Almas Acorrentadas

5 Nada é Impossível


Notas iniciais
Boa leitura!Espero que estejam gostando

Entrei pela janela do meu quarto. A noite estava fria, e o céu estava lindo. Vim o caminho todo, olhando para as estrelas. E parecia que estava ao lado delas. Sorrindo, feito boba. Não me arrependo de ter ido vê-lo, mesmo depois de ele pedir-me para não ir. De certo modo. Pensei que ele iria brigar comigo. Mas ele não fez isso. O que me deixou aliviada. E depois encantada.

Seu beijo foi desengonçado e devorador. Só de lembrar deixava-me corada. Isso era um dos meus grandes defeitos. Se alguém me visse andando sozinha, pulando, olhando para o céu, enquanto sorria e estava vermelha. Acharia que eu era louca. Alguém que houvesse fugido do manicômio. Mas na verdade eu havia fugido de casa para ir ate lá.

Deitada na cama, já relembrando o acontecido. Enquanto cantarolava alguma letra de musica romântica. Só então me lembrei do porque havia ido o visitar. A formatura. Isso estava me deixando nos nervos. Assim como tudo no meu quarto, que era rosa. Desde cortinas, a paredes, a lençóis de cama.

Troquei de roupa e coloquei uma camisola. Que era de cetim, que cor? Rosa, claro.

Acordei no outro dia com minha mãe gritando, outra prova de vestido. Achava isso ridículo. Já havia servido, não era algo que se pudesse ficar mudando.

“Eu tenho coisas a fazer amanha, então terá que vir aqui sozinha. Entendeu? Sem falta, deve provar seu vestido. Os dias da formatura, já estão chegando. Falando nisso quem ira ser o seu parceiro de baile?”, disse minha mãe olhando enquanto a costureira da loja colocava os alfinetes nos meus lugares que colocava todos os dias na prova do vestido chamativo.

“Ah, mãe, sobre isso... Eu não decidi ainda...”.

“Pois então trate de escolher logo o seu par. Que coisa, menina, será que eu preciso fazer tudo para você?”.

A prova do vestido terminou, pareceu durar uma eternidade. Minha mãe foi para um lado, resolver algumas coisas, de acordo com ela. E eu fui para o outro. Estava triste. A coisa que menos queria era ter que ir ao baile de formatura com alguém que eu não gostasse, e com um vestido que ficava horroroso em mim. Quando percebi as lagrimas estavam caindo. Tentava, numa tentativa ridícula, de limpá-las, mas elas não paravam de cair.

Quando percebi estava em direção ao manicômio e entrei correndo, sem ao menos dar explicação para alguém da portaria. Não sabia se naquela hora tia Sonia estava ou não. Mas no momento eu não estava preocupada com isso. Para minha sorte ela não estava.

Parei na frente da cela de Elliot. Quieta, apenas chorando, sentada no chão. Ele estava escrevendo na parede. Mas quando ouviu o barulho do meu soluçar ele olhou para o lado e correu em direção à cela. Ficou ajoelhado me olhando.

“O que aconteceu? Alguém te machucou? Deixa eu te ver de perto, onde te machucaram?”

Minhas feridas infelizmente não eram físicas. E com o meu silencio, ele logo percebeu isso.

“Ah...Vem cá”, disse ele me puxando para perto dele. Ele me abraçou. Mas em vez de sentir a pele quente do rapaz. A única coisa que senti, foi o toque gelado da grade.

“Por que isso tem que existir”, disse ainda soluçando. Ele limpou as minhas lagrimas com as costas das mãos. E beijou minha testa.

“Desculpe por ser assim...”.

Quando consegui falar sem chorar, o que demorou em torno de meia hora. Contei sobre o que estava me deixando daquele jeito. Quando acabei de explicar toda a situação e senti que cairia em lagrimas novamente ele sorriu, um daqueles seus raros sorrisos doces e disse:

“Okay, Princesinha, agora sorri para mim, o resto eu dou um jeito”, e acabando de falar isso, sorriu pelo canto da boca. Um sorriso cafajeste que só ele tinha, “Volte aqui amanha, antes de ir para provar o vestido. Ah, tenho que te dar algo...”,ele foi ate um canto escuro da prisão dele, e voltou com uma roupa de funcionaria do manicômio. E com um chapéu azul marinho. “Vai ser útil, entre pela porta, pegue as chaves que ficam do canto direito, a da minha cela tem uma aparência bem rústica, abaixe bem o chapéu e esconda o cabelo dentro dele. Quando falarem com você, apenas balance a cabeça. Entendido? Vou estar te esperando”.

