O vento parece estar especialmente mais frio por aqui, ou talvez seja apenas impressão minha. A questão é que faz tanto tempo que ando cercada dessas sombras geladas enquanto tento, a todo custo, recuperar algo que por direito deveria ser meu, que não devo nem sequer saber mais como é a sensação do calor.

Dou um leve impulso com os pés na terra batida e o velho balanço nos fundos da casa no qual me encontro se move com desgosto. Pra frente. Pra trás. As correntes velhas reclamando por terem sido tiradas de seu descanso. Queria eu poder descansar por tanto tempo quanto elas.

A tarde já está quase no fim e logo vai escurecer. Enquanto espero que ele chegue, repasso mentalmente tudo o que aconteceu nos últimos meses e pensar nisso faz com que me sinta pela primeira vez realmente exausta, como se finalmente me desse conta das coisas terríveis que fiz; minhas mãos, que agarram as correntes enferrujadas, ainda têm sangue seco sob as unhas. A pele dos braços, das pernas e de todo o resto trás as marcas dos lugares por onde me arrastei. E finalmente, me pergunto se tudo isso realmente teve algum sentido.

As últimas palavras que ouvi de Benjamin ainda ecoam em meus ouvidos que continuam zunindo: “Às vezes, só nos cabe aceitar”. Fecho os olhos, me deixando desfrutar de um segundo de paz, se é que isso existe, e enxergo tudo de novo dentro da minha cabeça.

Pra frente. Pra trás. Pra frente. Pra trás... E minhas lembranças me inundam no mesmo ritmo doloroso do balanço.