All over again
5 Capítulo 5- V de Vingança
Notas iniciais
Depois de nós extorquir, sem qualquer motivo ou razão, eles começaram a nos atacar...No fim, aqueles vermes não roubaram apenas nosso dinheiro, eles também roubaram e destruíram muitas, muitas, vidas.
A minha não foi exceção...Naquele dia eu perdi amigos, perdi meu marido, o seu avô, perdi...nosso filho que tivemos antes da sua mãe...e também perdi parte de mim, lógico.
E eu me lembro de tudo como se fosse ontem...Do desespero, dos gritos, do barulho do disparo das armas, do sangue escorrendo nas minhas mãos...Sabe, o ruim de ser um sobrevivente é que muitas vezes isso significa que você terá uma memória daquilo que mais quer esquecer te assombrando para sempre.
— Sim, eu não duvido...E como você sobreviveu...?
— Ah, você quer saber....Eu te digo. Bom, nós três estavamos tentando fugir, só que acabamos esbarrando com um pequeno grupo do bando. Eu estava segurando nosso filho no colo, e um deles o tirou dos meus braços a força e apontou uma arma para a cabeça dele.
Logo depois jogaram uma faca no chão, entre mim e o seu avô, e disseram que apenas um iria sobreviver. Nós nos entreolhamos, assustandos, mas ai...seu avô pegou a faca do chão, pôs nas minhas mãos e então sorriu...Naquele momento entendi imediatamente o que ele estava pensando...Ele ia se sacrificar, e aquele sorriso...foi só para tentar me tranquilizar, como uma forma de dizer que ia ficar tudo bem...
— .......
— Eu hesitei, óbvio, mas antes que eu pudesse notar ele...ele já tinha feito...E então eles soltaram o meu filho, que voltou para mim apavorado, assustado e, assim como eu, também estava aos prantos...E eu só pensava em abraça-lo o mais forte possível, não larga-lo de jeito nenhum e o levar para o mais longe possível. Só que depois... eu ouvi um tiro e comecei a sentir sangue nas minhas mãos...
Só me dei conta da covardia que eles tinham feito quando eu olhei com meus próprios...Aqueles monstros tinham matado meu filho, que era só uma criança de 3 anos...! Ele não tinha feito nada...ele não merecia aquilo...! E quando questionei porque fizeram isso, eles me lembraram que apenas UM iria sobreviver...
— Que horrível...
— Mas aposto todas as fichas que eles não faziam a menor ideia de que posteriormente este se tornaria o pior erro da vida deles. — Sachiko dá um breve suspiro e continua a história...- Enfim...quando aqueles desgraçados foram embora de vez, a ilha estava totalmente arrasada, a situação era a pior possível. Não muito tempo depois a Marinha foi acionada e veio para cá.
Os marinheiros nos ajudaram a reconstruir tudo, e os feridos receberam atendimento médico e no fim uma base da Marinha também foi construída. Demorou, mas as coisas voltaram ao normal, mas obviamente nada seria como antes. Quanto a mim, eu só queria que alguém me acordasse e dissesse que foi tudo um pesadelo, que foi tudo mentira. Só que não foi, e eu teria que encarar isso...
— ....
— A ficha caiu, só que por mais que eu tentasse, eu nunca consegui aceitar, nem me conformar e muito menos superei...Então eu fiquei completamente destruída e me sentia sem chão. Como disse antes, parte de mim também morreu naquele dia, e a outra parte não queria mais viver...Por isso naquela época eu tentei me matar.
— Você tentou se matar!?
— Em algumas ocasiões. Acontece que eu não via mais sentido nenhum em viver e eu estava desesperada, querendo acabar com toda aquela dor insuportável que eu simplesmente não aguentava mais....! Só que eu não morria. Sempre que eu tentava alguém me impedia, ou então eu perdia a coragem. Mas tudo bem, isso não interessa mais...Porque não muito tempo depois eu encontraria novamente razões para viver.
— ...Por acaso uma dessas razões seria a minha mãe?
— Sim, foi. Imagino que esteja se perguntando onde ela entra na história, né?
— Tirou as palavras da minha boca.
