Alma de Coordenadora Pokémon - Fita da Vida
20 De volta para casa
Notas iniciais
Quando saí de casa na manhã daquela segunda feira eu lutava para provar para o mundo que eu não era idiota e que podia presentear minha mãe com uma taça. Mas, por todo o caminho as únicas pessoas que realmente acreditaram em mim foram Aries e Angel, mesmo eu tendo os chamados de criminosos e quase os feito serem presos.
Aries agora está na minha frente, deixando que seus olhos faísquem contra mim. Aqueles olhos claros, quase brancos, em seu rosto enlouquecido pelo prazer da batalha que estava prestes a iniciar. Tudo isso porque eu não consegui deixar que ele levasse um pokémon selvagem para virar comida de algum magnata. Toda a parceria que eu tinha com o Grupo Olimpo estava para desaparecer por causa de um pokémon e mesmo assim eu não tinha começado a pensar em desistir.
— Bom... Isso é novidade. — Eu podia sentir que ele falava de forma sincera, apesar de que estava ainda mais animado. — Venceu uma batalha contra uma líder de ginásio e já está pensando em sair cruzando pokebolas com todos? — Um sorriso debochado surgiu. — Vamos ver como você se saí. -
Eu o vi dar alguns passos para trás, deixando um espaço entre nós e entendi que aquela mata seria nossa arena. Ele me fitou e fez um sinal com a cabeça com o qual eu não entendi. Mas, escutei o caminhar e então me toquei, ele não olhava para mim e sim para o seu pokémon que me acompanhava.
Houndoom havia ficado parado ao meu lado por quase todo o momento, talvez esperando que eu tivesse feito algo idiota e assim pudesse evitar que eu me machucasse, mas diante ao comando de seu treinador original, fui deixada de lado rapidamente. O cão negro de porte atlético se posicionou a frente de Aries e mostrou-me aquele olhar sério e malvado que me causava arrepios. Por alguns instantes duvidei que algum dia ele tivesse estado do meu lado me ajudando.
— Mande a Audino. — Ele sorriu ainda mais abertamente em seu deboche. — É verdade, você não pode! — Seu sorriso de deboche virava um sorriso triunfante. — Que outro pokémon tem a sua disposição? Nenhum! -
E realmente eu não tinha ninguém para mandar. Eu não pretendia desafiá-lo! Mas, meu braço se mexeu sozinho para capturar o pokémon e depois para desafiar Aries. Mas, eu não podia desafiar Aries! Não tinha experiência, habilidade ou pokémon!
— Você desafiou-me honradamente pelo Farfetch’d e não tem condições de batalhar. Neste caso, acho que o Farfetch’d é meu. -
Ele esticou a mão na minha direção. Fechei os olhos e me perguntei como pude ser tão burra! Eu não sabia exatamente como funcionava as tradições dos treinadores quanto aos desafios, sequer sabia como funcionava as coisas de coordenadores. Era óbvio que uma batalha entre nós iniciada devido a um impasse pela ave significaria que o vencedor decidiria o futuro do Farfetch’d. Para que eu pudesse decidir, eu deveria vencer. Para vencer eu deveria lutar. Para lutar eu deveria ter um pokémon apto a lutar e isso eu não tinha. Houndoom era dele e por mais que eu me sentisse a vontade ao lado daquele cão de fogo, ele era de Aries, meu adversário. Audino não pode entrar na batalha ou poderia morrer. Eu poderia ter conseguido capturar um pokémon antes de... Farfetch’d? Ele está em condições de lutar ainda.
— Eu posso usar o Farfetch’d! — Eu disse diante a minha ideia.
Aries levou a mão ao bolso de repente e puxou um aparelho estranho, era retangular e parecia um estojo. Percebi que ele apertou alguns botões e de repente minha mão já não sentia a pokebola. Olhei assustada e a pokebola havia sumido.
— Cadê? — Gritei assustada olhando no chão e em volta. — Onde foi parar a pokebola? -
— Pokeagenda. — Aries disse chamando minha atenção. — A sua está a caminho, talvez por isso não conheça. Ela é uma ferramenta muito útil para os viajantes. Uma das funções mais interessantes para mim, caçador, é apertar um botão e a pokebola na qual coloquei a caça ser teleportada para meu especialista pokémon. -
Ele ficou sorrindo para mim e então me dei conta. Não era apenas a pokeagenda que eu não tinha, mas pokebolas também. A pokebola que usei para capturar Farfetch’d foi a dele. Neste caso, eu literalmente declarei ao mundo que o Farfetch’d era dele.
