Almas Acorrentadas
1 Prólogo.O Fim, ou o Começo de Tudo.
Notas iniciais
Decadente. Essa é a minha atual situação.
Preso em um manicômio. Por que? Pelo simples fato de exigir os meus direitos...
Trabalhava na roça com meu pai e meu irmão. Mas sempre trabalhava mais que meu irmão. Meu agradecimento por isso? Apenas o que não lhe agradava, enquanto ele “rolava na terra, com algumas garotas da região”. Em um belo dia cansei de vê-lo posando de galã e tendo reconhecimento pelo o que eu fazia, ao invés dele, e reclamei, falando que deveria ter pelo menos algum reconhecimento, e que devia ganhar algo por trabalhar para eles, ao invés de trabalhar de graça, como fazia.
A resposta deles a minha objeção? Algo como:
“Garoto, não vamos lhe dar dinheiro para ficar indo curtir em bailes!”
Ah claro, tudo que eu mais queria era ficar dançando. Não obrigado, preferia gastar meu dinheiro estudando e lendo. Mas era de admirar que um adolescentes de minha idade tivesse esse tipo de pensamento. Era taxado como esquisito, louco. Mas não me importava. Agora que me encontrava no manicômio, pois meu pai resolveu me colocar aqui alegando que eu era louco.
Pegava-me pensando às vezes se era louco mesmo... Mas se não sou, por que estou aqui?
Morreria aqui dentro, o lado bom é que não ia demorar muito, estava acabado, a comida era um horror e jogavam no chão, como se todos fossem bichos, me colocaram em uma sela onde havia muitas pessoas, como todas as outras. Elas colocavam os braços pra fora das selas e gritavam o dia todo, resmungos, às vezes algumas palavras atrapalhadas. Eu ficava quieto no fundo, num resto de espaço que ainda existia. Muitos deles haviam ate arrancado às roupas, queixando do calor, ou algo parecido, muita das vezes eu nem entendia o que eles falavam.
Ate que um dia uma mulher negra, por volta dos 45 anos, grande e com cabelos volumosos e crespos, usando a roupa de enfermeira, azul marinho, rodada, do manicômio. Veio limpar a sela em que eu estava cantando com algo que parecia ser ‘Girls Just Wanna Have Fun’, da Cyndi Lauper.
Ela estava limpando a sela, enquanto alguns dos loucos murmuravam algo sem sentido. Quando chegou a certa parte da musica eu cantei um pedaço e ri da minha própria desgraça, preso na sela, lembrando-se de quando eu ouvia aquela musica em cada esquina que eu ia, com uma pessoa com roupas chamativas e coloridas dançava, levando ou com o radio no chão, que tocava a musica no ultimo volume. Aquilo me irritava, mas agora via como a falta da musica me afetava.
No mesmo instante a mulher parou de limpar e olhou para minha cara.
“O que disse rapaz?”
“Desculpe-me, estava apenas cantando a musica, não faço mais nada desse tipo”.
Ela me olhou mais assustada ainda, saiu da sela as pressas e ficou sussurrando com a chefe do local, assustada, algumas vezes ela apontou para mim, e depois bateu-nos próprios seios volumosos, como se prometendo algo, fiquei olhando de lá, e ergui a sobrancelha, quando a chefe do local me olhava, ela sussurrou algo para a mulher que voltou ate mim com um sorriso evidente nos lábios.
“Boa noticia para você rapazinho...”.
“Vão me tirar daqui? Ou vão me levar para algum lugar para fazer testes estranhos, que nunca dão certo, e morre uma porrada de gente? Quem sabe assim morro mais rápido...”.
Ela ficou triste por alguns momentos, e envergonhada de certa forma. Mas por quê? Nem meus pais tiveram pena de mim...
“Vai para uma sela só sua, assim não vai ficar como os outros que estão aqui...”.
“Quem disse que não sou tão louco quanto eles?”
“Não é querido, isso é comum aqui, os pais vendem os filhos para fazer experimentos. Alguns dão errado, ou alguns com o contato com outros, acabam ficando todos assim...”.
Ergui a sobrancelha, e fui tentar acompanha-la, mas logo que me levantei, cai novamente. Ela me pegou pelo braço e eu segui-a, com ela me dando apoio.
“Aproposito, eu me chamo Sonia, e você rapazinho?”
“Elliot”
“Quantos anos você tem?”
“17”
“A idade da minha princesinha!”
...
Sem resposta ela continuou:
“Ela é minha vizinha, mas cuidei dela uma vida toda, então a considero como uma filha”.
“Era a empregada dela, ela pelo menos te reconhece?”, ela me olhou com olhos assustados, “Oh, desculpe, acho que ficar preso ali me deixou pior do que já sou...”.
“Ela reconhece, mas a mãe dela não”.
Eu ri uma risada irônica, era a única que eu ainda sabia dar.
“Clássico, claro”
“Um dia vou trazê-la aqui para te visitar, precisa ter contato com pessoas da sua idade”.
“Acredite, o que eu menos necessito nesse momento é de uma garota me vendo”.
“Vaidoso?”
“Claro, me avise quando trazê-la antes, para passar o meu perfume de água suja, com roupas sujas de areia, que eu não troquei desde que cheguei aqui...”.
“Vou te trazer algumas roupas... Fique sossegado, daqui para frente às coisas vão melhorar para você. Quer mais alguma coisa que esteja ao meu alcance?”
“Quero um caderno e um lápis”
“Para?”
“Eu gosto de escrever, se escrever tudo que eu to pensando ou o que ta acontecendo ira me distrair um pouco, e evita que eu fique louco...”.
...
Bom, e foi assim que eu consegui você, não reclame de ficar ouvindo ladainha, e minhas estórias melancólicas sobre dias que nunca mais vão voltar, pelo fracasso dos meus dias e da minha vida chata. Mas é o que temos para o agora... Ou para o futuro.
E é assim que estou passando meus dias, escrevendo as coisas neste caderno, para não ficar louco. As coisas estão melhorando. Ela me trás roupas, separa uma comida melhor e coloca em pratos para mim. Me da água, da qual posso tomar banho e beber. Amanha será a visita da ‘princesinha’ dela. Vamos ver o quão irritante será esta garota. Ate à próxima, logo eu lhe escrevo mais.
Abraços Elliot.
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