— Bom, acontece que naquela época, desde pouco antes do ataque, eu estava grávida da sua mãe. Só fui descobrir isso no dia em que acabei indo para o hospital depois de mais uma tentativa falha de suicídio. Quando eu recebi essa notícia...eu senti uma coisa que nunca achei que seria capaz de sentir de novo, felicidade. — Sachiko sorria ao se contar as memórias daquele dia. — Foi graças a ela que voltei a ter o mínimo de esperança, e foi graças a ela que consegui seguir em frente.
Também foi naquele momento que percebi que eu não poderia simplesmente ficar quieta. Eles nos extorquiram, nos humilharam, nos massacraram, nos machucaram, roubaram e destruiram nossas vidas e fizeram com que todos sofressem....! Não tinha como eu aceitar uma injustiça dessas e fingir que nada aconteceu! Por isso decidi que me vingaria daqueles piratas! Jurei que mataria TODOS até não sobrar nenhum e os mandaria direto pro inferno! Faria isso por todas as crianças que ficaram sem pai, por todos os pais que ficaram sem seus filhos, pelo meu filho, pelo meu marido, pela sua mãe, por mim, e por todos os que morreram naquele dia!
— Agora entendo o motivo de tanto ódio....Então foi isso que te levou a se alistar na Marinha.
— Pois é, só que meu alistamento e minha vingança teriam que esperar, por causa da sua mãe. Mas isso não importava pra mim, afinal eu poderia me dedicar totalmente a ela em seus primeiros anos de vida, e assim foi. E eu fiz tudo por ela...E anos depois ela me agradeceria dizendo que queria se tornar uma pirata, assim como VOCÊ. -_-)
— Consigo imaginar sua frustação.
— E foi tudo culpa do seu pai!
— Ei! Vai começar a culpar e a falar mal do meu pai agora!?
— Não, querida, claro que não. Não tenho porquê fazer isso. Seu pai era um homem muito, muito bom, assim como o os outros que estavam junto com ele na tripulação.
— Você os conheceu...?
— Sim. Sua mãe fez questão de que eu conhecesse os futuros companheiros dela. Ao mesmo tempo acho queria mostrar que também existem piratas bons, ou que pelo menos não são tão ruins assim. Ela tentou me fazer mudar de ideia, mesmo que só um pouco...
— Entendo...Bom, ainda me surpreende que mesmo assim você tenha deixado ela ir.
— Eu era contra e bem que tentei impedir, óbvio rsrs. Mas eu sabia que tentar impedi-la seria inútil no fim das contas. De qualquer forma, decidi dar uma chance e confiar neles.
— Só que mesmo assim, no fundo você ainda tinha esperança de que minha mãe "criasse juizo", né?
— Claro, a esperança é sempre a última que morre TuT. Mas enfim, não é isso que eu quero te contar...A questão é que depois que uma tragédia acontece, e você sobrevive, muitas vezes achamos que não tem como outra coisa ruim nos atingir de novo. Lógico, isso acontece. Mas infelizmente não é sempre...Por isso é bom ter em mente que as vezes vida pode estar prontinha para te dar uma outra surra, e que uma situação ruim sempre pode piorar.
— Uau, quanto otimismo... -_-') — Yumi diz em tom irônico. — Mas...Você está se referindo ao naufrágio, não é...?
— Sim, precisamente... — A Marinheira sem perceber cerrava o punho. — Yumi, o naufrágio...Não foi nenhum acidente...A verdade é que aquilo foi resultado de uma batalha com um outro bando....E ai, mais uma vez, os piratas me tiraram alguém que eu amava...
— ....
— Mas ainda bem que você não estava lá...graças a Deus nada aconteceu com você...Se algo tivesse acontecido eu nunca me perdoaria...! — Sachiko fez uma breve pausa para se recompor. Quando voltou a falar estava com um tom mais sério assim como a expressão em seu rosto. — Bom...Já terminei de dizer tudo que tinha pra contar...Me desculpe por nunca ter falado nada disso para você antes. Espero que agora consiga me entender.
— É claro que agora entendo...Essas coisas horríveis e injustas aconteceram com você, é óbvio que tem todo o direito de querer vingança, sentir ódio e qualquer outra coisa do tipo. É muito natural que isso aconteça. Se tivesse sido comigo, também me sentiria da mesma forma. Mas mesmo assim continuo discordando totalmente dos seus métodos.
