All or Nothing
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Nico
Essa é uma daquelas raras tardes quando tudo é tão perfeito que você queria que não acabasse. Percy e eu estamos jogando videogame na sua sala de estar faz algumas horas, latas vazias de refrigerante e uma tigela de pipoca fria entre nós. Um fim de semana desperdiçado atrás de cortinas fechadas quando é um dia particularmente bonito de primavera lá fora nunca foi melhor. Eu até consegui esquecer momentaneamente dessa importante prova que tenho amanhã.
Tudo sobre esse momento me faz sentir como se os últimos seis anos não tivessem passado, e eu ainda tenho dez anos, Percy treze, e nós ainda somos os melhores amigos. Me dói que desde que Percy começou a namorar dois anos atrás nós não nos vemos muito. Mesmo agora que sua namorada, Annabeth, que tem dezenove anos, está na faculdade, uma das melhores alunas de arquitetura que sua universidade já viu segundo Percy — ele provavelmente estava exagerando -, ele e eu continuamos bem distantes. Entre estudar por uma bolsa de estudos e trabalhar por meio-período, Percy só tem alguns fins de semana sobrando, e até eu entendo porque ele passa a maioria deles com ela ao invés de comigo, então fico feliz que finalmente tenhamos uma dia para nós. Não que isso signifique o mesmo para ele do que para mim.
Estamos só sentados ali, esmagando botões com dedos gordurosos em um silêncio perfeitamente confortável, olhos colados na TV. A mãe e o padrasto de Percy estão fora fazendo comprar e deixaram um bom tanto de lanches para nós na cozinha. É surpreendente que, apesar de Percy ser legalmente um adulto, sua mãe ainda o trata como se ele tivesse doze anos, mas suponho que seja bom ter alguma coisa assim. É uma tarde que tem tudo para se tornar uma ótima noite. Talvez eu até passasse ela aqui. Isso é, seelanão ligasse.
Além da televisão e o joelho de Percy, que está levemente pressionado contra o meu — não que eu tenha feito isso de propósito -, não estou realmente prestando atenção em nada, então só noto que tem um celular tocando quando a tela de pausa substitui o jogo na minha frente. E é, não tem como confundir aquele toque.
– Oi — Percy diz imediatamente, sua voz instantaneamente gentil e derramando com adoração. Faz meu estômago se contrair. — Estou bem. Você?... Mas eu pensei que -... Ah, entendo... — ele olha pra mim então, uma desculpa silenciosa em seus olhos. Eu finjo não notar. — Claro, eu posso sim... Ok, então te vejo lá... Até.
Eu pego uma pipoca mole da tigela antes de olhar para ele. — Então? — peço.
– Desculpa, Nico — ele responde. — Mas você sabe que faz um tempo que não vejo Annabeth, e ela quer jantar comigo — conheço como um fato que eles almoçaram juntos nessa mesma sexta, mas decido não comentar.
– Claro — faço meu melhor para soar indiferente. — Tudo bem — antes de levantar, acrescento como um adendo. — Jantar? — não pode ter passado muito das quatro da tarde ainda.
– É, eu só tenho que sair em duas horas, mais ou menos.
Eu considero ficar por mais um pouco, mas não seria a mesma coisa sabendo que ele logo teria que ir para se encontrar comela.É infantil de mim pensar assim, e eu sei disso perfeitamente, mas não consigo evitar. Me levanto e pego meu casaco. Olhando para Percy de novo, noto que ele parece um pouquinho desapontado.
– Tenho prova amanhã. Preciso mesmo estudar — é a melhor desculpa que consigo inventar, não precisando que ele pense que não quero ficar, mas agora culposamente satisfeito que ele pelo menos não quer que eu vá imediatamente.Cresça, Nico,digo a mim mesmo.
– Ah. Certeza que não precisa de ajuda?
– Não, tá tudo bem, obrigado — vou em direção à porta, e Percy segue.
– Ei, desculpa de novo — ele diz enquanto saio.
– Não tem problema, sério — isso parece convencê-lo.
– Se eu tiver algum dia de folga essa semana te aviso, ok? — ele sorri esperançosamente.
– Claro — sorrio fracamente de volta e Percy fecha a porta quando me viro.
Caminho em silêncio até o ponto de ônibus mais próximo, distraído apenas pelos meus próprios pensamentos. Estou lutando uma batalha perdida. Percy — além de ser hétero, claro — tem uma namorada, uma que ele obviamente ama. Eeuestou basicamente apaixonado por ele. Mesmo que eu saiba que não vai levar a nada, simplesmente não consigo abrir mão. Às vezes eu queria que ele notasse de uma vez, ou que eu tivesse a coragem para contar. Quero dizer, ele sabe que não tenho interesse em garotas faz mais de dois anos, mas eu nunca admiti meus sentimentos por ele. Acho que tenho medo demais para isso. Não medo de rejeição, mas medo de estragar nossa amizade. Sinto que, se eu contar, ficar perto de Percy não vai mais ser a mesma coisa. Para nenhum de nós. E simplesmente não consigo suportar essa ideia.
