Almas Pesadas

1 Almas Pesadas


Notas iniciais
Essa fic surgiu assim que eu terminei de ler o capítulo 152. Eu não conseguia parar de imaginar o que se passava pela cabeça da Maki e o quanto ela precisava de um abraço. E quem é perfeito pra dar um abraço nela depois de tudo o que ela acabou de viver? Isso mesmo, o Panda. Mas ele tava passando pelos seus próprios perrengues, então vamos com a segunda melhor opção.

Sua respiração estava pesada, mas não pela adrenalina, que já parara de percorrer suas veias. Parecia que seus pulmões não possuíam mais a capacidade de se encherem por completo, como se houvesse um peso muito grande sob seu peito. A vida dela, talvez esse fosse o peso. Ela deveria se importar com as vidas que havia tirado também? De certa forma, ela se importava. Sentia os resquícios de raiva escaparem da ponta de seus dedos tingidos de sangue seco. Desde que a vira pela última vez, sentia que estava em uma transe, levada pelo impulso, pelo ódio e pela promessa. Agora, pisando no interior do esconderijo, pensamentos tortuosos invadiam a sua mente. Em suas mãos, as espadas pareciam ganhar peso, e seus passos se tornavam mais curtos e lentos. O mundo à sua volta parecia nublado, sem conseguir focar a visão em algum ponto em específico. Sentou-se na primeira cadeira disponível, temendo que seus joelhos não fossem mais capazes de mantê-la em pé, e deixou que as armas escorregassem gentilmente até o chão.

Com o cenho cerrado, fechou o olho que não estava ferido e observou apenas sua respiração. Quatro, talvez cinco costelas quebradas. Ieiri ou Yuta poderiam dar um jeito nisso, haviam pensamentos muito mais dolorosos que a assolavam. Cada palavra dita por Mai em seus últimos momentos percorriam sua cabeça como um eco. “Enquanto eu existir, você continuará incompleta pelo resto da vida, Maki.” Então por que ela sentia como se ainda faltasse algo? “Me prometa uma coisa: destrua tudo.” Ela havia destruído, mas e agora? Queria gritar, deixar todas essas sensações saírem de si de alguma forma. Deixou sua cabeça pender para frente, segurando-a como se pudesse arrancar tudo o que pensava com as próprias mãos. Fisicamente, apesar da dor, Maki nunca se sentira tão bem. E isso parecia errado. Ela poderia estar mais forte do que jamais esteve, mas à custa de que? Sua vida valia tanto que era digna do sacrifício de Mai? Não parecia justo. Mai nunca havia se sentido completa também.

—Ah, Maki-san! Você já voltou! — Yuta entrou na sala, vendo a amiga de costas. A primeira coisa que ele reparou foi que ela não parecia estar nada bem. A segunda foi a falta de energia amaldiçoada que ela emanava. Colocou-se à sua frente, agachando-se para conseguir olhá-la nos olhos. — Você quer ajuda? — Disse, referindo-se aos ferimentos.

Rangendo os dentes, Maki concordou com um aceno da cabeça. Ela já havia sido curada por Yuta em outras situações, depois do ataque de Suguru Geto no primeiro ano e depois de ter sido queimada em Shibuya, e dessa vez não foi diferente. Sem que ele precisasse tocar nela, ela sentiu a energia positiva regenerar a pele que havia sido cortada e recolocar seus ossos nos devidos lugares. Respirar tornou-se mais fácil novamente. Ela tentou agradecer, mas não conseguiu sequer abrir a boca. Ela percebia que ele a olhava com aquela gentileza quase ingênua que ele sempre esboçava, mas não conseguia encará-lo de volta, preferindo fitar o chão. Eles permaneceram dessa forma por cerca de um minuto, até que a voz de Maki retornou a sua garganta.

—Ela se sacrificou por mim, a Mai. — Disse, enfim, com a voz rouca e abafada. Era muito mais do que isso, Mai havia lhe entregue não apenas a própria vida, mas sim a possibilidade dela ser quem ela sempre quis ser. Mas Maki não sabia se conseguiria falar sobre isso, e era bem possível que Yuta não entendesse e ela tivesse que explicar.

—Sua irmã? — Yuta franziu a testa, preocupado. Maki não costumava falar de sua família, mas ele já havia ouvido sobre sua irmã gêmea em mais de um momento. Sempre que se referia a ela, Maki falava com um leve rancor na voz, algo que soava mais como ressentimento. — Eu… Eu sinto muito! — A forma como ele soava demonstrava sua sinceridade. Preocupado, ele segurou as mãos de Maki com as suas, acariciando levemente as cicatrizes, sem se preocupar com o fato delas estarem sujas de sangue.

Maki continuou encarando o chão, sem energia para responder. “Você sou eu. Eu sou você.” Mas ela não estava ali consigo. Ou estava? Voltou seu olhar para a espada que estava largada próxima aos seus pés. Parte de si queria chuta-lá. Como ela ousara lhe deixar ali, sozinha? Maki soltou um leve grunhido, sentindo os olhos se encherem de lágrimas. Ela havia destruído tudo o que já havia lhe causado mal, havia conquistado tudo o que sempre quis ter. Mas não fazia sentido.

Ao perceber que a amiga começara a chorar, Yuta sentiu um peso puxando seu coração para baixo. Maki era uma das pessoas mais importantes de seu mundo, e ele sentia a dor junto com ela. Sem saber bem como agir, ele resolveu abraçá-la.

À princípio, Maki se assustou com o abraço. Não era algo que ela estava acostumada, nem que esperava receber. Porém, algo naquilo era confortável e necessário, e ela retribuiu o gesto. Apoiou o rosto no pescoço do amigo e deixou que as lágrimas viessem. Primeiro, lembrou-se da irmã. De como a havia abandonado, por mais que nunca deixara de se importar com ela. De como a havia feito viver uma vida que ela não desejava. De como ela deu sua vida para que Maki pudesse viver ao máximo. Depois, lembrou de cada pessoa que havia matado naquele dia. Quantas eram? Havia perdido a conta. Ela não queria que tivesse sido dessa forma, poderia ser diferente. Não se sentia arrependida, mas ainda não era uma sensação leve de ser digerida. Por último, pensou em sua mãe. Como, em seus últimos momentos, ela resolveu falar que não se arrependia de tê-las tido. Não que tinha orgulho, e sim que não tinha arrependimento. Foram as palavras mais doces que ouvira da mãe, mas elas ainda ardiam.

Ficaram abraçados por um longo tempo. Yuta, empático, tinha vontade de chorar também. Porém manteve-se firme, permitindo que a amiga encharcasse sua camiseta branca enquanto acariciava gentilmente suas costas. Já Maki não pensava no que estava fazendo, e chegava a apertar o rapaz um pouco forte demais. Entretanto, ela percebia que todos os sentimentos que guardava durante o dia se esvaiam. Era raro ela demonstrar afeto, mas, às vezes, Yuta parecia perceber exatamente o que ela estava precisando.



{SPOILER CAP 148-152}

...

—Ela se sacrificou por mim, a Mai. — Disse, enfim, com a voz rouca e abafada. Era muito mais do que isso, Mai havia lhe entregue não apenas a própria vida, mas sim a possibilidade dela ser quem ela sempre quis ser. Mas Maki não sabia se conseguiria falar sobre isso, e era bem possível que Yuta não entendesse e ela tivesse que explicar.

...

Em que Maki retorna à Escola Jujutsu após o massacre do clã Zenin.

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