Alpha: O mundo antes de Divergente
2 Capítulo 2
Sou filha única, então George e Victória são o que eu tenho mais próximo de irmãos, crescemos praticamente juntos. A família Wu mudou para esse prédio quando eu tinha sete anos, nessa época eu ainda não havia adotado os óculos, mas lembro como se fosse ontem que o George gostava de caçoar de como eles ficavam grandes demais no meu rosto ou como ele achava desnecessário que eu os usasse. Tenho os dois em minha vida há nove anos e eis uma coisa que a vida, e não os livros, me ensinou: ligações sanguíneas não definem família.
Ambos tinham olhos pequenos, angulares e mais escuros que os meus. Embora todos tivessem quase a mesma idade, George era o mais alto e o mais elegante nos trajes da Erudição.
– E aí super gênio mirim que não tem medo de testes bobos como os que serão realizados amanhã – debochou George.
– Você estava ouvindo atrás da porta de novo? Quando você vai crescer garoto? Você já tem dezesseis anos – falei imitando o tom de voz que os professores costumam utilizar com os membros da Audácia.
– Já disse, pesquisas comprovam que a mulher tem o desenvolvimento tanto psicológico, quanto hormonal mais rápido que o homem. Sendo assim somos mais maduras. Enquanto nossa idade mental está por volta dos dezoito, dezenove anos, a do George se limita aos doze, treze anos – Tori disse como uma grande cientista explicando um grande fato. Se não fosse o sorriso que ela tentava ocultar com tanto esforço poderia se dizer que ela estava apresentando uma tese de mestrado muito bem elaborada. Ela olhou pra mim e nenhuma das duas pode segurar o riso.
– Esse papinho de “somos mais maduras” de novo Tori? Suas piadas estão ficando velhas, está na hora que andar um pouco mais com os membros da Audácia pra ver se aprende alguma piada nova – disse George.
– Sem essa, as piadas deles são horríveis – disse rindo enquanto lembrava das piadas que eu as vezes ouvia os membros da Audácia fazendo pelos corredores da escola.
– Mas são melhores que “as mulheres são mais maduras” – disse George convicto.
Assim que o ônibus chega, nós nos acomodamos e seguimos em silêncio até a escola, cada um perdido em meio a um livro.
Assim que chegamos à escola, começo a reparar com mais convicção as divisões das facções. Nem sei por que exatamente resolvi prestar mais atenção nisso agora, mas uma coisa é verídica, o contraste de cores nunca foi tão interessante. Conforme vamos entrando consigo ver um grupo de pessoas rindo, cantando e conversando, todos sentados no chão formando uma roda. As cores amarela e vermelho destacam esse grupo. Membros da Amizade. Eles sempre estão calmos, são simpáticos e preservam a paz acima de tudo. Durante muito tempo essa “pacificação” me intrigou, até que um dia meus pais me contaram que o soro que a Amizade desenvolveu proporciona a pessoa que o ingere — segundo informações, doses diárias de soro são inseridas na alimentação da facção — uma sensação de paz. Isso faz todo sentido.
Um grupo que está mais atrás quase sempre passa despercebido. Os membros da Abnegação sempre estão com uma roupa cinza e larga. Eles sempre pensam no bem do próximo, nunca pensam no seu conforto, por quantas vezes não me senti incomodada por ver um deles cedendo o seu lugar no ônibus para que eu pudesse me sentar? Imagino se a fonte de tanto altruísmo vem de algum soro também ou se o egoísmo é algo capaz de ser deixado de lado.
Escuto burburinhos de conversa. Os membros da Franqueza, todos vestidos de preto e branco, não param de falar e gesticular um segundo se quer. Pra eles a verdade é crucial, preto no branco ou branco no preto.
Os membros da Erudição quase nunca são o centro das atenções. Sempre ficamos reunidos falando sobre livros, revistas, artigos científicos, descobertas que os cientistas da Erudição fizeram e argumentos que valham a pena e que acrescentem ainda mais no nosso conhecimento.
E dentro do grupo de membros da própria Erudição que existe na escola, eu, o George e a Tori formamos um outro pequeno grupo só nosso, onde falamos de tudo, coisas que orgulhariam nossos pais e professores e coisas que os fariam revirar os olhos de desgosto por tão banais que são.
– Estão nervosas para o teste de aptidão? – pergunta George.
– Se eu disser que não, estarei mentindo – diz Tori um pouco tensa fechando o livro de genética humana que estava lendo até aquele momento. – Estou começando a ficar apavorada só de pensar no que o futuro nos reserva. Esse teste, a escolha que devemos fazer, tudo isso parece que vai nos levar para um lugar escuro e eu odeio lugares escuros.
É verdade, Tori odeia coisas mal explicadas, por isso é apaixonada por genética humana e biologia, os mistérios sobre o funcionamento do corpo, do cérebro, da vontade humana, etc, podem ser explicados através do estudo dessas áreas.
– Eu estou com medo – disse pela primeira vez com sinceridade para que eu mesma pudesse acreditar no que minha boca se atreveu a dizer. – Tenho medo de que o teste acabe nos mudando para sempre de alguma maneira. Tenho medo de não ser mais a mesma pessoa depois que sair de lá.
– Hey Naomi, fique tranquila, você é a super gênio mirim que não tem medo de testes esqueceu? – George passou o braço em torno dos meus ombros e me apertou de uma maneira fraternal e reconfortante. Olho para além dos portões da escola, para os trilhos do trem. É possível ver ao longe que algo está se movendo em alta velocidade sobre ele. Assim que o ponto escuro passa ao lado do poste certo eu começo a contar mentalmente 30, 29, 28, 27, 26, 25 ... O trem está mais perto agora, já é possível ver a forma dele com mais clareza ... 19, 18, 17, 16, 15 ... Daqui consigo ver vultos pretos dentro do vagão ... 10, 9, 8 ... Os vultos pretos começam a se aproximar das extremidades do trem ... 5, 4, 3, 2 ... A plataforma está a um segundo de distância e eles tem um pouco mais 5 segundos pra saltarem antes que ela termine ... 1 ... E uma massa de vestes negras pula para fora do vagão em direção à plataforma. A maioria cai com elegância e graciosidade, alguns precisam dar mais alguns passos para recobrar o equilíbrio, mas ninguém fica pra trás.
– Quantas vezes você já calculou essa coreografia de saltos deles? – Pergunta George analisando o meu olhar que se prende no trem que se distancia.
– Inúmeras vezes – respondo meio que pra mim mesma.
– Eles são masoquistas – diz Tori enquanto abre novamente seu livro.
– Não, eles são intrigantes – respondo.
Os membros da Audácia sempre me deixam com essa sensação. Porque provar sua própria coragem, seus próprios limites todos os dias? Os números me ajudam até certo ponto, mas tem coisa que nem eles conseguem confirmar com clareza.
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