Capítulo I – Parada em Utah

Eu sempre gostei de visitar a vovó. Ela morava em Windsor, uma cidade pequena, no interior do Colorado. Os pouco mais de catorze mil habitantes eram pessoas calmas e tranquilas, que trabalhavam em geral no campo ou em serviços comunitários, mantendo a cidade sempre limpa e feliz. Apesar de adorar passar as férias lá, tudo aquilo me estressava às vezes. Talvez fosse aquela serenidade excessiva, já que as coisas por ali eram bem diferentes da Califórnia.

Meu nome é Dustin Tyler Parker — ou simplesmente Dustin, se preferir. Tenho catorze anos e nasci em Los Angeles. O distrito de Venice sempre foi meu lar. Quando era menor, eu adorava caminhar pela calçada da praia aos domingos para levar o Slink, meu salsicha, para passear (sim, eu adoro Toy Story). Eu estudava na Venice High School e cursava o nono ano do ensino fundamental. Nunca fui um bom aluno em álgebra ou química, mas me dava bem em línguas. Tinha alguns amigos, em especial Ana e Matthew. Todo fim de semana íamos ao Píer e depois ao Majestic em Santa Monica assistir aos novos filmes em cartaz — o mais legal de se morar em L.A. é ser o primeiro a saber das novidades de Hollywood. Enfim, éramos inseparáveis. E tudo ia correndo bem, até aquela tarde de quarta feira, na primeira semana das férias de verão.

Papai recebeu um telegrama da promotoria de justiça do estado do Colorado, alegando que um tal de tio Albert havia falecido e nos deixado uma casa em Windsor em seu testamento. Não lembrávamos de nenhum Albert na família, mas pelo telefone vovó garantiu que ele era um parente distante de meu pai, e que a casa em questão era muito bonita, e próxima a sua. O fato é que não tínhamos uma vida financeira muito estável em L.A. Papai trabalhava como redator em um jornal local e mamãe fazia bicos como empregada doméstica. Eles sempre sonharam em poder mudar para um lugar mais tranquilo, onde pudessem me dar uma qualidade de vida melhor, e essa era a oportunidade que faltava.

Eu particularmente amava a California. Minha infância, meus lugares preferidos, meus amigos, todos estavam lá. Eu não queria mudar, mas sabia o quanto aquilo faria meus pais felizes, então não tive escolha. Papai fora conhecer a casa no dia seguinte, e acabamos por viajar no fim de semana, mesmo. Ana e Matt me ajudaram com as malas.

- Você não vai esquecer da gente, não é mesmo? – disse Matt choramingando, socando um par de meias roxas no maior dos malões.

- Visitas mensais, eu prometo. – Eu já havia conversado com meu pai, e ele havia autorizado que eu voltasse a Venice um fim de semana por mês para rever meus amigos.

- Tenha cuidado com as garotas do interior– alertou Ana, enrolando os cabos do meu Xbox e colocando-os dentro da pasta do game -, são as piores!

- Pode deixar, Pequena. – respondi, jogando uma almofada em sua cabeça. Eu tinha leves suspeitas de que ela tinha uma queda por mim, desde as indiretas deixadas de leve no ar, até o último presente de aniversário que ganhei: um enorme urso de pelúcia segurando um coração com os dizeres “EU TE AMO”, em letras garrafais.

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Papai buzinou quatro vezes do carro. “George” e “paciente” na mesma frase, só se forem separados por “não é nada” no meio. Ele é um daqueles caras de meia idade, com trinta e poucos, nem lá nem cá. Tinha cabelos castanhos e pele clara como a minha. Mamãe passou na porta do quarto nos apressando também. Ela deve ter 1,60 de altura, não mais do que isso, mas é muito bonita: cabelos loiros, pele bronzeada e olhos verde-acinzentados, herança minha. Quem os vê hoje não consegue imaginar a forma em que se conheceram. Papai mandava bilhetes toda semana para minha mãe na época de colegial (algo como “Susie, me encontre no ginásio depois do sexto tempo”, ou “Susie, saia comigo no fim de semana, por favor!”), mas ela nunca deu muita bola pra ele. Por fim, acabaram casados.

