Almejar
11 Capítulo XI - Raiz firme
Notas iniciais
A amena manhã de sábado parecia mais bonita que o habitual, o que fez com que Cascão, após acordar cedo, saísse para correr e voltasse revigorado. Esquentou no microondas uma fatia de pizza da noite anterior e, assim que se sentou, a campainha tocou.
“Quem será a essa hora? Deve ser alguém que não se tocou que os vagabundos daqui não levantam antes do meio-dia num sábado.” riu consigo mesmo enquanto ia atender.
Ao abrir a porta, deu de cara com Agnes.
“E ai, Agnes? Suave? Entra. Aceita um pedaço de pizza?” ofereceu e ela franziu o cenho.
“Tá comendo pizza às oito da manhã?” questionou e o rapaz gargalhou.
“Pizza amanhecida é um clássico.” comentou e ela riu.
“Não quero, não. Você ‘tá ocupado hoje?” perguntou.
“Depende, precisava de mim pra quê?” devolveu uma pergunta.
“Hoje são as bodas dos pais do Nik e ele tem muito o que resolver, então nem vai ficar na loja. Só que as coisas andam bem movimentadas aos sábados, então não sei se conseguiria cuidar de tudo sozinha. Topa trabalhar comigo hoje?” perguntou e o rapaz arregalou os olhos.
“Trampar na GGeek?!” questionou incrédulo e ela assentiu.
“Sim! O Nik já autorizou! Ah, e não se preocupe, ele vai pagar sua diária. Se não puder ou já tiver algum trabalho hoje, tudo bem.” garantiu.
Cascão sorriu abertamente.
“Tá brincando? Eu vou adorar estar na loja que é a minha cara e ainda ganhar uma graninha! Valeu, Agnes! Vou só terminar aqui, me arrumar e vou lá!” respondeu e ela sorriu.
“Beleza! É só seguir minhas regras que fica tudo bem.” falou e ele riu.
“Sim, chefe!” exclamou em resposta.
*
Do Contra reparava nos prédios ficando mais altos e casas mais luxuosas à medida que o silencioso carro avançava rumo à casa de seus pais. À sua esquerda, Milena parecia rever algumas perguntas que faria aos mais velhos; à sua direita, Nimbus sorria enquanto mandava um emoji de foguinho para alguém; à sua frente, o motorista do uper não abria a boca.
O silêncio estava tão incômodo que agradeceu quando chegou ao destino.
“Chegamos! Eles estão esperando vocês na sala.” Nimbus disse, sem se mover do banco.
“Você não vai com a gente?” a moça perguntou pegando seu tripé do porta-malas.
“Não, eu tenho um compromisso agora. Não se sinta intimidada, Milena. Eles são meio chatinhos, mas são legais.” Nimbus assegurou.
“Pelo visto, sua banda não é o único paradoxo ambulante, DC.” ela comentou.
“Faz mais sentido do que parece. Deixa eu te ajudar, você sempre carrega tudo sozinha.” DC se ofereceu, pegando a mochila, e ela sorriu apenas com o tripé em mãos.
“Obrigada, cavalheiro.” agradeceu e ele riu.
Ao entrarem na enorme casa, os mais velhos de fato esperavam na sala. Assim que a viram, pareceram analisá-la.
“Milena, esses são Keiko e Nimbão, meus pais. Essa é Milena, minha fotógrafa, documentarista e amiga.” o rapaz os apresentou.
“Olá! É um prazer conhecê-los!” estendeu a mão.
“O prazer é nosso!” o homem disse ao apertar.
“Você trabalha sozinha?” a mulher perguntou após apertar.
“Neste trabalho, sim.” Milena respondeu.
“E você tem experiência com mini documentários?” o outro interrogou.
“É minha primeira vez.” respondeu sincera, não via motivos para mentir.
“Então teremos um resultado amador?” o pai perguntou sem pudor.
“Um pouco mais de respeito, por favor?” DC interferiu.
“Não foi nossa intenção te desrespeitar, Milena. Só queremos que o resultado seja satisfatório.” Keiko esclareceu.
Milena assentiu.
“No que depender de mim, o resultado será bom. Em relação ao amadorismo, pode ter sido uma boa escolha dos meninos. O dito amadorismo pode remeter à própria personalidade de fuga do habitual do DC.” explicou.
O rapaz sorriu orgulhoso enquanto os mais velhos olhavam com certa surpresa.
“Eu disse que era uma ótima profissional! E que não tem tempo sobrando, então vamos ao que interessa. Um conselho, deem liberdade criativa a ela. Ela sabe o que faz.” DC alertou.
“Então nos surpreenda.” Keiko disse.
Milena sorriu.
“Posso ver a cozinha de vocês?” perguntou e os mais velhos olharam-na curiosos.
X
A cozinha dos pais de DC recebia boa parte dos raios de sol àquela hora, então Milena decidiu aproveitá-la. A fotógrafa filmou o relógio da parede e depois a cafeteira pingando café em uma xícara de porcelana antes de focalizar em Keiko e Nimbão, que, já microfonados e usando roupas claras, estavam sentados de mãos dadas diante de uma mesa posta.
“Como vocês definiriam a infância do Maurício em uma palavra?” Milena perguntou.
O casal pareceu pensar.
“Barulhenta. Diferente.” responderam ao mesmo tempo.
“Por quê?” ela perguntou.
“Maurício tocava vários instrumentos, mas o favorito dele era o mais barulhento. Dizem que a prática leva a perfeição, então, pelo tanto que ele praticava, deve estar perfeito.” Nimbão falou com um sorriso brincalhão.
DC, que observava tudo encostado no balcão, acabou rindo. Seu pai, quando não estava sendo muito sério e pensando como empresário, tinha um bom senso de humor.
“E por que foi diferente?” perguntou.