Meus pensamentos são interrompidos quando o ônibus chega. Percy e eu somos vizinhos desde que qualquer um de nós consegue lembrar, mas eu não menti quando disse que precisava estudar, e existem distrações demais na minha própria casa, então pretendo ir à biblioteca. Como esperado, o ônibus está cheio e abafado, o que me deixa ocupado demais tentando não esbarrar em ninguém quando o motorista faz curvas fechadas para focar demais na minha insignificante autopiedade. O ar ao meus redor tem cheiro de suor e cigarro, e estou para lá de agradecido quando, quinze minutos depois, chegamos à minha parada e consigo respirar as puro normalmente antes de entrar na biblioteca.
Chegando à estante de livros sobre Física, de repente queria ter aceitado a ajuda de Percy. Não sirvo para nada nessa matéria, nunca fui capaz de entender nada não importa o quanto eu tentasse.
Selecionando alguns livros que penso que podem me ajudar, checo a hora em meu telefone. Quatro e meia. Tenho duas horas antes de precisar pegar o ônibus de volta para casa. Duas horas para aprender o conteúdo das últimas três semanas. Ótimo.
Soltando um suspiro, pego um lápis e algumas folhas de papel dos materiais que a biblioteca oferece e coloco os livros em uma mesa vazia por perto, lutando contra a vontade de ligar para Percy e estragar seu encontro.
Jason
Piper ainda não me perdoou, isso é muito óbvio. Bom, pelo menos se suas atitudes nessa tarde são alguma dica. Ela me ligou mais cedo essa semana perguntando se eu poderia encontrar Leo e ela em um parque hoje, para "relembrar os velhos tempos", e é claro que eu concordei, mas até agora tem sido ela e Leo, e eu só seguindo em silêncio. Também não temos nos falado muito normalmente. Leo podia pelo menos me dar uma mão. Não quero que minha amizade com ela fosse pelo ralo fácil assim.
O dia está estranhamente quente para essa época do ano, e paramos para tomar água quando Leo anuncia que tem que ir. Ele está atualmente trabalhando como garçom em algum restaurante chique que ainda não me preocupei em aprender o nome. Sua inabilidade de se focar em alguma coisa faz com que durar muito tempo em um emprego seja difícil, infelizmente, não importa o quanto ele dependa disso. Leo viveu em orfanatos desde que sua mãe morreu em um incêndio quando ele tinha oito anos, mas foi embora na primeira oportunidade depois dos dezoito. No começo as coisas foram bem difíceis, tendo que se sustentar sozinhoeacompanhar seus estudos, mas parecem estar melhorando ultimamente. Eu teria oferecido ajuda à essa altura — qualquer tipo de ajuda — se eu não o conhecesse bem o suficiente para saber que não aceitaria.
Seu turno começa às seis hoje, o que significa que ele tem cerca de uma hora para se arrumar e então chegar lá, então ele tenta se desculpar. Piper não demora muito para declarar que vai com ele. Consigo sentir seu olhar sobre mim, provavelmente esperando, me desafiando a pedir para que fique, mas não o faço. Não sou o único que tem que agir aqui. Ao invés disso, sigo os dois até a entrada do parque em silêncio, até que Leo me puxa para o lado.
- É sério, cara, você devia mesmo falar com ela — ele aconselha.
- Se pelo menoselafalasse comigo — contrario.
- Ainda acho que devia tentar. Digo, você terminou com ela porque um dia percebeu que... tem outros interesses — ele levanta uma sobrancelha, e consigo ouvir uma nota de diversão em sua voz, apesar de sua preocupação com Piper. — É claro que ela tá irritada.
Eu abro minha boca para discutir, mas fecho sem dizer nada. Leo está certo até certo nível, mas a questão é um pouquinho mais complicada do que isso. Eu namorei Piper McLean, sim, por um tempo muito curto, e terminei tudo assim que confirmei que, sim, eusou gay. Quero dizer, eu tinha quase certeza antes, mas quando eu estava com Piper era tão...errado,de certa forma, que não fiquei com mais nenhuma dúvida. Mas talvez não fossem dúvidas desde o início. Talvez fosse apenas... medo? Porém seria mais medo do que os outros fossem pensar, mesmo que pouca gente saiba. E não que Piper não signifique nada para mim. Ela era uma ótima amiga, e eu não queria que isso acabasse. Eu expliquei tudo isso quando terminamos, mais de dois meses atrás.
- Ok — me entrego, um pouco relutante. — Eu falo com ela. Mas não hoje. Amanhã, na escola.
- Ótimo — Leo sorri, dando um tapinha nas minhas costas, e voltamos a andar.
- Pelo menos eu namorei alguém — eu sussurro para apenas ele ouvir.
Ele soca meu braço antes de colocar uma mão sobre o coração em falsa mágoa — Você me fere.
Depois de nos separarmos, ando até meu carro — bem, da minha mãe, mas eu sou basicamente o único que o usa — para encontrar uma pilha de livros esperando no banco do passageiro, para me lembrar que pus eles ali quando saí de casa para lembrar de devolver na biblioteca no caminho de volta.
Eu rapidamente ligo para minha mãe para avisar onde estou indo e que vou demorar um pouco e saio do estacionamento, sem saber que essa simples decisão pode mudar minha vida de várias formas.
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