Almas Acorrentadas
3 Por que as coisas não são tão simples?
Notas iniciais
Já faz duas semanas desde o ocorrido. Tia Sonia anda falando pouco dele. E eu fico curiosa. Espero o dia em que poderei visita-lo novamente.
Nunca conheci alguém tão arrogante e prepotente, como aquele rapaz. Mas não consigo tira-lo na cabeça. A imagem de quando o beijei a bochecha, e ele fechou os olhos, e depois os abriu calmamente e sorriu. Um sorriso não de felicidade o que seria comum, mas sim algo como um premio que ele já esperava. Durmo e acordo com aquela imagem na cabeça.
Aqueles olhos azuis claros, fortes, marcados com olheiras profundas, como se ele não dormisse há dias, o que era apenas umas das suas realidades. Os lábios finos, e que quase sumiam quando ele dava um de seus sorrisos irônicos. O que me deixava irritada, mas ao mesmo tempo mexia comigo.
Não sei exatamente o que sinto por ele, e isso que me deixa mais irritada. Era apenas dó por ele estar naquelas condições, ou porque eu realmente senti algo por ele. Não queria e nem podia ser a segunda opção. Ele estava preso, para sempre.
Agarrei o travesseiro e gritei, o som foi abafado, mas Sonia entrou no meu quarto.
“O que esta fazendo moçinha?”
“Nada, estou nervosa, acho...”, disse abraçando o travesseiro.
“Com o baile? Hoje é a prova do seu vestido, estou certa?”
“Sim, não me preocupo com isso. Já sei que vou ter que usar aquele vestido rosa, mas acho que não combina comigo...”.
“Não devia se importar com esse tipo de coisa, por que não pega um que combine com você?”
“Se fosse possível...”, disse agarrando mais no travesseiro.
“Não é por isso que esta assim, não é? Algo me diz que tem um rapazinho no meio...”.
Não foi e nunca vai ser uma coisa possível de evitar, corei na mesma hora. Odiava o fato de corar sempre tão depressa.
“Talvez...”
“Por que esta nervosa? Ficar apaixonada quando jovem, é uma das melhores sensações...”. Sua fala foi interrompida pela minha.
“Minha mãe nunca aceitaria...”.
“Ah querida, não deve ligar para isso. Se dependesse de sua mãe você teria que namorar o líder do time de futebol... Como o rapaz é?”
“Algo como, irônico, sarcástico, um pouco esquisito comparado com os adolescentes da idade dele, mas muito inteligente... Acho que iria gostar dele...”.
“Parece um rapaz interresante. É bonito?”
Eu ri, e concordei com a cabeça e completei:
“De um jeito misterioso e estranho. Em uma palavra o definiria como Imprevisível”.
“Falando em moços imprevisíveis... Elliot esta mais deprimido do que nunca, não me pergunte o porquê...”.
“Nossa, será que aconteceu alguma coisa?”
“A pergunta certa é o que não aconteceu... Tenho muita pena daquele menino, ele é tão novinho e tem grandes problemas na cabeça... Queria que fosse lhe visitar de novo, sei que não gostou muito da cara dele, mas ele realmente precisa do contato com alguém da sua idade...”.
Se ela soubesse o quanto eu pensava nele, e o quanto estava triste pelo fato de ele se encontrar naquelas situações, ou por sentir algo a mais do que pena por ele (Oh, não, já estou aceitando o fato de estar apaixonada por ele...). Não teria insistido...
“Tudo bem Sonia...”.
“Então vamos, quanto mais rápido melhor...”.
“Ir aonde, posso saber?” disse minha mãe rispidamente. Aquele ar de superioridade não a largava... “Sabia que tem um vestido para experimentar?”
“Okay, eu provo o seu vestido e depois vou à sorveteria com Sonia!”
“Sorveteria? Acha mesmo que vou acreditar nisso? Não teria tanta pressa, você esta escondendo algo de mim?”
“Ela quer me dar um livro...”.
“Já lhe disse Sonia para não comprar livros para essa menina, ela já é teimosa demais!” ralhou minha mãe. Pisquei para Sonia, que pediu uma desculpa e saiu da sala segurando a risada.
