Altos e Baixos
4 Capítulo 3
Era a apresentação de Dolly. Katie estava ansiosa na platéia, junto à mãe da garota, esperando pelo abrir das cortinas. O pai, como era esperado, não comparecera, e a mãe inventara a desculpa desnecessária de "contratempos no trabalho".
Ela estava um pouco aborrecida, pela discussão que havia tido com Pitt, pois por mais que entendesse o lado do rapaz, não pudia evitar pensar mais no lado de Dolly. Ela conhecia a garota desde os 6 anos de idade, desde sempre teve lembranças da amiga lhe acompanhando, e estando com ela todo o tempo. Amava Dolly, mais do que poderia amar qualquer garoto no mundo... e embora ela tivesse consciência de que não amava Pitt, pelo menos não como o garoto gostaria, e até como ela deveria, Katie gostava muito dele, e saber que o magoara também lhe deixara triste.
Dolly estava magnífica, com sorriso estonteante, e seus passos deslizaram pelo palco, de forma extremamente minuciosa, e sem nenhuma falha visível à platéia. Katie a olhara todo o tempo, não podendo prestar atenção nas outras dançarinas, que dividiram a cena com a amiga. Estava tão admirada pelas habilidades da garota, que embora já conhecesse, vê-las ali, naquele palco, concretizadas, e tão amadurecidas, era diferente... e mágico.
Após terminado, às 20h, Dolly correra até a saída, e pulara em cima de Katie, que estivera posicionada de frente à mãe, ansiosa, esperando a menina na porta de entrada do local.
– AAAAAA, que bom que você está aqui!!! – Disse ainda nervosa pela apresentação, abraçando-a, rapidamente.
Depois, abraçou a mãe, que lhe esperava timidamente atrás de Katie. Sra. Laura, que demonstrara estar angustiada por toda a noite — provavelmente por mais uma briga com o marido, pensara Dolly -, decidira ir logo para casa, e coube a Katie responder a seguinte pergunta:
– Então, Katie, te levo para sua casa ou para a nossa? - Disse a Sra. Laura, percebendo que as duas ainda tinham muito o que comemorar e discutir sobre a apresentação.
– Eu vou para... – Katie pensara rapidamente, mas realmente não havia outro lugar em que gostaria de estar — Sua casa... – Concluira, gerando um longo e estonteante sorriso em Dolly, que lhe dera um singelo tapa no ombro, em agradecimento.
Elas brincaram, conversaram, riram, fizeram cócegas uma na outra... Quando vira o horário, em que finalmente os pais estariam dormindo, Dolly correra até a cozinha, e voltara para o quarto com duas taças vazias na mão, gerando uma curiosidade instantânea em Katie:
– Para que essas taças?
– Eu apenas... – Dolly foi em direção à mochila da escola e, observada todo o tempo por Katie, abriu a mochila e tirou de dentro uma garrafa de champagne. Katie abrira a boca em vão, sem conseguir elaborar palavras, estava realmente surpresa. Dolly continuara, cortando palavras, um pouco sem graça: — Eu não sabia... mas achei... – Katie sorrira, entendendo o que a outra diria, antes mesmo de ouví-la terminar a frase — Algo me disse que você dormiria aqui hoje... então... – E Katie constatara, sem sombra de dúvidas: Dolly realmente a conhecia.
– Vamos comemorar! – disse Katie, correndo até ela, e tomando uma das taças de sua mão.
Katie tomara três taças de champagne, enquanto Dolly parara na primeira. Depois de muito sorrirem, as duas dormiram, apagaram nocauteadas pelo sono.
No outro dia pela manhã, Katie acordara e ficara observando Dolly dormir e, antes que se desse conta, a garota abriu seus olhos, notando sua presença:
– Dormiu bem?
– Muito...
Dolly sorrira, mordendo os lábios levemente. Após um pequeno silêncio, enquanto as duas se entreolhavam, Dolly dissera bem baixinho:
– Kat...
– Hm?– Sonorizou, ainda encarando-a docemente.
– Obrigada por ter ido me ver... você sabe, ontem.
– Eu não poderia estar em nenhum outro lugar, Dol. – respondera, tocando no cabelo da amiga.
– Te amo - Disse Dolly, emocionada pela resposta que recebera, puxando Katie para um abraço.
As duas se aprofundaram em um forte, longo e carinhoso abraço. Tudo isso seria algo extremamente rotineiro na relação das duas, se não fosse o que viria a seguir.
