All of me
17 Capítulo 17
Notas iniciais
A notícia do acidente da Rose era tudo o que se escutava nos corredores da escola pelos próximos dias. Como se eu precisasse de mais alguma coisa para me lembrar do fato. O Albus foi visitá-la em cada um dos três dias que ela passou de repouso, me dando as notícias mais importantes assim que voltava.
—Ela vai ter alta amanhã — ele explicou assim que nos encontramos depois da visita — se a Madame Pomfrey sonhasse em deixá-la mais um dia lá, acho que ela pirava. Ela já está entrando em parafuso por ter perdido tantas aulas.
Aquilo era tão típico da Rose que foi impossível não rir.
—São só três dias, ela recupera isso rapidinho.
—Eu falei isso pra ela, Scorpius. Aliás, eu e todo mundo, mas quem diz que ela escuta? — ele rolou os olhos como sempre fazia quando algo não o agradava.
—Teimosa como sempre — eu respondi fazendo um esforço para não me lembrar da vez em que o Hugo falou que eu era a pessoa que a Rose escutava.
Se ela realmente me escutasse, com certeza nossa situação estaria bem diferente. A começar pelo fato de que eu iria pessoalmente saber como ela estava. Outro pensamento inútil de se ter, para que ficar imaginando o que não seria?
No dia seguinte, lá estava ela. Rosto determinado e olhar seguro, como se precisasse mostrar para mundo que nada de mais tinha acontecido. Dessa vez eu nem tentei me impedir de procurá-la ao longe, no local onde ela sentava entre a prima e o irmão. Deixei meu olhar preso à mesa da Grifinória pelo tempo total da minha refeição, mas era só para ter certeza de que ela estava bem. Eu percebi que o meu amigo seguiu a direção do meu olhar com o próprio, porém não falou nada. Continuamos comendo em silêncio até que eu levantei e me despedi, dizendo que iria na frente para a primeira aula.
Grande desculpa esfarrapada.
A verdade era que eu sentia que minha resolução ficava mais fraca. Do mesmo modo que eu sabia ter feito a coisa certa ao terminar aquele relacionamento sem futuro, eu sentia uma força que me empurrava na direção dela. Uma voz que me dizia que bastaria eu ir atrás dela para voltar a me sentir como antes. Mas isso era uma ilusão. Sem nenhuma mudança, as conclusões seriam as mesmas e se tinha alguém que não mudava, era a Rose. Entretanto, todas as vezes que eu conseguia resistir a não ir em busca dela, era apenas por um quase. E esse quase corria o risco de desaparecer, não era algo que eu pudesse me dar o luxo de acontecer.
Voltei à minha rotina normal, que incluía fazer todas as minhas atividades principalmente de maneira que eu não precisasse cruzar o caminho da Rose. Foi apenas no feriado da páscoa que minhas pretensões foram frustradas. O castelo sempre ficava mais vazio naquelas duas semanas, porém muitos dos alunos — como eu e o Albus — preferiam permanecer na escola e adiantar a pilha de trabalhos que sempre nos atolavam naquele período. Não foi diferente no nosso último ano.
Eu estava a caminho da biblioteca, vários livros ocupando as minhas mãos, quando percebi que a Rose vinha no sentido contrário. Já havíamos nos cruzado outras vezes, mas aquela foi diferente. Onde antes nossos olhos faziam questão de se ater a qualquer outra coisa, naquele momento pareceram serem atraídos entre si. Não consegui evitar observá-la, nem percebendo que eu tinha diminuído o passo. Minha surpresa não foi pouca quando vi que ela devolvia o olhar em minha direção, porém nada havia me preparado para ver a pequena rosa vermelha — que eu havia lhe dado — ainda enfeitando seu pescoço. Eu não sei o que pensei que ela faria com o objeto, mas em nenhum dos meus devaneios ela ainda o usava. Naquele rápido instante, em que percebeu o que me chamava atenção, ela fechou os dedos sobre o pingente e o escondeu por debaixo das vestes, finalmente desviando os olhos dos meus e apertando o passo para passar por mim.