Olhei desolada, sem acreditar que toda a minha tentativa instintiva para salvar Farfetch’d, desde o começo havia apenas o condenado. Vi-me cair de joelhos derramando lágrimas sem acreditar no que havia acontecido.
— Vamos Mirian, vai se sentir melhor após um banho. -
Aries disse dando-me as costas enquanto eu chorava de soluçar. Eu não esperava que ele fosse se comover com minhas lágrimas. Na verdade, não esperava que ele fizesse nada diante minhas lágrimas a não ser esperar eu me refazer. Mas, nem isso ele era capaz de fazer.
— Din... -
Alma de Coordenadora Pokémon
— Fita da Vida -
Episódio 19: De volta para casa
Quando eu estava na cidade de Tin aprendi com a Joy local que pokémon iniciais criam um vínculo conosco que é inexplicável. Eles já estão preparados para interagir com humanos e assim facilitar a vida do viajante iniciante de uma forma a protegê-lo de qualquer coisa, inclusive deles mesmos.
Audino era formidável quando eu pensava em todas as suas qualidades e possibilidades. No entanto, só viemos a nos entender, verdadeiramente, após dias de brigas quando descobrimos que minha falta de experiência a tinha condenado para sempre. E, agora, que acabei de condenar outro pokémon a um destino cruel, Audino aparece para me dar consolo e confiança.
— É sério que vai usar Audino? -
A voz de Aries saia com muita incredulidade. Eu não sabia do que ele falava até parar e olhá-lo e perceber que minha Audino havia saído, sozinha, da pokebola e estava ali a minha frente, pronta para me dar o apoio que eu precisava naquela hora.
Um tapa forte em meu rosto que eu cheguei a deitar completamente no chão. Essa era a forma dela ser carinhosa e mostrar que se importava comigo. Eu levantei o meu olhar, todo embaçado das lágrimas e via a postura firme de Audino a não me deixar continuar naquela minha auto piedade. Sim, ela era daquele jeito. Odiava lágrimas, era firme em me trazer para cima e extremamente corajosa. Estava enfrentando sua nova condição de frente e... e estava assumindo posição de ataque contra Houndoom?
— Não! -
Levantei alarmada, mais rápido do que qualquer vez que tenha me movido anteriormente, entrando na frente dela e impedindo qualquer contato visual que pudesse ter com o adversário que ela queria ter. Como minha pokémon havia saído sozinha da pokebola, compreendido tudo que estava acontecendo e decidido arriscar sua vida por outro pokémon, que sequer conhecia, por causa de minhas idiotices?
Será que ela realmente sabia o que estava acontecendo?
— Escuta. — Disse olhando-a nos olhos. — Eu errei! Não temos que consertar isso. Essa batalha não pode ocorrer! -
Audino sorriu de repente e me deu um novo tapa na face. Este não me fez cair, mas senti o que eu deveria sentir. Ela sabia o que estava acontecendo e estava disposta a lutar por mim.
— Audino... -
Balbuciei o nome dela tentando entender como ela podia saber tudo aquilo e como eu podia sentir o que ela estava sentindo. Meus olhos se abaixaram por alguns instantes e vi o cordão que havia colocado nela, cordão que Rachel havia nos dado. Eu sequer sabia o que era e para que serviam, achei que fossem apenas joias, mas minhas pesquisas diziam que não e se Rachel achava que resolvia as coisas comigo com aquilo, algo a mais havia naquilo.
— Decidiu? -
A voz de Aries me tirou dos pensamentos sobre o cordão e pulseira. Eu não enfrentaria Aries e Houndoom usando Audino. Talvez não enfrentasse Aries em uma situação normal, mas numa situação em que ele usasse Houndoom eu jamais poderia cogitar. Eu tinha um carinho especial por aquele cão que salvara minha vida mais de uma vez, enfrentá-lo significava causar danos a ele e eu jamais poderia fazer isso. Mas, a resposta para o questionamento de Aries não veio de mim. Audino tomou minha frente novamente como resposta, insistindo que lutaria.