“Como sabe de tudo isso? E como tem essa roupa?”.

Ele riu, ou melhor, gargalhou, colocou o braço pela grade e bagunçou meu cabelo.

“Talvez eu tenha uma boa memória fotográfica, e talvez, eu tenha pegado a roupa que caiu do cesto de roupas de umas das funcionarias, depois de ela ter lavado. São tantos que elas não perceberam, o chapéu, talvez, eu tenha pedido um para Sonia, com a desculpa de gostar do chapéu de uma das moças aqui. Ela não indagou, porque os guardas também usam...Mas é tudo hipóteses, então...”, ele continuou rindo, “Quer ser uma garota malvada e fazer isso para mim?”.

“Vai ser divertido, 14h eu passo aqui. Tchau”.

“Se tivesse um relógio, os ponteiros iriam parar, de tanto que eu vou espero por você amanha, ou melhor, sempre vou esperar”. Ele passou as costas da mão no meu rosto, o que me fez corar. E sai de lá, escondendo o que eu havia ‘ganhado’, e fui para casa, contando as horas. Tudo aquele dia, foi longo, ate a noite mal dormida. Acordei, me arrumei e tomei café da manha, com minha mãe reclamando, perguntando onde eu estava, e se eu já havia arrumado o parceiro para o baile. Continuei tomando chá. Quem sabe assim, pelo menos aqueles minutos passavam rápido. Não ouvia o que minha mãe falava, meus pensamentos estavam longe dali, para ser mais exata, eles estavam em contagem regressiva até ás 14 horas.

Quando a hora se aproximava, falei tchau para minha mãe, e falei que iria provar o vestido. Ela me ofereceu carona, mas eu não aceitei, dei a desculpa de que queria ficar mais magra para o baile, o que fez seu rosto rígido, formar um sorriso. Sentia-me culpada às vezes por falar mal dela, ela só não me entendia, do mesmo jeito que eu não a entendia. Talvez o fato de sermos completamente diferentes fazia isso.

Cheguei perto de onde era o manicômio. Achei um banheiro publico. E me troquei ali. Sai de lá escondendo o ultimo cachinho cacheado descolorido, que teimava em saltar para fora. Entrei na sala de recepção e peguei a chave com aparecia mais rústica, não foi difícil. Ninguém me falou uma palavra. Apenas deram boa tarde, e eu confirmei com a cabeça, então eles sorriam, e voltavam para os seus afazeres. Que naquele dia eram mais que nunca.

Fui ate a cela de Elliot, que estava esperando no canto da grade, com uma camiseta vermelha fogo e calça jeans. Tênis de canos altos, pretos. E quando me viu mostrou a língua. Abri a porta enferrujada e ele saiu da cela. Ele me olhou como se quisesse falar algo, mas achou melhor não. Ele encostou a porta da sela e me puxou pelo braço para a porta dos fundos do manicômio. Depois de olhar bem o corredor, conferindo se não vinha ninguém. Olhou por dentro da fechadura da porta dos fundos e confirmando que estávamos sozinhos, abriu a porta e saímos de lá correndo. Ele pegou a chave e amarrou na corrente que usava no pescoço e me deu.

“Um presente”, disse ele sorrindo com um de seus sorrisos irônicos, ele colocou no meu pescoço, e eu guardei a chave dentro do decote do vestido. “Sabe não lembrava mais como aqui fora é claro. Meus olhos estão doendo muito”, disse ele rindo.

“Quer meu chapéu? Ou melhor, seu?”

“Não, eu quero ver o sol”, dizendo isso olhou para mim, com seus olhos azuis, pareciam que a água mais cristalina haviam parado ali. Seus olhos lagrimejavam, mas ele sorria radiante. Meu coração disparou, se pudesse se apaixonar por alguém que já era apaixonado, essa era a hora perfeita. Mas ele sempre fazia isso comigo. Ele me fazia apaixonar por ele todos os dias que passávamos juntos. Quando eu pensava que era impossível ele vinha e me surpreendia, falava que tudo ia ficar bem, me fazia crer que era possível, me fazia ama-lo. Cada vez mais. E eu gostava disso.

