Alpha: O mundo antes de Divergente
9 Capítulo 9
Se eles queriam nos matar ou nos testar, eu não tinha certeza, mas que tinha algo extremamente obvio com todo aquele alvoroço todo, era que se alguém se desequilibrasse naqueles degraus e caísse, uma grande quantidade de pessoas poderiam se ferir. Continuei a descer os degraus correndo, seguindo a massa de vestes negras e tentando não ficar para trás.
– Naomi. – Tori cochichou no meu ouvido. – Você percebeu o que eles estão fazendo?Olhei pra ela e neguei com a cabeça, não compreendia sobre o que ela estava dizendo.– Eles estão nos testando, a iniciação já começou. Esse deve ser o primeiro estágio, se alguém não completar, já será um Sem Facção.Aquela informação me pegou desprevenida, com o susto acabei pisando em falso no degrau a minha frente e esbarrando com um corpo grande e desengonçado: George.– Hey, eu sei que você me ama, mas não precisa se jogar em cima de mim tão arduamente. Principalmente porque estamos tentando descer correndo essas escadas, que pelo visto não tem fim. Como a abnegação faz isso toda vez? – George disse de uma maneira tão engraçada que me fez rir e esquecer o choque da constatação de Tori.– Desculpe, — disse rindo. – vou tentar disfarçar da próxima vez.– Obrigado. – George falou e deixou escapar mais uma risada. Quando olhei para trás Tori sorria ao ver a cena, assim que percebeu meu olhar, sua mão foi até os lábios, como uma tentativa de esconder o sorriso.– Desculpe, foi engraçado você caindo em cima dele. – Ela falou rindo.– Está complicado olhar pra você e descer correndo as escadas ao mesmo tempo sabia? – Tori riu mais uma vez, mas quando fiz a próxima pergunta seu rosto voltou a ficar sério. – Você acha mesmo que já estamos sendo testados?– Tem pessoas da Audácia nos cercando e observando todos os nossos passos, não percebeu? – A firmação de Tori fez com que eu olhasse pela primeira vez ao redor. Ela estava certa, membros da Audácia se espalhavam ao redor dos iniciados, não apenas por estarem, mas estavam observando cada um de nossas aitudes.– Você está certa, será que vamos conseguir? – perguntei.– Naomi, não fizemos tantas decisões pra desistir agora, não podemos virar Sem Facção, vamos lutar até o final para sermos membros da Audácia, vamos fazer isso juntas. – Eu sorri ao ouvir as palavras de Tori, era reconfortante saber que sempre a teria do meu lado.– Finalmente, meu estoque de energia já estava chegando ao fim. – George disse isso com um alívio imenso quando finalmente chegamos ao piso térreo do Eixo. As pessoas que puxavam o aglomerado já estavam quase na rua, foi então que eu me lembrei.– Nós vamos pular dentro do trem em movimento. – Não sabia se dizia isso com euforia ou desespero, era como se realizasse meu maior sonho e o meu maior pesadelo ao mesmo tempo.– Isso é meio óbvio não? – George perguntou debochando da minha afirmação. – Se vamos pra Audácia, vamos usar o mesmo meio de transporte deles, sendo assim, pularemos no trem em movimento. Achei que você não via a hora de fazer isso.– Na verdade, — respondi. – eu nem fazia ideia de que ia escolher ser membro da Audácia, foi meio que extinto.– Que extinto mais suicida esse que você tem. – Debochou um iniciado nascido na Audácia. – Mas devo acrescentar pontos pela coragem de ter alimentado as chamas com o seu sangue, mas você não vai durar nem uma semana no nosso complexo. — Ele saiu correndo de costas rindo e debochando da mim.– Idiota. – Foi a única coisa que conseguir pronunciar, baixo demais para que ele escutasse, mas alto o suficiente para George ouvir.– Naomi, não vá na onda desse babaca, ele só está tentando te amedrontar, você é mais forte do que ele imagina. Nunca se esqueça de que as forças das estrelas sempre estaram com você. – Ao dizer essa ultima frase, ele apontou o pingente no meu pescoço.Era engraçado como ele sempre sabia o momento certo de dizer tudo. Eu não ia vacilar, não agora, isso é um teste certo? Só mais um teste no qual preciso ser aprovada, nada demais, eu vou passar e vou tirar a nota máxima, sempre fui treinada pra isso, seja lá o que for que a Audácia tenha preparado pra mim, farei bem feito.Aquele pensamento trouxe uma nova vida dentro de mim, uma nova energia, aquela adrenalina toda correndo pelas minhas veias era maravilhosa, não podia me conter, esquecendo-me da zombaria do garoto gritei.– George, como estão suas reservas energéticas?– No berro, mas acho que aguento. Porque Naomi? – Tori, e você?– Estou prestes a comprovar cientificamente que um corpo exposto ao exercício em excesso pode se desmembrar.Fui obrigada a rir do que Tori disse.– Bem, então acho que terei que ir até o trem sozinha. – Falei aumentando a velocidade da corrida.– O que foi super gênio mirim, vai querer apostar uma corridinha? – George falou como se tudo aquilo o divertisse muito.– Fazemos assim, faltam o que, 7, 8 metros até a linha do trem? Quem chegar primeiro vence, e quem chegar por ultimo ... – ia completar quando George disse.– Fica sem sobremesa. Por mim chegou. – Suas energias pareciam ter voltado, estávamos um do lado do outro agora.
