Alma Perdida

2 Capítulo 1


O carro freou tão bruscamente que todos fomos violentamente jogados para frente, em seguida, o motor morreu.

No banco de trás Beni fez uma careta por ter batido com o nariz no encosto do assento do motorista. Eu apoiei as mãos no painel, sentindo o coração subir pela garganta e descer até o estômago antes de voltar a bater aceleradamente no peito.

—Tom, pensei que precisasse entender alguma coisa de direção para conseguir uma carteira. — Falei, encarando meu irmão do meio enquanto ele tentava dar novamente partida no automóvel, já com uma fila de motoristas impacientes buzinando atrás de nós.

—Eu sei o que estou fazendo — murmurou, mais para si mesmo do que para mim.

Beni pôs a cabeça para fora do vidro da janela e fez um gesto de desculpas na direção dos outros carros.

—Vamos Tom, deixa eu levar o carro até em casa antes que essas pessoas decidam nos agredir.

Tom, visivelmente nervoso e embaraçado pela situação não fez menção de se opor. De cara feia ele se levantou e trocou de lugar. Beni também tinha sua habilitação há apenas alguns meses, mas possuía um senso mil vezes melhor de direção. Ele ligou o carro e, em apenas um minuto o trânsito fluiu novamente.

Qualquer um que passasse por nós nunca adivinharia que somos irmãos. Apesar do fato de que eu havia sido adotada por Jonas e Luiza aos seis anos, Benjamim e Tomás também eram completamente diferentes um do outro.

Eu costumava ter a mania estranha de observá-los quando não estavam olhando. Beni tinha o rosto corado de sol e cabelos puxados para o ruivo, assim como mamãe, enquanto Tom possuía a pele mais clara e os cabelos pretos, meio encaracolados, como os de papai. Eu destoava completamente de ambos, com a pele da cor da mistura entre café forte e leite e os cabelos eram uma cascata de cachos castanhos mal arrumados.

A única coisa que os três tínhamos coincidentemente em comum eram os grandes olhos castanho escuros, quase pretos, o que, na verdade, era uma característica comum na maior parte da população.

Quando estacionamos em frente a nossa casa em uma ruazinha sem saída, um pouco barulhenta, no subúrbio o sol estava começando a se pôr.

—Obrigada por nos trazer em segurança, Beni — falei enquanto batia a porta do carro, sentindo novamente a segurança de ter meus próprios pés no comando.

Ele sorriu, enquanto Tom bufou.

—Ia dar tudo certo! — resmungou.

—Pra falar a verdade não sei como você passou nos exames — provocou Beni — quer dizer, tem certeza de que não subornou nenhum dos avaliadores?

—Ah, muito engraçado, Benjamim. Não enche.

Tom entrou em casa empurrando a porta com certa violência. Aquela havia sido a primeira vez que aceitamos sair com ele no controle da direção. Papai não o deixou sair sozinho com o carro para praticar, mas é claro que ele provavelmente não esperava estar colocando a vida dos outros dois filhos em risco.

—De verdade, como ele passou? — Beni olhou para mim com ar de riso.

—Você podia tentar ajudá-lo a melhorar ao invés de implicar com ele como se ainda tivessem dez anos — revirei os olhos em resposta enquanto fechava novamente a porta depois de entrarmos.

—Ele não aprende tão rápido quanto você — ele se aproximou e bagunçou meu cabelo antes de me dar um beijo no topo da cabeça e me empurrar para o lado para passar primeiro.

— Você só não devia gritar tanto com ele — gritei, já observando-o se perder no corredor e subir as escadas.

—Quem não deveria gritar? — Perguntou mamãe aparecendo na sala.

Ela vestia seu habitual avental de dona-de-casa-que-está-sempre-fazendo-alguma-coisa e estava tirando as luvas de borracha.

—Não é nada, mãe. Precisa de ajuda?

