Levanto-me de minha cadeira, entrego minha prova para o professor e dirijo-me a caminho da porta. Abro-a lentamente e saio. Antes de fechar a porta, observo minha turma, todos de cabeça baixa, concentrados na prova como se suas vidas dependessem dela. Bem, na verdade, suas vidas dependem dessa prova. Pensar que daqui a alguns dias quase todas essas pessoas estarão mortas é horrível, mesmo que eu não tenha nenhum laço de amizade com elas. Pensar que eu podia ser uma delas é pior ainda. Mas pensar que meu irmão podia ser uma delas, era insuportavelmente pior. Fecho a porta e tento afastar esses pensamentos, mas não dá certo. Caminho um pouco pelo corredor e paro na frente de uma janela para observar a chuva, um temporal devia estar se formando ou já se formou, porque além de estar chovendo muito, estava ventando também. O vento era tão forte que parecia que as árvores em volta da minha escola iam cair a qualquer momento. Parecia que o tempo estava refletindo o que eu estava sentindo, uma mistura de raiva e tristeza. Não consigo parar de pensar no que vai acontecer daqui a 3 dias. Nunca me conformei com os malditos métodos do Governo para formar uma sociedade “perfeita”, mas aprendi com o meu pai a manter isso para mim, porque senão eu poderia ficar muito encrencado.

O método do Governo é simplesmente matar aqueles que não são fortes e inteligentes o suficiente para fazer parte dessa sociedade. É assim, a partir do momento em que você entra no ensino médio, sua vida depende de suas notas, caso você fique com todas as notas acima da média proposta pelo Governo, você passa de ano, mas caso você fique com alguma nota abaixo da média, você é morto, simples assim.

O primeiro ano no ensino médio eu não consegui suportar isso, vi amigos de infância morrendo no final do ano, mas pelo menos eu tinha o meu irmão ao meu lado. Ele era apenas alguns meses mais velho que eu e por isso começamos a frequentar o colégio ao mesmo tempo, fazendo com que sempre fossemos colegas.

No segundo ano, eu já havia aprendido a mais importante lição: sem amigos. Me tornei um pouco recluso, só conversava com o meu irmão, que sentava atrás de mim, e com alguns professores. Mas o terceiro ano, o último, foi o pior. Foi não, está sendo o pior, pois não acabou ainda. Esse ano eu não fui tão recluso, comecei a falar com algumas pessoas além do meu irmão, mas não era nenhuma tentativa de estabelecer uma amizade com elas, era apenas uma tentativa de conhecer melhor os meus futuros oponentes. Eu observava cada reação deles, lia suas expressões e analisava as suas atitudes. Toda a informação que eu tivesse sobre eles, mesmo que fosse mínima, podia determinar se eu ia viver ou se eu ia morrer. Ao mesmo tempo que falava com elas, ficava imaginando que elas poderiam estar mortas quando concluíssemos a escola, que eu poderia ser o causador de suas mortes.

Mas qualquer ligação que eu tinha com eles, exceto meu irmão, acabou hoje. Amanhã saberemos as nossas notas e sabermos quem morre e quem vive. E apesar de ser o nosso último ano, ninguém que sobreviver vai comemorar, porque todo mundo sabe o que irá a acontecer depois, nós vamos visitar nossos pais e então nós vamos para a Cidade, para realizar o Teste Final, nos matar um ao outro até que apenas cinco de nós restem. Essa é a última etapa do método do Governo para saber quem era digno de participar da sociedade “perfeita”.

Notas finais
Esse foi o prólogo de Alpha The Survivors, espero que tenham gostado da base da história e que continuem a ler ela. Comentários são bem aceitos. Até o próximo capítulo.