– Não vou participar desse surto homicida de vocês, mas dou a largada – Tori tentou falar em meio a sua respiração ofegante. – 1, 2, — me preparei para correr como nunca tinha feito antes. — 3 e já.Tudo bem, pode parecer que alguém criada para ser apenas inteligente e que além de tudo está acima do peso, nunca conseguiria ganhar de alguém com o porte físico do George. Isso foi realmente estranho, quando foquei na linha do trem e simplesmente disparei, as vestes negras ao meu redor viraram apenas um borrão, os gritos se abrandaram e parecia que meu coração tinha resolvido tampar qualquer som que me desviariam do alvo, meu corpo mesmo cansado respondeu a todos os estímulos, nenhum músculo sequer me deixou na mão. Quando cheguei até a plataforma da linha do trem parei para tomar fôlego, aproveitando para olhar pra trás, os primeiros membros da Audácia estavam a um pouco mais de 2 metros da plataforma, rindo da menina desengonçada da Erudição que agora ajeitava os óculos e colocava as mãos no joelho para recuperar o fôlego.– Hey Tom, você viu esse furacão azul passando? – Um dos membros da Audácia que lideravam a corrida gritou pra alguém mais atrás dele.– Vi sim Cobra, e acredite, — o outro homem, Tom eu acho, respondeu dando uma risada. – nunca vi nada parecido com isso antes, principalmente vindo de uma nerd. – Vários membros próximos riram. Assim que Cobra chegou até a estrutura da plataforma gritou.– O CDF, vamos ver do que você é capaz. – Ele agarrou nas barras que sustentavam a plataforma e começou a escalar. – Te encontro lá em cima.Soltei um sorriso divertido, ele estava me desafiando e não iria se arrepender. George chegou atrás de mim arfando muito.– Naomi, como você fez isso? – ele conseguiu dizer ele uma lufada de ar e outra. – Nunca te vi correndo assim.– Não faço a mínima ideia George, mas estou amando isso. – Era a mais pura verdade, tudo isso estava me fazendo bem. Observei o movimento das mãos de Cobra e de outros membros da Audácia que começavam a subir, calculei a força e o ângulo das mãos para ter uma alavanca forte que me ajudasse a subir, fui a barra mais perto e comecei a imitá-los. – E aliás, — gritei para ele. — ainda estou ganhando. Você não ficar com a minha sobremesa nem se Lord Voldemort ressurgir das trevas. – Ele começou a rir quando fiz aquela referência. O lado bom de ser da Erudição é o contato com bibliotecas enormes, com livros de todos os tipos de literatura existentes. Uma coleção chamada Harry Potter nos uniu por semanas, trancafiados dentro de algum quarto, enquanto mergulhávamos em toda aquela fantasia. Mencionar aquilo trouxe mais humor ao rosto dele.– Adivinhe, sua sujeitinha de sangue ruim. – ele disse torcendo o nariz enquanto corria para a barra do outro lado. – Os comensais do Lord das Trevas nunca desistiram da sua volta. – E começou a escalar.Aquilo estava começando a parecer natural, normal, eu estava cansada, mas meu corpo estava respondendo muito bem. Quando cheguei a plataforma, Cobra estava me esperando com um sorriso de quem estava se divertindo mais do que devia com alguma coisa.– Senhorita? – Ele disse isso enquanto estendia a mão para me ajudar a me levantar. Cobra era lindo, tinha a pele bronzeada, um rosto meio lupino, seu sorriso passava um ar extremamente maroto. Seus cabelos eram espetados e negros, assim como seus olhos e uma barba rala que cobria seu rosto. Nunca me senti tão tímida olhando para um homem antes. Não que ele fosse muito mais velho, aparentava ter apenas um ou dois anos a mais do que eu, mas sua beleza era formidável. Esperando não corar como eu imaginava que aconteceria, aceitei a sua mão e forcei que o meu corpo fosse para cima. Quando estava finalmente em pé na plataforma a beleza da paisagem me espantou. Nunca tinha visto a cidade daquela forma, aquilo era uma das coisas mais lindas que eu já presenciara nos meus 16 anos. – É lindo não é? Você precisa ver isso quando o sol esta se pondo, acho que artista nenhum conseguiria ser detalhista o suficiente para conseguir capturar uma paisagem como essa. – Cobra disse tudo isso como alguém que estudou arte a vida toda. Não imagino como um membro da Audácia tenha tido tempo para reparar em algo como a paisagem, mas a cidade daqui era extremamente linda.Ao fundo da paisagem podia se ver as casas simples da Abnegação. Era possível ver o Centro de Pesquisas da Erudição, a sede da Franqueza, até mesmo indícios do pomar da Amizade. Entre um cenário e outro a destruição que a cidade sofreu ainda é visível. Essa mistura de coisas grotescas e delicadas, esses contrastes de realidades e diferenças, realmente era magnífica.