Aquilo me deixou confuso. Por que ela havia escondido o colar? Será que ela sabia que era um presente meu? Que outro motivo ela teria para querer tirá-lo das minhas vistas? Mas se ela sabia, por que ainda o estava usando? Não consegui responder a nenhuma daquelas perguntas, porém senti uma sensação muito familiar — já há algum tempo esquecida — surgindo de mansinho dentro de mim: esperança.
Minha boa e velha esperança. Companheira de anos e anos da qual eu tive muita dificuldade de me despedir. Uma simples ação foi o suficiente para restaurar uma parte de mim que eu tentava manter afastada. Se eu olhasse no espelho naquele momento, provavelmente veria uma versão da minha cara de bobo que só existia para quando eu pensava na Rose. Porém, eu não podia deixar uma besteira dessas mexer tanto comigo!
Era apenas um colar. Não significava absolutamente nada o fato dela o estar usando, só que ela tinha gostada, o que eu sabia que aconteceria. Tentei abafar o tumulto da minha mente, mas a tarde de estudos ficou comprometida. Acabei voltando mais cedo do que o previsto para a sala comunal.
—Que cara é essa, Scorpius? — o Albus me olhou desconfiado assim que eu sentei ao seu lado.
—Minha cara de sempre — dei de ombros.
—De sempre? Hum… — ele fez uma pausa, apertando os olhos como se pudesse ajudá-lo a ver melhor — é só que fazia tempo que eu não te via sorrindo assim…
—Não estou sorrindo! — protestei, forçando meus lábios a relaxarem só para perceber que realmente tinha um sorriso pequeno moldando-os.
—Agora não está mesmo — ele zombou — mas o que aconteceu?
Eu desconversei, não ia contar aquela besteira de encontro pra ele. Era patético demais até para mim.
—Espera aí, tem a ver com a Rose? — mais uma vez eu escolhi não responder e, no silêncio, ele entendeu minha resposta — tem sim! Mas você não vai me dizer o que aconteceu…
Aquilo me deixou em dúvida se era um pergunta ou uma constatação. Porém, antes que eu pudesse perguntar, meu amigo fechou o livro que tinha nas mãos e levantou da poltrona.
—Onde você vai? — perguntei a ele.
—Lugar nenhum — ele balançou a mão já se afastando — daqui a pouco eu volto.
Aquilo me pareceu muito estranho, mas decidi não dar atenção. O Albus adorava dizer que eu era o maluco, mas ele não tinha todos os parafusos da cabeça bem ajustados também. Decidi não dar mais atenção à atitude estranha do meu amigo e fui me ocupar com qualquer coisa que estivesse longe o bastante de me lembrar da cena que eu havia visto no corredor. Ele demorou mais tempo do que eu esperava para voltar, mantendo-se calado quanto ao seu paradeiro quando eu perguntei mais uma vez antes de deixar o assunto definitivamente de lado para que fossemos jantar.
Por mais que eu tentasse, foi impossível impedir que a visão da Rose escondendo o pequeno pingente que eu havia lhe dado ficasse se repetindo em minha mente. Quando eu fui deitar naquela noite, parecia que meus pensamentos tinham travado apenas naquele momento. Fiquei um bom tempo me virando e remexendo no colchão até conseguir pegar no sono. Em geral eu era o tipo de pessoa que dormia direto a noite inteira, sem acordar com pequenos barulhos ou incômodos, porém, os acontecimentos do dia deviam ter perturbado essa capacidade, pois no meio da noite eu acordei sobressaltado.
Eu podia jurar que tinha sentido alguma coisa do meu lado! Era uma ideia claramente absurda, ainda mais quando eu tateei o espaço vazio do colchão e não achei nada. Porém, Aquilo ficou martelando na minha cabeça, eu provavelmente tinha acordado de algum sonho que não me lembrava, mas até onde eu sabia, sonhos não mexiam cortinas, e eu estava quase certo que tinha visto o tecido em volta da minha cama se mexer.
Por via das dúvidas, eu afastei a cortina e espiei na penumbra do dormitório apenas para me certificar de que não era nada demais. Claro que encontrei o ambiente quieto e vazio como sempre, tudo o que eu escutava era o som dos meus colegas dormindo. Voltei a colocar a cabeça no travesseiro, dizendo para mim mesmo que estava sendo idiota, mas a sensação de que realmente alguém tivesse estado ali não me deixava. Minha mente, que não havia parado de ser inconveniente, acabou retornando para as memórias da noite em que uma certa pessoa de fato estivera no meu dormitório.
