Altharian: The Resistance
7 Capítulo 6 - Sentimentos
Notas iniciais
Olhei para a mulher, Alicia, minha mãe. Ela chorava em minha frente com a mão direita na minha e a esquerda sobre sua boca. Ela me abraçou forte. Eu adoraria poder fazer o mesmo, chorar e sentir a emoção que ela sentia. Mas o que estava no meu peito só era confusão. Aquela era a mãe da qual eu aprendera a não perguntar a anos, depois de ver a fúria de Robert em explicar coisas sem sentidos do porquê eu não poder perguntar nada sobre ela, sobre eles, sobre mim. Ali nossa relação de pai e filho se distanciara e eu passei a chamá-lo sempre de Robert.
Eu não consegui chorar enquanto ela me abraçara e quando ela me soltou limpou seu rosto e passou as mãos molhadas de lágrimas em minhas bochechas falando o quanto parecia com meu pai. Mas ela estava errada. Eu não tinha nada de Robert, ele era alto e forte de ombros largos, nada de seu rosto havia passado para o meu também. Nada nela me lembrava também, a não ser o formado cacheado dos cabelos. Eu não acreditei no que pensei e olhei para Robert, o qual não olhava para cena e estava perto da janela, de costas.
– Robert – meus olhos arderam e eu percebi que estava finalmente quase chorando — Pai...
– Eu não sou seu pai Caleb. – Ele disse, ainda de costas, e quando se virou, vi que tentava não chorar também. Ele andou até mim, olhou para Alicia – Deixe-me falar com ele a sós.
****
Deixar Cal a noite não foi fácil. Ele era meu melhor amigo há anos e sentia que devia estar ao seu lado, protegê-lo não sei de quê ou de como, mas eu necessitava de uma noite em minha cama, em casa. Minha mãe não achou muito estranho quando disse que havíamos encontrado Cal – escondendo o que era preciso – isso me deixou meio surpresa.
Eu entrei na cozinha e o café estava feito, mas não a encontrei na casa. Talvez tenha ido correr. Comi uma torrada com café forte, quando terminei pequei a bolsa no sofá, onde havia deixado. Meu celular tocou quando saia de casa e ia para o carro com as chaves na mão.
– Oi Paul – disse ao atender a chamada.
– Hey, Sam, sabe – ele suspirou – Sam, preciso falar com você...
– Paul, nossa, sei que não tenho te ligado, desculpa. Sabe...
– É – disse ele me interrompendo – sei, que é o lance com Cal. Mas eu tenho que falar com você... Você não está indo as aulas, eu não posso ir te ver então... Não é só isso, claro...
Eu parei virando na porta do carro, encostando-se nela.
– Você está terminando comigo? – minha relação com Paul não era “séria”, claro, mais ainda assim era um tipo de relação...
Silêncio.
– Sam, eu não queria, eu gosto de você, mas você tem outras coisas na cabeça – ele suspirou novamente – outro cara.
– Não é assim Paul... Se for sobre Cal, ele é só meu melhor amigo...
– Eu sei. Mas você não o sente só como amigo. Eu percebo Sam, talvez você não, mas é meio visível. Desculpa. Tchau.
Depois de alguns minutos eu entrei no carro e sentei-me no banco, colocando os braços sobre a direção e a cabeça no meio. Paul terminou o que tinha comigo, estávamos juntos, mas ninguém sabia só nós e Josh. Eu gostava de Cal, mas era como um grande amigo, desde criança eu o queria perto, queria protegê-lo de não sei o quê. Isso estava maior agora, mas eu nunca havia duvidado dos meus sentimentos por ele. Agora... Será possível estar apaixonada e não saber? O celular tocou novamente ao meu lado. Eu peguei e vi o nome de Josh. Mas eu não queria atender. Queria ficar só. Então desliguei a ligação e dirigi. Para onde Cal gostava de “ficar só”.
****
Robert e eu estávamos no meu quarto. Ele tinha me pedido para sentar, o que fiz porque sabia que não aguentaria ficar de pé e ouvir tudo. Ele andou um pouco por meu quarto, vendo a minha bagunça organizada. Os livros na estante, as mesas do computador e de desenhos, ele pegou um rabisco que estava jogado em cima dela e ao observar, um leve sorriso apareceu no canto da boca. Mas rastros de lágrimas ainda marcavam seu rosto. Ele me fitou.
– Eu sempre pensei em como falar isso – deixou o papel na mesa e se aproximou de mim, sentando ao meu lado na cama, ainda bagunçada. – Caleb, Nós não pertencemos a este planeta. Nem a esta galáxia. Sei que pode ser impossível para você acreditar, mas você passou por uma transformação, sabe que não foi normal. – Sim, eu sabia. Sabia que não havia sido algo normal o que aconteceu, e por mais impossível que parecesse, uma parte de mim acreditava inteiramente no que ele falava. Pois era impossível esquecer-se de fatos assim, do nada, ao menos por algum acidente. Era impossível mudar de forma assim, de um dia para o outro. Relances do que havia esquecido veio a minha mente, o mar vermelho, dores... Porém, o fato de eu acreditar no que ele falava era muito mais instinto. – Todos nós passamos. Você é um Althariano. Nosso povo viveu bem com a hierarquia de famílias por longos anos. Até uma delas, os Zarcady, corromperem o Império e trair as leis. – Ele suspirou – Eles tomaram o trono e destruíram a sua linhagem. Eu era amigo e protetor do sucessor ao trono, seu pai, Adam. Ele estava na terra... Ele ficou aqui por alguns tempos.
