Alquimia I - a Ilha dos Bem Aventurados
4 Capítulo IV – Uma temporada no porão dos Von Ducan
Capítulo IV — Uma temporada no porão dos Von Ducan
Agora sim, nada mais fazia sentido. Agarrei o pacote colorido aos pés do armário e atravessei o portal para o corredor. Cheguei à sala e ouvi vovó praguejando algo como \"MALDITOS!\" logo atrás de mim, então percebi que a batalha havia se estendido para fora da cozinha. Passei veloz pelo sofá e entrei no hall. Quando cheguei à porta, ela se abriu pelo lado de fora e dois vultos muito rápidos agarraram meus braços e me carregaram para o jardim. Com uma súbita corrente de pânico, percebi que eram as duas mulheres do hotel em Utah. Elas trajavam vestes verdes, longas, e eram incrivelmente fortes.
- Quem... Quem são vocês? — consegui dizer, enquanto elas se dirigiam até o meio-fio levando-me nos braços como uma sacola da Wal Mart, a mais de trinta quilômetros por hora.
- Não fale nada, apenas ouça — disse a morena. — Você está em perigo. Se alguma ameaça se aproximar, use isso. — Ela arrancou o pacote dos Von Ducan das minhas mãos e abriu-o magicamente com um toque. Enfiou o braço nos farelos de isopor e retirou de lá um anel de prata, com um ?P? grafado na parte superior.
Consegui coloca-lo no dedo médio da mão direita no exato momento em que a loira gritou ?Prepare-se, vamos decolar!?. Queria saber como se usava aquela coisa, mas minhas palavras ficaram presas na garganta no momento em que meus pés afastaram-se do chão a uma velocidade ainda maior e alçamos voo sobre a cidade, com o meu coração quase saindo pela boca.
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Seguimos pelos telhados altos das casas até alcançarmos a linha férrea e começamos a seguir a sudeste, em direção ao distrito de Greeley. Notei alguns trabalhadores rurais se dirigindo para as fazendas ao longo da ferrovia, carros passando rápidos pela CO-66 e um leve desconforto estomacal, que certamente terminaria em vômito, crescendo dentro de mim. Quando nos aproximamos da estação Greeley-Windsor West, a garota da direita falou:
- Mary, parece que temos companhia...
Quando virei o rosto para ver o que ela quis dizer com aquilo, percebi que estávamos sendo seguidos de perto pelos dois combatentes da minha casa nova — e eles pareciam realmente furiosos. A garota que se chamava Mary tirou um pequeno frasco do bolso e atirou contra os homens orientais. Ele estourou no ar e liberou uma fumaça verde que envolveu os dois na mesma hora. Eles perderam altitude e pareceram desacordados momentaneamente, mas logo se recuperaram e voltaram a nos seguir. O mais velho tirou uma espécie de varinha de madeira do bolso e apontou para mim. Um jorro de luz branca saiu da ponta do objeto e passou sobrevoando o lugar onde estivera minha cabeça uma fração de segundo antes de mergulharmos em direção a um lago, logo abaixo.
- Stacy, o que fazemos agora? — gritou Mary.
- Eu achei que você poderia me dizer! — retrucou ela.
Dois metros antes de colidirmos com a água, fizemos uma curva de noventa graus e seguimos voando rasteiramente pelos campos de trigo, com os dois homens na nossa cola. Quando um fio de luz recomeçou a aparecer no que eu deduzi ser uma varinha mágica, lembrei-me do anel. Mesmo sem fazer ideia de como funcionava, só consegui mentalizar uma coisa: ESTAMOS FERRADOS! NOS AJUDE, POR FAVOR! O feixe de luz veio em minha direção novamente, e pelo visto as garotas não pareceram perceber desta vez. Fechei os olhos esperando pelo impacto, mas nada aconteceu. Os reabri, e vi o homem que me atacou despencando, fora de combate — e, para meu espanto, uma bola de energia em nossa volta, brilhando quase transparentemente. Seu companheiro o seguiu e desapareceu no meio de um milharal. As duas garotas pararam flutuando no ar.