“Maurício não era como os outros garotos da idade dele, contrariava demais. Levamos em profissionais, mas sempre nos disseram que era algo dele. Enquanto os outros meninos jogavam bola por aí, ele gostava de ficar no bar dos avós. Diria até que contraria desde o útero.” Keiko respondeu.
“Mesmo? Por quê?” perguntou.
“Ele era tão calmo que eu até esquecia que estava grávida, mas foi ansioso demais duas vezes, quase nascendo prematuro. Além disso, ele gostava de ficar de cabeça pra baixo ou de costas, foi difícil ver esse garoto! É hoje que ele gosta de se aparecer.” revelou.
Do Contra estava boquiaberto, não conhecia aquela história. Sua mãe era alguém que oscilava entre a exigência, a doçura, a preocupação e a discrição, então não era tudo que compartilhava.
“Mas foi crescendo todo… ele.” completou doce.
“Surpreendendo muita gente, eu diria.” o pai acrescentou.
O filho mais novo prestava atenção em cada palavra, os pais estavam sendo tão verdadeiros que era como se estivesse descobrindo junto de Milena. A conversa na cozinha se resumiu ao rapaz em sua infância e adolescência.
“Vamos mudar de cenário? O quarto do DC pode ser interessante.” a fotógrafa sugeriu e os demais aceitaram.
“Qual vai ser o tema?” Keiko perguntou.
“A ideia é falar um pouco do DC de agora, mas usando o lugar que ele ficava quando morava aqui.” a outra respondeu.
“Então é melhor trocarmos de roupa. Maurício, organize um pouco o seu quarto.” ela disse saindo rapidamente com o marido.
DC deu um riso.
“Essa é a dona Keiko. Por aqui, Milena.” guiou a amiga.
Milena observou o antigo quarto do rapaz assim que a cortina foi aberta: muito limpo e um tanto minimalista. Possuía apenas uma cama de solteiro, uma escrivaninha, uma cômoda de madeira e quadros de bandas de rock e prateleiras com livros adornando a parede clara.
“Imaginava outra coisa, não vou mentir.” comentou colocando a câmera ao redor do pescoço.
“O quê?” ele perguntou também olhando para tudo, fazia um tempo que não entrava ali.
“Mais roqueiro.” respondeu fazendo alguns takes e o moreno riu.
“Aqueles dois são sistemáticos. E muita coisa eu levei comigo.” respondeu enquanto olhava pela janela.
“Que tal colocarmos aquela poltrona e aquela cadeira da escrivaninha perto da cômoda? Dá pra pegar um pouco dos quadros. Esses livros são de quê?” perguntou e ele pegou alguns.
“Arquitetura e música. Vou pegar uma outra poltrona no quarto do Nimbus, acho que funciona melhor.” respondeu.
“Beleza. Ah! Entrar nesse assunto é suave pra você?” perguntou apontando para o livro de arquitetura e ele riu.
“É você que manda, chefe.” brincou antes de sair do quarto.
O rapaz e seus pais, que agora usavam uma paleta de cores escura, não demoraram para retornar.
“Podemos começar?” Keiko perguntou dobrando a manga de sua camisa de cetim.
Milena observou a imagem na câmera.
“Aqui é um pouco mais escuro… vou pegar alguns equipamentos que deixei na minha mochila, já volto!” falou deixando o quarto.
DC ficou sozinho com os pais no quieto cômodo.
“Eu… eu não sabia daquela história.” quebrou o silêncio.
“Não?” a mãe perguntou e ele negou.
“Não. Eu me lembraria disso. A senhora… ficou bem com… minhas ansiedades de feto?” perguntou e ela riu.
“Do meu jeito.” respondeu e ele apenas assentiu.
Milena retornou e logo se posicionaram para uma nova gravação.
“Como foi para vocês quando Maurício escolheu o caminho da música?” perguntou.
DC viu os pais suspirarem.
“Difícil! Como pai e tendo vivência como um influente empresário, eu esperava que ele escolhesse algo mais rentável. Depender de música, ainda mais como a dele, é complicado.” o pai disse.
“Maurício é um bom músico, mas nosso desejo era que ele ao menos concluísse o curso de arquitetura. E quem sabe seguir essa carreira e deixar a música como um hobby.” a mãe completou.
O rapaz revirou os olhos.
“Acham que seria muito diferente?” Milena perguntou.
“Seria melhor que hoje. E eu já disse isso pra ele! Neste mesmo quarto, disse que ele deveria parar de ser um quase.” o pai se exaltou.
“O que seria isso?” ela perguntou.
“Um quase arquiteto, um quase músico respeitável, um quase adulto responsável…” explicou.
O filho bufou e Milena decidiu pausar a gravação.
“Acho que estamos nos exaltando. Vocês querem mudar de tópico?” perguntou.
“Não! Acho que precisa aparecer o que pensamos! Mas com outras palavras.” Keiko disse decidida.
A fotógrafa olhou para seu cliente, que deu de ombros.
“Certo… vamos tentar de novo a partir da música como um hobby. Eu corto a outra parte.” ela sugeriu enquanto anotava a minutagem em seu celular.
“Acho que voltar um pouco mais, assim não vai parecer que somos tão contrários assim.” o pai repensou.
“Vocês são contrários!” DC enfim se pronunciou.
“Não somos, não! Você acha que não, mas gostamos da sua música. O ponto é que isso não devia ser sua profissão!” Nimbão pontuou.
“É claro que imaginávamos algo diferente pra você, meu filho.” a mãe disse.
“Me enfiaram em várias aulas de instrumentos, esperavam que eu fizesse o que com isso?” ele perguntou cruzando os braços.
“Você era muito elétrico, Maurício! Elétrico e complicado demais! A gente queria que fosse um pouco mais… como os outros.” o pai respondeu.
DC riu sem humor, mas não conseguiu dizer nada.