— Não me responsabilizo com os resultados daqui para frente! — A voz de Aries indicava toda a loucura que eu temia dele, virei-me desesperada e via os olhos faiscarem e a face doentia. Ele ia atacar. — Círculo de Fogo. -
Eu paralisei diante a situação. Eu estava tão perto de Audino que não tinha como ela ser acertada e eu não. Se Audino morreria ao receber um ataque mais forte, eu também não poderia resistir ao ataque.
Houndoom foi rápido em colocar sua pata direita, dianteira, na frente e inflar os pulmões e disparar as chamas contra nós. O que havia com aquele pokémon? Protegeu-me durante tanto tempo e agora, menos de cinco minutos depois de ter impedido que eu morresse, menos de vinte quatro horas depois de ter encarado um Gyarados para me defender, estava a me atacar, sem pensar duas vezes?
As chamas vieram contra nós e Audino virou-se para mim, de costas para as chamas, e empurrou-me com força. Fui lançada para trás, talvez por cinco metros, enquanto Audino também se impulsionou para longe de mim. A vi cair no chão e antes que eu tivesse certeza que ela estava bem uma parede de fogo surgiu bloqueando minha visão.
— Audino! — Levantei desesperada a gritar o nome dela. Tentei me aproximar, mas as chamas estavam muito intensas. — Audino! -
Fui obrigada a recuar e então tomei pé da situação. O Círculo de Fogo delimitou a arena, paredes de fogo marcavam o espaço que os pokémon tinham para lutar. Era evidente que deveria fazer mais do que isso, Audino certamente sofreria com o calor, enquanto Houndoom se beneficiaria com isso.
— Está louco? — Berrei para Aries. Eu era apenas nervos.
— Regra número um de uma batalha real, você não pode deixar que os pokémon acertem os treinadores ou espectadores. Você está entrando em uma batalha com um pokémon que ao tomar um golpe bem dado pode morrer. — Ele me encarou com o olhar doentio. — Eu diria que você é idiota por isso, mas devo respeitar a decisão sua e de sua Audino. Agora, eu sei que no primeiro sinal de perigo você vai tentar abraçar sua Audino para protegê-la e isso vai colocar você em risco também. Então, preciso garantir que não o fará. -
Eu tremia de nervoso. Como Aries pode comandar o Círculo de Fogo contra mim e Audino? Ele realmente acreditava que nada aconteceria? Será que ele sabia o resultado? Uma parede de fogo que nos dividiria e não nos machucaria?
Olhei para Aries sem conseguir reconhecê-lo naquela sua visão doentia que parecia estar no auge. Eu sempre soube que ele tinha um lado ruim, um lado perigoso. No início me perguntava se eu estava segura com ele e acabei convencendo-me que esse era o jeito dele ser, ter essa aura de perigoso, mas que estava ali para me ajudar. Agora, eu não sei mais se isso é verdade.
— Houndoom, não vamos fazê-las sofrerem, Cortina de Fumaça! -
Aries comandou e eu me vi congelada diante o comando. Audino não podia fugir e se o local fosse tomado por fumaça ela ficaria sufocada. Não seria um golpe direto e assim ela poderia cair sem que sua vida corresse tantos riscos. Seria esse o plano de Aries ou seria apenas parte de uma estratégia maior? Afinal, Aries estava querendo me machucar ou não? Céus! O que eu estava fazendo? Eu estava numa luta e eu preocupada com as intenções de Aries.
A tosse de Audino me deixava angustiada. Ela não tinha nenhum movimento que pudesse acabar com a fumaça. Eu comecei a ficar tão desesperada e chegava a achar que o desespero era o de Audino, presa nas chamas e na fumaça, sem poder respirar, sem poder enxergar, sem poder reagir.
— Explosão de Fogo! -
— O que? — Olhei para cima e vi Houndoom saltar preparando para realizar algum ataque.