—Não, já está tudo pronto, eu só estava mesmo pensando se vocês estavam bem.

Minha mãe era uma mulher bonita, com seu um metro e setenta, a postura altiva e seus longos cabelos sempre presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça, nem parecia ter seus quarenta e cinco anos.

—Foi tudo bem, sim. Por sorte temos Beni.

—Ah…Que bom, eu acho. — houve uma pausa, como se ela tivesse até medo de perguntar mais — Vinicius vem aqui hoje a noite?

—Claro! Ele não seria louco de perder o jantar de sexta da dona Lu, seria?

Ela riu de forma desajeitada e me bateu levemente com as luvas.

—Bem, se não precisa de ajuda, vou me trocar.

Passei por ela e lhe dei um beijo na bochecha.

No topo da escada já era possível escutar o falatório de Tom e Beni no quarto ao lado do meu. Provavelmente os dois ainda discutiam sobre o passeio de carro levemente frustrado. Isso me fez rir de forma involuntária.

Eu ainda me lembrava de quando éramos crianças e eu costumava observá-los, um pouco assustada, brincando de luta e falando alto o tempo inteiro, enquanto eu me encolhia nos cantos, ainda tentando me acostumar com a nova casa. Então me peguei imaginando como seriam as coisas dali a algumas semanas quando Beni sairia de casa. Ele havia finalmente juntado dinheiro o suficiente para alugar sua primeira casa e só estava esperando a mudança do inquilino anterior.

Finalmente entrei no quarto, peguei algumas peças de roupa e corri para o banheiro antes que algum dos dois decidisse utilizá-lo também.

...

—Espero que sua mãe tenha feito àquela lasanha de quatro queijos maravilhosa. — Foram as primeiras palavras de Vinicius, meu namorado, quando abri a porta.

Vinicius e eu havíamos nos conhecido há um ano e meio durante um evento literário. Ele era um dos organizadores que pareceu muito empenhado em me fazer escolher seu time em uma das atividades e, depois de uma derrota vergonhosa ele insistiu em pegar meu telefone com o pretexto de dar dicas para a próxima vez.

—Eu também amo você, amor. — falei, sorrindo e puxando-o para dentro.

—Não se pode competir com lasanha.

—Infelizmente — disse minha mãe, descendo as escadas — não fiz a lasanha, mas tenho certeza que você vai adorar o frango assado.

Vinicius foi até minha mãe e a cumprimentou com um beijo no rosto.

—Tenho certeza que vou adorar qualquer coisa, estou morrendo de fome.

Puxei-o pela braço em direção ao sofá

— Controle-se, ta bem?

Sentamos juntos no momento em que meu pai apareceu com as roupas ainda sujas de fuligem. Ele vinha se empenhando em criar sozinho coisas feitas de madeira e passava um bocado de tempo no quintal dos fundos com todas as suas tábuas e equipamentos de marcenaria recém adquiridos.

—Ei, como vai, rapaz? — ele apertou a mão de Vinicius, depois se virou em direção ao andar de cima e gritou — Beni, Tom, desçam logo! — então voltou-se para mim — Estava tão distraído que nem percebi que já estava escuro. Como foi o passeio, querida?

—Foi… muito bom, eu diria que tivemos um pouco de adrenalina…

—Tenho certeza que Tom comprou a carteira — emendou Beni, entrando na sala com Tom logo atrás. — estávamos em perigo, pai. Nunca mais dê as chaves a ele.

—Ah, Beni, fique quieto. Eu só preciso de um pouco mais de prática.

—Já que estão todos aqui, vou pôr a mesa. Pode me ajudar, Alessa?

Levantei e segui minha mãe até a cozinha. Juntas, pusemos os pratos, talheres e travessas na mesa enquanto meus irmãos conversavam com Vinicius algo sobre um novo videogame e meu pai lavava as mãos.