“Vamos voltar nessa pergunta depois e partir para outra.” Milena interferiu.
Os mais velhos se recompuseram.
“O que a música dele simboliza na vida de vocês?” a moça perguntou.
Os dois pensaram por alguns instantes.
“Acho que aquilo que nos distanciou.” Nimbão respondeu.
“Que hoje já deixou de ser uma barreira. Então chamaria de forma de expressão.” a mãe tratou de acrescentar.
DC não prestou atenção no resto da conversa e nem em algumas outras filmagens, a tentativa de perfeição dos pais estava o irritando. Logo já possuíam material suficiente para a parte dos pais.
Enquanto Milena guardava suas coisas, os pais se aproximaram do filho, que pedia um uper.
“Gostei da garota. Realmente parece fazer um bom trabalho.” o pai opinou.
“Eu disse que estava em boas mãos.” DC respondeu sem olhar.
“É realmente algo apenas profissional?” Keiko perguntou, fazendo o rapaz enfim tirar os olhos do aparelho.
“Por que a pergunta?” perguntou.
“Nunca sai da defensiva, Maurício? É que vocês não parecem apenas uma fotógrafa com seu cliente.” comentou e ele deu de ombros, olhando rapidamente para a moça que terminava de guardar sua câmera.
“Somos amigos. Nosso carro está à caminho, Milena.” avisou.
“Já estou pronta! Foi um prazer conhecê-los!” ela disse.
“O prazer foi nosso! É bom saber que nosso filho está em boas mãos.” Nimbão disse após apertar-lhe a mão.
“Por que não ficam para comer conosco? Adoraria te conhecer mais, conversar sem uma câmera!” Keiko disse após abraçá-la.
DC estreitou os olhos e a moça sorriu amarelo.
“Eu vou fotografar bodas mais tarde, então estou com a agenda cheia. Mas agradeço o convite.” recusou.
“Então fica pra outro dia.” a mais velha disse.
No carro, DC a olhou.
“Gostou de entrevistar meus pais?” perguntou.
“Não imaginei que presenciaria um conflito.” ela respondeu, fazendo o amigo rir.
“Eles são assim mesmo. A propósito, é muito estranho quando você me chama pelo nome.” confessou e foi a vez de ela rir.
“E olha que seu nome é bonitinho. Quando eu os vi, tive certeza que não iriam gostar que eu te chamasse pelo apelido.” assumiu.
“Eles não ligam. E gostaram de você! Meu pai não mostra o senso de humor pra qualquer um e minha mãe jamais convidaria alguém que não gosta para alguma coisa. Isso eu puxei dela.” o amigo revelou.
“O que mais você puxou deles?” a moça perguntou.
“Acho que quase nada.” falou e ela assentiu.
“Sua banda morta-viva está na correria hoje?” mudou o foco, era o segundo destino deles.
“Pior que sim. Nem sei como fomos esquecer de colocar eles também.” respondeu e ela começou a mexer em sua mochila.
“Muita coisa na cabeça. Vamos fazer uma intro aqui mesmo? O que acha de eu perguntar sobre como é a banda?” perguntou e ele riu.
“Pensei que fôssemos espontâneos.” lembrou e ela riu.
“Erro meu.” falou entregando a ele o microfone e pegando sua câmera.
“E sobre suas bandas? Por que elas chegam ao fim quando atingem o auge?” ela perguntou já o filmando.
“É nesse momento que a essência se perde.” respondeu.
“Com sua última banda, isso aconteceu?” perguntou e ele riu.
“Sim e não.” respondeu e a moça parou de gravar.
“Corte ótimo!” elogiou.
Ao chegarem no teatro, lá estavam Isadora, Jeremias e Toni. Diferente do esperado, não tiveram muito o que falar, mas, fora das câmeras, quiseram conversar sobre as filmagens.
“Tá difícil aturar esse doido, Milena?” Jeremias perguntou.
“Acredita que não? DC é um cliente especial.” ela respondeu.
“Quem vale mais a pena fotografar: um cara estranho que nem ele ou um cara lindo como eu?” Toni perguntou fazendo uma pose.
“Ver isso devia ser considerado castigo!” DC zombou.
“Me recuso a responder. Não perguntei na filmagem, mas o escândalo mudou alguma coisa na relação de vocês?” Milena perguntou curiosa.
“Tô te achando muito hesitante hoje. Não tenho problemas em me expor, lembra? Acho até bem importante essa pergunta.” o baterista observou.
“Dá um desconto pra ela, seus pais são amedrontadores.” Isadora defendeu.
“Coisa bonita de falar dos seus ex sogros.” Jeremias riu ao dizer.
Milena arregalou os olhos.
“Vocês namoraram?” perguntou surpresa e o antigo casal assentiu.
“Você não disse pra ela?” Toni questionou o amigo.
“Acho que nunca caímos no assunto vida amorosa.” ele respondeu.
“Verdade! E olha que é uma coisa que o público gosta de saber. Sendo sincera, eu nem sei se você é solteiro, DC.” a fotógrafa comentou risonha.
“Sou.” ele confirmou.
“Tem que ser corajosa pra se envolver com isso.” o loiro zombou.
“Digo o mesmo.” DC rebateu.
“Você é solteira, Milena?” Jeremias perguntou.
“Aham.” ela respondeu.
“E pretende deixar de ser?” Toni perguntou.
“Qual foi, Marco Antônio?” DC reclamou sério, o que fez Isadora e Jeremias trocarem um olhar.
“O quê? Foi só uma pergunta!” defendeu-se.
“Não ‘tô com tempo pra isso, Toni.” ela respondeu.
“Tem que aproveitar as coisas boas da vida, Milena. Posso te ajeitar pra um amigo lindo que eu tenho.” a loira piscou um olho ao dizer.
