Alomorfia
2 Capítulo 1-O início
Eu não me sentia confortável com oque estava acontecendo. Na verdade,estava tão desconfortável que não havia motivos para não desconfiar.
—Rose,confia nele. Ele é um bom rapaz.
Olhei irritada para a Paige,que tentava justificar a ida de Max todas as noites em que ficamos juntos.
—Mas por que ele vai embora? Francamente,isto não é algo que namorados devem fazer! -Esbravejei dando um soco na mesa de pinheiro.
—Ele deve ter seus motivos,mas nunca te trairia. Eu acho que é exagero de sua parte. -Opinou amistosa. Revirei os olhos em um gesto de contradição.
—Não é exagero. Eu tenho que tirar minhas próprias conclusões. Está decidido. -Declarei com firmeza.
—Só espero que ele não se assuste e pense que você desconfia de algo que não é real. Ah,e te ache uma paranóica.
—Eu não sou paranóica. Isto é necessário. -Teimei. Paige levantou as mãos para o céu e deu de ombros.
—Você que sabe. Eu ainda acho loucura,mas a escolha é sua. Mesmo que você esteja insinuando que ele não te ama de verdade.
Minha melhor amiga sempre fora extremamente teimosa. Sua personalidade não é compatível com seus olhos meigos e calmantes e com seus cabelos encaracolados e curtos,que me faziam lembrar de uma porção de nuvens. Sua pele parda tinha algumas cicatrizes que eu nunca fui capaz de discernir de onde vieram,uma delas marcava seu olho e sobrancelha esquerda. Parecia uma cicatriz de guerra.
—Eu só quero conferir,Paige. -Murmuro olhando para meus pés inquietos com o braço cruzado.
—Rose,Max nunca te trairia. Um dos motivos é que ele se sente protetor perto de você. -Comenta Paige com os olhos vidrados em mim. Eu me sinto esquentar.
—Se sente protetor perto de mim? Por que?
—Eu não posso dizer o motivo,Rose. Isto é segredo. -Finalizou guardando suas pastas na bolsa. -Está tarde. Eu vou indo.
Os olhos castanhos prenderam-se no relógio,que marcava 23:30.
"Paige,até você?"
A mais alta se despede de mim e,ao sair do portão,apressa seus passos que transformam-se em uma corrida contra o tempo.
***
O despertador apitou ás 08:00. Meu apartamento estava um pouco escuro por causa do tempo chuvoso.
O telefone toca. Atendo inquieta e fico andando de um lado para o outro enquanto enrolava o cabo do telefone com o dedo indicador.
—Alô? Rose? -A voz rouca e forte de Max soou do outro lado da linha.
—Max? Por que está me ligando? -Questionei estranhando a atitude. Ouvi um suspiro do outro lado da linha.
—Só estou ligando para avisar que não há motivos para desconfiar de mim,querida.
"Querida". Max nunca me chamou assim antes,muito menos com esse receio na voz. Na verdade,nunca ouvi sua voz ansiosa.
—Está escondendo algo. Eu sei que está. -Impliquei. Ouvi a gargalhada alta que ele soltou depois da minha declaração.
—Está com ciúmes? -Provocou com um certo charme na voz. Eu urrei por estar frustrada.
—Babaca! É claro que eu estou com ciúmes. Aliás,como descobriu que eu estou desconfiada de você?
—Um passarinho verde me contou.
Paige.
—Está bem. Sabe de uma coisa? Acho melhor darmos um tempo. Você sempre faz isso! Sempre acha que está certo!
—Não seja precipitada. Por favor.
—Não estou sendo precipitada. Estou sendo justa. Tchau Max. -Desligo o telefone frustrada. Em menos de segundos,meu telefone tocou de novo. Era o meu namorado- ou ex namorado -ligando de novo. Não fiz questão de atender e deixei o telefone tocando sozinho.
Peguei as chaves do meu carro e peguei meu casaco depois de fazer toda aquela rotina que é desprovida de citar aqui. Saí de casa em passos duros e dou partida no carro,tentando focar no trânsito agitado das ruas.
Como estava congestionado,tive que deixar meu carro em um estacionamento e seguir andando.
Quando faltava meio quarteirão para chegar a universidade,tive uma visão estranha.
Era um lobo.
Quando ele percebeu que eu o vi,saiu correndo. Minha curiosidade fez eu ir atrás dele. O animal corria muito rápido,porém eu conseguia acompanhá-lo.
Quando o canino sumiu da minha vista,me dei conta que estava com os pés nos trilhos de um trem.
Comecei a ouvir o som do meio de transporte de longe entre as árvores,na floresta silenciosa e calma. Eu fiquei congelada pois naquele momento não conseguia pensar em nada,a máquina estava tão perto que eu não consegui correr.
Ao sentir o impacto,meu corpo desfalece. Mesmo que o maquinista tivesse freado aquela coisa,eu senti o impacto. Foi tão forte que eu perdi todos os meus sentidos.
Eu conseguia ouvir a ambulância chegando,mas não via nada.
A última visão que tive antes de apagar foi do lobo fitando seus luminosos e brilhantes olhos amarelos em mim.
(Povs Max)
Quando vi Rose caindo sobre o impacto agoniante da máquina,minhas batidas cardíacas aumentaram instantaneamente de velocidade.
Minhas pernas ficaram trêmulas e meus pensamentos pessimistas.
Isso foi culpa minha. Eu não deveria ter ido atrás dela com minha aparência de lobo.
Seus cabelos platinados da cor das estrelas estavam bagunçados sobre o travesseiro e seu corpo desfalecido na maca enquanto seu belo rosto era envolvido com uma máscara de oxigênio.
Acariciei seu rosto e ouvi a porta do cômodo se abrir. Jayde e Paige adentraram o cômodo de hospital e correram até Rose.
—Céus,o que houve? -Paige questionou olhando espantada o rosto inconsciente da amiga.
—Ela foi atropelada por um trem. -Expliquei sem receio. -O médico disse que Rose não tem muito tempo se não acordar logo.
—Atropelada por um trem? Mas como? -Pergunta Jayde ansiosa com os olhos âmbar vidrados.
—Foi culpa minha. -Murmurei pegando sua mão gelada. Paige e Jayde olham para mim confusas.
—Como assim foi culpa sua,Max?
—É uma longa história. Eu fiz ela me seguir porque estava com minha aparência de lobo. -Contei com a voz trêmula.
—Se foi culpa sua,é seu dever salvá-la. -Jayde se manifesta com rapidez.
—Salvá-la?
—Você sabe,Max. É o único jeito. -Paige aconselhou olhando para Rose.
Se é o único jeito,assim será feito. Minha intuição não permite morder os humanos,mas será necessário. Isso é minha responsabilidade e,se é para o bem da Rose,não há nada que possa dar errado.
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