Alquimia I - a Ilha dos Bem Aventurados

2 Capítulo II – Elementos Químicos e Afins


Capítulo II – Elementos Químicos e Afins

Seguimos a viagem pela manhã, com minha mãe no volante. Não encontrei as duas mulheres da noite passada — nem pelos corredores, nem na mesa do café. Tudo tinha parecido tão real. Mas não podia ser. Não havia explicação.

Os campos de Utah passavam rápidos pela janela, e logo estávamos no Colorado. Ao meio da tarde chegamos em Denver e paramos para comer em um McDonald’s. Depois, pegamos a 87 norte e seguimos por ela até as 8:00 p.m., onde de longe já avistei os casarões de Windsor. Passamos pela entrada principal, onde se erguia um grande arco com um caloroso “Bem Vindo a Windsor, Colorado”. Seguimos pela rua Main e dobramos na Sétima Avenida. Essas eram as duas principais vias da cidade, mas não deviam ter mais de dois quilômetros cada. E, cara, quando eu digo que esse lugar é realmente calmo, eu quero dizer deserto. Não havia pessoas nas ruas, nem carros passando, apesar de ser um domingo. Algumas casas estavam com as luzes de um ou dois cômodos ligadas, mas a grande maioria parecia estar inabitada.

Passamos por algumas ruas menores e finalmente chegamos à casa da vovó¹. Ela tinha dois andares, paredes externas com cores claras, caminhos de pedras brancas até a entrada e o grande lago Windsor como plano de fundo. Era realmente bonita. Estacionamos no meio-fio e fomos até a entrada. Cinco segundos depois de mamãe tocar a campainha, a porta se escancarou para trás e vovó apareceu em um roupão rosa e pantufas de coelhinho:

- Finalmente vocês chegaram! – ela me abraçou com força – força até demais para uma senhora de sessenta e cinco anos – e foi cumprimentar meus pais — Já estava achando que não viriam mais!

- Mãe, a senhora sabe que são mais de mil e setecentos quilômetros até aqui – explicou-se papai.

- Quanto tempo, não é mesmo May? – disse mamãe, abraçando-a.

- Nossa, como você está bonita Susie! – elogiou vovó, fazendo mamãe corar e sorrir.

Minha avó era assim mesmo: alegre, simpática, sempre de bem com a vida e com todos. Tinha cabelos escuros, curtos, com vários fios grisalhos, olhos como os de meu pai e um sorriso muito aconchegante. Eu adorava ela, de verdade.

- Vamos entrando! Por que não ficam aqui hoje e começam a mudança amanhã? – indagou ela.

- Ah mãe, nós não queremos incomodar... – começou papai, mas foi interrompido.

- George, você sabe que não é incomodo algum! Além disso, o seu quarto já está arrumado – Sim, papai ainda tinha um quarto na casa da vovó, que era igual a quando era criança, com exceção da cama que agora era de casal –, e o pequeno Dustin pode dormir comigo.

- Vó, eu já tenho catorze anos! – protestei.

- Tudo bem, tudo bem. Você fica com o quarto de hóspedes. – disse ela, sorrindo.

Entramos no hall e passamos pelo corredor, até chegarmos à sala de jantar. Por dentro, a casa era ainda mais bonita. Tinha um estilo clássico de casas do interior, toda revestida com madeira, quadros com paisagens belíssimas e uma escada de parede, que dava para os quartos do segundo andar. A mesa da sala estava repleta de comida: carne, salada, pão, jarras de suco e um grande pudim. Pensei em como a vida da minha avó poderia ser triste e vazia após a morte do vovô, mas nada a abalava. Sentamos nas cadeiras e fomos jantar.

- Comam, vocês parecem estar famintos. Nós podemos conversar depois – disse vovó.

Por um tempo, o único ruído que se ouvia era o tintilar dos talheres e o crepitar do fogo na lareira acessa a um canto da sala. Vovó disse que precisava dar um telefonema, então se levantou e foi até a cozinha. Meus pais pareciam muito animados com aquilo tudo, e por mais que eu não concordasse com essa mudança, rever a vovó me deixou muito feliz também. Ela voltou e terminou de jantar conosco.

Deixamos toda a louça na pia e fomos descarregar algumas coisas do carro, o suficiente para passar uma noite. Depois de colocar tudo nos quartos, os três sentaram ao redor da lareira para conversar sobre como fora a viagem e sobre como eu estava magro. De repente a ideia de jogar Tetris no meu iPhone me pareceu muito atraente, então fui para o quarto de hóspedes. Deitei na cama e peguei meu telefone, mas logo desisti. De fato, eu não nasci para jogos de encaixar pecinhas. O relógio-cuco do corredor marcava 11:30 p.m. Peguei minha escova e pasta de dentes e fui para o banheiro. Depois de tomar banho e escovar os dentes, voltei para o corredor e fiquei observando a velha estante da vovó. Lá estavam algumas fotos do meu pai bebê com ela mesma, mais jovem. Havia também fotos do casamento dos meus pais e até algumas minhas, em poses no mínimo... Constrangedoras. Então eu vi a Porta do Mal. A Porta do Mal era uma porta no final do corredor que sempre estava trancada. Quando eu perguntava a vovó o que tinha atrás dela, ela respondia que era um monstro cor-de-rosa. Eu tive traumas com a Bolha até meus nove anos de idade.

E, bom, agora a Porta estava semiaberta.

-

Entenda, a questão não era eu ter medo da história da Bolha ou alguma coisa do tipo. Algo apenas me dizia que eu ia me dar muito mal entrando lá. Levei alguns poucos segundos para me decidir.

Você já sabe o resultado.

Me aproximei da porta e tentei escutar algo. Minha mãe ria alto no andar debaixo, mas mesmo assim eu consegui ouvir o barulho de algum líquido pingando dentro do cômodo. Coloquei a mão na maçaneta e empurrei a porta devagar. Uma luz verde e fraca brilhava no fundo do quarto. Peguei meu iPhone, coloquei no modo lanterna e o ambiente se iluminou. Era pequeno, abafado e quente. Vasos comunicantes estavam um canto da sala sendo aquecidos por um pequeno fogão a gás, enquanto um líquido incolor pingava de um recipiente para o outro. A parede do fundo continha um mapa-múndi, com alguns percevejos marcando locais que me pareciam ser na Ásia. Estantes e armários com frascos contendo substâncias estranhas se erguiam por toda extensão da parede, e uma tabela periódica gigantesca encontrava-se em cima de uma mesa. Mas o mais bizarro de tudo era um pequeno frasco oval com o que parecia ser um homenzinho dentro, sendo iluminado pela tal luz verde.

Antes que eu conseguisse chegar a uma conclusão sobre o que vinha a ser tudo aquilo, escutei a voz fria de minha avó atrás de mim:

- O que você está fazendo aqui?

Notas finais
¹ http://www.photographypros.com/aerial-photography/windsor/windsor_colorado_06.jpg