“Virou cupido, Isadora?” o ex perguntou.
“Nas horas vagas, queridinho. Aqui, Milena.” virou o celular, onde havia a foto de um rapaz na praia.
A moça não foi a única a olhar.
“Nem é tudo isso!” DC comentou de braços cruzados.
“Mas é bastante coisa…” Milena comentou com um sorrisinho, que fez o outro olhá-la de olhos arregalados.
Jeremias, risonho, cutucou o também sorridente Toni.
“Quer o contato?” Isadora perguntou maliciosa.
“Vou pensar. Tenho que ir agora. Na próxima, eu pergunto sobre a polêmica! Tchau, pessoas!” Milena falou antes de sair do local.
Os três encararam Do Contra, que a observava sair.
“Camarão que dorme, a onda leva.” Jeremias cutucou o baterista.
“Quê?” o outro perguntou.
“A fotógrafa gata que ‘cê ‘tá a fim não vai ficar solteira pra sempre, então se mexe!” Toni falou sem rodeios.
“Eu não ia falar na lata assim, mas concordo.” Isadora concordou.
DC revirou os olhos.
“Nada a ver!” negou.
“Para de mentir, Do Contra! A cada cinco segundos, você olhava pra ela com cara de bobo!” Jeremias exclamou.
“Vocês estão vendo coisa onde não existe.” falou.
“Então você não vai se importar se eu chamar ela pra um encontro duplo. Eu, meu crush, o bonitão aqui e ela.” Isadora balançou o celular.
DC umedeceu os lábios.
“Ela acabou de dizer que não tem tempo pra isso. E realmente não tem, ela é ocupada.” falou.
“Eu sou ótima em convencer as pessoas a saírem da rotina.” ela garantiu.
O moreno de cabelos lisos negou com a cabeça.
“Vou pra casa que ganho mais!” reclamou e saiu, ouvindo a risada dos três.
“Jogou verde, Isa?” Jeremias perguntou.
“Sim e não. Realmente tenho um encontro e um amigo gato. Mas o ponto é que ele ‘tá a fim dela, ele meio que me disse.” respondeu.
“Quando foi que a gente deixou de se preocupar com nosso emocionado favorito confundindo as coisas e começamos a incentivar?” Toni perguntou.
“Desde quando ele disse que viraram amigos mesmo e eu vi ele olhando pra ela com cara de idiota.” o moreno disse.
“Quando ele deixou claro. E você?” a loira falou.
“Na mesma noite do show, quando lembrei que não sou pai de marmanjo.” respondeu.
“Amigão que tu é, hein?” o outro comentou.
“Vocês me amam!” abraçou os dois pelos ombros.
Enquanto isso, voltando para casa, Do Contra não queria, mas ficou pensando no que os amigos haviam dito.
*
Mais tarde, na Dream, Mônica andava pela sua sala enquanto conversava ao telefone com um fornecedor quando ouviu duas batidas na porta.
“Pode entrar. Rosas vermelhas, isso!” autorizou e logo retornou à conversa.
Acenou com a mão para a pessoa que entrou e fez sinal para que se sentasse.
“Certo, certo. Aguardo as fotos. Tenho que ir agora, um cliente acabou de chegar, tchau! Oi, Cebola! Hoje é a degustação, né?” perguntou após encerrar a ligação.
“E aí, Mônica! É hoje, sim.” respondeu.
“Dia de sorte! Imagino que Carmem vai se atrasar, mas pode esperar lá, se quiser. Fica no segundo andar.” Mônica indicou.
“Na verdade, ela furou. Pelo visto, tem a ver com as bodas dos pais do Nik.” Cebola revelou.
Mônica negou com a cabeça.
“Quer saber? Nem me surpreende mais. Você vai nas bodas também?” perguntou e ele negou.
“Eu fui convidado, mas eu nem conheço os pais do Nik. Esse tipo de evento é uma coisa íntima. Prefiro ficar em casa e jogar um Lolzinho.” respondeu e ela riu.
“Faço o estilo caseira também. Até me divirto saindo, mas ficar em casa vendo uma série tem sido bem melhor. Bom… mas que bom que veio, Cebola, assim não ferra pra galera do buffet.” comentou.
“Sim. Ér… você se importaria de ir na degustação comigo? Certeza que não vou saber escolher sozinho. Ela já deixa tudo na sua mão mesmo, não vai nem ligar.” Cebola pediu.
Mônica riu com a proposta.
“Deu sorte! Ainda não almocei, estou com fome e a comida do buffet daqui é maravilhosa. Vamos lá!” exclamou e os dois saíram da sala.
No segundo andar havia uma bela e chique cantina, que mais se assemelhava a uma cafeteria, onde, além de de fato servir como cafeteria, ocorriam as degustações de cardápios dos eventos.
O chef não demorou a aparecer e, ao ver que Carmem não estava presente, pareceu um pouco mais aliviado.
“Já fiz outros trabalhos para a família Frufru, então creio que o serviço finger food para as entradas e à inglesa para o jantar serão uma boa ideia. Está de acordo?” perguntou para Cebola.
O rapaz fez uma careta de incompreensão e logo olhou para Mônica, que acabou rindo.
“Alguma dúvida, Cebola?” perguntou e ele assentiu devagar.
“Até do meu próprio nome!” respondeu e a morena sorriu docemente.
“No finger food, as comidas vão passando e a pessoa vai pegando. No serviço à inglesa, o garçom leva as opções num carrinho até a mesa e o convidado escolhe o que quer comer, aí o garçom monta o prato dele.” explicou.
“Isso mesmo.” o chef concordou.
“Ah! Eu não sabia o nome. Nas festas mais sérias, eles costumam usar essa sua sugestão, mas já vi eles usarem self-service. Qual você acha melhor, Mônica?” Cebola lembrou, pedindo a opinião de Mônica ao fim.
