All of me

8 Capítulo 08


Notas iniciais
Olá, pessoal! O capítulo 8 está finalmente aqui para vocês descobrirem quem, afinal das contas, vai ganhar a partida de quadribol. Grupo fechado no facebook: https://www.facebook.com/groups/1779275052355810/ Vejo vocês lá nas notas finais. Espero que gostem :)

Depois do jantar que envolveu novamente muita comida, eu fui com o Albus e a família dele para casa, onde dormiríamos apenas para voltar no dia seguinte. Era tanta gente junto que nem todos ficavam na Toca. Uma cama foi adicionada no quarto do meu amigo para mim e não demoramos muito em ir nos arrumar e deitar. Acordaríamos cedo na próxima manhã, pois o café da manhã também era partilhado entre a família toda. A Sra Potter continuou tão simpática quanto antes, a diferença eu notei no patriarca da família que agora me olhava não mais como se eu fosse algo para observar com cuidado. Parecia que a nossa interação durante o jogo tinha feito maravilhas para a percepção que os outros tinham de mim.

Eu e o Albus já estávamos debaixo das cobertas, quando a porta se abriu, fazendo a luz do corredor nos iluminar.

—Só vim ver se está tudo em ordem e dar boa noite — o pai dele entrou no quarto.

—Tudo certo, pai.

—Boa noite, Al — ele foi até a cabeceira do filho e se abaixou para lhe dar um beijo na testa.

—Boa noite, pai.

A surpresa foi quando ele se virou para mim, hesitou, meio sem saber o que fazer.

—Boa noite, Scorpius — ele sorriu e acenou e eu acabei sorrindo de volta com o gesto.

—Acho que seu pai gosta um pouquinho de mim agora — falei contente ao meu amigo depois que a porta foi fechada de novo.

—Claro que gosta, agora ele te conhece um pouquinho.

No dia seguinte era a véspera de natal, a casa inteira cheirava a comida, enquanto a vó Weasley comandava todo mundo que sabia o mínimo sobre como seguir uma receita para que todos os pratos estivessem prontos para aquele batalhão de pessoas. Eu achei a atividade um tanto engraçada, mas divertida. Acabei sendo incumbido de juntar os utensílios usados e limpá-los já que eu nunca tinha nem fervido água. Eu trabalhava distraidamente no canto da cozinha limpando talheres, porém dali eu podia ver toda a interação daquela família que era tão diferente da minha. Ali, até o preparo de uma refeição se tornava motivo para todos estarem juntos, enquanto que na minha casa, eram apenas algumas instruções aos cozinheiros. Bom, cada um à sua maneira, eu amava os meus pais, mas estava gostando da experiência caótica de uma família grande.

Depois do almoço, a turma toda foi dispensada para se ocupar com o que quisesse, o banquete preparado às ordens da Sra Weasley mais velha já estava inteiramente encaminhado, dessa forma, após alguns minutos de descanso, a família se organizou para a tal disputa de quadribol. De novo seriam meninos contra meninas, e a competitividade não era menos acirrada, a diferença era que não havia hegemonia entre os times, ambos os lados tendo vitórias expressivas ao longo dos anos. A família era grande e quase todo mundo gostava de jogar, mas os times foram formados entre os que estavam mais dispostos. Para o time feminino, era a Sra Potter de apanhadora, a prima Vic como goleira, a Rose, tia Angelina e a Lily como artilheiras e as primas Dominique e Roxanne como batedoras. Já os adversários tinham o pai da Rose como goleiro, o Sr Potter como apanhador, o Albus o James e — sendo completamente arrastado — eu como artilheiros e o tio Jorge junto com o tio Gui como batedores.

—Não estou muito certo se quero jogar — falei ao meu time quando eles me entregaram as proteções necessárias e uma vassoura. A disputa era levada tão a sério ali que eles jogavam com todas as bolas do jogo e iam até o fim. De acordo com o Albus, teve um ano que o jogo durou quase até o ano novo.

—Eu ouvi alguém hesitando? — a Rose zombou ao passar atrás de mim com a vassoura dela em mãos, já totalmente vestida.

