Almas-Vagantes

19 Capítulo XIX – Verdadeira Felicidade –


Notas iniciais
“Thanatos seguiu o significado de seu nome... Matou o próprio pai... Mas com certeza ele não era mais o mesmo... Algo havia o transformado em um monstro... Frankstein o contaminou com o vírus gênesis. Os excêntricos investigadores criminais de Sky Gray chegam ao local”.

Diretor Chin acompanhou Kokoro e Caroline até o corredor da ala hospitalar e murmurou sombriamente:

— Está no fim do corredor... Podem ir... Não quero rever...

— Ok! –Disse Kokoro com aparente entusiasmo. – Não precisa se preocupar... Iremos sozinhos!

O diretor os mirou um olhar calculista e foi-se.

— Tem certeza disso? – Indagou Caroline receosa. Uma maleta pesada nas finas mãos esbranquiçadas. – Não estamos acostumados a assassinatos. Afinal Sky Gray é a cidade dos suicidas... Não a cidade dos homicidas!

— Por amor... – Retrucou Kokoro ríspido. – Você não é especialista em autopsia? Por que está receosa de ver um corpinho profanado por facas ou armas?

— Eu não disse que estava receosa! – Respondeu Caroline levantando ligeiramente o tom da voz.

— Não pareceu pelo tom da sua voz! – Vociferou Kokoro dissimulando irritação.

— Deixe... Kokoro! – Murmurou Caroline querendo acabar com a discussão. – Só achei que seria producente termos a presença do diretor...

— Entendo... – Sibilou Kokoro vagamente. –Mas não será necessário... Afinal não teremos que enfrentar nenhum assassino... Não é?

— Em todo o caso... – Disse Caroline verificando seu cós. – Está com a sua arma... Não está?

— Obvio que sim! – Confirmou Kokoro impaciente. – Não saio de casa sem ela!

O corredor estava um tanto frio, uma neblina gélida pairando no reluzente chão encerado. Finalmente chegaram à porta da enfermaria de Thanatos. Era visível que não encontrariam nada de agradável ao outro lado da porta.De fato. Mesmo estando do outro lado da porta já era possível sentir o cheiro intenso de formol ao outro lado da porta.

– Meu Deus! – Murmurou Caroline quase vomitando com o odor repulsivo quando Kokoro abriu a porta. – Que odor terrível!

– Acho que é formol... –Disse Kokoro, as narinas ardendo ligeiramente. – Respire pela boca...

Seguindo o conselho de Kokoro, Caroline começou a examinar a cena do crime. Parecia-se que tinha passado um furacão pelo lugar. Haviam-se frascos de vidro despedaçados por todo o chão. Mas isso não era o mais estranho, o mais estranho era as amostras de partes humanas espalhadas pelo piso. Kokoro atravessou a saleta em direção à cama, quase escorregou em uma amostra. Caroline caminhou cuidadosamente em direção a um armário destroçado, desviando de cacos de vidro e amostras. Ainda não queriam examinar o corpo despejado no centro da sala.

– Tem um palpite do que aconteceu aqui? – Disse Caroline olhando do armário destroçado para janela estilhaçada. – Me parece que alguém se jogou por essa janela...

– O que é isso? – Disse Kokoro levantando da cama o eletro-despertador.

— Não tenho ideia... – Murmurou Caroline se direcionando ao corpo ensanguentado. –Deve ser algum tipo de protótipo experimental de algum cientista louco. Deve ter sido usado... Sei lá... Para tortura... – Murmurou ela enquanto postava a maleta ao lado do morto.

Interessante! – Sibilou Kokoro olhando através da janela destroçada. Que dava perfeita visão ao jardim lateral de Light Of Sky.

Caroline deitou a maleta ao lado do morto e abriu-a. Apanhou duas luvas brancas finíssimas que estavam dentro da maleta e as pôs com ar de médica.Após apanhou de dentro da maleta uma pequena lanterna e começou a examinar o cadáver. Não havia nada de anormal, a não ser pela fenda sangrenta na barriga. Tateou o morto na barriga e percebeu que seus órgãos tinham sido surrupiados. Funestamente olhou o buraco aberto por algum tempo, os olhos negros calculistas.

— Tenho uma vaga ideia do que aconteceu! – Exclamou Caroline apanhando uma caríssima câmera fotográfica da maleta. Tirou fotos do morto e de sua fenda escarlate de diversos ângulos diferentes, um flash ofuscante irrompendo na parte superior da câmera a cada click. Terminada a sessão de fotos mórbidas, guardou a câmera na maleta novamente.