- O... Que... Foi... Isso?! — consegui dizer, as palavras falhando.
- Enfim, você é realmente o escolhido. — disse Stacy, não parecendo muito surpresa com o que acabara de acontecer.
- May estava certa. Depois de tantos anos... — completou Mary.
- Mas de que diabos vocês... — mas fui interrompido por Stacy.
- Não diga nada, você terá muito tempo para questionar depois. E agora, pra onde vamos levar o garoto?
- Não sei... Quem sabe ele não possa ficar um tempo com os Von Ducan?
- Parece ser o mais seguro no momento. Vamos.
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Assim que aterrissamos no quintal da família de Paul, um grande grupo veio correndo nos receber.
- Meu deus Dustin, você está bem? — vovó correu em minha direção, mancando.
- Vovó, eu... — olhei para meus pais, para as crianças Von Ducan, para as duas moças cansadas que estavam comigo, e então simplesmente desmaiei.
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Acordei em uma sala escura, sem janelas e muito mofada. Comecei a espirrar na hora.
- Ele está acordando — ouvi a voz de mamãe ao meu lado direito, mas não a vi.
- Muito bem, muito bem. — disse vovó, não muito longe da minha cama. — Suba Nico, nós estamos logo atrás de você.
- Estarei na sala de estar — respondeu a voz grave de um homem, que eu não identifiquei. Uma porta bateu, e ouvi passos se aproximando do lugar onde eu estava.
- Como você está se sentindo, Dustin? — disse vovó, agora ao lado de minha mãe.
- Não muito legal. Eu tive um sonho estranho, eu estava voando com duas garotas e... Onde estamos afinal? — me sentei impaciente. Havia muitos armários e livros, e teias de aranhas por todo lado.
- Estamos na casa dos Von Ducan. Mais precisamente no porão, e é aqui que você vai ficar nas próximas semanas.
- Como é que é? — disse eu incrédulo.
- Dustin, ouça. Você não é um adolescente normal. Creio que conheça Fullmetal Alchemist, não?
- Sim, eu assisto às vezes, mas o quê...
- Alquimistas, elementos mágicos, a pedra filosofal. Isso tudo é real.
Impossível. Eles deviam estar fazendo uma piada de aniversário comigo, só podia. Fora tudo um sonho, não havia como ser verdade. Mas então me lembrei de uma coisa.
- O quarto do segundo andar! Então aquilo era...
- Sim, o embrião de um homúnculo — respondeu ela sombriamente.
- Mas... Como? — eu mal respirava.
- Você descende de uma família de humanos especiais, uma espécie que mistura o conhecimento de cientistas e magos, os alquimistas. A alquimia é uma arte nobre que sempre foi muito criticada pela igreja na Idade Média, mas até hoje é estudada em sigilo, para manter as informações sobre vida eterna e transformação de objetos em ouro fora do alcance de quem apenas visa o lucro em cima disso.
- Então quer dizer que tudo isso realmente existe?
- Por incrível que pareça, existe sim.
- Então quem eram aquelas garotas que me ajudaram mais cedo? E aqueles homens que nos perseguiram? VOVÓ, VOCÊ TRASNFORMOU UMA ESPÁTULA EM UMA ARMA!
- Muita calma, Dustin. Todas as suas perguntas serão respondidas, mas eu não sou a melhor pessoa para fazer isso. Portanto, quero que você suba e converse com um amigo meu.
- Que amigo? — perguntei desconfiado. Os amigos da vovó geralmente sofriam de algum tipo de distúrbio mental voltado principalmente à vontade de querer me machucar com alguma coisa.
- Ah, você já deve ter ouvido falar dele. Eu o chamo de Nico, mas você deve conhecê-lo como Nicolas Flamel, o descobridor da pedra filosofal — respondeu ela.
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