—Não vai dar o gostinho de perder sem tentar para as meninas né, rapaz? — o pai da Rose deu um tapinha no meu ombro e eu assenti. — isso mesmo! Minha filha está mesmo precisando aprender a perder mais — ele completou sorrindo satisfeito, mas eu vi o olhar carinhoso que ele lançou a Rose.

Estávamos todos prontos no campo improvisado atrás da casa, não era nem de longe tão grande quanto um oficial, mas era o suficiente para uma diversão em família.

—Muito bem, meninos e meninas — a mãe da Rose chamou a atenção de todos colocando-se no centro.

—Sua tia não joga? — perguntei ao Albus.

—Naah, ela controla a pontuação e os ânimos — completou rindo.

—Não quero ninguém fazendo faltas absurdas, ouviu, Ron? Ginny? Harry? Jorge?- ela olhou sério para cada um dos que empregaram caras inocentes demais para ser verdade.

—Isso é decreto ministerial, Mione? — o tio Jorge provocou.

—Eu bem que devia tornar um — ela brincou — lembrem-se que é uma brincadeira e precisamos de todos inteiros para a ceia, pode até ser que a ministra da Magia não fique brava com o assunto, mas ninguém aqui quer encarar a ira da dona Molly, certo? — todas as cabeças concordaram com acenos enfáticos e eu me vi seguindo o exemplo, se nem os bruxos mais famosos do mundo queriam ver a vó Weasley brava, quem era eu?

O jogo começou já bem disputado. Com pontos sendo acumulados para ambos os lados. Não é que eu jogasse mal, eu até gostava bastante de voar e sempre treinei com o meu pai desde pequeno, mas já fazia anos que isso não era uma prática regular e, adicionando o fato de que eu não estava acostumado com aquela vassoura, me fazia ficar bem menos seguro do que deveria. A Rose não estava brincando quando disse que iria acabar comigo, ela passou voando perto de mim várias vezes, tentando me desnortear e conseguindo em quase todas. A goles não parava mais do que alguns segundos na minha mão, pois ela vinha numa rapidez impressionante e a roubava. Mesmo essa não sendo sua posição no time da grifinória, ela era uma ótima artilheira.

—Olho no jogo, Scorpius! — o Albus gritou no meu ouvido quando me percebeu prestando atenção demais na prima.

O casal Potter, que jogava na mesma posição, fez algumas corridas em busca do pomo, mas nenhuma tinha sido bem sucedida até então, o que não impediu que gracinhas fossem atiradas de um time para o outro.

—Está ficando velha, Ginny? — o irmão a provocou.

—Vou te mostrar quem é velha quando nosso time esfregar a cara do seu no chão, Roniquinho!

—Do mesmo jeito que fizeram ontem? Vamos adorar, não é meninos? — o time gritou em afirmação e sem nem perceber eu me juntei a eles, sem que ninguém me olhasse estranho ou achasse qualquer problema nisso.

Pela primeira vez no jogo, estávamos ganhando e por uma vantagem de 30 pontos. O James e o Albus formavam um grupo de artilheiros com sintonia de quem joga junto há anos, e eu estava me saindo bem em ajudar nos passes. Percebi que cada ponto que fazíamos enfurecia mais o outro time, principalmente a Rose que passou a voar com acrobacias mais decididas e ofensivas. Não tinha mais um momento em que eu estivesse perto de participar de uma jogada que ela não se colocasse por perto para me impedir, todas as vezes me lançando um sorrisinho triunfante por estar cumprindo a promessa do dia anterior. Aquilo foi me irritando, ela não fazia o mesmo com os outros, o negócio era comigo, então passei a ir mais ainda atrás da goles, o que acabou virando um embate entre nós.

—Calma, Scorpius, a Rose vai arrancar a sua cabeça assim — o Albus falou, parando alguns instantes do meu lado.

—Ela quer arrancar de qualquer jeito — dei de ombros, na verdade aquilo estava muito divertido, mas eu tinha subestimado o poder de competitividade da Rose, ela não sabia perder de jeito nenhum.

Quando nosso time abriu uma vantagem de 50 pontos, ela ficou extremamente furiosa. Os meninos comemoravam e as meninas nos olhavam com faíscas nos olhos.

