Almas Nefilins
1 Capítulo 1 - É Amargo o Doce do Amor.
Notas iniciais
Há muito tempo a trás, em um era antiga; o início dos tempos, como muitos diziam. Bem antes de qualquer era feudal, bem antes de bruxaria se tornar crime e pena de morte, lei. Quando magia e a prática da alquimia eram os conhecimentos mais predominantes dentre jovens e adultos, e sua lei anarquista promovia a aceitação de qualquer forma e defeito alheio. A Era qual o homem não ainda controlava a natureza, assim como a natureza possuía um autocontrole, e sua energia era tanto quanto respeitada, honrada, venerada e temida. Onde Caos e Ordem trabalhavam tão lindamente equilibrados que Karma era aplicada e perfeitamente aceita com graça. A Era cuja energias ou o magnetismo eram ideologias, religiões fortes, e se acreditava que o homem era capaz de alcançar o nirvana e buscar incansavelmente a calma na alma e poder enxergar seus Chakras brilhantes pulsando e finalmente, controlar seu grande império espiritual. Assim como também o poder podia lhe subir a cabeça e se perder em um amor luxuoso e escuro, um pecador desejoso feito a base de orações por dinheiro e poeira, cegado em mente fortuna, levando-se a acreditar naquilo que não mais brilha, se perder profundamente e ter seu coração parado de guiá-lo. É quando o homem se perde em sujeira e não mais sabe o que pensar pois seus pensamentos o enganam, acabam por rasgar a própria garganta como uma tentativa de libertação.
Com o mundo a base de Caos temido e Ordem desejada, a comunidade se adapta a um estilo de vida confortável. Havia inúmeros vilarejos com seus próprios conceitos e ordens, um lugar do povo que era governado com o único propósito de manter a paz coletiva e agradar à todos aqueles que lá vivem e irão de viver.
Havia um certo vilarejo que possuía um tamanho considerável. É onde o comércio ocorre freneticamente e imigrantes aparecem todos os dias para trocar ou vender suas moedas, mercadorias ou animais. No meio de tal lugar, havia uma casinha não tão grande, feita de madeira forte e palha, uma fresta no telhado com um projeto de chaminé embutido. Janelas encardidas e foscas, impossibilitando uma visão ampla ao campo interno da casa. Lá, até onde seus vizinhos presenciaram, vivia uma mulher que raramente saía de dentro da casa, seu nome era Fátima. Ela estava sempre séria ao olhar para as pessoas, — não mal humorada, apenas séria — e sua voz raramente era escutada e quando um ato de fala era necessário, sua voz saía como um sussurro amedrontado e fraco.
Ela sempre morou nesta mesma casa, ao que dizem os históricos ao passar dos anos. Ela cresceu apenas com a presença materna e presenças masculinas eram abominadas. De menina ela se tornou mulher, e assim como qualquer extinto forte de querer explorar e conhecer aquilo que sempre lhe fora proibido pela mãe, seu coração fora roubado por um elegante malfeitor. O senhor, mais velho que a moça, a seduziu para tirá-la de casa e assim se casarem. Casamento era bom; mulheres não queriam ficar sozinhas, e homens precisavam falar que tinham uma mulher em casa.
As coisas não ocorreram como planejado, e claro que uma criança cheia de ingenuidade não perceberia o caos se aproximando. Era impossível entender a falta do amor nos olhos de seu companheiro. Ela decidiu se jogar por inteiro se agarrando à qualquer fio de esperança que sua mente encontrava. Quando as coisas ficavam difíceis, ela se consolava dizendo à si mesma que casamento nunca era fácil, e assim sobreviveram por 3 anos juntos.
Após 3 anos de um suposto amor o qual Fátima tentou nunca duvidar pois sabia que bastava uma única conclusão para perceber que aquilo não era o tão sonhado amor que desejava. Ela nunca correra o risco de arriscar alguma dúvida. Ao receber a notícia que estava grávida, seu sorriso voltou aos lábios após anos perdido e viu seu fio de esperança se engrossando. Uma criança: Uma salvação para aquele casamento. Se ele não conseguia a amar por ser sua esposa, talvez a ame por ser a mãe de seu filho. Porém, mais uma vez, seus cálculos estavam todos errados.
