Alone is not Together
1 Capítulo 1
Sai correndo na chuva utilizando o capuz da minha jaqueta. Passava correndo pela rua sem me importar com o trânsito. Ah, se meus pais vissem isso!
A essa hora tudo o que tinha na cabeça era chegar ao trabalho cedo para não ser despedida.
Em poucos segundos uma forte dor invadiu minha panturrilha e eu me encontrava deitada no chão. A água da chuva caia sobre meus cílios impedindo-me de enxergar muita coisa. Fiz uma careta e gemi de dor, logo ouço uma voz masculina praguejando e murmurando palavrões.
-Cale a boca! -Xingo-o contendo um gemido. Não consigo enxergar quem é, apenas quando ele coloca um guarda-chuva vermelho por cima de mim e as gotas param de cair sobre meus olhos. Esfrego os mesmos e tento me levantar apoiando os cotovelos no chão, mas eles ardem e eu acabo deitada novamente enquanto mordo os lábios para conter um grito.
O homem de boca suja aproxima-se de mim agachando-se e segurando o guarda-chuva.
-Já chamei a ambulância, mas não é nada grave. -Sua voz era calma, não grossa. Parecia a voz de um menino.
Olhei para ele e me surpreendi ao ver um garoto de olhos verdes com cabelos castanhos cacheados e úmidos caindo no rosto.
-E você por um acaso é médico? -Falei ríspida. Tá, não podia negar que ele era lindo, de qualquer forma ele me atropelou ou seja lá o que ocorreu.
-Qual o seu nome? -Perguntou-me, ignorando minha pergunta.
-E quem está perguntando? -Indago.
-William. Agora responda-me.
-Dalva. -menti descaradamente com o primeiro nome que me veio na cabeça. Ou não, pois havia uma revista dentro de uma das minhas pastas que estavam caídas no chão ao meu lado, onde estava escrito esse nome. Ele deve ter notado, pois riu.
-Terá que falar seu nome verdadeiro quando a SAMU chegar. -É o que ele diz.
Tento me levantar novamente, ignorando-o. Contudo, não consigo me firmar sobre os cotovelos ralados.
-Você podia ao menos me ajudar! -Reclamo.
-Fique deitada e espere. -Oh, ele devia estar se divertindo tanto com isto. Eu estava na defensiva sim, dane-se.
Logo ouvimos a sirene da ambulância. William me encarou com seus olhos verdes.
-Chegaram. -Avisou-me.
-É, eu percebi. -Falei de modo sarcástico . Vi o rapaz revirar os olhos e logo senti algumas mãos me levantando e colocando-me em uma maca que colocaram dentro da ambulância.
-O senhor vem junto? -Perguntou um moço de pele escura depois que eu já estava dentro do transporte.
-Claro. -O boca-suja pulou para dentro e sentou-se em uma cadeira ao meu lado enquanto o homem que fez a pergunta e uma mulher com cabelos cor de mel presos para cima em um coque fecham as portas atrás de nós.
O rapaz ao meu lado sorri e eu reviro os olhos.
...
Para mim o dia já começou bem, sim, este sou eu, sendo sarcástico. Comecei o dia discutindo com meus pais, então peguei meu Volvo preto e resolvi dar uma volta para tomar café. Como se tudo já não estivesse uma porcaria eu vejo uma garota correndo por entre os carros na rua como se estivesse a fim de se matar. O sinal abriu e eu achei que ela fosse parar, bom, pelo menos lá no fundo eu pensei. Acontece que ela não parou, e então eu freei com o barulho do pneu cantando.
E a garota estava caída no chão.
Praguejei e estacionei o carro, liguei para a ambulância e expliquei rapidamente dando o endereço e então peguei meu guarda-chuva vermelho e o abri assim que abri a porta. Fui até a louca que estava deitada no chão com o capuz da jaqueta tampando seu rosto. A chuva caia sobre ela e me aproximei colocando meu guarda-chuva por cima da maluca.
Quando a chuva parou de cair por cima de seus olhos ela os esfregou, deixando-me ver seu rosto.
Controlei-me para respirar, ela era linda. Era uma garota comum, mas havia algo diferente... Comum eu digo por seus cabelos e olhos serem castanhos.
Seus lábios bem desenhados foi uma das coisas que mais me chamou atenção.
Tentei falar com ela, mas para tudo a garota tinha uma resposta. Parando para pensar, admirei isso nela. A grota maluca ainda inventou um nome falso, Dalva. E ainda sim eu estou aqui, na sala de espera do hospital olhando as revistas que ela tinha dentro da pasta. Ri quando li o nome Dalva em uma delas.
Todas as revistas eram da mesma editora. Em outra pasta havia recortes, frases e textos que eu preferi não ler, poderia ser algo pessoal. Ao meu lado estava sua bolsa vermelha. Ao ouvir passos, fechei a pasta e coloquei-a sobre meu colo torcendo para que fosse Ela e que estivesse tudo bem.
...
Dentro do hospital sou examinada e liberada.
William está na sala de espera e vem até mim.
-E aí? -Perguntou-me ele.
-Estou bem. -Respondi. Ia fazer um comentário sarcástico, mas não era o certo. Tudo tem um limite e, convenhamos, ele foi legal vindo até aqui comigo e chamando a ambulância. Se fosse outro teria me deixado atirada no chão.
Caminhamos em silêncio até a porta da frente.
-Annabelle. -Digo.
-O quê? -Pergunta ele, confuso.
-O meu nome. -Aperto os lábios após explicar.
-Ah, sim. -Ele acena com a cabeça em sinal de concordância. -Prazer em conhece-la, Annie.
Paro por um instante, incrédula.
-Desde quando temos intimidade mesmo? -Pergunto tentando parecer ofendida. O rapaz sorriu e balançou a cabeça em negação enquanto abria a porta de vidro do hospital. A chuva lá fora tinha piorado e o céu estava escuro.
-Ai! Minha chefe vai me matar. -Resmunguei baixinho.
-Você quase fez isso por ela. -Ele falou parado. Só então percebi que ele segurava minhas pastas molhadas na mão e eu estava na frente dele.
-Irônico o fato de eu estar tentando evitar que ela o fizesse quando eu mesmo acabei fazendo-o. -Confessei.
O rapaz, William, sorriu mostrando uma pequena covinha.
-Que bom que o fez e eu apareci.
Corei.
-É... Bem, obrigada, mas eu realmente preciso ir. -Acrescentei encabulada.
-Não, espere. Vamos chamar um Táxi, está chovendo muito. -Ofereceu.
Hesitei por um momento, mas acabei aceitando. Pegamos o primeiro Táxi que passou. William abriu a porta para mim e sentou-se ao meu lado. Disse meu endereço ao motorista e seguimos em silêncio até a hora de eu descer.
-Bem capaz! -Brigou o garoto quando eu fui pagar o Táxi. Ele deu um grito que fez com que eu parasse o ato na hora. Até o taxista olhou espantado. -Eu vou pagar. Você vai descer, ir trabalhar e tentar permanecer viva até o fim do dia. -Ele fez uma pequena pausa. -Que horas você solta?
-O quê? Por quê? -Pergunto incrédula.
-Responde logo, por favor.
-Se eu ainda tiver um emprego, as 17:30. -Respondo.
-Ótimo, nos vemos mais tarde. -Sorriu. Permaneci incrédula, mas desci do carro. William quis me dar seu guarda-chuva, mas eu recusei e sai correndo com o capuz na cabeça.
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