—Não vai ser fácil assim, Scorpius — ela sussurrou perto de mim, antes de se ater a pegar a goles que a prima lançava.

Num movimento rápido, eu roubei a bola das mãos dela, que bufou frustrada, virando a vassoura imediatamente para ir atrás de mim. Nesse momento, um balaço vinha na nossa direção, me inclinei para desviar, mas a Rose me empurrou com tudo na direção contrária, fazendo minha trajetória se chocar exatamente com a da bola preta que veio em cheio no meu estômago. Uma das minhas mãos estava prendendo a goles, então eu não tive apoio o suficiente para me segurar e acabei caindo da vassoura e desabando no chão.

Tudo doía, eu aterrissei de costas, mas o impacto foi do meu lado direito, onde eu antes segurava a bola vermelha. Meu estômago ainda estava contraído do impacto com o balaço e a dor que subia do meu ombro até a ponta dos dedos me impedia de respirar. Permaneci com os olhos fechados, torcendo para que a dor lancinante diminuísse, mas sem nenhum sucesso.

—Scorpius! — eu escutei a voz da Rose gritando e se aproximando.

Abri ligeiramente os meus olhos para vê-la descer da vassoura e correr em minha direção, o rosto contorcido no que me parecia preocupação e culpa. Ela foi a primeira a se ajoelhar ao meu lado, mas um a um, os outros jogadores foram se aproximando.

—Scorpy, você está bem?

—Scorpius? — o Albus se colocou ao lado da prima. — fala alguma coisa!

—Hum…- eu resmunguei.

—Onde dói? — a Rose perguntou.

—Tudo — respondi com a voz fraca — meu braço — olhei para o meu braço direito e ela fez o mesmo.

—Ai, acho que está quebrado… Mãaae! — ela chamou desesperada pela mãe que logo estava ao lado dela.

—Como está o menino? — o pai da Rose perguntou, seguido dos outros tios e tias.

—Calma, me deem espaço um instante — a mãe da Rose entoou, no que eu classifiquei como “voz de ministra”, e todos obedeceram se afastando, menos a filha que permaneceu ali ao lado. — querido, eu vou ter que dar uma olhada, mas provavelmente vai doer um pouco — ela me olhou já pedindo desculpas.

Doer um pouco foi um eufemismo muito antipático, assim que os dedos dela se colocaram a avaliar o meu braço, eu não consegui conter os gemidos de dor e um grito quando ela chegou no local em que estava realmente quebrado.

—Pelo que eu pude perceber, está quebrado mesmo, não sou nenhuma medibruxa, mas acho que é mais fácil tratar disso aqui do que conseguir algum nessa época do ano, pode ser, Scorpius? — eu assenti, só querendo que a dor passasse.

—Mãe, você sabe fazer isso, né? — a resposta foi um olhar engraçado para a filha e uma afirmação.

Ela murmurou algumas palavras nas quais eu não consegui me focar, aliás tudo estava sendo eclipsado pela dor, mas de repente não estava mais. A pulsação que eu sentia antes pelo meu braço diminuiu e eu voltei quase ao normal. Ainda parecia que eu tinha sido pisoteado por um trasgo, mas pelo menos eu conseguia mover os meu dedos.

—Pronto, consertado. Mas você precisa manter esse braço imóvel por alguns dias só por precaução e descansar também, afinal foi uma queda e tanto. Doí em mais algum lugar?

—Acho que foi só isso que eu quebrei — respondi tentando mexer todas as partes do meu corpo e conseguindo, sem causar nenhum grito.

—Ótimo — ela sorriu para mim — agora você, dona Rose — ela olhou feio para a filha — pode pedir desculpas ao Scorpius, não foi um lance legal.

—Desculpa, Scorpius — ela falou sem que os olhos encontrassem os meus, a voz baixa e envergonhada como eu nunca tinha visto na vida.

—E você vai ajudá-lo no que ele precisar, até se for para cortar a comida dele, está me ouvindo? — ela levantou os olhos para mãe, exasperada — e não quero reclamações, ninguém mandou você jogar o menino da vassoura.

Ela apenas assentiu em silêncio, aliás ninguém ousou falar um pio enquanto a Ministra estava no recinto. O marido dela se aproximou alguns segundos depois para me ajudar.

