Quente. Quente. Muito, muito quente. Era a única coisa em que o homem podia pensar, enquanto corria como um demente recém saído do hospício sem tomar os medicamentos, aspirando o ar seco misturado com as fragrâncias das mais diversas especiarias e outros cheiros muito tão agradáveis. O inferno seria assim?


Rodeado por comerciantes, mendigos e uma verdadeira infestação de pessoas, o soldado quase perdeu de vista seu alvo e estava mais do que disposto a desistir, mas sabia bem o que acontecia aos incompetentes no exército. Ainda mais no esquadrão daquele homem. Podia não ser o trabalho mais agradável do mundo, mas sua família dependia dele.
Seguiu o suspeito jovem de longe até uma espécie de cabana improvisada, que logo descobriu levar a um abrigo subterrâneo. Para sua decepção, entretanto, não só o terrorista não estava lá como apenas algumas crianças e mulheres residiam em seu interior. Havia falhado, mas ninguém poderia culpá-lo de falta de esforço. Entretanto, pouco antes de voltar ao ponto de encontro, foi abordado por uma figura:


— Bom trabalho, soldado, por localizar a base do inimigo.


Era ele mesmo, o temido oficial Fremme "Máquina de Guerra" 'd Elig, com sua característica máscara cobrindo a parte superior da face e cicatrizes pelo que indicavam um passado sinistro; isso tudo em contraste aos belos cabelos loiros. Seria uma honra receber um elogio dele, mas nada pôde ser sentido. Nem excitação, nem medo, nem admiração. Aliás, sequer sua presença foi percebida ao aproximar-se.


— Mas senhor — disse o soldado —, não parecem ser os terroristas responsáveis pelo atentado. Vejo apenas crianças e mulheres inofensivas, e nosso homem não está entre eles.


— Eu não teria tanta certeza. Parece que você não sabe a história completa por trás de nossa missão, certo? Muito bem, suponho que temos algum tempo. Soldados, terminem o trabalho aqui!


Mal deu a ordem e vários tiros ecoaram pelo bairro, indicando a execução dos terroristas. Essa era a rotina diária do Império de Rabik após o conflito com o minúsculo Reino de Lernes, ou ao menos o que era ensinado nas aulas de história. Tudo começou com o sequestro do sucessor ao império de Rabik, cuja autoria fora atribuída à sua esposa, pertencente à família real de Lernes, e com isso ganharia o poder e unificaria as duas nações.
Por pura coincidência, o tal futuro imperador decidiu aparecer justo quando Lernes havia sido completamente varrido do mapa pela força bélica superior de Rabik. As cidades mais importantes foram postas em chama, a família real feita de prisioneira, os homens mortos e as prósperas jazidas de minério foram tomadas como espólios de guerra.


Essa foi a Guerra de 1 dia. Que na verdade durou só 12 horas, mas não teria graça terminar assim; fora que o general estava com uma dor de barriga terrível. Como Lernes não existia mais, os poucos sobreviventes viram-se obrigados a engulir o orgulho e sobreviver dentro do império. Claro que as nações inimigas aproveitaram esse ressentimento para abalar o império internamente.


E foi esse jogo de intrigas políticas responsável pela situação atual: terroristas cada vez mais jovens espalhando o caos enquanto o império tenta manter-se estável às custas das nações dominadas. Ódio gerando mais ódio, que gera mais ódio. Conta-se que um dos líderes dos terroristas só usa roupas e acessórios fabricados a partir de pele, cabelos, unhas, dentes etc. de seus inimigos.


— Exagero, ele é um grande aliado nosso — corrigiu Fremme.


— Senhor, espere só um momento, estou confuso. Nossa missão aqui é proteger a família real, certo? Então por que diz que o líder dos terroristas é nosso amigo? Embora, penso eu, eles não estejam lá tão errados em querer derrubar seus opressores. Não que eu apoie, claro!


— Soldado, é bom tomar cuidado com o que diz. Nem sempre opiniões pessoais são muito bem-vindas... Enfim, a Aliança está acima dessas infantilidades todas. Quem está com a Aliança é um amigo, e do contrário inimigo, simples assim.


Em "infantilidades", Fremme enquadrou todo o complicado e cruel esquema político gerado pela guerra, incluindo certos fatos sobre o grupo terrorista nacionalista. Para suprir a falta de homens, por exemplo, jovens foram recrutados para exércitos de países inimigos a Rabik. Sendo submetidos a experiências reais de combate e treinamentos que faziam soldados comuns chorarem, as crianças foram obrigadas a defender os interesses de governos do qual nunca ouviram falar na vida, apenas para voltarem como bons terroristas.


E por crianças, naturalmente, estão incluídos meninos e meninas, muitas vezes submetidas a tratamentos hormonais para adquirirem características masculinas. Também eram necessários inocentes para despistar as autoridades, então os julgados não aptos a atividades terroristas tinham inibidos seus hormônios do crescimento para posarem como eternas crianças junto às suas mães postiças.


Não que os perdedores da guerra estejam isentos da culpa; muito pelo contrário, já que tudo isso só foi possível porque os líderes do futuro grupo terrorista logo buscaram ajuda das nações rivais e foram beneficiados com privilégios, status e poder. Principalmente poder.