“Casamento é um evento diferenciado, então acho que pra família Frufru, a primeira opção combina mais.” ela opinou.
“Então vai ser isso.” Cebola escolheu.
“Ótima escolha! Vamos começar a degustação! Lucília! Pode trazer as entradas!” chamou uma funcionária, que levou as coisas em um carrinho.
“Vamos começar por uma opção que a senhora Frufru gosta muito: Vol-au-vent de palmito com presunto parma e queijo Gruyère e Ceviche como uma opção fria. É até um prato bem simples.” ele explicou colocando o pratinho na mesa, era apenas um.
“Simples?” Cebola repetiu com um riso.
“Não se deixe enganar pelo nome!” Mônica pontuou.
Cebola observou o primeiro prato antes de prová-lo. Ao comer, suspirou.
“Nossa! Eu já comi uma vez e sempre quis saber o que era. Aqui, Mônica, prova! Próxima resenha, vamos fazer um desses.” comentou colocando mais em um outro garfo e dando na boca de Mônica.
A wedding planner sorriu.
“Já tinha provado antes, é bom mesmo! Mas um conselho, não escolha antes de provar tudo!” aconselhou e ele sorriu.
“Então segura esse garfo, porque eu vou precisar de uma segunda opinião.” falou e ela riu enquanto se ajeitava na cadeira, iria aproveitar.
Após muitas degustações e escolhas difíceis, os risonhos Mônica e Cebola retornaram para a sala.
“Comer as degustações deve ser a melhor parte de ser wedding planner, né?” o rapaz perguntou se sentando e a amiga negou.
“Na verdade, foi a primeira vez que comi. Eu costumo só anotar as escolhas. Na real, acho a parte da degustação a mais chata, porque tem as comidas cheirosas que não posso comer, mas meus amigos da cozinha sempre me dão um tequinho.” respondeu enquanto acrescentava algo à planilha do casal.
“Sério? Nossa, que chato.” ele comentou e ela assentiu.
“Fez boas escolhas, Cebola.” elogiou.
“Mesmo? Não acha que a comida japonesa no meio ficou muito aleatória? Eu não esperava ver essa opção no cardápio! Na verdade, muita coisa eu não esperava! Quiche de brócolis com bacon e mini hambúrguer no mesmo cardápio que aquele lá que nem lembro o nome? Não imaginava!” falou e ela negou com a cabeça com um riso.
“Tem que ser a cara dos noivos e dos convidados! Eu sempre pergunto pro casal essas coisas, mas você e Carmem andaram complicando minha vida, então fui juntando as peças que tinha.” respondeu.
“Então foi você que fez o cardápio?” ele perguntou surpreso.
“Não, mas passei as informações pro chef. Sabia das noites de hambúrguer dela, do seu gosto por comida japonesa e nem vou comentar sobre o macarrão com brócolis. Eu repensei sobre o bacon, mas como você disse que gostava, Cascão acabou sofrendo nessa.” explicou.
Cebola sorriu verdadeiramente.
“Você é muito atenciosa, Mônica. De verdade!” elogiou.
“Só ‘tô fazendo meu trabalho.” a moça respondeu modesta.
“Não, você faz muito além e tira leite de pedra. Se pensa em se casar algum dia, o cara vai ter sorte.” Cebola comentou.
Mônica girou em sua cadeira.
“Não sei se sorte é a palavra. Eu iria monopolizar! Eu sonho com o meu, então tenho tudo planejado! O problema seria o orçamento. Com todo respeito, Cebola, a Carmem desperdiça demais a chance que tem de ter o casamento dos sonhos.” comentou e ele riu.
“É que ela não enxerga casamento igual a gente.” falou.
“E como você enxerga o casamento, Cebolácio?” a morena perguntou.
Cebola deu de ombros.
“Não sou o cara mais romântico do mundo, mas essa… coisa sem sentimento nenhum não é o que eu imaginava que aconteceria. Acho que, pra mim, é você gostar tanto da presença da pessoa na sua vida que simplesmente se vê dividindo tudo com ela.” respondeu sincero.
Mônica o olhou com os olhos brilhando.
“É realmente uma pena que você tenha escolhido se casar por interesse, Cebola.” falou sem perceber.
Cebola sorriu sem graça e a moça cobriu a boca.
“Desculpe! Acabei pensando alto.” desculpou-se enquanto se levantava, o rapaz também se levantou.
“Tudo bem. Às vezes penso igual. Vou te deixar trabalhar. Obrigado por ter me acompanhado e ajudado a escolher. Você tem sido mais minha noiva que minha própria noiva!” comentou risonho ao fim e a morena abriu a boca sem uma resposta.
“Ér… de nada.” falou e ele acenou antes de sair.
Mônica se jogou novamente em sua cadeira e suspirou.
“A Carmem joga no lixo a sorte que tem! Ai... me envolver menos ‘tá ficando mais difícil!” exclamou.
*
Agnes gostava da calmaria que era trabalhar apenas com Nikolas, mas, depois daquele movimentado sábado, pensava seriamente em pedir que Cascão fosse contratado.
Por mais que fosse extrovertido e comunicativo, Nikolas frequentemente ficava distante, principalmente quando algum cliente perguntava sobre sua vida amorosa, o que era comum até demais. Já Cascão era a personificação da comunicabilidade, fosse com clientes, fosse com ela. Aparentemente, o rapaz nunca ficava sem assunto.
A loja estava vazia na abertura pós horário de almoço, então os dois conversavam tranquilamente.
“Sinceramente, Cascão, não fala pro Nik, mas você vende melhor que ele.” comentou e o outro riu.
“Coisa feia de se falar do chefe!” brincou.
“Por isso, não fale pra ele.” comentou.