Nos sentamos todos juntos, como era costume às sexta feiras. Observei todos ao redor da mesa, conversando e sorrindo. Comecei a me servir com batatas e arroz de forno. Fiz um comentário sobre o passeio da tarde e Vini elogiou a comida.

De repente, como se a casa virasse trezentos e sessenta graus, uma vertigem me atacou. Senti algo se apertar no meu peito e um nó como se alguém estivesse me sufocando. Larguei o garfo e levei as mãos a garganta, mas a cena ao meu redor parecia continuar acontecendo em câmera lenta. Eu via as risadas, ouvia as palavras de forma arrastada e sentia o cheiro do tempero mais forte do que nunca. Então, ouvi os pratos se partindo no chão e minha visão escureceu.

Eu não podia abrir os olhos e nem mexer o corpo. Estava consciente, porém presa dentro de meu próprio corpo.

Ouvi alguns sons distantes demais, como se houvesse uma multidão sussurrando a quilômetros de distância. E, subitamente, uma única voz, destacada bem ao meu lado. “Propriedade”. Foi a única palavra que pude distinguir. Quis me virar, me mexer ou pedir ajuda. Porém minha consciência desapareceu.

Comecei a abrir os olhos devagar e, aos poucos, reconheci os contornos da sala de casa. Logo acima de mim estavam os rostos de Benjamim e Vinicius. A voz de minha mãe se destacou a alguns metros de distância.

—Ei, ela está acordando! — Beni gritou.

Os braços de Vinicius passaram por baixo das minhas costas, me ajudando a erguer o corpo. Apoiei a mão no encosto do sofá e senti a cabeça rodar um pouco.

—Graças a Deus! — O rosto de minha mãe estava pálido e o telefone ainda estava aceso em sua mão. — Tom, vá pegar um pouco de água. Como você está, meu amor?

Tentei responder, mas senti um ardor intenso na garganta. Pigarreei e ergui um dedo, pedindo um instante. Tom chegou com a água, suas mãos estavam trêmulas quando me entregou o copo. Bebi dois goles, devagar até sentir que conseguiria dizer alguma coisa.

—Estou… Bem, tudo bem.

Vini puxou minha cabeça para perto de seu peito e acariciou meus cabelos enquanto eu terminava de beber a água em goles pequenos.

—Você nos deu um susto. — disse meu pai.

—O que aconteceu? — minha voz ainda estava rouca e falhada.

—Você engasgou — Beni se sentou no braço do sofá, me encarando como se eu pudesse desmaiar a qualquer momento. — ficou encarando o nada por uns instantes, demoramos a perceber, aí você começou a se debater.

—Já falei tantas vezes para comer devagar — minha mãe me repreendeu.

Eu mal me lembrava de já ter começado a comer, mas provavelmente o esquecimento era efeito do tempo sem ar.

—Desculpe ter assustado vocês. — murmurei.

—Agora está tudo bem, é isso que importa. Melhor ligar para a emergência e falar que não precisam mais vir — Completou meu pai.

—Não seria melhor deixar eles virem? Não vai fazer mal dar uma olhada, ela demorou bastante a acordar.

Minha mãe ainda parecia em pânico e era estranho ter todos me encarando, preocupados. Levou algum tempo até convencê-los de que eu estava bem e que minha mãe não precisava jogar a comida toda fora.

—É um sinal! — dizia ela — melhor preparar outra coisa, nada acontece por acaso.

—Não é um sinal, mãe.

Ela não me deixou ajudar a recolher os cacos de vidro e nem deixou mais ninguém tocar no frango. Quando sentamos novamente havia sanduíches de pão de forma com manteiga e queijo.

Eu não conseguia parar de pensar na palavra “Propriedade” e em como tinha quase certeza de ainda não ter começado a comer quando aparentemente engasguei.

Puxei uma ponta do pão com os dedos e levei até a boca, ainda sob olhares atentos. Comemos em silêncio dessa vez.