Era um daqueles momentos em que você sente que algo está para acontecer, algo que muda toda a realidade ao seu redor. Eu havia saído de casa para ser uma coordenadora em nome do amor que minha mãe tem pela coordenação, mas tudo o que eu vivi até ali não parecia a coordenação sublime e inspiradora que minha mãe tanto falava e me mostrava. Pelo contrário, tudo era obscuro e doloroso, talvez por isso a Fita da Vida fosse tão importante para minha mãe e fazia um efeito tão doloroso em Misty, pois a coordenação que era-me apresentada colocava a vida de todos em risco, como agora que Aries está replicando um golpe assassino contra minha pokémon.
Comecei a correr em direção as chamas e saltei por entre elas indo para dentro da fumaça que cercava minha pokémon. Eu não podia deixá-la levar novamente aquele ataque. Aries era louco e assassino e eu sempre soube disso, burrice minha achar que ele tinha um lado bom. Eu iria salvá-la. Eu iria salvá-la!
— Eu vou salvá-la! -
Eu berrei abraçando Audino e me preparei para o impacto. Senti o calor e algo percorrer nossos corpos. Tremi, imaginando a dor que viria e o fim certo que nos esperava. Uma luz se fez e uma grande ventania. Sentia a palpitação de meu coração e de Audino. A luz era tão intensa que fui obrigada a abrir os olhos, pois algo estava acontecendo que não era normal.
As paredes de chamas continuavam, mas estranhamente não tremulavam e eu não podia escutar o som da queimada ou sentir o cheiro da fumaça que nos rodeava. Aries estava parado, sem se mexer, com seu olhar doentio e louco. Houndoom estava ainda no ar, e já havia disparado a devastadora estrela de fogo que estava na metade do caminho e se aproximava... Não! Não se aproximava! A estrela estava parada no meio do caminho e Houdoom estava parado em pleno ar! Como?
— Como? -
Eu e Audino estávamos encolhidas, abraçadas esperando pelo ataque e tenho certeza, nem eu e nem minha pokémon tínhamos habilidade para parar o tempo. Olhei para Audino que de repente se mexeu e me olhou toda confiante. Só então percebi o cordão dela brilhava intensamente e a minha pulseira também.
— Audin! -
Ela disse cheia de confiança e eu tive certeza, ela sabia o que estava acontecendo, diferente de mim. Mas, estranhamente aquele “Audin” que ela pronunciou pareceu-me cheio de significado, pareceu-me significar evolução. Eu poderia duvidar dessa minha interpretação, mas eu não conseguia!
— Evolução! — Eu disse confiante, sem realmente ter ideia do motivo.
Audino começou a brilhar intensamente e sentia que o som das chamas voltarem a trepidar, o calor aumentar, tudo voltou a ocorrer como antes e a estrela de fogo voltou a percorrer seu caminho. Fechei os olhos temendo o que aconteceria e um estalo de impacto ecoou seguido de uma forte explosão que eu já bem conhecia como o efeito do Explosão de Fogo.
Era o fim! Eu imaginava Audino no chão, já agonizando e meu corpo completamente em chamas. Imaginava, mas percebi que a dor e nenhum gemido vinha e abri os olhos, a tempo de ver uma redoma de energia esverdeada em volta de mim e Audino, que agora estava um pouco maior, com o corpo coberto de uma pelugem rosa claro, quase branco, que mais parecia uma roupa do que qualquer outra coisa.
Minha pokémon havia mudado de forma, e com as mãos esticadas havia criado uma barreira verde que detivera o ataque assassino. Eu estava sonhando? Minha pokémon não podia mais fazer movimentos energéticos. Como aquilo estava acontecendo?
Com os olhos arregalados vi Houndoom tocar o solo e parecer sorrir para mim, com um pequeno aceno de cabeça como se ele estivesse me parabenizando e soubesse tudo o que havia acontecido ali para aquela situação de Audino evoluir ter ocorrido. Naquele momento me perguntei se ele teria me atacado porque fora ordenado. Era obediente e não iria contra seu treinador. Talvez o ataque nem estivesse tão forte quanto deveria.
— Teoria da Cura Evolucionária! Até q… O que? -
Aries começou a dizer algo. Seu sorriso de deboche e olhos faiscantes haviam desaparecido e se eu pudesse dizer que ele parecia satisfeito eu diria. Mas, a fala de Teoria da Cura Evolucionária quase me fez viajar, não fosse a surpresa alarmante dele com algo. Foi tão rápido que nem pude impedir.