— "Discorda dos meus métodos"...?
— Acha mesmo que eu nunca soube das atrocidades que você comete com os prisioneiros aqui? Você chama eles de assassinos...mas esquece que você também é culpada de várias mortes!
— Não ouse me comparar com eles! Eu NUNCA tirei vidas inocentes! Fora isso, não sinto NENHUM remorso, nem culpa, por ter eliminado alguns vermes que não farão a menor falta para ninguém. Estou fazendo um favor para o mundo! E escute só, piratas e criminosos estão sempre querendo espalhar o caos. Meu desejo e meu dever é impedi-los. No fim das contas cada um segue com a sua vontade, e o resto é consequência. Se há um culpado na história, foi quem tentou fazer o que não conseguia.
— Ainda acha que é assim que você vai conseguir mudar alguma coisa!? Você faz exatamente as mesmas coisas, você age exatamente como esses piratas que tanto odeia!...E se você se acha melhor do que eles, seja pelo simples fato de ser da Marinha ou qualquer outra coisa, saiba que na verdade você é igual a eles, senão pior...! Você...você sabe que existe outras formas, um outro jeito para se lidar com essas situações...Você sabe que existem caminhos mais HUMANOS para seguir...!
— Está querendo dizer que eu deveria ter mais piedade com aquela escória? Nunca. Isso nunca! Eu não vou ter misericórdia com nenhum desses ratos imundos! Eu quero que eles sofram, porque é isso que eles merecem! Você sempre foi muito ingênua...Criminosos se aproveitam da tolerância e da piedade de pessoas como você....E eu não tô nem aí se isso é certo ou errado, nem para o que você acha. Não preciso da sua permissão pra fazer justiça.
— O que eu quis dizer... é que nem sempre os fins justificam os meios! E o que você está fazendo não é justiça, é vingança, e já está indo longe demais! Além do mais, acha que é isso que minha mãe, meu avô e todos os outros iriam querer!?
— Isso...ISSO NÃO INTERESSA! ELES ESTÃO MORTOS!
— EXATO! ELES ESTÃO MORTOS! Agora pare e pense um pouco! Mesmo que você consiga realizar sua vingança, seu esforço vai ter sido em vão...! Mesmo que...você mate todos os piratas do mundo...Não vai adiantar de nada...! Sabe por que...? Porque não importa o que você fizer, ou eu fizer...isso não vai...trazer ninguém de volta...!
— ..... — Os lábios da Marinheira tremiam e seus olhos, assim como os da azulada mais nova, derramavam lágrimas.
— As pessoas que morrem não voltam... Infelizmente não tem como mudar isso...E eu sei como você se sente...sei como é triste quando uma pessoa que te deu tantas memórias boas passa a ser só uma memória...Eu sei que é muito difícil virar a página quando você sabe que uma pessoa muito importante, que significou tanto pra você não vai mais estar nos próximos capítulos, nem no final da história....
Mas se ficarmos apenas pensando no que perdemos nós nunca vamos conseguir ver o que está na bem na nossa frente e nem o que está por vir...! Você pode até enterrar uma pessoa, mas sempre vamos ter a memória dela...Não acha que isso também não é um bom motivo pra seguir em frente?
— Já chega...chega disso....! Eu...eu só queria ter ver mais uma vez antes de te levarem para a cela, e talvez tenha sido um erro....acabamos tendo uma conversa bem desagradável...
Logo depois elas ouvem alguém bater na porta.
— Entre.
— Com licença, Sachiko-San, apenas vim avisar que já está tudo pronto. — Dizia o Marinheiro de uma patente menor.
— Ah, ótimo, ótimo...
— Também já podemos levar a prisioneira pra cela, se a senhora permitir.
— Sim, pode leva-la. Nós...Nós já terminamos.
— Certo. — O homem se aproximou e soltou Yumi da candeira onde estava presa. Pouco antes de saírem, Yumi diz uma última coisa. — Por favor, pense no que eu te disse...
E então as portas se fecham e os dois deixam o gabinete.
(To be Continued)
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