A notícia lhe foi dada com entusiasmo e recebida com agressão física. Enquanto Fátima passou a noite perdida nos campos chorando para os céus, com o corpo cheio de cicatrizes de cortes recentes, sangue seco e marcas roxas pelo corpo, ela rezava aos céus o porque Deus deixara isto tudo acontecer à uma menina que fora tão boa durante sua vida. Passou a noite orando e chorando com esperanças de chegar em casa e ser recebida com um pedido de desculpas e um abraço forte; claro que as desculpas seriam aceitas.
Ela voltou para sua casa pouco antes do sol nascer, abriu a porta da frente e seu mundo desabou. A casa vazia denunciava, as paredes gritavam: Ele sumiu. Tivera ido embora. Fátima caiu sobre os joelhos e lá chorou do nascer do sol ao por-do-sol.
Desamparada, ela não teve outra escolha a não ser voltar para a casa de sua mãe. Ao chegar, amedrontada e tristonha, vizinhos não presenciaram a briga visualmente, mas os sons rompiam as paredes e se espalhavam por ouvidos alheios. Tudo que pôde ser escutado foram berros e ameaças, choros de desesperos e súplicas de amparo. Longos minutos de uma discussão agressiva, a casa parecia estar sendo quebrada juntamente com os ossos de mais alguém. Machucada, fisicamente e mentalmente, Fátima utilizou a única herança deixada pelo pai de sua criança indesejada e executou um único ato que lhe fora ensinada.
Pow, pow... Pow, Pow.
Arma de fogo... Indiscutível! Foram quatro tiros.
Depois deste dia, a velha senhora que mantinha a casa tão bela com janelas limpas e um jardim colorido, nunca mais fora vista na manhã ensolarada cumprimentando seus vizinhos com um sorriso satisfatório. Segundo históricos, seu corpo ficou seis palmos abaixo da terra do quintal que fora um dia florido.
Hoje a casa simplesmente parece um lugar abandonado, porém com duas vidas morando nela. Uma delas,mal é vista, já a outra, raramente para em casa.
A criança nem ao menos atingiu a idade adulta, muito menos a adolescência. Seu peito liso e corpo pequeno eram cobertos pelo mesmo vestido lilás velho que batia nos joelhos enquanto seus pés corriam pelados sobre o chão com barro. Voltava para a casa a cada dois dias solta nas ruas, em inúmeros vilarejos diferentes. Passando dentre alcoólatras, homens casados, missionários e hereges. Seu sorriso malicioso mostrava claramente sua inocência já perdida graças aos demônios trazidos de casa, um local não mais santo e sim um altar satânico de rituais sujos e pesados, feitos por uma mulher com um desejo amaldiçoado de querer machucar todos aqueles que compartilham de um sorriso sincero, por já ter perdido a mente sobre uma culpa assassina, um coração quebrado e um enlouquecimento completo.
A criança não vê o mundo colorido. Em sua casa, tudo que há são objetos fortes, energias erradas e obsessores escalando paredes e subindo em sua mente, instalando-se em seus pensamentos. Sua ingenuidade já fora perdida, visto que tudo que suas vozes internas conversam são sobre sexo, palavrão, homens e seios. Até o dia em que sua mente infantil se perdeu por inteiro.
Após dias se contaminando com pensamentos mundanos e desejos pecaminosos, ela volta para a casa e deixa seu espírito já corroído e maligno, tomar conta. Ela se instala em um cômodo escuro, sem muita dificuldade já que sua presença mal era notada pela mãe.
Eles conversam, ela fica mole. Sem controle do próprio corpo e ao mesmo tempo, consciente. Claro, eles não iriam querer que ela perdesse o show. Ela arranhava as paredes, arranhava a própria pele, deixava mordidas fortes nas partes alcançáveis de seu corpo; rasgava, mordiscava, sangrava, cortava. Ria. Sua língua mexia ferozmente com pensamentos tão maliciosos e um sorriso nunca saíra de seu rosto angelical e sujo de poeira. Sua mente fala e seu corpo reage consequentemente, sua mão desce e paira entre suas pernas, seus dedos se mexem, e ela solta uma risadinha infantil e inocente. Sua mão desce mais e seus dedos começam a explorar, a conhecer melhor o seu próprio corpo. Ela nunca tivera feito isto antes; apesar da péssima reputação, ela havia preservado sua virgindade por nenhum motivo específico, simplesmente eles achavam que ainda não estava na hora. Ela sabia que, de alguma forma, eles queriam ser o seu primeiro.