Audino em sua nova forma tinha suas mãos brilhando e lançou um forte raio luminoso contra Houndoom que também surpreso foi acertado e jogado contra uma árvore. A árvore chegou a rachar e lascas voaram para todos os lados, um ganido pude escutar, um ganido de dor e confusão.
— Audino! -
Gritei alarmada. No dia anterior Houndoom havia lutado e mesmo apanhando muito ele não havia emitido muitos gemidos como aquele. De certo, o golpe de Audino não fora tão forte, mas o cansaço do dia anterior mais os ferimentos não curados da batalha contra Staryu deixaram-no com poucas condições de luta, presa fácil até mesmo para um pokémon com pouca experiência como a minha inicial.
— Houndoom! -
Aries gritou, mais como uma ordem preocupada que eu pouco pude entender, até perceber que o cão de fogo levantava com os olhos em chamas e mirando-me. Ele não mirava Audino, ele me mirava. Por algum motivo ele não entendia que Audino havia atacado sozinha para me defender e sim acreditava que eu havia comandado. Estavamos numa batalha e por mais que o golpe tenha sido feito pelo pokémon para qualquer ser vivo o treinador era responsável por aquilo. O cão negro de fogo avançou, mesmo seu treinador tentando impedir. Tudo ficou escuro em questão de segundos. Eu havia sido atacada pelo pokémon que a havia me protegido tantas vezes.
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Você tem certeza que está com problemas quando abre os olhos e os sentem doer mesmo com a penumbra que o local onde você está se encontra. Se você não lembra como foi parar ali e demora até para se lembrar quem é você as coisas realmente devem estar bem complicadas.
Acordei desnorteada e sentindo o corpo todo dolorido. Não tinha ideia do motivo, mas com algum tempo acordada a mente se encontra e você começa a se lembrar das coisas. Primeiro você reconhece o local, com a ajuda da fraca luz do abajur no criado-mudo ao seu lado. Você tenta então recordar da última coisa que se lembra e tudo vem como uma enxurrada sobre você.
Estar naquela situação era o mínimo que deveria acontecer após ser idiota de desafiar Aries, de usar sua pokebola para salvar um pokémon, ver sua pokémon evoluir e um golpe titânico vir contra você. Não era atoa que eu estava dolorida e sem lembranças, não sei o que foi que me atingiu, mas certamente deveria ter me matado se Audino não tivesse entrado na frente. Audino entrou na frente?
— Audino! -
Berrei desesperada ao lembrar que apesar do estranho golpe de Houndoom estar mirando-me, minha pokémon parecia ter entrado na minha frente, recebendo a maior parte do impacto. Tentei sair da cama, mas cai no chão, sem conseguir me mover e ainda fiz cair sobre mim as coisas que estavam no criado-mudo quando tentei me segurar.
Não consegui me levantar, pois senti que meu corpo não tinha forças para aquilo. Quis me arrastar em direção a porta, luz passava por de baixo dela e eu tinha plena consciência de estar no centro pokémon e que bastaria ganhar os corredores para conseguir ajuda com informações sobre o ocorrido. Mas, eu não era capaz nem de me arrastar.
A respiração acelerou e o desespero batia. Eu não podia me mexer. Sentia meu corpo tomado por uma dor excruciante e o pouco que meus braços se movimentavam eu já pedia para morrer. O abajur caído perto de mim revelou um envelope com meu nome escrito nele. Eu não conseguia sequer me endireitar e minhas tentativas de gritar além de doerem minha garganta martelavam minha cabeça. Restava-me o envelope por hora.
Ele não estava lacrado, apenas dobrado e isso facilitou o trabalho de minhas mãos que pareciam ser uma das poucas coisas que não estavam a ponto de se desintegrar. Dentro do envelope estava uma folha dobrada uma única vez, escrita à mão com uma letra que demorei para acreditar ser de Aries. Bem, só sabia ser de Aries porque começava de uma forma muito distinta.
“Querida, Idiota!
Às vezes me pergunto se você vai improvisando as idiotices a medida que tem a oportunidade ou planeja tudo antes de sair da cama.
