Altharian: The Resistance

16 Capítulo 15 - Traído


As algemas que prendiam minhas mãos eram feitas de uma energia, alimentada por um dispositivo metálico. Estávamos em uma fila, Ruby as minhas costas. Marche a minha frente. Outros do grupo misturavam-se entre os detidos na fila, enquanto soldados nos guiavam para uma nave muito maior que a da Resistência – a qual havia sido atingida e caíra em uma explosão...

– Eles ainda não sabem quem você é. – sussurrou Ruby.

– Temos que tirá-lo daqui antes de nos levarem a prisão, ou pior, descobrirem quem você é. – Marche falou.

– Alguma idéia?

– Tomaremos a nave.

Um plano provavelmente louco.

Não demorou até que todos os detidos estivessem na nave. Alguns feridos, alguns quase mortos, mas todos com algemas. Sentimos o impulso quando os motores ganharam vida e a nave começou a se erguer no ar. Fomos separados em uns seis grupos, mulheres separados de homens. Fui levado a um compartimento com bancos de metais junto a um grupo de quase dez homens, o único que reconhecia era Marche, que estava sentado em um banco perto da porta.

Dois soldados do Império – fortes em suas armaduras e trajes negros – entraram no compartimento fazendo algo com os dispositivos de cada detido. Prendiam a liga de energia da algema a um dispositivo de ligação no bando, nos deixando ainda mais presos. Quando foi minha vez olhei para Marche, que fez um sinal, eu entendi e o observei agir, tudo em um flash. Ele usou o ombro para acertar um painel de botões, ao lado na porta. Esta se fechou prendendo os dois soldados com os detidos.

Lancei-me para frente, batendo no soldado que iria me prender ao banco, quando ouvi a arma cair, saltei pegando-a. Atirei enquanto Marche dava um jeito no outro soldado.

Os detidos que estavam com a gente no compartimento seguiram com o plano. Sabendo que chamaríamos muita atenção se em número grandioso, agir em escala menor, com descrição era o ideal. Não tínhamos outra opção a não ser o que Ruby nos falara, tomaríamos a nave.

Vasculhamos os bolsos dos soldados caídos, até acharmos a chave das algemas – um mini cartão vermelho, que ao passar no dispositivo, desativava a energia liberando a algema. Pegamos suas armas dos soldados caídos e nos preparamos para sair. Eu, Marche e dois dos detidos. Outros ficaram no compartimente e outros saíram em uma direção oposta da nossa. Somente duas pessoas em cada grupo ficaram com armas, então no nosso grupo, eu e Marche estávamos armados.

– Agiu bem, Caleb. – disse ele, quando saímos do compartimento e andávamos discretamente pelos corredores da nave.

– Adrenalina, talvez.

– Não só agora. Na luta, no ponto de encontro. – ele observou um corredor, estava livre. – Treinado, será um bom líder.

– Mas ainda estamos aqui...

Tentar achar Ruby não era uma prioridade, devíamos chegar à cabine de controle da nave e dar um novo rumo à máquina. Andamos pelos corredores metálicos, sons leves de nossos passos ecoavam. Paramos na curva de um novo corredor quando percebemos uma movimentação, quatro soldados corriam armados pelo corredor.

– Devem ter notado o inicio de nosso golpe – disse um dos detidos, o qual não conhecia.

– Fiquem aqui. – disse.

Marche balançou a cabeça no momento certo. Surgimos à frente dos soldados e usamos as armas, atirando freneticamente em cada um. Faíscas apareciam quando a munição acertava a parede metálica da nave. Quando o último soldado caiu, os detidos que estavam conosco pegaram suas armas também.

Não paramos, andamos mais rápido. Atirando nos soldados que apareciam no caminho, trocando ar armas por de soldados caídos quando a munição acabava. Um dos caras foi morto com um tiro certeiro, e o outro ficara sentado no chão metálico e frio da nave, quando fora atingido na perna.

Então seguimos a sós. Pensei em como estava o outro grupo, e como estariam os que ficaram no cômodo. Viramos mais um corredor e vimos no final uma porta, lisa e branca, que levava a cabine de controle. Um sensor estava ao lado da porta.

Tentei abrir, colocando a mão sobre o sensor. A tela ficou vermelha com o nome “Acesso Negado”, claro.

– Só os guardas devem ter Acesso.

Então, levantamos um dos soldados caídos, minhas roupas ficaram manchadas com sangue do cadáver que usamos para dar acesso à cabine. Quando a porta abriu com um som eletrônico, vi uma sala antes da que ficava o piloto. Com outra porta, mas sem sensor, sem janela, impossibilitando saber o que realmente nos esperava.

– Com calma. – Marche fitou a porta, com a arma apontada, sabia que estava esperando a porta abrir para fixar um alvo. Fiz o mesmo.

Ele chutou a porta, que abriu. E fitei o primeiro alvo, mas parei. Nunca poderia atirar e matar o alvo que vi.

