Altos e Baixos
3 Capítulo 2
Faltando dois dias para o jogo, já totalmente ciente de que estaria com o namorado no dia, Katie foi encontrar, como habitual, a Dolly. As duas foram no shopping olhar roupas, e tomar milk-shakes, como também era de costume. Divertindo-se bastante na praça de alimentação, Dolly iniciou um novo assunto:
– Ah, quero te entregar uma coisa.
– O que? – Disse Katie procurando, imediatamente, as mãos da amiga, em busca de algo que nem ela sabia o que poderia ser. As mãos de Dolly estavam vazias.
Dolly sorrira. Katie sempre fora uma pessoa muito curiosa, e Dolly, que a conhecia muito bem, adorava brincar com seus pontos fracos. Após alguns segundos de silêncios, profundamente sofridos para a amiga, Dolly declarara:
– Feche os olhos primeiro. – Katie fechou os olhos imediatamente. Na situação em que ela estava de infinita curiosidade, teria feito qualquer coisa para obter à sua resposta.
Após fechados os olhos, Katie sentira um leve e fino papel ser colocado em uma de suas mãos, de forma carinhosa. Pouco depois, Dolly pegou a outra mão da amiga, e a colocou por cima do papel, de modo que Katie pudesse tocá-lo totalmente. Dolly ficara alguns instantes com a mão por cima das mãos de Katie, mas logo se separou, e a liberou:
– Pronto, pode olhar.
Katie abriu os olhos, e vira um bilhete escrito à mão:
" Tenho uma apresentação de dança amanhã às 19h. :P "
Katie sorrira. Dolly adorava fazer essas coisas, enganar Katie deixando-a curiosa, para depois lhe surprender com uma brincadeira. Às vezes isso era irritante, mas às vezes era engraçado, e até meigo.
– Que bom, amiga! – pulou no pescoço de Dolly, a abraçando, emocionada.
– Soube ontem! – Dolly sorrira, extremamente contente. - Eu tinha ficado em segundo lugar, mas decidiram me passar em primeiro. O coordenador disse que eu melhorei tanto, e em tão pouco tempo, que não merecia outro lugar – disse, enquanto seus olhos encheram de lágrimas, evidenciando a emoção que sentira quando fora valorizada pelo coordenador do espetáculo.
Seria a primeira apresentação da amiga e Katie sabia que ela estaria muito animada, e bastante ansiosa, mesmo que não conseguisse admitir. Dolly sempre fora uma pessoa com dificuldade para falar sobre seus sentimentos, e por mais que sentisse necessidade de desabafá-los, Dolly sempre priorizava a fuga mais cômoda. Por isso, ela tinha o péssimo costume de deixar Katie falando sozinha, em suas discussões.
– Claro que você será minha convidada de honra. Você e meus pais ficarão nas cadeiras da frente...
– Ah! – Exclamou Katie, confusa. Acabara de lembrar de Pitt e da partida final, que começaria no mesmo horário, porém no estádio do colégio em que todos eles estudavam. — E... A apresentação será aonde?
– No centro da cidade. Mas já falei com meus pais, eles te deixarão em casa.
Perguntara sem sucesso. Sentira esperanças por um instante, de que as coisas pudessem ser resolvidas facilmente, sem que precisasse decidir por um dos convites recebidos. Mas tudo parecera conspirar contra isso. Era o mesmo horário e em lugares distantes.
– Dolly, é que...– Katie não sabia como dizer... e nem mesmo sabia o que dizer... — Pitt terá um jogo amanhã...
Dolly lhe olhara, decepcionada. Suas alegrias, sonhos e esperanças esvairam-se de uma só vez, e ela sentira-se incapaz, numa sensação de derrota prévia, em que ela já imaginara se dando mal na apresentação. A participação de Katie era a mais importante, e era exatamente quem ela tinha certeza que não iria faltar. O pai dela, Sr. Walmir, que sempre trabalhara muito, provavelmente nem apareceria lá. Ele nunca fora um homem de "momentos familiares", e sempre preferira entregar-se ao trabalho, ou seja lá ao que, do que a fazer qualquer coisa com a filha. Os dois nunca tiveram uma boa relação, e Dolly sempre fora muito criticada pelo pai, desde pelas suas vestimentas, sempre folgadas, e de cores escuras, à meros elementos de sua personalidade, até as notas escolares, embora a garota sempre tirasse notas altas, e estivesse entre as melhores da sala.