“É bem surpreendente ele trabalhar na própria loja. Se eu fosse famoso que nem ele, não iria querer ficar acordando cedo e tendo que lidar com cliente chato. Fora que os haters saberem onde te achar pode ser perigoso.” comentou.
“Pelo que eu entendi, ele abriu a loja física pra ocupar a mente depois do término dele. Nunca veio nenhum hater aqui, mas ele nem fica aqui o tempo todo. Fora que, até então, o movimento era baixo. Aumentou por causa de uma live.” respondeu.
“Eu assisti a live. Ele deu um código de desconto bem generoso. Só não usei porque a conta do cartão precisa ser paga primeiro.” ele comentou.
“O que aconteceu pra ficar tão alta?” a moça perguntou.
O rapaz suspirou.
“Meu namoro durou muito tempo. Quando acabou, eu fiquei sem rumo. Então gastava pra tentar preencher o vazio, sabe?” revelou.
“Mais ou menos, nunca namorei. Mas funcionava?” perguntou e ele riu.
“Momentaneamente.” respondeu.
“E como você superou?” perguntou.
“Com o tempo, a gente começa a lidar melhor. Às vezes, eu ainda penso nela e no que tivemos, mas tento seguir em frente.” confessou.
“Vocês terminaram por quê? Se não quiser responder, tudo bem.” Agnes perguntou e logo se deu conta da delicadeza do assunto.
“Não, tudo bem. Você sabe que sou um cara que gosta de agito, só que ela sempre fez o estilo estudiosa até demais. Ela ia comigo em alguns rolês e não tinha problemas que eu fosse sozinho, só que a gente brigava muito pelas prioridades que eu dava pras coisas.” revelou.
“Como assim?” ela perguntou.
“Tinha vezes que eu focava mais no esporte e festas e menos na faculdade e até mesmo na relação, o que deixava ela puta e com razão, né? Já furei encontros por causa de ressaca ou partida relâmpago. Teve uma vez acabei esquecendo de avisar e foi tenso." lembrou.
"Não vou mentir pra você, Agnes, já vacilei várias vezes, mas às vezes ela pesava a mão nas cobranças. Então a gente discutia bastante.” continuou.
“Chegou o dia que ela cansou de pegar no pé. Além disso, estamos em vibes diferentes. Ela quer formar, fazer mestrado, ir pra outro país e essas coisas. Já eu... hunf! Eu nem sei qual aula eu tenho na segunda-feira.” acrescentou.
“Acha que é impossível se relacionar com alguém tão… diferente?” ela perguntou com um curioso interesse.
“Não, tanto que ficamos juntos por anos. Só que se ninguém ceder a momento nenhum ou só um ficar cedendo, vai ter um desgaste maior. A gente 'tava no nível de se evitar, não ia durar muito mais tempo.” o moreno respondeu.
“Então por que você sofreu?” a loira perguntou e ele riu.
“Compartilhamos muitos momentos e crescemos juntos. Chegamos a nos amar, mas chegou um tempo que as diferenças ‘tavam maiores que isso.” falou.
“Se acabou, não era amor.” a moça comentou e ele negou com a cabeça.
“Não dá pra ser tão extremo assim, Agnes. Uma coisa que meu pai disse que ficou na minha cabeça foi que o amor não se sustenta sozinho. Se ele não for cuidado, ele vai diminuir. E foi isso que aconteceu comigo e Cascuda. Hoje eu sei que eu vacilei muito com ela, tinha coisas que uma conversa resolveria e eu não fiz isso. O amor que a gente tinha lá no começo não foi cuidado como deveria e… acabou.” opinou.
Agnes estava boquiaberta.
“Profundo! É muito estranho te ver falando sério assim.” confessou e ele riu.
“Até eu estranho quando ‘tô lúcido demais.” respondeu.
“Acontece quando você 'tá mais perto ou mais longe do 100%?” ela perguntou.
“Acho que… não sei. Esses dias, eu ‘tava uns 80% e mandei um papo sério pro Cebola. Mas no dia que meu namoro acabou, eu devia estar uns 50% ou menos, e tive uma conversa com uns amigos que não aconteceria se a gente tivesse sóbrio, e não ‘tô falando de conversa sem sentido, era coisa sinceríssima com conselhos profundos mesmo.” revelou.
“Acho que só tive uma conversa dessas com a Sofia. Com a Penha é mais difícil.” Agnes divagou.
“Você não fala muito delas… principalmente dessa Penha.” o rapaz reparou.
“Não tem muito o que dizer. A Penha mora na França e a Sofia voltou há pouco tempo de viagem. Falei com a Sofia esses dias, mas a Penha anda sumida. Não somos como você e seus amigos, que são o tempo todo próximos, mas funciona. Só que… às vezes eu sinto falta.” esclareceu.
“Você falou com a Sofia e pareceu ser bom. Talvez falar com Penha, possa ser também.” o amigo sugeriu.
“Elas são bem diferentes uma da outra! A Sofia é mais doce, a Penha é… um pouco mais rude. Ultimamente, ela parece ainda mais distante.” revelou.
“Bom… você sabe o que é melhor.” falou ao ver um cliente entrando.
“Yo!” ele cumprimentou enquanto se dirigia até onde ficavam os mangás e os dois cumprimentaram de volta.
“Deve ser um desses otakus…” ela sussurrou e Cascão riu.
“Não gosta de otakus?” perguntou.
“Não daqueles que ficam me fazendo perguntas específicas que nunca fazem pro Nik.” respondeu.
“Esses são paia mesmo.” concordou.
“Preciso de ajuda! 'Tô procurando um mangá meio antigo, mas não sei o nome, ano e autor. Vi uma imagem num meme e fiquei curioso.” o cliente se aproximou.
“Deixo esse com você!” ela deu tapinhas no ombro do amigo.
“Medrosa, hein? Qual é o meme, cara?” perguntou enquanto se aproximava do rapaz.