“A loja é por ali” disse apontando a butique. Entramos na loja e a atendendo veio me ver, como sempre fazia, mostrando seu sorriso falso, tentando me agradar, pois sabia da condição financeira de minha família. Mas quando olhou para Elliot que olhava as roupas, procurando alguma coisa que lhe agradava, o sorriso desmanchou e ela ergueu uma sobrancelha, mostrando uma cara de nojo.

“Querida!... Ai, me deixa tirar umas pessoas que não sabem seu lugar...”. Quando reparei que ela estava indo em direção a Elliot. Apontei o dedo e falei:

“Ele? Esta comigo, fique sossegado. Bom, sobre o vestido...”.

“Ah, claro, por aqui”, disse ela com uma cara não muito satisfeita, mas mostrando mais um de seus sorrisos falsos. Ela usava roupas chamativas, e o cabelo na altura dos ombros, preto, com franja. Nada parecia combinar com ela, nem pela idade, nem pelo jeito de ser, acho que a combinação melhor era uma pele de cobra.

Ela mostrou o lugar que eu já estava cansada de ir, e saber o caminho. Chamei Elliot antes de ir, e ele acompanhou o caminho, atrás de mim, olhando as roupas em silencio. Não sabia se ele havia escutado o que a atendente havia falado, ou se ele apenas parecia não se importar.

Chegamos na sala grande, com uma espécie de palco. Era rodeada de cabides com vestidos, todos chamativos demais. Havia um sofá vermelho para as pessoas que acompanhavam, se sentarem, minha mãe nunca havia o usado, e do lado um espelho, comprido, para a pessoa ver como ficou o vestido. A atendente entrou por uma portinha, ao lado do espelho, que sempre se mantinha fechada. E trouxe o vestido rosa, comprido e justo, ate a parte dos joelhos, depois descia em babados, e na única alça, havia uma flor, quase maior que o vestido.

Olhei para o vestido com desgosto, tanto de mim por ter que usar aquilo, e não quer coragem para mudar isso, quanto o fato dele ser horrível. Coloquei o vestido, na cabine feita de uma cortina, amarelada e velha, que ficava ao lado do palquinho. Voltei para o palco, onde mais uma vez a atendente colocou os alfinetes no mesmo lugar. Elliot estava sentado no sofá, de braços abertos, e pernas cruzadas. E quando sentou, recebeu um olhar feio da atendente. Ele parecia olhar tudo, menos para mim, isso era um alivio, não queria que me visse com aquele vestido, de certa forma, quando ele olhou para mim, com um de seus sorrisos cafajestes. Sabia que iria aprontar algo. Ele ficou de pé e começou o discurso:

“Que vestido horrível, não gostei disso...”. Disse gesticulando as mãos e erguendo a sobrancelha.

“Olha aqui garoto, o vestido esta perfeito, super combina com ela, não esta vendo?”, disse a atendente, que estava com tanta raiva que me furou com o alfinete.

“Não queria te chatear, mas não tem nada a ver com ela. E eu procurei algo que tivesse, as a loja esta repleta de vestidos iguais, apenas muda as cores. São todos cafonas. Não quero ir ao baile com uma alegoria...”.

“Quer parceiro de merda que foi arrumar para ir ao baile”, sussurrou a atendente para mim, mas quando ia contestar Elliot voltou a falar, sai de fininho, para não levar mais alfinetadas, e alguma coisa me dizia que não irias ficar ali por muito tempo.

“Ela não é SÓ, minha parceira, ela É, minha namorada. E eu acho que conheço muito mais ela do que uma cobra vestida de atendente de loja. Queira me desculpar, mas a prova do vestido para por aqui, e não vamos voltar, não gostei do jeito que fui tratado, e irei contatar minha sogra, por sua falta de educação e arrogância que se dirigiu a nos. Bom, ate mais. Não preciso ficar nessa loja, nem mais um minuto”.

A cara da atendente ficou branca, e quando ele falou sobre mamãe, achei que ela ia desmaiar, conti a risada, enquanto voltava com minha roupa rodada azul marinha, de enfermeira do manicômio, ate onde eles estavam,ajeitando o chapéu na cabeça. Elliot erguia a sobrancelha enquanto falava, e sua voz era forte e confiante, parecia que tudo que havia dito era verdade, e que ele era alguém muito rico e importante.

O puxei pelo braço, antes que a coisa ficasse seria demais.

E saímos em direção à outra loja, que já havia muito tempo que não colocava os pés lá.

Beijos Elisabeth