8

Em meio a uma imensidão azul, imaginava que ali fosse sem dúvida o lugar onde o mundo parecia ter partido.

Nada. Nada daquilo que imaginou como seria retratada a liberdade passou perto do que estava vendo agora.

O cheiro. Podia sentir o cheiro de essa imensidão azul invadir seu interior.

Inspirou fundo.

–É lindo, não? –perguntou Ethan.

Violet só conseguia assentir. Em uma altura de mais de mil metros, uma elevação rochosa no fiorde de Lyse, fazia qualquer um perder o fôlego.

Preikestolen parecia ser apenas um nome de algo que turistas do mundo inteiro comentavam, mas estar no topo de sua elevação era outra coisa.

Estavam na trilha a caminho do fiorde e Violet só conseguia imaginar o que a aguardava. Ethan contava as antigas histórias sobre a região enquanto mostrava atalhos da trilha num gesto estranhamente cosmopolita resignação.

Sua mão segurava a de Violet e a guiava entre as profundezas da trilha, mas tudo valera a pena quando chegaram.

O velho guia chegara minutos depois com uma turma de jovens. Sua feição não era muito satisfeita para com o trabalho, mesmo assim ergueu a mão em um aceno para Ethan, assim que chegou.

–Exatamente como no filme! –Violet sussurrou a primeira coisa que conseguiu dizer depois de alguns minutos.

Absolutamente tudo que desejava fazer era como se estivesse a um passo de acontecer. Mais do que isso agora que já estava há pouco mais de dois meses em Stavanger.

Não importava mais o idioma, até aprendera algumas frases -a maioria que Ethan ensinava- Passeava pelas ruas durante o dia e não era mais preciso imaginar quando seria um próximo encontro. Quase todos os dias saíam com planos feitos na noite anterior.

Ethan ainda tinha alguns problemas a tratar com o trabalho. Muitas vezes mesmo não querendo, era obrigado a atender algumas ligações enquanto estavam juntos em algum restaurante, ou apenas caminhando pela praça.

Era uma manhã ensolarada, apesar de seus ventos gelados, quando saíram para a cidade vizinha velejar. (Uma surpresa que ele havia feito). Ethan teve o maior cuidado para preparar tudo, embora Violet tivesse caído na água assim que o barco fizera sua primeira curva. Um susto que tinha apenas aumentado a conexão de ambos. No mesmo instante já estava na água segurando Violet e rindo por conta da situação.

Nesse mesmo dia, o convite de Ethan -ainda dentro d’água- para que passassem a noite em sua casa fora de inevitável recusa. Seu sorriso demonstrando os dentes mais brancos e perfeitos que já vira na vida e sua voz suave parecia fazer a cabeça flutuar, uma hipnose constante.

Ao final da tarde já estavam na ruazinha estreita de casinhas brancas e de telhas. Algo que parecia ter saído de um seriado de famílias tipicamente perfeitas. Havia cercas brancas em volta de jardins recobertos por um grande tapete de grama do mais verde que já vira, e pequenos vasos contendo margaridas e algumas com violetas. –como mencionara Ethan, apontando para a casa vizinha.

Uma plaquinha azul no inicio da rua anunciava “Alameda fem. 172”

Apesar de o céu se encontrar escuro naquele instante, as calçadas eram perfeitamente iluminadas, o que tornava o caminho mais agradável.

Ali mesmo, quando se aproximaram da porta da casa de Ethan, -externamente igual a todas as casas ao redor-,uma velha senhora de cabelos grisalhos escorridos pelo roupão azul celeste, observava atentamente a chegada de ambos, a espreita de sua janela do quarto.

Descera as escadas que formavam um caracol e chegara até a porta de sua entrada. Sua perna esquerda pendia para o lado à medida que caminhava em passos rápidos.

Num olhar nada amigável, tirou um molho de chaves prateadas e estendeu as mãos enrugadas para fechar a porta robusta, também de madeira branca.

Antes, uma última olhadela novamente à espreita da porta.

– Boa noite! –disse Violet ao sair do carro, dando de cara a uma feição de “poucos amigos ’’ da tal senhora.

Silêncio momentâneo. Batida forte e oca vinda da porta.

–Às vezes me esqueço de que eles não entendem muito bem meu idioma... –sussurrou Violet ainda analisando a porta que acabara de ser fechada.

–Hm... –Ethan fechou a porta do carro em que estava Violet assim que ela saiu. Não parecia se importar muito com a hostilidade da velha senhora. –Não se preocupe... Ela age assim com todos... Depois que ficou viúva parece que se esqueceu de como interagir com as pessoas.

