Altharian: The Resistance

17 Capítulo 16 - Liberto


A única coisa quente que senti ao atravessar o portal foi a mão de Andrew na minha. O resto era uma onda gelada que cercava cada canto e curva da superfície de minha pele, passando e levando-me de uma clareira morta a uma imensidão escura. Obriguei-me a esquecer o beijo que havia dado a minha mãe, antes de sair da sala a desejando boa noite, deixando-a sem saber que tinha saído às escondidas, na noite fria, para outro planeta. Meus olhos voltaram a focar e vi que, além de escuro, o local onde estávamos era baixo e fechado. Um arco metálico em um pequeno palco marcava onde se via o portal de onde saíra.

O único que estava ali para nos receber era Robert. Eu o abracei, surpreendendo até a mim mesma, mas era um abraço solidário, que dizia que eu o entendia tão bem quanto qualquer outro. Ele correspondeu.

Enquanto andávamos por corredores do que me parecia um bunker metálico e tecnológico, Robert nos falou tudo que estava acontecendo.

Primeiro: Cal quase fora resgatado, mas a nave que iria trazê-lo para base foi atacada – notei seu rosto mudar para dor ao falar sobre a nave, mas não perguntei nada. Ao que tudo indica, ele não estava morto.

Segundo: Arielle teve de retornar para a prisão do Império para obter informações de Adam e resgatá-lo. Porém, não dera certo, e estavam sem respostas de Arielle, somente com download de alguns arquivos que supostamente mostravam um suposto plano do Império.

– O que nos tira totalmente do fato da morte de Caleb. – disse Robert – Os arquivos mostram uma relativa importância dele nos planos do Império. Eles vão usar o garoto, mas não sabemos como, os Cabeças ainda estudam as formulas encontradas. Assim que souberem o que aquilo diz, saberemos com usar a nosso favor.

Terceiro: Adam estava vivo, mas não do nosso lado.

***

Imaginei que quando ouvisse os sons eletrônicos da porta de minha “cela” abrir, soldados entrassem para me levar para a morte. Não foi exatamente o que vi. Olhei o rosto duro de Kyia entrar e ficar de pé a minha frente. Não me movi, um jato de raiva percorreu meu corpo, ela deu um sorriso venenoso.

– Sabe, altharianos tem sentidos muito mais apurados que humanos, viveu muito tempo entre eles para sentir como nós. Bem, não vim aqui para dar aulas para um jovenzinho ridículo. Vim aqui para me vingar.

Ela mostrou-me sua espada. Okay é agora? Não imploraria por piedade, alguém como ela riria de minha cara. Fitei as algemas em minhas mãos e senti. Não um corte final, não um golpe para a morte, mas uma ardência na face. A ponta de sua espada rasgava levemente minha pele, fiquei com receio, mas foi só. Um simples corte na face. Ela se aproximou da porta. E percebi o que tinha feito.

– Eu queria que ela tivesse morrido por minhas mãos. – Ela? – Mas eu não sabia que ela estava na nave para resgatar sua pobre e indefesa cria.

Então entendi. Alicia!

– O que fez a ela? – raiva estava estampada em minha voz, mesmo com algemas movi a mão apontando para ela.

– Nada. Não entende? Ela está morta, mas não tive a chance de matá-la. Matar a mulher que tirou meu futuro rei de mim.

Adam...

– Ele era meu, e ela o tomou. Agora a única coisa que nos lembra desse passado é a cria desta relação. Você. – ela riu com desdém – Eu não posso matá-lo. Não. Mas ainda pode sofre o quando eu quiser que sofra, antes de entregá-lo...

Eu não a ouvi mais. “Não tive a chance de matá-la”, isso não poderia significar o que estava pensando. “ela estava na nave”... Pensei no que passou por minha mente na hora que vi a nave resgate cair e explodir na floresta, “não haveria sobreviventes”. Eu poderia não sentir como se ela fosse realmente minha mãe, mas seu sangue corria em minhas veias, minhas características saíram de uma parte das dela, era impossível não se encher de tristeza, e ódio.

Estava prestes a berrar e avançar a Kyia quando o efeito do veneno começou. Uma ardência me fez gritar de dor e cair de joelhos. Ela riu, fitando-me e lancei-lhe um olhar de fúria, mesmo com a dor.

– Eu não posso matar você, como disse antes, mas isso vai durar um bom tempo.

Ela me fitou durante um tempo, séria. Eu me esforçava para não berrar de dor, mas era quase pior segurar as veias queimando sem gritar. Ela andou até a porta e antes que essa fechasse me olhou com um sorriso. Então falei com toda calma possível em cima da dor, a voz arfando e cortada pela ardência do veneno.

– Vai pagar por tudo.

A porta fechou, mas não antes de eu ver o sorriso de sua face dar lugar a uma grande risada que ecoou pelo corredor.

Eu estava deitado no chão da cela não sabia por quanto tempo. Dores ardentes queimavam-me por dentro de uma maneira que nunca sentira. Nem na transição. Suor descia frio por minha testa. Eu estava fraco, pateticamente, tanto que quase não me movia. Ódio era só o que sentia. Ódio de Kyia por fazer o que fez. Ódio do Império. Ódio de não poder ser a droga de um jovem normal. Porém, acima de tudo, ódio de mim.