—Vamos levantar daí, vem — eu me apoiei no braço que ele oferecia e com a ajuda do Albus também, consegui me levantar.

Minha cabeça girou com a tontura de voltar a ficar de pé e eu cambaleei quase voltando para o chão.

—Opa, cuidado aí! — o Albus falou e várias mãos me seguraram.

—Melhor irmos logo lá para dentro, assim você senta e descansa, querido.

Fui colocado na poltrona mais confortável da casa, uma tipóia foi improvisada para apoiar o meu braço que precisava de repouso e a vó Weasley não precisou nem de cinco minutos para colocar uma bandeja cheia de comida ao meu lado assim que soube do acontecido.

—Pode comer o quanto quiser, querido, eu trago mais se acabar — ela me assegurou — a Rose está encarregada de chamar se você precisar de qualquer coisa e te ajudar com a comida — ela lançou um olhar reprovador para a neta que ainda não tinha me dito nada.

Finalmente ficamos só os dois na sala mais reservada em que nos encontrávamos. O resto da família se dividia entre a cozinha, a sala de jantar e os muitos banheiros onde já começavam a se preparar para a ceia. O silêncio estava me incomodando então decidi acabar com o problema.

—Quando você falou que ia me derrubar da vassoura, eu não pensei que fosse tão literal — brinquei sorrindo enviesado.

—Você que não consegue nem se segurar numa vassoura! — ela respondeu alterada — não era pra você ter caído, foi só um lance, não era a minha intenção e… — ela começou a falar a mil por hora e não conseguia mais parar, eu percebi que aquele tempo todo ela estava nervosa, o que agora se deixava transparecer pelo desenfrear do seu discurso.

—Rosie — ela estava sentada ao meu lado então pude colocar a minha mão boa sobre a dela — está tudo bem, não precisa ficar nervosa.

—Eu não estou nervosa! — ela negou rápido demais para que soasse verdadeiro, os olhos dela encontraram os meus pela primeira vez — você podia ter se machucado feio… — ela murmurou.

—Mas não me machuquei e sua mãe é ótima com feitiços de cura, estou quase bom — eu queria apagar o semblante de culpa e preocupação que ela tinha.

—Eu… — ela engasgou nas palavras, cada vez meu coração se apertava mais por vê-la daquele jeito, não era a minha Rosie de sempre — vou entender se você estiver bravo comigo.

—Não estou bravo.

—Não? — ela perguntou surpresa.

—Eu sei que você não queria que eu me machucasse, queria?

—Claro que não! — meu coração se alegrou com o olhar decidido dela.

—Pois então — dei de ombros — até porque você já devia saber que eu não consigo ficar bravo com você.

Ela balançou a cabeça revirando os olhos, porém eu vi o pequeno sorriso que surgiu no canto dos seus lábios.

—Mas eu posso achar um jeito ou dois de você me recompensar.

—Ah, é? E como seria? — ela arqueou a sobrancelha curiosa.

—Dizem por aí que beijos ajudam a curar tudo — lancei um sorriso atrevido a ela.

—Você não tem jeito mesmo — ela resmungou.

Pensei que teria que insistir mais, porém ela me surpreendeu se inclinando sobre o braço das nossas poltronas e roçando os lábios de leve nos meus.

—Desculpa, Scorpy — ela falou me encarando, os lábios ainda tocando os meus.

—Sempre, Rosie — ela sorriu antes de aumentar o contato das nossas bocas num beijo lânguido e carinhoso que realmente me ajudou a esquecer as partes do meu corpo que ainda doíam e a me focar no que estava formigando com a proximidade dela.

Passei o resto da tarde com a Rose ao meu lado, porém sem mais beijos, pois cada momento era alguém que vinha checar se eu estava bem, sendo que o primeiro foi o pai dela, chegando segundos depois que as nossas bocas tinham se separado. Só de imaginá-lo aparecendo antes, meu estômago se afundava, até parecia que ele já gostava mais de mim, mas eu duvidava que isso se estendesse a poder beijar a sua filha na cara dele. Me vi gostando de toda a atenção que recebi, todos querendo saber como eu estava e sinceros nos desejos de melhora.