– Qual o seu nome novata? – Cobra perguntou enquanto olhava o fim da linha do trem.Não sei exatamente porque, mas não queria dizer meu nome, algo me dizia pra simplesmente não dizer, e se o meu instinto fosse me fazer sobreviver a iniciação, achei melhor obedecer a ele. Fixei meu olhos no horizonte aonde o trem começava a apontar.– Que foi Erudição, esqueceu seu nome? – Cobra começou a rir, e quando viu que eu não ia responder, acrescentou. – Tudo bem quatro olhos, vou te chamar com o primeiro nome que me vier a mente, isso até você resolver me dizer seu nome de verdade.– Você sempre se chamou Cobra? – a pergunta saiu muito rápido, praticamente nem raciocinei para formular ela, Ele me encarou como se estivesse me olhando pela primeira vez. – Desculpa a pergunta, é apenas a Erudição dentro de mim falando mais alto.– Na verdade recebi esse nome por ser astuto e preciso, como o ataque de uma cobra. – Ele me olhou com o canto do olho antes de acrescentar. – Se fizer por merecer, pode deixar até seu verdadeiro nome e escolher um novo, não precisa se preocupar com isso ainda, apenas sobreviva o suficiente para poder fazer isso. Te vejo no complexo da Audácia.Cobra começou a correr ao lado da linha do trem gritando para todos se prepararem. Quando percebi o trem já estava mais próximo do que eu podia ter previsto. George e Tori se aproximavam de mim agora.– Bem super gênio mirim, agora é com você. Você já decorou essa coreografia inúmeras vezes. O que temos que fazer? – George apontou com o queixo a trem que estava a caminho.– A plataforma só é usada para desembarque – Gritei para que eles me ouvissem, embora eles estivessem ao meu lado o barulho começava a ficar alto. – Pela velocidade do trem não dura mais que 5 segundos. Só que para embarcar a gente vai ter que correr pela lateral da linha e pegar uma velocidade adequada para ficar paralelo ao trem. – Olhei para o trem que estava a uns 15 segundos de distância. – Assim que conseguirem segurar um dos apoiadores das laterais dele segurem e façam uma alavanca de força com o braço e se joguem para os vagões. Corram.Sai correndo atrás de outros iniciados que, imitando os membros da Audácia, corriam para alcançar velocidade. George e Tori corriam bem atrás de mim. Uns 5 segundos depois que começamos a correr o trem nos alcançou e os primeiros membros da Audácia começaram a pular para dentro dos vagões. Olhei para trás e com o dedo, apontei o que estava acontecendo a minha frente, gesticulando que era para a Tori e o George imitá-los. Os vagões da frente estavam impossíveis de entrar, era gente demais, como o trem era longo, resolvi arriscar pegar os últimos vagões. Pelos meus cálculos faltavam apenas mais 4 vagões, então olhei para trás e com a cabeça indiquei o trem, George e Tori concordaram com a cabeça e assim que o primeiro apoiador passou por mim, o agarrei e me alcei para dentro do vagão. A aterrissagem foi desastrosa, bati meu ombro com muita força e meu pescoço deu um chicote, forçando a minha cabeça a se chocar contra o metal frio. Minha cabeça latejava, meus olhos lacrimejavam, tudo o que eu queria naquele momento era ficar imóvel. Apenas dois barulhos de quedas e gemidos de dor que o seguiram lembraram-me de que George e Tori também conseguiram subir no trem. A dor começou a suavizar, e meus pensamentos começaram a entrar em foco. Nós tínhamos conseguido passar pela primeira fase da iniciação, aquilo era um alívio. Soltei o ar que eu prendia, tinha medo de respirar e constatar que as contusões fossem piores do que eu imaginava. Quando mais nada doeu, respirei finalmente aliviada, foi quando ouvi um gemido de dor.– Naomi, você está bem? – era a voz de Tori, ela estava sentindo dor, mas a preocupação em sua voz era evidente.– Apesar dessa aterrissagem catastrófica e alguns pontos de dor, posso considerar que está tudo bem, ainda não quebrei nada. – não conseguia abrir os olhos, minha cabeça latejava bastante devido a pancada, mas ouvi a respiração de Tori mais leve, era alívio.
– Super gênio, por favor, me lembre de nunca mais te pedir dicas de como subir em um trem em movimento. Você é péssima nisso. – George disse entre uma resmungada e outra. – Tudo bem, mas tem uma coisa: a sua sobremesa é minha. – George pareceu querer protestar mas mudou de ideia, então começamos a rir daquilo, estávamos bem, estávamos juntos, um pouco desgastados pelo desuso do nosso corpo quanto à exercícios físicos, mas estávamos bem.
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