–Pobre mulher... –mencionou Violet, mais como um pensamento.

A casa de Ethan podia ser externamente igual às demais, mas internamente deveria ser extremamente diferente. Talvez previsível, pensou Violet. Um homem de aparência tão clássica como ele, não fora uma grande surpresa ao presenciar o mesmo estilo em sua casa. Lustres pendentes enfeitando uma sala de jantar ao centro, tapetes grandes e de um veludo brilhante abaixo de um enorme sofá de couro e uma televisão de tela grande encaixada dentro da parede. Ao redor, alguns quadros recobertos por molduras douradas.

Talvez tivesse reparado mais detalhadamente na decoração viking, ou que em dos quadros a pintura a óleo de Harald Harfager parecia saltar de onde estava.

Sim. Uma percepção que ficaria provavelmente pela manhã, agora que estava envolvida nos braços de Ethan.

9

O dia amanheceu devagar preguiçoso. Apesar do relógio já marcar sete e trinta e cinco, o Sol não havia aparecido.

O clima estava frio e caia uma fina chuva sobre a janela.

Não havia ninguém do outro lado da cama. Fora até o banheiro da suíte e tomou um banho quente. Vestiu sua calça jeans e pegou uma camiseta branca que estava disposta para ela no encosto da cadeira.

Andou pelo largo corredor observando agora os quadros dos quais não havia percebido na noite anterior.

Desceu as escadas lustradas passando as mãos pelo corrimão. A casa estava silenciosa.

Ultrapassou a sala e deu uma olhadela pela janela da sala. Afastou levemente a cortina branca e observou que o carro de Ethan ainda estava do lado de fora.

Seguiu pelo corredor à frente, em direção à cozinha. Mas quando se aproximou dela, um ruído viera da sala do fundo do corredor.

Violet percebeu que não havia ninguém na cozinha. Havia apenas uma mesa repleta de pães e doces em cestinhas, tinha potes de geleias, jarras com sucos diferentes e uma cesta grande com muitas frutas.

No fogão grande havia uma chaleira já apitando e vapor saindo dela. Novamente um ruído ecoara pelo corredor, vindo do mesmo lugar.

Violet saiu da cozinha. Chegou ao fundo do corredor. De novo um ruído. Pousou a mão na maçaneta e no mesmo instante em que a girou, a porta abriu pelo lado de dentro.

Deu de cara com Ethan.

–Oh, desculpe não sabia que estava aqui. –disse ele ao sair da sala.

–Achei que tivesse ouvido um barulho vindo daqui, como não te achei de manhã...

–Eu tive que resolver umas coisas no escritório, não quis acordar você...

Ele retirou a chaleira e desligou o fogo.

–E então, dormiu bem? –perguntou já despejando a água quente na xícara.

–Sim, muito bem. –disse sorrindo enquanto pegava um pão da cesta.

Ele sentou-se na cadeira da frente.

–Desculpe não poder te acompanhar hoje...

–Imagina... Você tem o seu o trabalho, não se preocupe...

–Mas ainda está de pé o Stjerner na quinta, não é? –ele perguntou.

–Claro –sorriu.

Voltara para o hotel quase na hora do almoço. O quarto estava arrumado.

Sentou na ponta da cama e tirou o telefone do gancho. Pensou em ligar para a Arlene e dizer onde estava e o que estava acontecendo. Mas sabia que Arlene não era de se contentar com meras explicações, insistiria para que dissesse todos os detalhes do lugar, o que estava fazendo naquele exato momento (tudo antes é claro, de dar uma bela bronca por não ter avisado nada sobre a viagem, sabendo que no dia de seu aniversário estava em Dallas), e sem dúvida, imploraria que mandasse uma foto de Ethan para dar o seu “conceito” –como sempre dizia fazer quando conhecia alguém que Violet se interessasse.

Posicionou o telefone de volta no gancho.

Na quinta-feira. -uma noite que incrivelmente não deixara suas mãos congelando do lado de fora-, chegou rápido.

Estava sentada em uma das mesas do Stjerner observando um programa de talk show que estava passando naquele momento na TV do alto da parede.

Um casal atrás de sua mesa ria com o que acabara de ouvir da apresentadora alta e de cabelos longos que entrevistava um caminhoneiro do interior.

Não entendia uma palavra da qual falavam, mas sorriu achando graça do modo estranho como ele falava.

A apresentadora fez uma pausa e logo a imagem mudou rapidamente para o jornal que costumava começar às sete horas.

Era uma noticia de última hora.