Provei a roupa rosa, longa. Cheia de babados. E coisas extravagantes, e brilhos. Não gostei nem um pouco, mas quando abri a boca para reclamar ela me olhou de jeito estranho e achei melhor me calar. Sai dali aos pulos quando havia terminado. Para meu desgosto estava com um vestido rosa Pink. Estava cansada de parecer uma patricinha e chamar a atenção por onde passava por causa de minhas roupas rosa e pelo fato dos outros acharem que eu tinha dinheiro e se aproximarem de mim apenas por esse fato.
Encontrei Sonia na biblioteca que sempre íamos. A ajudei a escolher um livro, dessa vez não era para mim, e sim para Elliot. De acordo com ela, o menino passava os dias confinado escrevendo no caderno que ela dera. Ou rabiscando na parede alguma letra de musica ou livro. Com a desculpa de se sentir mais a vontade na hora que lesse uma das frases.
Ela comprou um livro de romance, achei um pouco estranho a escolha e quando questionei recebi a resposta de que todo jovem tem que amar. O que me fez corar. Fomos para o manicômio e chegando à cela de Elliot o encontramos deitado no chão. Com os braços abertos, um olhar perdido, olhava o teto da cela, ou talvez nada. Gostaria de ter levado uma câmera para poder registrar aqueles olhos...
“Elliot?”
“Oi”
“Tem visita...”
Ele deu um pulo e ficou sentado, e quando me viu olhou assustado.
“Ela te trouxe um presente...” disse Sonia me empurrando para perto da grade. Ele chegou perto e pegou o pacote, não antes de acariciar meus dedos disfarçadamente. “Tenho que pegar umas coisas na cozinha para você rapazinho...”.
“Mais remédios? Assim vão me deixar realmente louco...”.
“Você tem que se acalmar, tem que toma-los”.
Ele olhou para o lado com seu olhar sombrio. Era incrível como ele conseguia dizer coisas fortes sem ao menos mudar de expressão.
“É para o seu bem”, disse sorrindo, o que o fez olhar para mim, e ele balançou a mão para Sonia que sorriu para mim, em agradecimento e foi buscar os remédios, não antes de dizer que demoraria um pouco.
Ele sorriu para mim de um jeito cafajeste. E começou a falar comigo enquanto abria o pacote.
“Talvez valha a pena tomar uns remédios, para ter minutos com você. Olha um livro de romance. O que quer insinuar com isso, mocinha?”
“Não escolhi sozinha”
“O que Sonia tem na cabeça? O que eu menos queria lembrar é que lá fora exista algo como amor. Se é que existe...”.
“Nunca sentiu?”
“Uma vez, eu acho. Aprendi há pouco tempo como às coisas funcionam...”.
“E o que aconteceu entre você e a pessoa?”
“Acho que tinha um namorado, não era para mim, larguei mão...”.
“Por que desistiu tão fácil?”
Ele me olhou assustado, como se ninguém nunca lhe dissesse coisas assim, depois sorriu. Um sorriso diferente de todos aqueles irônicos que ele sempre sorria. Era doce.
“Por que não desistir?”
“Ah, se lutasse poderia dar certo!”, estava sentido meu rosto quente. Sentia ciúme dessa tal garota, mas de certa forma, queria que ele estivesse falando de mim.
Ele balançou a cabeça negativamente.
“Você não é uma patricinha mimada como todos pensam que é...”.
“Não mude de assunto, por favor!”
Ele me puxou pelo braço, olhou o corredor, não vinha ninguém. Pode ouvir sua respiração pesada no meu ouvido. Por entre as grades ele cheirou meu cabelo e desceu o rosto com os lábios quase encontrando minha pele. E quando chegou perto de minha boca, ele recuou. Encostou a boca no meu ouvido e sussurrou:
“Não volte mais aqui... Eu imploro... Deixe-me sozinho...”, seus olhos pareciam tristes, mas ao mesmo tempo duros. Ele virou o rosto sem expressão e me soltou.
“Eai, hora do remédio!”, disse Sonia chegando minutos depois.
Ele agarrou o copo e o remédio e tomou, olhou para mim, mas sua expressão não me dizia nada.
“Quero descansar, Sonia... Por favor?”
“Claro querido, ate a próxima”.
Pensar que não teria próxima, doeu meu coração. Olhei para trás uma ultima vez e ele estava me olhando. Virei-me e sai correndo pelo corredor. Do qual não voltaria mais.
Beijos Elisabeth
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