— Mas já chega dessa tolice. A propósito, soldado, como você não sabe da história completa, suponho que ainda não esteja a par da segunda parte da operação. Escute bem...


Momentos depois, Fremme encontrava-se no palácio real, tendo cumprido sua parte do acordo. Estava em um encontro mais ou menos informal com a família principal, fingindo estar surpreso com a desnecessária perda de dinheiro que seus clientes chamavam de arquitetura moderna. O gordo imperador balbuciava qualquer porcaria sobre a qual Fremme não tinha o mínimo interesse:


— É bom saber que esses bárbaros finalmente tiveram seu fim, sabe. Não me entenda mal, tenho muita pena de como eles de repente foram humilhados em guerra e ficaram sem pátria, mas terrorismo é um crime hediondo contra a humanidade. Na guerra não é nada pessoal, mas sabotar indústrias, despedaçar famílias, estuprar mulheres e conspirar para a destruição de uma nação só por uma vingança barata em tempos de paz? Oras, isso é um absurdo.


Fremme fitou as janelas e por um momento pareceu esboçar um sorriso de alívio, mas só pareceu. Seus homens carregavam pesados barris e documentos que pareciam ser muito importantes. O imperador novamente tomou a palavra:


— Como prometido, estamos pagando sua graciosa companhia com nossas reservas de petróleo e as localizações de alguns pontos não explorados onde acreditamos haver mais dessa substância. Sinceramente, estou feliz de me livrar dessa dor de cabeça; hoje em dia, em pleno processo de modernização, só os países mais rústicos e ultrapassados ainda dependem de petróleo. E a quem todos os coitados recorrem? Justamente a nós. Mas pagar pelo produto? Não, isso não querem fazer. Enfim, agradeço profundamente.


— Não precisa agradecer. A Aliança está sempre disposta a ajudar aqueles que visam o progresso, mas será que você está realmente disposto a avançar?


— Espere um minuto, capitão — exclamou o nobre, logo mudando de humor —. O que quer dizer com Aliança? Vocês não eram uma organização militar de confiança?


— Não deixa de ser verdade. O problema, meu amigo, é que você não é um homem de confiança. Mentiu na última reunião internacional, e já cansamos de fazer vista grossa às suas transações secretas. Mesmo agora sabemos que ainda há reservas abundantes de petróleo para abastecer os países que não querem aderir à tecnologia AE. E nem pense em fazer qualquer coisa, pois enquanto estava nos dando suporte na caça aos terroristas, seus confiáveis generais planejavam um golpe de estado.


Ficou claro que ninguém prestava atenção às palavras de Fremme, à medida que todos os nobres buscavam escapar de qualquer forma. Era tarde, entretanto. Todas as saídas estavam trancadas e o soldado os fitava com uma bomba em mãos. Desesperada, a esposa clamou pela vida de seus filhos, ao que Fremme friamente respondeu:


— Como seu marido disse, não é nada pessoal. Não foi necessariamente culpa de vocês começarem aquela guerra ridícula, nem dos terroristas terem feito o que fizeram. Mas alguém precisa pagar e outro alguém precisa levar a glória. Os primeiros são vocês e os últimos somos nós, a representação ativa da justiça.


Com essas palavras, Fremme arremessou a bomba, resultando uma explosão que iluminou a triste noite da cidade e marcou o início da Revolução da Justiça, como viria a ser conhecida no futuro. Como se excitados por uma queima de fogos de artifício, revoltas explodiram em toda Rabik simultaneamente. Enquanto isso, os soldados da Aliança, após o sinal de Fremme, lançaram fogo ao palácio.


Horrorizado, o soldado iniciante questionou o vice-capitão quanto à segurança do líder. Este retrucou gentilmente, como um tutor paciente:


— O senhor Fremme não recebeu a alcunha "Máquina de Guerra" por nada, sabe? Veja só, ele está vindo aqui agora — disse apontando em direção às chamas.


De fato, lá estava ele. Praticamente sem ferimentos, salvo por alguns estilhaços que parecia ignorar, Fremme simplesmente organizava o resto da missão ao seu estilo: impessoal, apenas fazendo seu trabalho. E por que havia de ser algo diferente? Apesar de afirmar estar à favor da justiça, a verdade é que Fremme não se importava com nada disso. Nem vingança, nem terrorismo, nem justiça.


Estariam os terroristas errados, ou Rabik errou ao declarar a guerra? E a Aliança, tinha o direito de interferir na questão com sua própria visão? Tanto faz. Cada um estava seguindo seu caminho, e não havia nada de errado nisso. Do mesmo modo, ele estava apenas garantindo seu sustento e ficando mais próximo de seu objetivo.


Sim, ele. Fremme podia adotar uma postura imparcial a tudo, e efetivamente era neutro e frio em todas as suas ações e pensamentos, mas tinha consciência de seu calcanhar de Aquiles, sua obsessão, seu desequilíbrio: Daisuke. Imerso em seus próprios devaneios, o oficial soltou uma gargalhada sem controle, abafada pelos intensos barulhos do golpe. "Só mais um pouco e você estará na palma da minha mão" disse a si mesmo, caminhando em direção ao seu próximo destino.