O Destino se Cumpre

Carmem foi para a livraria sentindo que algo grande aconteceria naquele dia, não fazia ideia do quê, mas hoje seria um dia de mudanças e sua vida nunca mais seria a mesma.

Caroline, que foi mais cedo para a livraria, estava anormalmente quieta, com um ar solene que era raro encontrar no rosto da moça. Carmem estranhando o comportamento da irmã, pergunta:

— Caroline, você está bem? Se aborreceu com algo? – preocupação deixa a voz de Carmem rouca.

Caroline olha para a vitrine e depois para irmã.

— Hoje, nossa vida entrará em uma nova direção, você sente isso também? – ela diz séria e solene.

Carmem sente arrepios pelo corpo e olha para os olhos da irmã e vê seus sentimentos refletidos ali.

— Sim, também sinto.

O sino da porta toca indicando que alguém acabará de entrar e elas olham ao mesmo tempo para ver quem era e se deparam com uma mulher ruiva, alta e que olha para elas sorrindo suavemente e que diz:

— Chegou a hora, meninas – diz a ruiva — Tudo será revelado, agora.

Carmem e Caroline se entreolham e perguntam ao mesmo tempo:

— Quem é você?

A mulher ruiva e ri das duas.

— A sintonia está tão alta que estão falando juntas agora? – ela sorri largo — Meu nome é Merida, eu faço parte de um clã Wicca, tenho esperado os sinais para vir procurar vocês, já espero há uns anos na verdade. Demorou muito para vocês deixarem as lembranças fluírem – diz ela balançando a cabeça e em tom queixoso.

— Lembranças? – Carmem confusa — Do que está falando?

— Uh... eu já vi você antes, – Caroline diz — Ou uma versão de você, não é isso?

— Exatamente! – diz Merida, animada — Hoje, vamos até o fim da história, para libertá-las e libertar o passado.

Carmem então percebe o que estava a sua frente e ela se negava a admitir ser real.

— Eu fui Melinda, não é?

— Feche a livraria hoje e vamos começar. – diz Merida.

Depois de dispensar os funcionários e alguns clientes, Carmem e Caroline fecham a livraria e se sentam na ala de leitura da livraria.

Merida começa a arrumar as coisas que trouxe em sua bolsa: incensos, velas, uma vasilha que ela colocou água e um pequeno sino.

Tudo em um circulo no chão, e pediu as meninas que se sentassem ao redor daquilo.

— Agora, eu só preciso que fechem os olhos, aceitem o chamado do passado e se entreguem. Mesmo que o que vejam seja carregado de dor e lhes traga medo, não quebrem a sintonia. Deem as mãos, deixe seu amor apoiá-las e ampara-las e sigam sem medo.

Melinda fez o cavalo quase voar para voltar para casa o mais depressa possível. Ela viu nos olhos do Alto Cardeal que suas intenções eram as mais nefastas possíveis e o que o guiava estava longe de agir em nome de Deus. Era a mais pura e mais escura trevas que o manipulava como uma marionete.

Chegando em casa, ela pulou da charrete e agarrou a filha. Ela sentia as trevas vindo rápido em direção as duas e se sentia desamparada que não havia nada que ela pudesse fazer. Seu poder era tão pouco comparado ao mal que a perseguia, e seu desespero em não poder salvar sua filha a estava cegando e enlouquecendo.

Lágrimas copiosas escorriam pelo seu rosto, uma dor imensa invadia seu coração quase lhe roubando a respiração. Hope, vendo a luz da sua mãe quase sumir, imediatamente pega em sua mão e fala:

— Mamãe, lembra que você me disse, que às vezes o destino tem um caminho que não podemos desfazer?

Melinda olha para sua pequena e tão amada Hope e fala sorrindo em meio as lágrimas.

— Na verdade, meu amor, você me disse isso – Melinda não consegue deixar de sorrir para seu pequeno milagre.

— Ah, foi? Mas, eu lembro de estar em um lugar quentinho e sentir seu amor e ouvir você dizer isso para mim – Hope confusa.

Então, Melinda lembrou de um momento durante sua gravidez, quando se sentia mais só do que nunca e sem esperanças, sentiu sua pequena mexer em seu ventre e disse a ela: — Meu pequeno presente, às vezes o destino é imutável, nada podemos fazer para mudá-lo, mas, podemos aprender com todas as lições que ele nos dá. Por isso, sinto que você é a esperança que eu precisava para seguir em frente. Minha esperança, minha Hope.