Eu não te chamo de idiota por ter capturado um pokémon que não queria que ficasse comigo usando uma pokebola minha. Não te chamo de idiota por desafiar-me para uma batalha sem ter como enfrentar-me. Definitivamente por essas coisas eu preciso te admirar por não desistir, por defender sua crença e ir até as últimas consequências. Foi isso que Angel e eu vimos em você! Você tem uma força em acreditar nas coisas que misturado com sua inocência, comove as pessoas e faz elas acreditarem em você ou ao menos quererem ver até onde você vai chegar.
Talvez seja isso que fez sua Audino criar um elo tão forte com você. Tão forte a ponto dela estar disposta a sacrificar a própria vida para defender as coisas que você acredita. Felizmente, o elo foi tão forte que somado ao presente de Rachel, a Mega Evolução aconteceu e a permitiu na forma Mega Audino estar curada para enfrentar Houndoom. Infelizmente, quando ela volta para a forma Audino as sequelas da luta contra Rachel e Charmander continuam existindo. Infelizmente, mesmo estando numa forma mega ela não possuí experiência de luta o suficiente para saber quando parar e como você também é inexperiente nisso tudo aconteceu e é nesse ponto que eu a chamo de idiota.
Houndoom te respeitava, de uma forma que eu não sei dizer o motivo. Mas, quando Mega Audino o golpeou após ele já ter “abandonado” a luta com toda aquela força, ele não interpretou que tivesse sido sua pokémon em uma reação de defesa a sua treinadora e sim uma tentativa de matá-lo. Bem, esse tipo de coisas acontece quando se entra numa luta sem estar realmente preparada contra um pokémon que vive lutando pela sua vida. Ele te acertou para te matar e confesso, achei que ele conseguiria.
Você deve ler isso em uma semana ou mais, então Audino já estará recuperada e descobrirá que eu parti e você está aos cuidados de Misty até o final de Abril, ou seja deve ter por volta de dois meses para treinar com ela e voltarmos a nossa jornada por sua mãe e o Grupo Olimpo.
Infelizmente, tem que ser assim por algum tempo. Afinal, avisei que um dia iriamos lutar por causa de sua personalidade boazinha e o resultado é que tenho um pokémon querendo te matar e não vou abrir mão dele.
Ah! Como eu disse, você venceu, então o pato é seu.
Att.
Aries Olimpo”
Eu não tenho ideia de quantas vezes li aquilo e quanto tempo fiquei ali no chão imóvel olhando a carta. Eu pensava em Houndoom querendo me matar e Aries me chamando de idiota, mas, ao mesmo tempo, preocupado com o pokémon dele querendo me matar. Eu havia acabado de fazer as únicas pessoas que acreditavam em mim terem motivos para me abandonar. Talvez eles nunca voltassem, talvez eu nunca mais fosse os ver. Aries poderia estar sendo cortes na carta, mas nunca o vi fazer isso e não tinha ideia do que isso significava.
Também pensava no dito sobre a Mega Evolução. Existe a Teoria da Cura Evolucionária. Eu havia lido sobre isso, mas não havia entendido o contexto até que aconteceu. Uma teoria médica que acredita que ferimentos e doenças podem ser curadas durante a evolução do pokémon para sua nova forma, especialmente se a metamorfose que o corpo sofra for grande. Ninguém conseguiu comprovar isso ainda, apesar de evidências provarem que alguns pokémon tiveram essa dádiva.
Li sobre isso antes de sair de Pewter por causa daquele comentário estranho que mandaram na minha entrevista. Meu melhor amigo, Mauricio, a quem carinhosamente chamava de Maumau, costumava cifrar mensagens para mim. Eu o achava estranho por isso, mas lendo aquele comentário achei escrito a mensagem Mega Evolucão, TCE. TCE era a sigla para Teoria da Cura Evolucionária. Significava que Mauricio estava tentando me dizer que Audino poderia se curar através da evolução. Mas, após um tempo acabei não levando a sério tudo isso, porque ele poderia muito bem ter falado comigo diretamente. Outro fator para eu ter deixado isso de lado era que eu não havia entendido como isso funcionava realmente e Audino não possuir uma forma evoluída, até onde sei e pesquisei.
Bem, sempre estou errada! Rachel sabia da teoria e acreditava que Audino poderia Mega Evoluir. Eu não sei nada da Mega Evolução, apenas que precisa de pedras especiais que me parecem com essas joias que Rachel deu-me.