Agnes observou Cascão falando com o cliente e sorriu. Pegou seu celular e, após olhar para o contato de Penha, seu olhar se perdeu.
*
O céu alaranjado indicava que o dia logo cederia lugar para a noite. Na chácara alugada por Carmem e Nikolas, um som de música clássica sendo tocada ao vivo soava enquanto um pergolado enfeitado com cortinas transparentes e luzes era cenário para várias fotos de convidados. Somadas a isso, de frente para o pergolado, estavam as toalhas de picnic vermelhas com cestas de palha, todas já ocupadas pelos demais convidados, que também tiravam fotos.
Mais ao lado, havia a grande mesa de picnic com as entradas e bebidas; uma menor em frente a um painel com o número 30, onde estava o bolo perolado, docinhos e flores decorativas; e, de frente para ela, estavam as habituais mesas de buffet, onde os convidados que não quisessem comer na grande mesa jantariam após o momento inicial.
Vendo tudo isso, Carmem e Nikolas trocaram um olhar orgulhoso.
“As bodas dos seus pais.” ela disse.
“As bodas dos meus pais! Ainda não acredito que a gente conseguiu deixar tudo como eles queriam!” o rapaz exclamou.
“Acredite, depois de muito trabalho, conseguimos. Somos uma boa dupla!” falou entrelaçando sua mão à dele.
“Não tenho dúvidas.” respondeu beijando a mão da moça.
De repente, o pai de Nikolas apareceu esbaforido.
“Nikolas, meu filho! Eu preciso de um favor.” falou ainda recuperando o ar.
“O que aconteceu?” perguntou.
“Minha gravata! Eu esqueci! Sua mãe me disse que eu ia esquecer e eu disse que era exagero, mas…” falava preocupado.
“Parece que ela estava certa! Por coincidência, ela me pediu pra trazer uma reserva, vamos lá. Já volto, Carmem!” falou saindo com o pai.
Carmem deu mais um sorriso orgulhoso ao olhar em volta e logo ouviu ser chamada.
“Carmem, querida! Nikolas falou que você ajudou ele do início ao fim! Obrigada!” era Flora.
“Ah, dona Flora… foi um prazer! A senhora ‘tá linda! Qual é a sensação de completar tantos anos de casada?” perguntou.
“Mágico e impressionante. Conviver com alguém tem lá seus desafios, mas tem seu lado bom. Espero que vivencie isso também.” falou e ela riu fraco.
“Quem sabe, né?” falou.
Flora a olhou bem.
“Você nunca fala do seu casamento. ‘Tá tudo bem?” reparou.
“É que eu… eu não sei se agi certo em fazer tudo tão rápido.” a loira confessou.
“Nunca é tarde para mudar de ideia.” a mais velha ressaltou.
“Como a senhora soube que o seu Sérgio era o homem certo?” perguntou.
A mais velha sorriu.
“Ele tinha um tchan a mais. Desde o primeiro momento, me sinto bem ao lado dele, com todos os defeitos. Ser você mesma pode ser uma tarefa difícil, Carmem, mas quando acha alguém que te deixa à vontade para ser quem realmente é e, de quebra, tem vontade de dividir a vida com essa pessoa… é porque está no caminho certo. É assim com seu noivo?” perguntou.
A moça arregalou os olhos.
“Com meu noivo? Eu… eu… não sei.” respondeu sincera.
“E com meu filho?” a outra perguntou interessada.
Carmem abriu e fechou a boca.
“Eu… vou ir ver umas coisas.” saiu rapidamente.
Após andar um pouco para fugir de seus pensamentos, Carmem suspirou ao se sentar em uma das toalhas de picnic. Olhou para dentro da cesta, onde estavam as lembrancinhas, as sementes e um pratinho no formato de concha com o nome do casal e a quantidade de anos de matrimônio, juntamente de algumas flores coloridas.
Pegou um saquinho de estopa e o balançou, ouvindo as sementes colidirem entre si.
“Esta semente simboliza o início. Plante-a com um propósito e cuide dela com amor, assim, as raízes serão firmes e terá uma bela história.” leu a etiqueta, lembrando-se instantaneamente da manhã na floricultura.
De repente, Nik se juntou a ela.
“Missão cumprida!” falou entregando uma taça contendo ponche de frutas.
“Quando foi que surgiu esse pratinho?” perguntou pegando a outra lembrança com uma mão e a taça com a outra.
“Meus pais encomendaram sem me falar.” ele respondeu.
“E por que é no formato de concha?” perguntou virando o objeto de porcelana.
“Bodas de pérola. Acha que chega nela com o Cebola?” o amigo perguntou e ela riu.
“Alguém consegue mentir por 30 anos?” respondeu com uma pergunta.
“Não sei. Vai que no meio do caminho as coisas mudam?” comentou dando um gole em sua bebida.
A moça revirou os olhos.
“Nem você acredita nisso!” respondeu.
“Você sabe o que eu penso do seu plano, mas… eu torço pela sua felicidade.” afirmou e ela forçou um sorriso.
Pouco tempo depois, a cerimônia começou. A paixão transbordava das palavras trocadas pelos anfitriões, não por acaso alguns convidados derramavam lágrimas.
“30 anos não são 30 dias, mas acho que já falamos demais. Queremos finalizar com um brinde.” Sérgio levantou uma taça de champanhe e os convidados as suas contendo suas respectivas bebidas.
“Brindo à minha amada Flora, com quem construí minha família, expandi meus laços, aprendi a cozinhar decentemente, aprendi a dançar valsa e que há 30 anos eu tenho o prazer de dividir a vida. Eu te amo.” declarou.
“Brindo ao meu amado Sérgio, com quem tive um filho maravilhoso, aprendi a cuidar de plantas, a gostar ainda mais de música e que mesmo se passando 30 anos do meu sim, com dias bons e dias ruins, eu não me arrependo disso. Eu te amo.” ela também declarou antes de um beijo.