— Pois bem... O que você acha que aconteceu? – Perguntou Kokoro curioso, inclinando-se pela janela destroçada para olhar o gramado do jardim lateral.

— Bem... – Murmurou Caroline pensativa, mirando o cadáver de Harold calculista. – A fenda na barriga não foi aberta por faca, tampouco por qualquer ferramenta de corte... Por mais excêntrico que possa parecer, a fenda foi aberta pelo assassino com as próprias mãos... Aposto com você que isto é obra de um louco psicopata.

— Por que afirma isto? – Indagou Kokoro ainda olhando para o gramado, os cabelos negros bagunçados se esvoaçando ao vento do jardim lateral.

— O assassino roubou todos os órgãos da vítima... – Murmurou Caroline sombriamente. –E olha aquele capacete na cama... Acho que já temos um suspeito...

— Pode ser... – Concordou Kokoro. – Mas não entendo o que este capacete ajuda...

— Aqui é uma enfermaria... Não? – Indagou Caroline pensativa.

— De fato... Cadê o enfermeiro daqui? –Disse Kokoro procurando um enfermeiro na saleta futilmente. – Será que foi morto?

– Vejamos... – Disse Caroline retirando a carteira do morto de seu bolso na calça jeans. Apanhou de dentro da carteira uma identidade muito antiga e a leu, trêmula de ansiedade. – O nome do morto é... Harold Match...

Match?! – Exclamou Kokoro atravessando a saleta em direção à escrivaninha que se encontrava ao lado da porta de entrada. – O nome do enfermeiro que trabalhava neste lugar era... Judson Match... – Afirmou o detetive, incrédulo. Um crachá provindo do emaranhado de papéis da escrivaninha em mãos. – Veja! – Murmurou o detetive empurrando o crachá para Caroline verificar.

– O enfermeiro era filho deste homem... – Murmurou Caroline pensativa. – Se ele trabalha de enfermeiro na escola... Ele devia estar trabalhando hoje... Isso quer dizer que seu pai veio ao seu encontro no trabalho para discutir sobre algo... E foi morto na frente do filho ou morto pelo filho... Em todo o caso...

– De fato... – Concordou Kokoro friamente. –Mas não sabemos se foi realmente Judson que matou Harold... Podemos estar enfrentando um caso de homicídio seguido de sequestro... O assassino pode ter matado Harold na frente do filho e sequestrado Judson para matá-lo em outro lugar... Mas o mais plausível em minha opinião é que Judson matou o próprio pai...

– Por que diz isto? – Indagou Caroline.

– Judson tem o perfil de assassino em série! –Sibilou Kokoro com veemência. Os olhos cansados penetrantes. – Já viu o armário de amostrasdesse psicopata? Tem até etiqueta do que achar em cada frasco...

– Parece que ele é um mórbido colecionador de partes do corpo humano... – Murmurou Caroline mirando um coração verde-alface despejado ao chão, fendendo intensamentea formol. – Mas você não deve dizer nada... Afinal você colecionabonequinhos de criança!

– Não são bonequinhos de criança... São figuras de ação! – Rosnou Kokoro exalado. – Mas não tem nada a ver com partes do corpo humano... É uma coleção completamente comum que pode ser comprada livremente em qualquer lugar... Não é uma mórbida coleção de partes do corpo humano que pode ser comprada apenas pela deep web!

– Bem isso não é importante agora... – Continuou Caroline mudando de assunto. – O mais provável é que Judson tenha matado o próprio pai...

– Exatamente... – Murmurou Kokoro imaginando a cena do assassinato. – Ele estava fazendo algum tipo de experimento proibido antes de seu pai chegar com um corpo humano de verdade!

– Como sabe disso? – Indagou Caroline.

– Bem... A cama está fedendo a formol mais intensamente que as amostras jogadas no chão... Sem falar que tem sangue negro com adipocere por toda a cama... Isso me leva a pensar que Judson estava fazendo algum tipo de experimento com um cadáver humano recém-conseguido... Hoje mesmo!

“Não sei o que ele estava tentando conseguir... Mas ele estava usando este capacete para despejar carga elétrica no cadáverhoje mesmo... Uma espécie de experimento psicótico. Está obvio para mim que ele usou este capacete hoje, afinal o capacete está quente e despejando fumaça vagorosamente. Isso para mim prova que ele o usou hoje. Não sei o que possa ter acontecido... Mas seu pai veio o visitar e Judson o matou macabramente e por fim furtou seus órgãos... Talvez para fazer um novo experimento... ou quem sabe o porquê!”

– Está me dizendo que estamos lidando com um caso de psicopatia? – Indagou Caroline vagamente assustada com a versão deveras plausível dos fatos de Kokoro.