A minha rival salvou nossas vidas. Meu melhor amigo a quem abandonei salvou nossas vidas. Todos pareciam saber o que havia acontecido, menos eu.
— Audino... Espera? Uma semana? -
O desespero bateu de repente. Eu estava a uma semana desmaiada. Tentei de todas as formas me mexer, mas a dor só aumentava. E então um barulho e porta do quarto se abriu.
Eu reconheci Misty de imediato e sinceramente eu não saberia dizer o que ela realmente estava fazendo ali. Ela me olhou com um pouco de impaciência e pareceu olhar pelo corredor, mas hesitou. Parece que desistiu e caminhou em minha direção.
— Você parece dar mais trabalho que um iniciante de dez anos em seu primeiro dia de jornada. — Ela comentou se abaixando perto de mim e tocando-me com calma levando meu corpo a uma posição ereta no chão. — E olha que conheci um iniciante de dez anos que encarou uma tempestade, um grupo de spearows raivosos e um desfiladeiro tudo ao mesmo tempo. — Ela de repente parou quando já havia me endireitado. — Ou seria uma cachoeira? -
Ela sacou uma pokebola e vi uma Starmie, a evolução de Staryu surgir. A mulher ruiva fez apenas um gesto para a pokémon e seu cristal iluminou-se, e eu me sentia envolvida por energia e comecei a levitar, ereta, até a cama. Eu ainda sentia as dores, mas acho que aquela energia psíquica travou minha boca também pois eu não conseguia gritar, só sentir. Quando fui colocada na cama e liberada da prisão psíquica de energia, urrei de dor.
— Agora Joy virá para cá. — Comentou Misty. — Então, terei que ser breve. Você está a três dias desacordada, o que é um recorde considerando o que te atingiu. É esse tipo de coisa que valorizo. Coragem, talento bruto, respeito e a resistência de não querer parar. -
Misty começou a vasculhar no quarto por algo. Eu pensei em questioná-la, principalmente ao ver que ela mexia na minha bolsa, mas questionar doía e então resolvi apenas olhar para entender.
— Você mostrou coragem em fazer uma jornada por sua mãe. Mostrou talento quando conquistou as vagas para a segunda fase sem ter realmente aptidão ou treino. Definitivamente mostrou respeito quando criou aquela situação reflexiva com a lavagem de pratos e tem mostrado muita resistência ao julgar que está quase morrendo a cada ação que faz. — Misti pareceu achar o que queria, na minha mochila. Voltou-se para mim e olhou para Staryu. — São essas coisas que vão fazer você se tornar uma boa coordenadora e por isso aceitei treiná-la.-
Aquilo era um alívio. Eu já havia lido aquilo na carta e entendia que ela ia me ajudar. Mas, escutar da boca dela fazia um efeito diferente.
— Agora, vou te deixar a par do motivo pelo qual Brock a mandou aqui, pois não gosto de mentir ou enganar. -
Ela me mostrou a famosa Fita da Vida dela, na mão direita, e na mão esquerda a Fita da Vida que é de minha mãe e consegui destruir. O contraste era tão gritante que nem pareciam ser fitas idênticas. Ela de repente jogou a dela, intacta, no chão e apontou para Starmye que disparou um raio contra a fita. Depois um estranho ataque de gelo e então algo que eu não tinha certeza do que era, mas fatiaria a fita com certeza.
Se eu disse algo? Tentei. Mas, a dor foi tanta que quase enlouqueci. Minha cabeça doía, tudo já girava e agora eu estava presenciando um ato louco e insano. Alguém estava destruindo uma fita premium.
— Liguei para Brock e conversei com ele por um tempo até realmente entender o que ele queria. -
Ela andou até o local onde jogou a fita que foi fuzilada por Starmye, abaixou, pegou-a e voltou até mim. Me encarou durante alguns segundos e estendeu a mão esquerda exibindo-me uma fita suja e destruída que entendi como sendo a de minha mãe, em seguida estendeu a mão direita e arregalei os olhos. Os pensamentos pararam e ela apenas ficou me encarando esperando que talvez eu dissesse algo ou que eu entendesse por mim mesma, mas eu não conseguia reagir ao que eu via.
