrira, por puro constrangimento.
– Está bem, vou ser honesta com você... - disse, voltando a ficar séria — seguinte... eu realmente não sei o que sinto... — deu uma rápida pausa - por ele. É complicado.
– Ele que te beijou ou você?
– Eu... — Katie sentira-se tão envergonhada nesse momento, lembrando do que havia feito.
– E ele não gosta de você?
– Gosta, gosta sim. — Respondera imediatamente
– Mas como amigo?
– É... quer dizer, não sei.
– O que? Você beijou ele e mesmo depois disso nunca perguntou?!
– Não... era para perguntar? — Disse Katie, extremamente desnorteada, sem saber se sua sensação era uma reação à personalidade agitada de Nádia ou ao assunto que elas estavam discutindo.
– Claro, né, boba!
Nádia deu um leve tapa na testa da amiga, se divertindo com a situação.
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