Katie sabia de sua importância para Dolly, e de toda a problemática da garota com seu pai, de forma que os seus sentimentos se misturaram, lhe dando uma profunda sensação de estar magoando a melhor amiga, o que também a feriu por dentro.
– Vai ser a final, e... Eu não... não sei.
Dolly, que continuara encarando Katie sem reação alguma, exceto apenas por uma lágrima que insistira em descer de seus olhos, por fim decidira dizer alguma coisa, colocando um fim à conversa, que tanto a magoara.
– Bom, você que sabe. – Levantou-se da mesa em que estavam sentadas, enquanto era observada por Katie, que realmente mantinha-se muito abalada, por estar sendo capaz de sentir a mesma dor que a outra estava sentindo ao receber uma possível negação. Diante do silêncio da outra, Dolly continuara: - O convite está na sua casa, coloquei na sua mochila hoje mais cedo... Então...– Dolly, nesse momento, começara a evitar o seu olhar, e Katie já compreendera qual seria seu próximo passo — Faça o que você quiser com ele. – Como já imaginado, Dolly saíra, deixando uma Katie petrificada, sozinha no local, que nem mesmo conseguira se aborrecer com essa atitude da amiga, que sempre a irritou bastante.
As duas não se falaram por toda a noite. Katie ligara para Dolly umas 20 vezes, mas não obteve resposta. Sabia que a amiga estava magoada, e sentira-se muito mal por magoá-la. Precisava tomar uma decisão, e tinha que ser logo. Não seria nada fácil escolher pelo namorado, largando a amiga sozinha em um momento tão importante, mas também não seria fácil explicar aos seus pais, e ao Piti, porque estaria lhe dando um bolo, após um mês sendo lembrada diariamente — e exaustivamente — do evento.
No outro dia de manhã, Katie fora até a casa de Dolly, que lhe atendera com o rosto nada amigável. Seus olhos estavam inchados, evidenciando uma longa noite de choros e aborrecimentos. Katie,que pôde sentir todos os sentimentos experienciados pela garota só em olhá-la, abraçara Dolly com força, não obtendo ainda nenhuma reação.
– Não fica assim comigo. — implorara em seu ouvido.
Dolly afastara-se, imediatamente. Normalmente não se incomodaria com isso, mas nesse momento, sentira ondas fortes reacionais à voz de Katie em seu ouvido, que não pôde indentificar, nem compreender.
– Está tudo bem, Katie. Sério. – Dissera, afastando-se ainda mais da amiga, e fingindo uma razão qualquer para entrar no banheiro da sua suíte — Agora me deixe sozinha, está bem?– Disse, lá de dentro, sem sucesso, pois logo ouvira o ruído de Katie sentando-se em sua cama.
– Estou com saudade dessa cama! – Expressou Katie, sorrindo sozinha no quarto. Dolly, que ouvira do banheiro, não se importara em tentar entender, absorta em seus próprios pensamentos negativos sobre o possível mico que pagaria em sua noite de hoje. - Dolly...
Contrariada, a menina olhara do banheiro, respondendo ao chamado da amiga, e vira Katie sorrindo para ela, recostada na cama.
– Fala...
– Eu vou te ver... – disse, baixinho e pausadamente, de modo que Dolly só conseguira entender pela leitura labial.
– JURA?! – Gritara Dolly, enquanto pulara na cama, por cima da amiga.
A relação de Katie com Dolly sempre foi de altos e baixos, ao mesmo tempo que as duas eram unha e carne, às vezes até ossos, em outros momentos as duas tornavam-se implicantes uma com a outra, tinham ataques de ciúmes, e discutiam por qualquer coisa. Dolly possuía o terrível hábito de deixar Katie falando sozinha, quando se aborrecia, levando Katie algumas vezes à sensações de ódio mais intensas. Entretanto, refletindo no silêncio de seus próprios pensamentos, as garotas sempre percebiam os seus erros, e voltavam atrás, retomando o relacionamento como se nada tivesse acontecido. E realmente nada acontecia... nada capaz de separar a forte e profunda ligação que as unia.
No entanto, essa decisão de Katie, realmente não fora a percepção de um erro, já que ela não se sentia errada em acompanhar seu namorado, ou em estar ocupada para um compromisso, que surgiu meio em cima da hora. Pelo contrário, a decisão de Katie refletira apenas a preocupação por um acerto. Katie colocara as duas pessoas, os sofrimentos dos dois, e o seu próprio desejo na balança, e em que intensidade cada um desses sentimentos reagiriam nela. E, assim, Pitt acabara levando a pior.
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