A porta abriu-se novamente, eu quase achei que fosse kyia retornando para provar um pouco mais da cena em que estava. Mas a voz que ouvi me encheu de uma dor, inexplicavelmente, ainda maior.

– Cal? – ela aproximou-se e me ergueu, colocando minha cabeça em suas pernas, fitei a face pálida de Ruby, as bordas de seus olhos mostravam o que parecia ter sido fruto de muito choro. – Cal...

– Solte-me! – rosnei fraco, mas não a afastei.

Ruby colocou algo em minha boca, o líquido desceu amargo e fiz uma carreta.

– Você vai ficar bem agora – disse ela.

– O que faz aqui? Já não foi bastante o que fez antes? Trair a mim – falar assim com ela era de alguma maneira cruel a mim, feria a ela, porém, ainda me feria. Senti-me altamente tolo por isso.

– Não temos tempo. – ela suspirou. Nunca a vi assim, mas ela sofria e parecia nervosa. – Eles vão fazer algo. E eu só tenho um jeito de me restabelecer com a Resistência – ela me fitou – e com você.

Ela me colocou sentado ereto na “cama” da cela e usou um cartão-chave para me tirar as algemas. Percebi que o efeito do veneno passava, talvez só por que Ruby me trouxera um antídoto. Então era só para me causar dor e não matar. Ruby organizava uma trouxa, roupas de soldado do Império – Negras, com armaduras prateadas, um capacete compacto – armas e um dispositivo que parecia um bracelete prateado.

– Você irá sair daqui como um soldado do império, a um deles lá na frente da porta da cela. Seu nome é Saneyr, ele é membro da Resistência e irá levar você a...

– Como posso confiar no que diz? – ela parou. Silêncio. – foi o que todos fizeram da última vez. – Disparei.

– Eu tive motivos... Assim como tenho motivos para fazer o que faço agora.

Eu estava pronto para lançar uma dezena de perguntas, acusações, mas ela pegou minhas mãos e disse:

– Cal... Sinta.

Não entendi, mas uma sensação me inundou, era como ser tocado, acariciado... Os pelos de minha nuca eriçaram. Esse é o “sentir” de um althariano? Não notei que tinha fechado os olhos até os abrir e perceber a proximidade de Ruby. Parecia que não estávamos mais na cela, parecia que estávamos em um lugar nosso...

– Também a outra maneira de demonstrar isso.

Ela deslizou para frente, tão perto que pude ver cada ponto de seu rosto. Mas o instinto me fez cair na escuridão e “somente sentir”. Seus lábios macios tocaram os meus. Suavemente laçados em um beijo, parecia que só nós existíamos. A dança de movimentos suaves se tornou mais grosseira. O beijo de Sammy me deixou confuso, o de Ruby, me fazia querer mais. Passei a mão em suas costas, aproximando seu corpo ao meu sem pensar se a machucava. Afastei-me para frente, sentei na ponta da cama enquanto ela sentava em minhas pernas e passava os braços em minha nuca. Ficamos ali, no beijo por uns instantes, ótimos instantes, e tudo a minha volta retornou quando ela se afastou.

– Não temos tempo. – Repetiu, ofegando.

Eu também estava com a necessidade de ar, e não respondi. Ela estava com o rosto vermelho e, provavelmente, não era diferente comigo. Eu realmente não conseguia a odiar.

Ruby saiu de cima de minhas pernas e andou até a trouxa no chão, passou a roupa de soldado para mim e virou-se para a porta. Eu, livre de algemas, retirei os trapos que vestia e coloquei as roupas novas, segurando o capacete de soldado ao lado do corpo. Depois de soltar um “pronto”, ela pegou o tal dispositivo e voltou-se para mim.

– Isso, vai me fazer se passar por você, mas não vai durar muito...

– O quê? Vai se passar por mim?

– Cal, não tem outra maneira. – eu a fitei por um tempo. Nunca sentira ódio de Ruby, claro, eu a amava. Tinha ficado magoado, mas era normal, ela havia me traído e destruído por algumas horas as esperanças de algo entre nós. Porém, pensar nela sofrendo por mim, não era a maneira certa de sair dali, principalmente depois daquilo, depois de saber que era correspondido. – Não me obrigue a mandar Saneyr levá-lo a força.

– Não irei deixá-la aqui.

– Você tem que ir.

Ela colocou o dispositivo que parecia um bracelete no pulso, o acionou e aconteceu. O que eram curvas delicadas passou a ser um corpo reto e um pouco musculoso. O local que a pouco era o rosto de Ruby, estampava-se o meu. Ela era uma versão falsa de mim.

– Vá. Rápido.

Eu não queria. Ela tocou minha mão, e senti novamente. Era amor, mas também um sentimento que dizia “tudo vai dar certo”. Eu a beijei novamente, suave e rápido, então sai da cela colocando o capacete e sendo um soldado falso. Sai com a promessa de retornar, não só pelo trono, mas também por Ruby.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.