Saindo do abraço, e ao reencontrar-se finalmente com o olhar de Dolly, Katie sentira uma força impulsionando-a em direção ao rosto de Dolly que, embora estivesse parecendo surpresa com o olhar da outra, não esboçara nenhuma reação. E Katie a dominara em um beijo, num intenso toque de lábios, num misto de emoções e sensações, que Dolly e Katie nem tentaram resistir.
O momento durou por um pouco mais de 1 minuto. Dolly, embora um pouco assustada, a acompanhara no beijo, sem nem conseguir pensar, mas parou o momento, quando retornara a si.
– O que você está fazendo, Katie? Que brincadeira é essa? – dissera Dolly, parecendo aborrecida, enquanto levantava da cama, tentando afastar-se da amiga o máximo que pudesse. Seu corpo continuava sentindo fortes ondas de calor e algo que parecia com pequenos choques elétricos, que tentavam atraí-la de volta à Katie.
– Eu... – Katie realmente não sabia o que dizer, ainda estava digerindo os últimos acontecimentos, e as diferentes sensações que estivera experienciando.
– Você tem namorado! - Disse, como se estivesse concluindo a frase, e como se essa fosse a única razão que impediria o beijo... mas logo percebera que precisaria de outras explicações... para Katie e para si mesma — E... Você sabe que nós somos amigas-irmãs, e... e...
Sem nenhuma condição emocional de conversar no momento, Katie pegara sua bolsa, e saiu do quarto de Dolly, descendo as escadas e saindo da casa tão silenciosa, que os pais da garota nem a viram passar. Dolly até pensara, por um instante, em ir atrás dela, mas desistira, ainda atordoada com o que havia acontecido. De certa forma, teria sido um alívio para ela também, a saída intempestiva de Katie.
Katie caminhara pelo bairro, confusa. Sentara de frente à praia, enquanto tentava entender o que acontecera. Tudo o que tinha feito e sentido... mas principalmente, e o que lhe dava mais medo, entender o porque tinha feito, e sentido tudo aquilo.
Sua relação com Dolly sempre fora diferente das suas demais amizades, e todos sempre lhe disseram isso. E elas também sempre souberam disso, que era algo especial, único... Mas Katie nunca havia sentido algo tão estranho, a ponto de lhe impulsionar a dar um beijo apaixonado na amiga. E por que havia gostado tanto de beijar Dolly? Sua cabeça queimava por dentro, e ela sentira como se fosse desmaiar a qualquer momento, de tanto seu cérebro tentar relacionar os fatos, e elaborar respostas para aquelas perguntas ilógicas, e por tanta angústia que sentia no peito.
Foi quando lembrara de Pitt, e do seu jogo. Recordara, em choque, que tinha sido incapaz de mandar uma mensagem de boa sorte ao namorado na noite anterior, e esquecido de ligar para saber como tinha terminado o jogo. Constatara que, na verdade, ela esquecera de Pitt totalmente, e desabafara sozinha, em um xingamento:
– MERDA!
Começara a pensar no quanto tinha sido insensível com Pitt, e que ele não merecia isso. Independente do que pudesse estar sentindo por Dolly, ou a razão pela qual tivesse agarrado a amiga daquela maneira, Pitt sempre fora um ótimo namorado, e nunca havia feito nada de errado, a não ser gostar dela acima da recíproca verdadeira.
Pegara o celular, e ligara para o namorado, que não atendeu. Provavelmente estaria aborrecido com ela, pensara.
Persistente, Katie fora até a casa do garoto, e a mãe dele, Sra. Gema, lhe deixou entrar. Embora tivesse ponderado por alguns instantes, em frente à porta, se deveria encará-lo naquele momento, a necessidade que ela sentira de estar com alguém que lhe transmitisse segurança falara mais alto, já que depois de Dolly, Pitt era o seu melhor amigo.
A garota bateu na porta do quarto, e entrou. Pitt estava saindo do banheiro, de cabelos molhados, e já arrumado, provavelmente pronto para sair.
– Oh... estava indo te ver. – Disse, abrindo um sorriso, já teria esquecido toda a mágoa que sentira no dia anterior.
– Parece que eu vim te ver antes – Katie tentara sorrir, mas fora impossível.
– Vencemos... - Pitt estava estonteante de felicidade por rever a namorada, mesmo que ainda estivesse chateado pela falta dela na noite anterior. Estivera extremamente ansioso para contar a ela à novidade.