Melinda chora mansamente e abraça sua Hope apertado e tira dela a coragem para aceitar o destino e acreditar que essa provação tem um propósito.

— Sim, minha Hope, às vezes temos que aceitar o destino e acreditar que tudo acontece com um propósito.

— Mamãe, sua luz voltou a brilhar! – diz Hope feliz.

— Você é minha luz, minha Hope, só você.

Sons de cavalos soaram lá fora e Melinda sabia que a hora chegou. E esperou ter forças para lidar com o que o destino colocou no caminho delas.

— BRUXA!! SAIA JÁ DAI DE DENTRO!! NÃO ADIANTA SE ESCONDER, SEI QUE ESTÁ AI. – Alto Cardel Edward, gritava lá fora.

Pelas janelas da cabana, ela via tochas, soldados que a empunhavam tinham as mesmas sombras escuras que o Alto Cardeal, mostrando que a força que os guiava, eram das trevas.

— Mamãe vai lá fora, tudo bem? – Melinda diz a Hope — Fique aqui dentro.

— Mas, mamãe..., – Hope chora.

— Não temas, meu amor, minha Hope. — Melinda diz beijando o rosto e a testa da filha — Tudo vai ficar bem, eu te amo, minha borboleta, nunca esqueça.

Melinda abraça a filha com toda força e descarrega no abraço todo seu amor.

Ela se dirigi a porta e respira fundo e a abre.

— AI ESTÁ A BRUXA!! – Edward sorri, quase babando com o veneno em sua voz — HOJE, BRUXA, VOCÊ RECEBERÁ O QUE MERECE!!

Melinda caminha sem medo para o meio do pátio, aonde eles colocaram um tronco para queimá-la viva. Ela olhou para todos ali ao redor e percebeu que não havia ninguém do vilarejo. Isso trouxe uma paz imensa ao seu coração, aquelas pessoas não eram más, elas só não ficavam confortáveis com o que desconheciam. Aquilo, aquele momento, foi orquestrado por alguém que repudiava a luz.

— Seu mestre não vai conseguir afastar a luz do mundo, Edward, por mais que ele tente, ela sempre brilhará.

Edward lhe dá uma bofetada no rosto, seu rosto mostrando sem medo e pudor a quem ele servia.

— Ah, tola, tola bruxinha, nós conseguiremos sim. – Edward silvava, — Hoje, é só o começo do trabalho.

Melinda respira fundo e diz sorrindo.

— Na verdade, hoje será seu fim.

Os homens de Edward a agarram e a colocam na estaca para queima-la e ela vê ao longe, tochas se aproximando rápido, e dê lá, vinha uma onda de esperança e amor. Mesmo ela sabendo que eles não chegariam a tempo, ela sentiu todo o amor e arrependimento que vinha com eles e soube o porquê sua vida ser ceifada seria importante para todos. Era o único jeito de derrubar as trevas que Edward e seus iguais representavam, seria o divisor de águas entre o bem e o mal. E o bem sairia vencedor da batalha.

Melinda sorriu e acenou para o céu, para sua deusa da floresta e só pediu para esse amor proteger sua Hope.

Edward sádico e satisfeito, vai em direção a Melinda com a tocha na mão, pronto para acender a pira aos seus pés.

— Manda lembranças ao meu pai, ao chegar no inferno – ele debocha.

— Ah, Edward, eu não vou para o inferno, mas você vai, ainda está noite. – Melinda diz com firmeza.

Uma firmeza que causou um medo horripilante e nunca sentido por Edward.

Gritando de ódio, ele acende a pira e se ouve um grito que ecoa pelas montanhas e quebra o coração da população do vilarejo que corria em socorro de Melinda.

— MAMÃE!!!!!!!!

Hope corre em direção as chamas e para ao chegar perto delas.

Melinda sentindo as chamas chegar mais e mais perto dela, implora.

— Afaste-se minha Hope, vá para junto do pessoal do povoado que vem ai, eles vão te acolher e te amar. – ela diz com o coração sangrando.

— Não! – a pequena Hope diz e anda através das chamas até sua mãe.

— Hope, Hope não faça isso. – Melinda chora desesperada.

— Juntas mamãe, juntas e sem dor – ela olha para as amarras que prendem sua mãe e elas se soltam.