Meus amigos ajudaram a carregar as malas para fora, onde o caminhão de mudança estava a nossa espera. Eu não tinha muita coisa para levar: um malão de roupas, uma caixa com meus jogos e filmes, meu violão, meu notebook e alguns livros. Ah, e é claro, meu colar preferido, que eu ganhei da vovó no meu sétimo aniversário. Ele era de madeira, simples, com algumas letras grafadas em latim arcaico. Ela me recomendou nunca tirar, pois traria sorte e proteção, mas parecia ser mais uma dessas conversas de avó para valorizarmos os presentes que elas nos dão – mal esperava eu... Separei uma mochila com um livro chamado Coração Ferido, um pacote de cookies e uma garrafa de Coca 600 ml para a viagem. Me despedi de Ana e Matt com um abraço apertado em cada um (e alguns beijinhos exagerados por parte dela) e entrei no carro para meu futuro na “cidade-fantasma”. Pelo menos havia uma coisa boa no meio disso tudo: nossa casa estava à venda, e assim que o dinheiro entrasse, nunca mais iríamos nos preocupar em passar necessidade na vida. Tentei me animar, mas era impossível no momento.

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A viagem até Windsor iria demorar dezessete horas, então, por mais cedo que saíssemos, iríamos chegar somente no outro dia. Papai dirigiu a primeira etapa. Entramos em Nevada pouco antes do meio-dia e paramos para almoçar em Vegas – e eu posso afirmar: lá não é tão magicamente bonito assim a luz do dia. Dormimos num hotel beira-de-estrada, desses de posto de gasolina, na região de Utah. Meu quarto era o 14, em frente ao dos meus pais. Sempre tive muita liberdade em relação a minha privacidade, o que era ótimo. Deixei minhas coisas no carro, exceto a escova de dente e meu travesseiro. Era uma noite clara e quente. Fiquei sentado na minha cama olhando pela janela, sem realmente ver o grande Green River à encosta da estrada. Pensava nos meus amigos, na minha antiga casa. Não queria deixar aquilo tudo pra trás, mas era necessário. Teríamos uma vida muito melhor em Windsor. Maldita Windsor! Lugar inútil, sem vida. Seria difícil me adaptar a uma rotina de um vegetal.

E foi perdido nesses pensamentos de como seria minha vida dali para frente que eu as vi pela primeira vez. Notei uma movimentação estranha no horizonte escuro, dois pontos crescendo de repente, tomando forma. Parecia ser... não, não podia. Mas era! Ou melhor, eram: dois vultos de forma humana desceram voando do céu e pararam em frente ao hotel. Pela estatura e modo de andar, pareciam mulheres. A primeira era um pouco mais baixa e atarracada — pude ver o espelho de seus cabelos louro-prateados brilhar contra a luz da lua. A segunda carregava algo nas mãos, mas não consegui identificar o que era. Seus cabelos, ao contrário dos da companheira, eram negros, muito escuros e compridos. Ambas estavam com uma capa escura e capuz na cabeça. Elas se aproximaram calmamente da porta de entrada e bateram. O meu relógio marcava 11:30 p.m., então imaginei que o dono estaria pronto para dormir em seu quarto. Ouvi um grito de “Entrem, eu já vou!”, e em seguida as duas haviam entrado no hotel. Eu não podia acreditar! Pensei em acordar meus pais, mas eles com certeza achariam que eu estava enlouquecendo (ou apenas inventando uma desculpa para arruinar a mudança). Decidi que havia apenas sido a minha imaginação, afinal foram doze horas de viagem até ali. Deitei em minha cama, mas tudo o que consegui foi não parar de pensar no que acabara de ver – ou imaginar. Por fim, adormeci sem perceber.