– Foi quando conheceu minha mãe – disse. Minha voz saiu diferente aos meus ouvidos. Então Adam era o nome de meu pai.
– Sim. Ele quebrou algumas leis – ele sorriu triste. – E quando os traidores vieram o buscar. – ele pareceu enrubescer a falar traidores. – Alicia, sua mãe, me entregou para levá-lo em segurança. Você é a semente, o último e verdadeiro herdeiro ao trono. O nosso povo é muito honrado, bem, ao menos era antes deste golpe. A grande parte do nosso povo vivi agora sobre o regime dos Zarcady. Mas um grupo rebelde, chamado Resistência luta contra essa opressão Caleb, estávamos esperando a sua transição. Só agora você pode ser um guerreiro e liderar nossa causa.
Isso não era um pedido, e não precisava que fosse. Agora eu sentia o sangue Althariano em minhas veias. Eu era um guerreiro.
– Adam, meu pai... Está morto?
– Por anos achamos que sim. Mas descobrimos recentemente que os dois estavam na prisão do Império. Só os mais altos títulos sabiam. A informação vazou, e mandamos dois dos nossos em um resgate. Só Arielle conseguiu sair com Alicia. Mas creio que Adam ainda esteja lá. Então, teremos mais um encargo.
– Por que eles não vieram me buscar também? Digo os Zarcady ou o Império?
– Porque eles não sabem que está vivo. Eles acham que morreu no ventre de sua mãe no dia em que eles vieram buscar a Adam e Alicia. Eu o tirei dela, e o escondi até estar seguro.
– Você me tirou dela? – Disse – vivo?
– Eu tenho habilidades – ele respondeu – Você também tem. E vamos descobrir quais são e lhe treinar.
– E, por que não saiu desta cidade?
Ele pareceu desconfortável antes de me fitar, as marcas do choro já haviam sumido de seu rosto. Os cabelos castanhos com alguns fios grisalhos não afetavam sua aparência.
– Havia algo que me prendeu a esta cidade..
– Sammy. – Disse, depois de um tempo em silêncio – Ela sabe. – Não era uma pergunta, eu sentia que ela sabia. Ouvi sua voz enquanto estava preso em pensamentos de águas escarlates e dores agudas no corpo. A transição. Agora lembrava, perfeitamente.
– Ela nos ajudou, e se saiu muito bem para uma humana. Bem, agora sei o quanto humanos podem ser fortes quando se trata de defender aqueles que amam.
Ele deu um sorriso, e se levantou. Eu o observei pensando que toda raiva que senti quando ele apresentou a fúria de não poder explicar minha situação anos antes, quando era menos. Pensei em como aquela fúria se tornou no visível afeto que ele guardava por mim, e que só agora demonstrara ao falar finalmente toda a verdade que me cercava. Ele fugira comigo, me protegera todo esse tempo, me criara.
– Robert – disse. Ele se virou e me olhou– Não importa o que fez, não importa quem somos. Mas você sempre vai ser um pai para mim. – Ele parou um instante depois daquilo, voltou e me abraçou como nunca tinha feito, depois de uns instantes saiu do quarto.
Depois da conversa com Robert, passei o resto da manhã no quarto, deitado. A garota Arielle levou comida para mim no almoço, fazendo uma piada sobre jovens rebeldes e resistência, “tudo a ver” ela disse. Passei mais um tempo só no quarto e voltei a sair com o fim da tarde. Desci as escadas e passei a sala – não vendo ninguém ali – sai para a varanda e observei o lugar, o céu era laranja entre as nuvens. Fitei minha bike vermelha, mas decidi ir andando, e sai. Sai do terreno na fazenda e entrei na floresta, até chegar no “meu local”. Era a beirada de um riacho, onde havia uma árvore grande e velha. E ao chegar à árvore vi uma figura, uma das tão conhecidas para mim, sentada no pé da árvore. A pele morena e a cascata de cabelos negros. Sammy olhou para mim com os olhos verdes. Estavam molhados, mas ela me deu um sorriso aberto.
– Você já sabe? – ela disse.
– Sim. – Respondi, depois de um tempo.
Eu me sentei ao seu lado. Ela se aproximou de mim, e colocou a cabeça no meu ombro. Passei o braço sobre ela, e ficamos ali observando a água do riacho levar algumas folhas que caiam da árvore. Eu pensando em toda minha história, e em tudo que deveria fazer. Não sei no que ela pensava, não perguntei o que era. Mas acho que estava fazendo meu papel como amigo, reconfortando-a.
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