Ao fundo, policiais e peritos analisavam o local de mata aberta e que lhe pareceu familiar.

Emily Compton no qual havia sido noticiada como desaparecida, estava novamente como enfoque principal. Seu corpo fora encontrado as margens do lago Bates durante a manhã por turistas. O lago não era muito visitado, ou melhor, podia se considerar abandonado – o que tornaria um bom local de esconderijo se turistas de Preikestolen não tivessem se perdido pelo caminho instruído por um velho monitor. (o mesmo monitor que vira naquele dia).

O casal atrás havia ficado em silêncio, e parecia perplexo diante da noticia. Assim como todos que estavam acompanhando.

–Desculpe pelo atraso. –disse Ethan assim que chegou.

Dera um beijo na bochecha de Violet e se sentara na cadeira a frente.

–Você viu que coisa horrível? O que será que aconteceu com essas garotas? -disse Violet apontando para a TV.

Ethan se virou para ver a noticia e acompanhou por alguns segundos ao que o repórter dizia.

Ele se virou um tanto perplexo para Violet.

–Não é horrível? –repetiu assim que ele se virou.

–Sim... É horrível... –disse concordando com a cabeça.

Depois de alguns minutos que haviam comido alguma coisa, Violet percebeu que Ethan havia ficado um pouco sério e sem dizer muita coisa.

Deslizou o braço sobre a mesa e pousou a mão direita sobre a dele.

–Está tudo bem? –ela perguntou curiosa.

Seu olhar estava direcionado à mesa, e então com o toque por cima de sua mão, foi como se despertasse de algo.

–O que? –perguntou ele distraído.

–Não sei... Parece que está preocupado...

Ele afastou a mão de baixo da dela.

–Não, acho que só estou um pouco cansado. –disse em voz baixa.

Ao final da noite, Violet se despediu de Ethan e antes que pudesse sair do carro, ele segurou levemente seu braço.

Ela o olhou com uma expressão confusa diante da feição de preocupação que ele demonstrava.

–Ethan, o que foi? –disse se ajeitando novamente no banco, ainda com a porta do carro aberta.

Os olhos com pinceladas verdes por baixo da luz do carro estavam inquietos.

–Só me prometa que vai tomar cuidado, ok? –disse ele por fim.

–Hm... Ok. Eu prometo... –concordou então, mas agora também parecia preocupada com a pergunta.

–Está tudo bem mesmo? –perguntou a ssim que saiu do carro.

Ele a olhou da pequena janela.

–É só que... Com todo esse negócio do noticiário, e com tudo que vem acontecendo... –pensava no que mais dizer.

–Ethan, está tudo bem... –o olhou reconfortante- Eu vou ficar bem.

Ele deu um pequeno sorriso e assentiu, depois partiu com o carro.

**

Fez sua caminhada matinal como todos os dias. Mas algo a incomodava. Sentia mais do que um simples arrepio causado pela baixa temperatura.

Já tivera essa sensação no inicio à sua chegada à Noruega. Agora corria de forma mais forte. Uma sensação de clausura e perseguição finalmente atingiu um ponto em que tivera que parar no meio do caminho para respirar.

Seria algo causado por toda essa mudança repentina de seus hábitos, ou porque estranhamente sentira-se ligada e abalada com toda essa historia de viajantes desaparecidas? Era difícil imaginar que tal ideia poderia ser o motivo verdadeiro para tudo aquilo estar acontecendo.

Parara para comprar uma garrafa de água, e enquanto estava na pequena fila do caixa, observou com o canto do olho um homem à sua espreita.

Olhou para ele sem se importar se seria de forma discreta ou não e então pôde notar o quanto o homem a encarava de forma suspeita e calculista.

Seria algo novamente projetado por sua mente? Ou talvez não tivesse notado que o olhar desse mesmo homem de barba grossa e casaco volumoso, tivesse sido apenas um olhar repentino e sem pretensão de lhe causar suspeitas?

Pagou a mulher baixa e rechonchuda do balcão e então sem mesmo abrir a garrafa d’ água correu em direção ao hotel.

Os dias passaram de forma estranha. E pior foi saber que todos eles não haviam feito sua sensação estranha passar.

Fazia exatos três meses que passaram. Três meses que passaram voando.

Não que quisesse desistir e voltar para casa... Era só essa maldita sensação.

Estava sentada no lobby do hotel, esperando Ethan aparecer para irem ao porto de Oslo juntos.

Olhara no relógio acima, duas e quarenta e três da tarde. Haviam marcado às duas e meia.