O fogo ao redor delas é alto, quase as encobre da visão das pessoas, o povo do vilarejo vendo que chegaram tarde demais, caem de joelhos chorando desesperados. Eles olham para Edward e veem sua verdadeira forma, a de servo do ser das trevas. E voltam a olhar impotentes, duas almas inocentes sendo ceifadas pelo mal.

Dentro do fogo, mãe e filha se abraçam e não sentem dor alguma, sua luz começa a brilhar forte e incandescente, e eles só veem o contorno dos seus corpos sendo consumido pelo fogo enquanto a luz brilha. E a luz cheia de amor, se espalha como uma explosão, destruindo Edward e seus comparsas.

Quando tudo acaba e nada resta de Melinda e Hope, a população do vilarejo se une em oração, rezam pelas almas de mãe e filha. Pedem perdão por não ver o real mal que o Alto Cardeal representava e prometeram ali, acolher, ajudar, toda mulher, criança que fosse acusada de bruxaria. Fosse ela uma bruxa ou não, não importava. Naquele dia, Melinda e Hope lhes ensinou que o bem maior é o amor. Seja na religião que for, não importa como ele pareça, o amor é sublime, o amor é a arma contra o mal e assim seria eternamente.

Carmem e Caroline choram copiosamente olhando uma para outra, entendendo a enormidade da graça que lhes foi concedida conhecer sua vida passada, a lição que suas almas deram ao mundo, e quão abençoadas elas eram de estar reunidas de novo.

Não mais mãe e filha, mas irmãs, o mesmo amor, mas com título diferente.

— Então..., – Caroline soluçando e rindo ao mesmo tempo — Devo lhe chamar de mãe?

Carmem ri e ri até não conseguir respirar, aliviada e inundada de amor por sua irmã.

Morgana explica as irmãs, que sabia que sua missão, era estar ao lado delas na hora da revelação final e ajuda-las a se livrar do restinho da energia de Edward que continuava a segui-las através de encarnações.

Ela preparou umas ervas, óleos em uma vasilha e pediu para elas darem as mãos e repetir esse mantra:

" Terra, fogo, água e ar, para cada canto guardar.

Espíritos das pedras guardiães, vigiem este lugar.

Defenda se precisar, mas não deixe Edward e nem sua energia entrar.

Neste lugar há quatro cantos, cada canto tem um encanto.

Proteção, Vigilância, Persistência e Resistência.

Manterão a regência tanto na minha presença ou na minha ausência.

Assim que este feitiço é lançado ele agirá de imediato, pois aqui e agora está selado."

Elas repetiram quatro vezes e viram a sombra que estava observando-as do outro lado da calçada, se retorcer e diminuir, diminuir, até desaparecer.

— Bom, agora meninas, – diz Merida (que agora elas sabiam que era a reencarnação de Morgana) – seguir os seus dons, é com vocês. Não é uma obrigação, é uma coisa que deve vir direto do coração de vocês.

Carmem e Caroline se olham e trocam informações pelo olhar.

— Bom..., – as duas juntas de novo e rindo igual crianças — Não digo que seguiremos imediatamente – Carmem diz — Mas, é uma coisa que no futuro, vamos querer explorar com certeza.

— Isso aí que ela disse. — Caroline fala sorrindo.

Morgana junta suas coisas e se prepara para partir.

— Aqui está meu endereço e telefone, precisando conversar, tomar uns drinks, me liguem. – despede-se, Merida.

— Pode deixar! – diz Caroline e a abraça.

— Obrigada, muito obrigada!

— Sim, obrigada! — Carmem também a abraça apertado.

Morgana vai embora e as irmãs ficam em silêncio por um segundo, absorvendo tudo que elas aprenderam e viram naquele dia.

Caroline olha sério para Carmem e diz.

— Então..., – ela diz séria — Hoje foi um dia intenso, muitas revelações, muita loucura sobrenatural, acho que só nos resta fazer uma coisa.

— O quê? – Carmem já começando a se assustar.

— Temos que assistir:¹Da Magia a Sedução!

Carmem olha em choque para irmã, pega uma almofada e joga nela começando a gargalhar.

FIM

1 – Filme protagonizado por Sandra Bullock e Nicole Kidman em 1998

Notas finais
Espero de verdade que vocês amem a história de Melinda e Hope tanto quanto eu. Esse conto tem um lugar especial no meu coração e de verdade, espero que ele tenha um cantinho no de vocês também.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!