A noite não demorou a chegar e o esplêndido banquete da ceia de natal foi montado. Dessa vez permanecemos na sala de jantar, todos apinhados em volta da mesa, pois o horário tardio fazia com que a temperatura lá fora estivesse fria demais para animar a sair. Eu tinha total certeza de que a comida estaria ótima e não me decepcionei, acabei comendo até mais do que devia, mas a vó Weasley continuava a me perguntar do outro lado da mesa se eu queria mais e a manda colocar comida no meu prato, o que a Rose — que estava sentada ao meu lado e ainda encarregada da minha comida — fazia.

Finalmente o relógio tocou a meia noite e foi uma explosão de “feliz natal” entre todos que se levantaram para trocar abraços e beijos. Eu me levantei e fui abraçar o meu amigo, com cuidado para não machucar o meu braço e em seguida me virei para fazer o mesmo com a Rose, mas ela não estava mais lá. Não consegui ficar muito tempo pensando no assunto, pois fui envolvido por uma sucessão de braços que me saudaram. Fiquei contente ao receber os votos de felicidades de cada um deles, me sentindo — pelo menos por pouco tempo — parte daquela família.

—Feliz natal, querido — a mãe da Rose me abraçou com carinho — prometo que da próxima vez que você vier nos visitar, eu vou manter a Rose longe das vassouras.

—Ah, ela não fez por mal — eu a defendi e recebi um olhar engraçado, sem saber o que isso significava.

Depois que todos já haviam se cumprimentado foi a vez da troca de presentes. A Rose ainda não tinha vindo falar comigo, mas acabei deixando aquilo passar, prestando atenção na felicidade de todos ao abrir os embrulhos. Fui até a minha bolsa e peguei um dos dois pacotes que eu tinha lá dentro, entregando para o Albus.

—Feliz natal — repeti e ele pegou o embrulho sorrindo

—Uau, é um tabuleiro novo! — meu amigo adorava xadrez bruxo e eu sabia que as peças dele estavam meio antigas — pode preparar para perder em breve, Malfoy! — ele zombou.

Ele sumiu de vistas, voltando algum tempo depois.

—Aqui está o seu — ele me entregou um embrulho grande.

—Obrigada, Albus! — era o novo código de leis do Ministério que tinha acabado de ser lançado, eu estava doidinho para conseguir um exemplar.

—Abre que tem mais uma surpresinha — ele falou enigmático.

Dentro do livro tinha uma dedicatória assinada por ninguém menos do que a própria ministra. Fiquei olhando com cara de bobo para as palavras que dedicavam o livro especialmente para mim.

—Tem meu nome e tudo!

—Eu tenho uma tia legal — falou convencido.

—Você tem a tia mais legal de todas! E eu tenho o autógrafo dela — abracei o livro, apreciando o meu presente.

—Ótimo como você fica feliz com as coisas mais bestas — ele zombou da minha empolgação.

—Licença se o resto do mundo não conhece a Ministra da Magia desde que nasceu — empinei o nariz defendendo a minha atitude.

Ele ia responder, mas foi interrompido pela vó que chegou com dois embrulhos.

—Oi, meus amores, aqui está o seu presente, Al — ela entregou o primeiro ao neto — e esse é o seu, Scorpius — falou esticando o segundo para mim.

—Meu?

—Ora, é claro! Espero que tenha ficado bom, coloquei as agulhas para funcionar direto desde ontem e não sei se adivinhei bem o tamanho, mas espero que sim.

—Muito obrigado! — respondi tocado pelo gesto.

—Não há de que, querido, e fiz nas cores que vocês podem usar com o uniforme — ela nos deu um abraço rápido e foi continuar as entregas de presentes.

—Eu ganhei um suéter Weasley, né? — perguntei ao Albus olhando animado para o pacote. Eu já tinha ouvido falar várias vezes e visto ao longo dos anos a tradição da vó dele de dar um suéter todos os anos para os membros da família, variando de exemplares muito bonitos, a combinações duvidosas. Parecia quase surreal que eu estivesse prestes a descobrir que tinha o meu próprio.