Esperou mais alguns minutos.

Três e cinco da tarde.

–MS. –o recepcionista do hotel se aproximara e perguntara se gostaria de um táxi.

Violet balançando a cabeça negativamente e agradeceu.

Havia ligado várias vezes para Ethan. –embora nunca tivesse precisado se preocupar quanto a suas ausências nos encontros. Nunca faltava em nenhum e o máximo de seus atrasos não ultrapassavam mais de cinco minutos.

Levantou-se da cadeira e fora em direção às escadas para seu quarto, mas antes a movimentação dos recepcionistas do balcão assim que levantara, chamou sua atenção.

Estavam concentrados na pequena TV da bancada e fazendo ecoar os burburinhos.

Violet desceu os dois degraus que havia subido e de longe inclinara a cabeça.

A mulher dizia numa perfeita dicção, a noticia do suspeito que havia sido preso na mesma manhã por suspeitas do desaparecimento e possível assassinato das três jovens garotas.

A denúncia anônima levou a policia a descobrir o corpo da primeira vítima Sarah Newman à apenas oitocentos metros do local. Cães farejadores ajudaram na busca e confirmaram a veracidade da denuncia. Ainda não tiveram pistas do paradeiro do corpo da segunda vitima, mas a policia vasculha a região minuciosamente a procura de mais vestígios.

Uma gravação mostrava a hora exata da prisão do suspeito. O que chocou Violet assim que a imagem aparecera na tela. O velho monitor e guia da região de Preikestolen estava agora na traseira de um camburão policial. Mostrava-se calado e não contestava em nenhum momento as acusações dos cidadãos da região que vieram em protesto assim que souberam do suspeito.

Violet subiu para o quarto sem acreditar no que acontecera... O mais estranho era sentir que sua sensação ainda existia mesmo com toda a noticia. Algo estava errado.

Na mesma noite tentara ligar para Ethan, mas novamente a caixa postal parecia ser a única comunicável.

Ligou na manhã seguinte, e na seguinte.

Uma semana havia passado sem noticias de Ethan. Nada.

Nenhuma ligação ou recados na secretária.

Continuou correndo durante as manhãs e em alguns finais de tarde. Passara uma ou duas vezes perto da casa dele, mas não chegara a cruzar sua rua.

Talvez se não estava mandando quaisquer noticias, talvez quisesse dizer que tudo havia acabado ou que não valeria a pena insistir num “amor’’ tão simples e repentino.

Mas não havia explicações. Não fazia sentido tudo que havia acontecido de forma tão forte e sim, significativa para ambos de repente acabar desse jeito...

Sabia que algo estava errado. Sentiu-se triste, numa conformidade de estranha realidade.

Estava sentada na ponta da cama revendo uma lista de coisas burocráticas de Jersey (contas, do escritório, despesas da casa e etc) quando por fim pensou se não era a hora de acabar com a “turnê de aventura” -como seu pai costumava dizer ao telefone- e voltar para a realidade. Sentiu um aperto ao lembrar-se de Ethan –ainda sem noticias- como queria que estivesse ao seu lado novamente e conversar sobre o que seria melhor... O que sentia por ele já havia confirmado. E só percebeu isso no momento em que ele desaparecera.

Levantou-se e se aproximou do telefone. Agora sem pestanejar ligaria para Arlene e contaria tudo, e que voltaria para Jersey em poucos dias.

Respirou fundo e o pousou suas mãos no aparelho, e sem que tira-se o do gancho, o som de seu toque ecoou de forma estridente.

Olhou surpresa para ele e esperou por mais dois toques...

–Pois não? – atendeu curiosa.

Ruídos estranhos vinham do outro lado da linha. A ligação chuviscava.

–Tem alguém na linha?–ela tapou um dos ouvidos com a palma da mão e franziu o cenho.- Não consigo te ouvir...

Nenhum sinal de resposta. Apenas os ruídos. Afastou o telefone alguns centímetros do ouvido para então desligar, mas no mesmo instante uma voz rouca e ofegante veio do outro lado da linha, ainda com os ruídos.

–Violet! –ofegava a voz.

–Quem está falando?! –aproximou novamente o telefone do rosto.

Ruídos.

–Violet... Eu... Eu sinto muito...

–Ethan?! –ela reconheceu a voz que vinha de longe.

Um ruído de vidro se quebrando pode ser ouvido.

–Desculp... –sussurrou a voz. Parecia estar entre choro e ofegava muito.

–Ethan! Me fala onde você está?! O que está havendo?!

Um último ruído de algo se quebrando e então a ligação caíra.