A Cabine de controle da nave era muito maior que imaginava. Tinha a frente um grande vidro grosso, liberando a vista para o céu do crepúsculo altariano. Um grupo de seis pilotos estava em mesas de controle pilotando a máquina em sincrônica. Porém, minha atenção estava focada nela. Ruby.

Ouvi Marche gritar e logo havia caído no chão. Ele não estava morto, mas se debatia e os maxilares forçavam-se fechando a boca para o grito não sair. Eu não entendi logo, mas quando um guarda atirou em mim, um choque percorreu meu corpo e me vi seguindo os atos de Marche, caído no chão.

– Pare! – a voz de Ruby esboçava raiva, mas ao mesmo tempo algo que não identifiquei. Assim como em sua face, quando tentei olhá-la por cima da dor, não reconheci o sentimento.

Quando a dor do choque parou de me percorrer, não consegui levantar ou me mover. Estava parado deitado, imóvel no chão.

– Ele foi bravo em iniciar um pequeno golpe a minha nave. – Reconheci a voz. Kyia. Mão de Ruby.

Ela entrou no recinto, um soldado armado em cada lado. Só agora podia ver o quanto eram parecidas. Os cabelos longos e negros, a pele, os olhos. Ela andou até a jovem e a tocou no rosto.

– Fez um bom trabalho. Bem, poderia ter sido melhor, mas me orgulho. – Ruby não reagiu ao toque, não a olhou nem passou a visão por mim, somente desceu os olhos fitando o chão metálico da nave. Kyia, por outro lado, veio até mim e parou a poucos passos de onde estava paralisado. – Olha, olha. O jovem Líder. Não está tão confiante agora está? – era riu. Ódio foi o que senti. Queria gritar, berrar e xingar Kyia, mas não conseguiria, então não tentei negando-me passar ainda mais por fraco.

Ela me observou.

– Parece tanto com ele. – ela disse isso para si. Então se virou e andou levemente sem rumo. – Sabe o que aconteceu? – ela riu novamente, e parou ao lado de Ruby, esta ainda fitava o chão, agora sem expressão. – Minha filha nunca deixou meu lado. Um pequeno plano só nosso. Ela o observou e o trouxe para mim.

Por instantes eu não compreendi a simplicidade das palavras.

Havia sido assim então. Uma linha de tempo passou por minha mente, me tirando do local. Na primeira vez que tinha visto Ruby, ela estava na floresta, supostamente correndo e estava ferida. Quando descobri a natureza dela, pensei que estivesse me vigiando para a Resistência. Mas em nenhum momento havia sido isso... Ela me observava para Kyia! Dividida, era o que tinha usado para não me levar a Base, mas aquilo tinha quase saído pela culatra quando quase fui resgatado por rebeldes. Porém, algo ainda não fazia sentido...

– Ele ficará melhor do lado vencedor – a voz de Kyia me trouxe de volta a ocasião. – levem-no.

Senti dois soldados erguerem, colocarem novas algemas de energias em minhas mãos e arrastarem meu corpo paralisado observando nos últimos instantes dentro da cabine o rosto inexpressivo de Ruby.

Não poderia ser verdade. No momento que eu sabia o que sentia por ela, uma lâmina fria passava por meu coração e destruía toda esperança de uma história entre nós. Eu não disfarçava, ela me falou. Percebi minha visão borrar e lágrimas deslizarem minha face. Talvez a dor fosse maior de alguma maneira. Talvez fosse ódio.

O caminho que fizeram para me levar até uma cela não fez sentido para mim. Eu ainda estava na nave, sabia disso. Em um espaço quadrado fiquei deitado em uma base dura, que deveria ser uma espécie de cama. Quando finalmente tive poder sobre meu corpo, não me levantei. Somente olhei as paredes metálicas da cela. A porta era como todas outras da nave e também não tinha algum vidro, impossibilitando a vista para fora.

Marche não fora levado comigo e havia ficado jogado no chão, paralisado, na última vez que o vira. Talvez os planos de Kyia para ele fosse uma morte rápida e simples, talvez o torturassem para tirar informações, sabendo que ele não era um simples rebelde. Não sabia o que aconteceria a ele assim como não sabia o que aconteceria a mim.

Eu fora traído. Imaginei qual seria a reação de Andrew quando soubesse da verdade. Ele não gostava de insinuações sobre a fidelidade de Ruby à Resistência, mas era verdade. Ela era a espiã. E por sua causa, estava preso para morrer.

Horas passaram como séculos até que senti a parada, quando os motores da nave cessaram. Era agora. Seria levado a algum tipo de praça aberta para uma execução? Quem olharia nos meus olhos pela última vez que eles brilhassem vida? Parei ao pensar em algo que não havia passado em minha mente até aquele momento, quem era o líder do Império? Seria ele quem eu deveria matar para tomar o trono de Altharian, o qual me pertencia por direito. Mas, pelo rumo que tudo tinha tomado, eu que seria morto pelo líder do Império.

Notas finais
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