—Com certeza, abre pra ver — ele me ajudou a abrir o pacote e revelar o suéter verde, com um S prateado no meio — puxa você ganhou um bem legal!

—Abre o seu, vamos ver — o dele tinha o mesmo tom de verde do meu, com um A bordado também em prata.

—Obrigado por ter sido uma escolha sensata dessa vez, esse eu posso realmente usar — ele agradeceu, já passando a peça sobre a cabeça — todo mundo tem que colocar, é tradição, até porque temos que tirar sarro uns dos outros, sempre sobra algum terrível e geralmente o tio Ron ganha.

Ele me ajudou a passar a manga pelo meu braço machucado, e pronto, eu estava vestido de acordo para a ocasião. Olhei em volta para ver as outras combinações de cores que foram surgindo, mas como o Albus falou, foi o do tio dele que me chamou mais atenção: um marrom muito deprimente com um R laranja. Ele estava a poucos passos de mim e pude escutar a reclamação dele e as risadas que a irmã e o marido dela davam. Os olhos do grupo se viraram para mim e o Albus e ele se exasperou.

—Olha só, até o Scorpius que acabou de chegar ganha um legal e eu só aumentando minha coleção de suéteres marrom! — ele apontou para mim, antes de cruzar os braços.

—Amor, não seria o natal sem você de cara feia pelo seu suéter, é tradição, sua mãe provavelmente já faz de propósito — a esposa dele passou a mão pelos seus ombros, dando um beijo na sua bochecha.

Avistei a Rose com o suéter nas cores da grifinória do outro lado da sala conversando com as primas, ela ainda não tinha vindo falar comigo, então eu esperaria para entregar o presente dela. Achei que minha cota de presentes tivesse acabado, porém uma coruja bateu na janela e, quando deixaram-na entrar, ela trazia um embrulho pesado que era direcionado a mim.

—O que é, Scorpius? — o Albus perguntou, mas com uma mão só, eu não conseguia fazer nada além de segurar o pacote.

—Deixa que eu ajudo — a tia dele pegou o embrulho das minhas mãos, se concentrando primeiro em abrir a carta que vinha junto — é dos seus pais — ela falou antes de me entregar o pergaminho.

A carta não era longa, vinha na letra rebuscada do meu pai, me desejando feliz natal e se desculpando por não estarmos juntos esse ano. Ele dizia que gostaria de estar por perto quando eu recebesse o presente, mas que não conseguiu me fazer esperar. Minha mãe completou algumas palavras no final, terminei a carta com um sorriso enorme no rosto, eles tinham se preocupado em mandar o presente na hora certa. Me virei para encarar o volume, curioso para saber o que era, mas já sabendo que eu iria gostar.

—Quer que eu abra? — ela perguntou e eu concordei.

O papel grosso que envolvia o presente foi colocado de lado e eu e a ministra demos um gritinho de animação ao ver do que se tratava.

—O que tá causando essa animação toda? — o marido dela veio se colocar ao nosso lado — É um livro? Por Mérlin, outro desses? — ele me olhou confuso, me colocando na mesma categoria que provavelmente relegava a esposa e a filha por amarem livros

—Fica quieto, amor! Não é um livro qualquer, é o compendium de poções, um dos volumes mais raros e completos que existem. São pouquíssimas edições no mundo, pensei que nunca ia colocar meus olhos em um — ela falou animada, quase dando pulinhos.

—A senhora pode ver se quiser — ela tinha me entregado o livro, mas eu direcionei de novo a ela — não é como se eu fosse conseguir manusear direito agora…

—Posso? Obrigada, Scorpius — o sorriso dela era imenso.

—Um dia eu ainda quero entender porque um livro é tão fascinante… — o Sr Weasley suspirou, balançando a cabeça — ou não, não quero.

A Rose veio se juntar a mãe ao descobrir o que tinha por perto e elas ficaram por vários minutos admirando a obra. Eu me sentei novamente, me atendo a observar divertido como elas eram parecidas. Todos na sala conversavam animados e o Albus veio se sentar ao meu lado. Tinha uma pequena árvore de natal no canto da sala de onde a vó dele tirou todos os embrulhos de presente que ela distribuiu, mas eu notei que um ainda permanecia lá.

