Als Tome, o livro de uma página

2 Capítulo 2 - Als Tome, o poder de uma página


Notas iniciais
Mesmo depois de tudo, Hakanoth não parece nem um pouco abalado, pelo contrário, ele parece feliz ao descobrir um novo mundo.

Perdido sem saber o que estava por vir, portando apenas as roupas do corpo e um livro completamente sem utilidade, eu admirava a bela paisagem enquanto me esquecia do quanto aquilo tudo havia destruído a lógica do mundo que um dia eu conheci. A brisa das planícies era algo que eu nunca havia experimentado, a sensação refrescante da natureza em seu pleno estado me fez sentir revitalizado e o brilho leve da lua surgindo ao horizonte, era de um prateado tão puro que me recordava uma sensação nostálgica, como se fosse a primeira luz que eu vislumbrava na vida. Naquele momento a humanidade renasceu para encontrar um novo fim, um fim inesperado.

Quando voltei ao meu estado lúcido, percebi o quanto a situação estava fora de controle, não havia uma única alma viva dentro do meu campo de visão. Sem saber o meu paradeiro, comecei a caminhar pelas redondezas em busca de algum alimento, havia algumas árvores frutíferas que até o momento eu desconhecia. Apanhei alguns frutos, sua cor avermelhada e forma lembravam-me a de um morango, porém eles eram quase do tamanho de uma bola de beisebol. Se era ou não comestível? Não fazia diferença, eu estava faminto e não havia outra opção. Para minha sorte, elas eram bastante ácidas como abacaxis, mas eram deliciosas. Enquanto saboreava uma, ouvi uma voz falando comigo.

–Ei... Eu também tenho fome, poderia me arrumar uma dessas?

Eu procurei pela dona da voz, mas não consegui encontrar ninguém por ali, seria alguma assombração ou algo do tipo?

–Aqui em baixo Haka!

Eu não consegui acreditar no que estava diante mim, o livro, em sua capa havia um rosto! E estava a falar comigo! Logicamente eu tomei um susto, afinal não é sempre que se vê um livro falante pedindo por comida! Eu, desconfiado pedi uma explicação ao livro, finalmente fez sentido o momento em que a voz misteriosa disse “dane-se, o livro que se vire com vocês”.

–Haka, eu sou a personificação da sua alma! Na verdade, ainda não, pois acabei de despertar e não completei o processo final que me foi ordenado. Todos os seres humanos receberam seu próprio livro, cujo dever é transformar-se em um companheiro fiel, o que está por vir não é algo que os seres humanos possam enfrentar sozinhos, por esse propósito nós fomos criados. Depois que o processo for concluído você se tornará um semideus. Eu, que sou apenas um livro, tomarei a forma que sua alma me conceder, e seus poderes também serão moldados por alguns destes parâmetros.

Minha mente estava toda bagunçada, semideus? Eu? Por quê? Como? Isso realmente é possível? Mas espere, o livro estava falando comigo? Personificação? Alma? Ah era tudo tão confuso que eu não consegui criar um sentido para o que foi dito. Eu simplesmente aceitei meio que inconscientemente e perguntei o que eu queria saber.

–Então, esse processo final do qual você fala, como ele acontece?

O Livro não se deu ao trabalho de me responder, ele abriu-se por conta própria e a página em branco de uma forma inexplicável esticou-se envolvendo meu braço direito.

–Não se mova.

Disse o livro, enquanto uma energia fluía do meu corpo para ele através da página, eu não conseguia compreender o significado daquilo, mas aceitei de bom grado, eu não sabia o que estava acontecendo e isso me deixou completamente fixado em descobrir o desfecho.

Repentinamente o fluxo cessou, a página regressou ao seu estado normal, mas desta vez havia algo escrito, havia um círculo cheio de símbolos que eu nunca havia visto e no rodapé da página o meu nome estava assinado e com a minha letra. O livro fechou-se e emitiu uma luz ofuscante me deixando novamente incapaz de ver por alguns segundos. Ao recobrar a minha visão, no lugar do livro havia uma garota! Ela me causou muita confusão na hora, era muito parecida com alguém que já conhecia. Mas suas primeiras palavras de certa forma esclareceram minha mente.

–O processo final está concluído, agora eu realmente sou a personificação da sua alma. Aquele livro é apenas a nossa forma primária, a forma que temos antes de nos ligar à alma de nosso mestre. É um prazer conhece-lo Haka!

–O prazer é me... Um escambal! Você é aquele livro? Se você é a personificação da minha alma, quer dizer que eu tenho a alma de uma garota? Está querendo me irritar ou algo do tipo?

Foi o que eu disse na hora, um pouco nervoso com o jeito despreocupado dela de falar, realmente se parecia com a minha conhecida, não só fisicamente. A personalidade e até o sorriso...

–Acho que eu me expliquei de forma errada, eu não sou a forma da sua alma, ela me deu uma forma, a forma que a inspira. Ah... Esses jovens, os humanos são realmente interessantes Hahaha.

Ela segurou minhas mãos e perguntou-me qual seria seu nome, Eu pensei em dar a ela o nome da pessoa a quem ela me lembrava, mas resolvi que não seria uma boa ideia. Melina, foi o nome que eu escolhi para ela, depois de tanta insistência da parte dela, dizendo que escolher seu próprio nome era algo inaceitável para ela e seus companheiros.