— Temi que o berro de dor fosse seu. — A enfermeira Joy surgiu na porta, já com um carrinho cheio de utensílios e remédios. — Mantenha-se calma que vou te examinar e logo após te sedar. -
Escutei a fala da enfermeira, mas sinceramente não tinha a menor condição de fazer o que ela estava pedindo. Ainda mais que Misty deixou minha fita destruída na cômoda, que ela acertou antes, e agora seguia para fora do quarto.
— Como? — Eu berrei ignorando a dor. Aquilo que havia acontecido era impossível. Starmye havia dado tantos ataques na Fita da Vida de Misty que era para ficar pior que a minha, ao menos no que dizia respeito ao a destruição, e ela havia ficado intacta.
Misty olhou para mim como se esperasse que soubesse a resposta para aquilo, mas eu não sabia. Ela havia me mostrado na mão direita uma fita intacta. Molhada, mas intacta.
— Fitas premium são praticamente indestrutíveis. Diferente das fitas da cidade que são comuns e tem um custo baixo de construção, as premium são feitas para resistirem a diferentes situações. Se os ataques de minha Starmye não danificaram, por que a da sua mãe se danificaria com galhos e ralar na terra? -
Emudeci. Por que o de minha mãe se danificaria?
— Já chega Misty! — Joy pareceu ficar brava. — Terá essa conversa com ela quando ela estiver melhor. -
— Deixe Joy! — Eu disse num murmurar querendo evitar a dor.
Misty ficou me olhando por algum tempo e recolheu Starmie. Acho que ela queria, desde o início, falar aquilo para mim e não sairia sem o fazer e por isso havia deixar Starmie liberta. Mais tempo ali me daria mais oportunidade da curiosidade me consumir e consumiu.
— Brock sabia que as fitas premium são resistentes e quando soube que a sua se desfez estranhou. Por isso quis conferir sua história e resolveu que ele não tinha conhecimento o suficiente sobre as fitas premium para poder dizer a você algo assim e te mandou até mim para confirmar que a fita da sua mãe é falsa. -
A fita da minha mãe é falsa? A fita mais preciosa dela é falsa?
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A fita da minha é falsa. Uma semana inteira essa frase vagou pela minha cabeça até que tive coragem de pedir a Joy para me por para dormir por alguns dias. Foi o único jeito que encontrei para me manter longe de tantos questionamentos. Por que a fita da minha mãe era falsa? Será que minha mãe havia mentido para mim todo esse tempo ou ela foi enganada em algum momento?
— Onde vai? — A voz da enfermeira Joy me fez gelar. — Ainda mais numa hora dessas. -
Quando finalmente despertei e não sentia mais dores a Joy me deu alta e eu me preparei para ir. Mas, esperei ser tarde da noite para ela não me ver saindo. Infelizmente, ela ainda estava na recepção quando eu andava para fora do centro.
— Eu vou para casa. — Eu disse indicando que minha mochila estava nas costas.
— Se acordar a Misty sem necessidade ela vai ficar furiosa. -
— Vou para minha casa de verdade. — Eu disse suspirando. — Estou desistindo desta vida de coordenadora. -
Joy olhou para mim confusa por algum tempo. Ela queria uma explicação, mas não exigiria nada de mim.
— A fita da vida da minha mãe, seu orgulho eterno, é falsa. Preciso saber se as histórias dela são reais ou não. A jornada e a taça são por ela e suas histórias. Se forem falsas como essa fita.. — Eu parei tentando conter o choro. — Eu jamais serei uma boa coordenadora e se minha mãe também não foi, não vou me matar tentando. -
Eu saí sem que Joy pudesse dizer algo. Para mim tudo havia acabado. Algumas jornadas funcionam e outras não. Alguns tem jornadas maravilhosas para seus sonhos pokémon, mas eu não tenho um sonho pokémon para seguir e agora estou decepcionada com minha mãe para querer levar para ela uma taça.
Olimpos que me perdoem, mas eles já me abandonaram e me acham idiota, de qualquer forma. Vou deixar meus pokémon no Centro Pokémon onde Joy vai ter uma ideia do que fazer. Isso acabou. Minha jornada terminou.
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