—Faltou alguém hoje? — perguntei ao meu amigo.

—Hã? Não, por quê?

—Tem um presente sobrando na árvore — expliquei apontando.

—Ah… aquele é o suéter do tio Fred, a vovó ainda faz um todo ano.

—Me desculpa, Albus — eu conhecia a história do tio dele que havia morrido na última guerra bruxa e de repente uma tristeza se apossou de mim pela injustiça que era ter alguém faltando naquela família.

—Não tem problema, Scorpius… — ele me assegurou — o tio Jorge leva para casa todo ano, de vez em quando ele veste, diz que o tio Fred não ia se importar e que ainda é um favor por fazê-lo parecer mais bonito do que era — ele falou rindo, nos seus olhos estampado uma saudade do tio que ele nem conheceu, mas ouviu falar a vida toda.

—Você tem uma família ótima — falei, colocando a mão em seu ombro,

—Tenho mesmo.

Algum tempo depois, começaram as despedidas, hora de cada um ir se recolher para dormir. Eu teria que ir embora, mas não queria partir sem entregar o presente que faltava. Procurei a Rose entre a multidão de pessoas, encontrando-a num canto da sala, mexendo num kit de quadribol que ela tinha ganhado.

—Oi, Rose, posso falar com você um pouquinho? — esse era quase que o nosso código durante a nossa estadia em Hogwarts, ela estava meio distante ao meu ver, mas aceitou e foi comigo até o cômodo vizinho onde não tinha ninguém.

—Você quer um beijo de natal, é? — ela zombou.

—Não… é que eu não consegui te dar feliz natal, nem o seu presente — expliquei dando o embrulho que restava na minha bolsa nas mãos dela.

—Presente? — ela pareceu surpresa.

—Eu não tive tempo de conseguir encomendar alguma coisa por ter sido tudo tão corrido, mas espero que você goste, é o meu favorito.

Ela abriu o embrulho que continha o meu livro favorito, uma coleção de contos e histórias do mundo bruxo. Era uma edição muito bonita que eu tinha desde criança, minha mãe lia para mim antes mesmo que eu soubesse as letras.

—É lindo! — ela abriu a capa e viu o meu nome gravado em letras douradas na caligrafia da minha mãe que dizia em baixo “com muito amor da mamãe e do papai”junto com a data — mas Scorpius, é seu! — ela arregalou os olhos.

—Não é não, é seu.

—Mas eu não posso aceitar, foi presente dos seus pais e…

—Você não gostou?

—Eu adorei, é muito bonito, mas..

—Então não tem discussão, eu não aceito de volta — ela ficou calada, mas desistiu de tentar me devolver o livro.

—Você não devia ter me dado nada, eu não tenho nada para você — ela falou baixinho.

—Tem sim, e é bem fácil.

—O que é? — ela perguntou confusa.

—Você pode me dar um sorriso — olhei pra ela com a expectativa literal de uma criança em dia de natal.

—Você é um bobo — ela falou balançando a cabeça, o sorriso porém já surgindo involuntariamente, ergui o queixo dela com a minha mão boa, prendendo os seus olhos nos meus.

—Pronto, já estou feliz — falei, e ela sorriu mais ainda — só falta um detalhezinho — me estiquei para olhar pela porta e me certificar de que não tinha ninguém vindo e capturei a minha segunda parte do presente, num beijo profundo e urgente. De todos os presentes que eu tinha ganho, aquele era de longe o melhor.

Notas finais
Quem aí está achando que esses dois estão abusando da sorte se beijando assim a dois passos de distância do resto da família? Será que alguém vai ver? Façam suas apostas! E o resultado do jogo? Coitadinho do Scorpius, não é? Mas a Rose ficou completamente arrependida, só é teimosa demais para falar isso com todas as letras, ela não queria que ele se machucasse... O natal na família Weasley tem que ser animado e com direito a suéteres sempre! Gostaram do Scorpius agora ter um? Senti falta de alguns de vocês nos comentários, não deixem de me dizer o que estão achando, adoro a opinião de cada um além de ser uma inspiração para que eu continue :) Vejo vocês no próximo capítulo Bjus