Katie se emocionara com a atitude nobre do rapaz, depois de tudo que ela tinha feito — até mesmo o que ele nem poderia imaginar -, e lágrimas surgiram em seus olhos.
Aproximara-se de Pitt correndo e o abraçara, quase que em desespero. Ingênuo, Pitt acreditara que tudo seria por arrependimento de não ter ido ao jogo, e nem pensara em perguntar o que havia acontecido, decidindo apenas por consolá-la.
– Está tudo bem, está tudo bem... - Abraçou a namorada mais forte, acolhendo seu sofrimento e tentando acalmar ela, que já chorava aos soluços - Shh...
Após acalmar a namorada, Pitt levou Katie até em casa, no seu carro. Durante todo o percurso, Katie permanecera em silêncio, pensativa. Não conseguira deixar de pensar em tudo que havia acontecido nos últimos dois dias. Primeiro teve que escolher entre um ou outro, depois escolhera sua melhor amiga por razões que, a princípio, lhe pareceram óbvias e transparentes mas que, de repente — em apenas um dia -, as razões haviam se perdido em uma lógica irracional e oblíqua, de modo que ela nada mais era capaz de compreender.
Na porta de casa, os dois desceram do carro, e Pitt pensara em entrar com ela, mas Katie lhe cortara, de forma cautelosa, e até meiga:
– Me deixa um pouco sozinha?
– Deixo... - disse, achando finalmente algo de estranho no comportamento da moça, que não poderia ser justificado pelo bolo que teria levado no dia anterior - tá tudo bem?
– Estou um pouco triste... discuti com Dol.
Todos já estavam acostumados às discussões das duas, então ele nem perdera tempo perguntando o que havia acontecido. Pitt apenas sorrira, e abraçara a namorada.
– Vai ficar tudo bem. Logo vocês conversarão, e farão as pazes... você vai ver.
Pitt beijou sua testa, dirigiu-se até o carro, e partira.
Dolly que tinha decidido visitar a amiga, para conversar sobre o acontecido, observara o beijo à distância. Por mais que ela não gostasse de admitir, por ciúmes, sabia que Pitt era um bom rapaz, e que gostava de Katie de verdade. Sentira uma pontada no coração, ao constatar que caso algum dia ela faltasse a Katie, apenas Pitt poderia dar a amiga toda a segurança, carinho, cuidado e amor incondicional que ela sempre lhe dera. Percebera que a conversa que elas teriam, poderia afetar o relacionamento das duas para sempre. Decidira adiar.
Katie observara o carro de Pitt se afastar, virar a esquina, e sumir de suas vistas. Depois virou-se em direção à casa, e foi quando vira Dolly de costas, virando à esquina. Em um impulso, gritara seu nome, e correra atrás dela. Dolly parara, mas continuara de costas, não sabendo se conseguiria encará-la.
Katie chegara às costas de Dolly, que respirara fundo, e se virara, ainda evidentemente envergonhada por tudo que tinha acontecido, com dificuldade para encarar a amiga. Katie adiantou-se, nervosa:
– Desculpa... — pausa - não sei por que fiz aquilo. - Disse Katie, sinceramente.
– Eu só... não esperava. - respondeu, confusa.
– Eu sei. Nem eu...
– Você...? - Tentara perguntar, mas lhe faltou palavras, e coragem. Silenciara por alguns segundos, o suficiente para Katie interrompê-la:
– Não! - Katie respondeu, sem nem esperar a conclusão da pergunta. Não queria ser tachada dessa forma, e temia que Dolly se afastasse dela. Não poderia permitir que isso acontecesse. Envergonhada por sua atitude dessa manhã, quis minimizar o que Dolly pudesse estar pensando dela.
Dolly sentira um misto de alívio e decepção. Podia sentir que Katie não falava a verdade, e se decepcionara um pouco com a falta de confiança da amiga, mas procurou entendê-la, e fingira aceitar sua explicação, por mais inverídica que acreditasse ser. Decidira, por fim, esquecer.
– Bom... - pausou, Dolly, forçando um sorriso - Vamos fingir que isso nunca aconteceu?
Katie sorrira, aliviada, e abraçara Dolly, que também ficara aliviada de não precisar ter outra conversa sobre esse assunto. Katie ainda tentara aprofundar o abraço, embora inocentemente, mas a amiga se retraiu um pouco, se afastando instantaneamente.
Dias se passaram e as duas decidiram esquecer o episódio do beijo. Mas será que será possível esquecer isso por muito tempo?
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