Seus dedos se aprofundam e um desconforto forte a deixa indecisa, mas ainda sim não era um motivo para parar. Após minutos, ela sente o primeiro orgasmo, seus gemidos sem esforços para ser contidos, provocando a si mesma com palavras sujas e aprendendo tudo aquilo que eles a ensinam.
Sua impureza será provada, e será hoje.
Essa criança é minha.
Um homem a esperava ao lado de fora. Lá fora da casa, no mundo, naquele lugar grande e empoeirado, lá estava um homem que provará sua impureza e completará o ciclo e o serviço ali feito até o dia de hoje.
Saia e vá a procura dele.
E ela foi.
Ele tinha a idade para ser seu avô, inclusive ele tinha uma neta de aproximadamente sua idade, uns 10 anos. Ela nunca teve um homem de verdade, e ele certamente nunca teve uma criança.
Não se sabe ao certo como, mas ao tomar conta de si, ela se encontrava dentre quatro paredes sujas. Um corpo nu, gordo e suado se aproximava cada vez mais de um olhar sinceramente confuso, porém seguro. Seu vestido lilás já estava jogado a algum canto no chão e seu corpo deitado sem saber exatamente o que fazer. Seu coração começou a pulsar e um desespero começou a penetrar em sua mente como se tudo estivesse acontecendo rápido demais e ela finalmente nota o quanto estava sozinha e indefesa naquele momento. “Talvez, não seja isso que eu queira. Não agora.” E o brilho malicioso de seus olhos sumiu, dando espaço a uma euforia que crescia em seu peito.
Ela tentou demonstrar seu arrependimento, esperando compreensão, a qual não a fora concebida.
Tarde demais para arrependimentos, querida.
Assim que ele se aproximava cada vez mais, suas lágrimas rolavam e um tremor tomava conta de seus músculos. Ele cochichava em seu ouvido, dizendo que tudo acabaria logo e que seria melhor se simplesmente não resistisse, e que ele a deixaria ir assim que terminasse o que começou. E em questão de segundos, seu mundo girou e rasgou sua alma.
O que foi escrito para ser um ritual de fertilização, se tornou um ato sangrento acompanhado de gritos abafados por uma mão grande e pesada. E com certo ritual aplicado sucessivamente, o demônio fez seu caminho ao colo do útero de uma criança.
O desespero na alma era essencialmente especial.
Um ingrediente essencial.
Tinha de ser um estupro? “Tinha de ser dolorido?” A criança os perguntava. Eles nada respondiam.
O dementador se levanta e prende sua calça ao redor da cintura, sem olhar para trás, deixa o quarto. Dentro de um quarto qualquer de um bordel barato, havia uma criança desamparada e confusa, perdida dentre pensamentos e culpa ingênua, manipulada por sujeira do submundo com um gosto por humor um tanto quanto doentio. Ela estava paralisada, com uma única lágrima escorrida no canto do olho, encarando o teto e se perguntando quando ela seria acordada. Com o passar dos dias, dentro da casa que se deitava o berço da maldição, as energias começaram a tomar uma nova forma, um corpo a mais, carne fresca e pura se aproximava. Conforme sua barriga crescia, mais doente e perturbada a criança ficava. Vozes novas se instalaram em sua mente e agora nada mais ela é, do que outra bruxa enfeitiçada como sua mãe. A criança nascera linda como esperada, cheia de boas vibrações e saudável; mudando completamente a atmosfera amaldiçoada da casa.
Sua mãe e sua avó, perdidas dentre demônios falantes e poder cegueta, já sabiam o propósito desta criança na terra, uma nova alma que fora formada: Era preciso nascer – colocar o pé no mundo mortal –, para assim finalmente selar sua alma que fora pura por poucos meses, e logo em seguida, ser entregue em uma seita, sem escolhas ou palpites permitidos.
Fora preciso anos moldando mentes inocentes e imundas. Anos terrestres que não passaram de minutos no submundo, para dar início a um plano tão bem sucedido e amargo, com cúmplices mortais que contêm um pé em cada paralelo, para trazer ao mundo uma alma tão pura, ser oferecida como alimento antes mesmo que qualquer impureza contamine seu coração, e assim será criada a filha de Exu, com Lúcifer seu pai, Apavenã e Tânatos como seus guias. Espiritualmente conhecida como a criança que proclamará santuário a Ele (H.I.M.), na terra dos mortais.
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