– De fato estamos! – Concordou Kokoro sombriamente. – E é provável que o assassino volte à cena do crime ainda hoje...

– Como sabe? – Perguntou Caroline agora assustadíssima. Os lábios tremulando sem parar.

– Eu examinei cuidadosamente a cena do crime, cuidadosamente. Quando olhei pela primeira vez para o gramado, não tinha nada. Minutos depois quando fui olhar novamente, para minha surpresa, encontrei algo deveras interessante. Ele havia deixado uma mórbida mensagem no gramado do jardim lateral... – Murmurou Kokoro sombriamente. Os olhos crepitantes mirando a janela quebrada. – Uma ­mensagem escrita a sangue fresco com as seguintes palavras:

Frankstein vive”.

Frankstein... Vive... O que isso quer dizer? – Indagou Caroline perplexa.

– Isso quer dizer que ele conseguiu o que queria!... Ou seja, conseguiu ressuscitar humanos por meios que eu desconheço... Acho que esse era o objetivo dele afinal... – Respondeu Kokoro tão perplexo quanto Caroline. – E agora ele quer o cadáver do pai para testar novamente!

Exatamente! – Disse uma mórbida voz gélida provinda do jardim lateral.

– Quem está ai?! – Balbuciou Caroline com voz trêmula.

– Estamos armados! – Intimidou Kokoro.

A luz da saleta subitamente se apagou. Mergulhando-os em uma psicótica escuridão. Os olhos a procura de luz. Ouviram-se mórbidas gargalhadas agudas se aproximando cada vez mais. Caroline tremulavade medo, tateou o ar a procura de Kokoro. Quando o achou despencou sobre ele, abraçando-o fortemente, o corpo estremecendo de pânico psicoticamente.

– Não se preocupe... Caroline... – Murmurou Kokoro calmamente retirando a arma do cós, Caroline abraçando o fortemente em meio à escuridão psicótica. – Eu vou te proteger... Mesmo que custe minha vida...

– Não! – Exclamou Caroline, a voz trêmula em demasia. – Não quero que você morra... Você é importante... Para mim...

– Está falando... Sério...? – Indagou Kokoro, uma súbita pontada de coragem o atingindo no coração. – Eu sou importante para você? – Perguntou como se não acreditasse no que tinha ouvido.

– Você é... MUITO... Importante... Para mim! – Exclamou Caroline em tom de despedida. Abraçando-o gradativamente mais forte.

Uma súbita sensação de felicidade atingiu Kokoro, o coração palpitando feliz. Ele sempre gostou de Caroline mais que uma simples amiga, mas nunca teve coragem suficiente de dizer. Agora era sua chance...Provavelmente derradeira. Seu coração bateu ainda mais intensamente... Então Kokoro murmurou:

– Eu te amo Caroline! – Os lábios tremulinando a cada palavra em tom lírico. – Eu sempre te amei...

– Eu também... – Respondeu Caroline emocionada. Um sorriso feliz no rosto completamente encoberto pela maldosa escuridão.

– Pena que estejam em seus leitos de morte... Não? – Disse a voz mórbida em tom gelado. ­– há! Há! Há! Há! Há! Há! Há!

Kokoro sentiu Caroline ser abruptamente arrebatada de seu abraço e levada para longe... Para longe dele. Mas não podia fazer nada. NÃO PODIA FAZER NADA.

– KOKOROOOO! ME AJUDEEEE! ME AJUDEEE! – Gritou Caroline em meio à escuridão. – GWAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – Agonizou Caroline.

– Não... Não... Por favor... – Pediu Kokoro para si mesmo. – Ela... Não...

Seus olhos tremulinando de medo à procura de algo em meio à escuridão psicótica. A felicidade é algo não durável. Poucos segundo atrás se sentia feliz e agora se sentia uma profunda tristeza maior que todas que já havia sentido. Ele sabia que ao retroceder da luz, teria uma psicótica surpresa a sua espreita.

Ele estava de fato certo.

A luz voltou. O recinto subitamente se iluminou pela pálida luz incandescente da lâmpada no teto. Os olhos de Kokoro se embaçaram com a súbita mudança de iluminação. Ele não sabia que o que estava vendo era verdade ou mentira. Seus olhos chocaram-se. Sua mente entrou em um redemoinho psicótico de insanidade. O que via era nada mais nada menos do que a morte.

Uma figura se agachava no meio da saleta. Aos pés da figura um corpo... Um corpo sem cabeça. Pois afinal a cabeça do corpo estava deitada na mão da psicótica figura sorridente informalmente conhecida como Thanatos.