–Agora que meu nome foi escolhido, a nossa ligação está completa. Haka, a partir de hoje, estou em suas mãos! Seus poderes agora estão livres, você está livre para usá-los como quiser.

Seria outra liberdade falsa? Ou eu estava realmente livre desta vez? Eu não fazia ideia, então resolvi solver minhas duvidas com a ajuda da Melina.

–Então, o que exatamente eu posso fazer agora Melina?

Ela parou olhando para mim fixamente. Refletiu e disse com todas as letras tudo o que eu não esperava ouvir.

–Eu não faço a mínima ideia! Hehe.

Eu tive um pequeno atraso de reação, pois era difícil aceitar que a minha suposta guia não fazia ideia do que eu poderia fazer com os poderes que ela mesma me deu.

–Como assim você não faz ideia? Não foi você mesma quem me deu eles agora?!

A questão é que ela não me concedeu os poderes, eles já existem dentro de cada ser humano, mas permanecem selados, ela apenas removeu o selo. Os poderes humanos não são definidos por alguém, na verdade, nem mesmo Deus sabe o poder que cada ser humano pode desenvolver. Foi uma espécie de erro dele ao criar a humanidade, alguma espécie de “Bug”. Não só a humanidade, os próprios anjos também foram assim. Algumas teorias existem, mas são apenas teorias e não cabe falar sobre elas no momento.

Exausto por causa da caminhada, resolvi dormir. Juntei algumas folhas caídas embaixo das árvores e fiz um bom lugar para dormir. A Melina ficou olhando fixamente para mim, como se estivesse me vigiando... Isso me impediu de dormir. De certa forma era engraçada a forma como ela me observava, como se eu fosse fugir a qualquer momento. Ela parecia estar realmente com medo de ficar sozinha.

Com o nascer do sol, a paisagem estava ainda mais encantadora que antes, eu me levantei e caminhei até um pequeno lago que eu havia encontrado durante a caça por alimento do dia anterior. Havia um jovem lá, estava aparentemente pescando. Um garoto de aproximadamente 15 anos. Ele cuidadosamente levantou-se ao me ver, ele estava com uma balde de madeira cheio de peixes, parecia não querer dividir.

–Essa comida é minha seu velho, não vou te dar nada!

Aquele moleque mal educado, eu não havia dito uma única palavra e ele já estava sendo grosso comigo. Ao ver a Melina ele ficou todo derretido, afinal ela era linda e ainda hoje continua sendo.

–Seu fedelho da cabeça grande, em primeiro lugar eu não sou velho coisa nenhuma. O que significa essa expressão alegre ao olhar para a minha amiga aqui? Mesmo sendo grosso comigo agora vai dar uma de carinha legal?

O garoto começou a falar asneiras e palavrões até ser interrompido por um outro rapaz que chegou vindo da floresta atrás dele.

–Ora, desculpem a grosseria do meu mestre, ele é um garoto mimado, peço perdão em nome dele. Vejo que vocês já realizaram seu contrato. Esta bela jovem já contou-lhe toda a história rapaz?

Disse o rapaz que cuidava do garoto, aparentemente era a forma humana de seu livro. Ele estava vestido como um mordomo, isso era intrigante. Parece que a personificação não segue um padrão estético e nem psicológico.

–Finalmente alguém educado pode conversar comigo, eu sou Hakanoth Hart. Presumo que você seja o livro guia deste pirralho, estou certo?

–Sim, fui nomeado como Arkantus. Devo pedir que não utilize este termo “livro guia”, para referir-se a nós, parece uma forma subestimativa de se referir aos meus companheiros. Nós somos Als Tome, este é o nosso nome na forma de livro.

Me senti um pouco mal por tê-lo chamado da forma errada, então o certo era um pedido de desculpas, afinal ele poderia ser útil. Ele aparentava ter mais conhecimento que a Melina, então resolvi utilizar uma mascara para fazê-lo simpatizar comigo.

–Me perdoe, Melina não me contou sobre este termo. Não foi minha intenção ofendê-lo. Então, por curiosidade, você sabe qual é a habilidade que seu mestre possui? Melina não pôde me ajudar neste quesito.

Ele então respondeu.

–Sim, mas somente sei por que ele conseguiu utilizá-la hoje de manhã. Não há como saber a habilidade de alguém antes de vê-lo utilizar. Além disso, não posso lhe contar, pois o motivo para todas as pessoas terem sido isoladas umas das outras, é para que não haja alguém para ouvir sobre o seu poder ou vê-lo utilizando.

Quanto mais eu ouvia sobre, mais confuso eu ficava. Muita informação sem conhecimento prévio do assunto gerou um conflito de questões em minha cabeça. Sem nenhuma mente para extrair informações eu me senti completamente perdido. Era quase um pesadelo.

–Obrigado por não contar sobre o meu poder de troca equivalente Arkantus! Hahaha Ele nunca vai saber que eu posso destruir materiais para obter objetos feitos com eles hahahaha!

Disse o garoto mostrando ser um completo idiota...

–Mestre... Como pode ser tão idiota?

–Oh... Droga! – Exclamou o jovem idiota.

Notas finais
Obrigado pelo seu tempo, espero que tenha gostado. Deixe sua opinião, ela é muito importante!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.