As pessoas aplaudiam e, antes que fosse dito mais alguma coisa, alguém gritou.
“Valsa, valsa, valsa!” pediu e os demais também pediram.
O casal se entreolhou com um sorriso.
“Não peçam para uma bailarina dançar, é tido como desafio pessoal! Mas, antes de dançar com meu marido, quero dançar com meu filho. Que foi quem nos presenteou com esse momento.” Flora estendeu os braços em direção ao filho.
“Com a ajuda desse ser humaninho aqui.” apontou para Carmem, que deu de ombros com um sorriso.
“Vai lá dançar com sua mãe, perna de pau.” empurrou-o.
“Só pra você saber, eu sei dançar valsa.” piscou um olho antes de se juntar à sua mãe.
Nikolas não havia mentido, de fato sabia dançar valsa. Carmem não escondeu a surpresa, e nem a curiosidade em saber como era dançar com ele. Não durou muito, o rapaz logo passou a vez para seu pai, porém, sua avó paterna interrompeu o momento.
“Espera, espera, espera! Preparamos uma surpresinha pro casal, com direito a fotos, vídeos e palavras da família e amigos e vai ficar bem melhor se fechar com a valsa de vocês! Mas acho que quem precisa começar com tudo é o fruto dessa relação! Vai lá, Carlinhos… Pedrinho… Lucas… Marcelo...” a avó falava vários nomes enquanto apontava para Nik.
“É Nikolas, vó.” falou com um riso.
“Vai lá, garoto! Você sabe que é você.” ela disse e os demais aplaudiram.
Carmem começou a filmar e Nikolas respirou fundo ao olhar para os pais, que o olhavam com carinho.
“Pra mim, é surreal imaginar que há 30 anos um simples sim mudou tudo. Pelo visto, pra melhor. Eu cresci vendo um casal exalando os sentimentos mais lindos até nos momentos mais difíceis. 30 anos realmente não são 30 dias, ver que meus pais estão há tanto tempo nutrindo esse amor e a promessa feita numa noite bonita como essa, me faz acreditar um pouco mais nessa coisa que chamam de amor.” começou.
O rapaz sorriu olhando para um ponto em específico. Era onde estava Carmem.
“Eu não sei se algum dia eu vou me casar. Mas, caso isso aconteça, eu espero que seja pelo menos metade do que é a união de vocês. Para que eu e ela possamos criar a nossa própria história a partir da raiz firme que eu tive. Obrigado por me ensinarem sobre esse amor leve, doce e feliz. Eu amo vocês! Parabéns pelos 30 anos juntos!” concluiu e os pais o abraçaram enquanto eram ovacionados.
As palavras tinham amor em seu estado puro e verdadeiro, tanto que lágrimas surgiram em olhos, inclusive os de Carmem, que não aguentou e saiu de lá.
A loira correu até um local mais afastado, iluminado majoritariamente pela luz da lua, e se sentou na grama, sem se importar de sujar seu vestido rosa. Seus marejados olhos claros se elevaram até a lua e depois desceram até um ipê, parecido com o do jardim dos pais de Nikolas.
“Raiz firme… será que eu tenho uma raiz firme?” balbuciou.
“Carmem? Tudo bem?” uma de suas vozes favoritas soou preocupada.
A moça sorriu doce e limpou os olhos.
“Belas palavras! Conseguiu me emocionar.” elogiou e Nik se sentou ao seu lado.
“Valeu…” agradeceu.
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio.
“Nikolas… você me faz acreditar que o amor existe!” Carmem revelou com a voz trêmula e ele arregalou os olhos.
“Ér… por causa do discurso?” Nikolas perguntou e ela negou.
“Por causa de você!” exclamou.
Os olhos castanhos se fixaram aos claros por alguns segundos. Não tardou para que eles vacilassem e mirassem os lábios rosados, ao mesmo tempo que os dela desceram para os negros e carnudos dele.
Uma ligeira e mútua passada de língua nos próprios lábios demonstrou o desejo, que aumentou quando a distância entre eles era mínima. Os aromas de perfumes já se misturavam aos hálitos de ponche de frutas e os olhos se fechavam, porém, de súbito, Nikolas caiu em si e se afastou enquanto se levantava, quase caindo no processo.
“Desculpe, Carmem! Eu… eu não sei o que me deu.” falou colocando seus dreads para trás.
Carmem ficou tão decepcionada que não guardou suas palavras.
“Tá se desculpando por quê?” perguntou séria.
“Como por quê? Eu quase te beijei!” exclamou incrédulo.
A moça deu de ombros.
“E daí?” perguntou.
“Daí que você está noiva! E eu sou seu padrinho de casamento! Eu… eu não consigo ficar com gente comprometida! Mesmo seu casamento sendo o que é. Desculpe, Carmem.” falou saindo rapidamente.
A moça o observou se afastar sem conseguir dizer nada, mas decidiu ir embora mais cedo.
“Eu preciso ir pra casa. Surgiu um imprevisto.” mentiu para os anfitriões.
“Oh, querida… não vai nem ficar pro bolo?” Flora perguntou.
“Adoraria ficar, mas eu realmente preciso ir. Parabéns de novo!” falou e logo deixou o local, sem nem procurar pelo amigo.
No entanto, Nikolas não estava longe. Apenas observava a cena enquanto sua cabeça rodava e o fazia reviver o quase beijo, que tanto queria que tivesse acontecido.
“Eu quase beijei ela! Isso ‘tá fugindo do meu controle! Eu… eu acho que eu tenho que me distanciar!” falou consigo mesmo.
Não tardou para domingo ocupar o lugar do sábado, trazendo consigo mais questões do que os jovens esperavam vivenciar.
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