A boca da criatura se pintava de escarlate sangue fresco provindo das entranhas do corpo do próprio pai. Um sorriso mórbido indicando satisfação. A pele mortalmente pálida. O corpo agachado de maneira animalesca. As mãos ensanguentadas ocultas por uma cabeça...

A cabeça amputada de Caroline.

Thanatos sorria e oscilava o corpo de um lado ao outro. Por alguns instantes, Kokoro observou a cena sem ter ideia do que fazer, mirando a Thanatos um olhar de pasmo e olhos preenchidos de olheiras se encharcando de lágrimas prateadas. Apontou a arma em direção a Thanatos, o rosto se preenchendo de asco.

— O que foi? – Perguntou Thanatos morbidamente, postando a cabeça de Caroline nas mãos como se fosse um mórbido prêmio. – Está triste?

BANG! BANG! BANG! BANG! BANG! BANG!

— FILHO DA PUTAAAAAAAAAA! –EstrugiuThanatos raivosamente atirando em direção ao rosto de Thanatos. Os olhos preenchidos de cólera e lágrimas.

TIC! TIC! TIC! TIC! TIC!

As balas se esgotaram. Os tiros psicoticamente acertaram em cheio o rosto de Thanatos. Seis buracos escarlates resultantes espalhados pelo rosto pálido, um deles no olho esquerdo. Mas o sorriso de satisfação psicótica não abandonou seu rosto.

É tudo? – Indagou morbidamente Thanatos cuspindo sangue negro. O rosto se ensanguentando intensamente.

Kokoro caiu de joelhos, sua arma deslizou de sua mão e despencou sobre o chão.Expulsavade sium choro ofegante de melancolia. Os olhos prateados de lágrimas mirando o corpo sem cabeça de Caroline.

Thanatos cambaleou morbidamente até a janela destroçada e despencou sobre ela, os vidros que nela restavam inertes, o perfurando por todo corpo. O olhocastanho esquerdo baleado se mantinha aberto psicoticamente sem vida. O gramado se ensanguentado abaixo de seu rosto.A morte o alcançou. Thanatos estava morto.

Kokoro se levantou e caminhou lentamente. Os olhos semivazios. Apanhou a cabeça de Caroline do chão. Caminhou até a antiga maleta de Caroline e esvaziou-a. Tinha espaço suficiente para uma cabeça humana. Colocou a cabeça dentre a maleta e foi-se.

Mergulhou na tarde escura e psicótica. Um obscuro eclipse no céu melancólico. As ruas enfeitadas com neblinas gélidas. O coração palpitando de felicidade melancólica. A maleta preenchida pela cabeça de Caroline em mãos.

— Vamos para casa? Caroline... – Murmurou ele para cabeça.

Vamos amor!— Respondeu a cabeça.

— Eu te amo... – Murmurou Kokoro, aparentemente psicótico.

Também te amo...— Respondeu a cabeça.

— Vai me amar para sempre? – Indagou Kokoro se direcionando a praça central.

Eu sempre vou te amar...— Respondeu a cabeça.

— Jura? ­– Indagou Kokoro meloso. A psicose o dominando.

Eu juro que sempre vou te amar...— Prometeu a cabeça...

— Fico feliz... – Disse Kokoro dissimulando um sorriso psicótico. – Caroline...

A caminhada no eclipse de Kokoro com sua nova maleta terminou na ponte do Rio de Hades.

Postou a maleta ao chão e abriu-a. Retirou a cabeça de Caroline de dentro e abraçou-a. As águas cristalinas do Rio de Hades se apresentavam convidativas.Saltou. A cabeça de Caroline abraçada contra peito carinhosamente. Mergulhou. As águas se mantinham álgidas como gelo. Logo Kokoro chegou ao fundo cheio de musgo e esqueletos de antigos suicidas. No alto além das águas o sol se mantinha encoberto pela lua egoísta.

Os cabelos de Caroline flutuando nas águas azuis cristalinas. Talvez fosse apenas a imaginação de Kokoro... Mas ele podia verum sorriso enfeitando a cabeça flutuante de Caroline. Talvez fosse psicose...

Mas ele sentiu que a amava mais que a si mesmo.

Quando a morte chegou, ele a abraçou de bom grado. Feliz ao conhecer uma nova amiga. Triste por abandonar sua outra amiga, a vida. Feliz por poder acompanhar sua nova amiga até em casa. Ele não estava mais nesse mundo. Estava em um mundo enfeitado de felicidade, preenchido de amizade e baseado em amor. Lá estava Caroline enfeitada de branco. Viva novamente. Abraçando-o com seu abraço carinhoso e aconchegante. Ele então chorou...

Chorou de verdadeira felicidade.