Eu ainda me lembrava claramente da mistura de surpresa e felicidade que foi encontrar a Rose ali ao meu lado no meio da noite. Parecia que tinha sido há tanto tempo… antes que tudo desse errado. Foi aí que eu me dei conta: a capa da invisibilidade continuava em Hogwarts e ela sabia a senha da sala comunal da Sonserina…. será que….
—Scorpius, você está sendo idiota! Ela não vai vir atrás de você — me repreendi, forçando um fim aos pensamentos que não me fariam nem um bem.
Se a Rose quisesse me procurar, ela tinha meios bem menos ilícitos e comprometedores do que aparecer na minha cama no meio da noite. Eu tinha certeza que ela possuia milhões de outras coisas na cabeça antes de pensar em fazer qualquer ação remotamente parecida. No entanto, assim que eu senti o sono me embalando novamente, eu também reconheci o desejo alarmante de que aquele absurdo fosse verdade.
O resto da minha noite foi marcado por um sono inconstante, e quando chegou a hora de finalmente levantar, eu ainda tinha a suspeita incômoda de que algum visitante havia aparecido.
—Você viu alguma coisa estranha essa noite? — perguntei ao Albus, tentando parecer o menos interessado possível, assim que saímos em direção ao Salão Principal para tomar o café da manhã.
—Estranha como? — ele franziu as sobrancelhas, intrigado com a minha pergunta.
—Sei lá — dei de ombros — parecia que alguém tinha mexido nas minhas cortinas…
Ele ficou alguns instantes em silêncio, porém quando eu estava prestes a comentar o fato de que ele não havia emitido nenhuma opinião sobre o assunto, ele me olhou com uma expressão misteriosa, enfeitada por um sorriso debochado no canto da boca.
—As coisas só estão ficando mais interessantes, não?
—O que? — do que ele estava falando? Geralmente o Albus era uma pessoa mais aberta com informações, no entanto, dessa vez ele parecia não estar disposto a matar a minha curiosidade.
—Nada — ele respondeu balançando a cabeça.
—Se não vai me dizer, pra que começou? — reclamei fechando a cara.
—Rabugice não combina com você, Malfoy! Vamos comer que passa — ele deu um tapinha nas minhas costas, desviando o assunto e dando aquela conversa por encerrada, me deixando sozinho para tentar entender aquelas palavras confusas.
Eu ainda tinha muitos trabalhos e conteúdos para adiantar antes que o feriado da páscoa acabasse, então resolvi me acomodar na minha mesa favorita da sala comunal e trabalhar. O problema era que os meus colegas de classe pareciam não estar na mesma sintonia. Embora ainda fosse o meio da manhã e muitos estivessem fora passando dias com a família, os que ficaram estavam acordados e barulhentos, inclusive o Albus que estava sentado ao meu lado muito mais interessado em discutir o campeonato de quadribol com um aluno do sexto ano do que em me acompanhar nos estudos.
Me dei por vencido, reconhecendo que seria praticamente impossível terminar tudo o que eu tinha para fazer nesse ambiente. Não faltava muito para a hora do almoço, então acabei fazendo uma pausa para comer, decidido a depois ir buscar a paz e tranquilidade da biblioteca.
O cômodo cheio de livros estava no topo da minha lista de favoritos desde o meu primeiro ano em Hogwarts, muito antes até de guardar memórias da garota que ocupava os meus pensamentos há tanto tempo. Entretanto, a partir do momento em que as coisas desmoronaram com a Rose, eu não conseguia passar por entre os corredores de estantes sem sentir um familiar frio na barriga. A cada passo eu temia que pudesse dar de cara com ela, feliz e serena escrevendo algum trabalho, como eu tinha a visto fazer tantas vezes.
Claro que eu tinha que aprender a lidar com aquilo, afinal não podia achar que nunca mais ficaria no mesmo ambiente que ela, mas parecia um lugar cheio demais de memórias para que eu encarasse tudo de maneira tão simples. Para a minha sorte, eu não a havia encontrado nenhuma vez, fosse pelo fato de que eu passei a tentar estudar o máximo possível na sala comunal, ou porque alterei os meus horários. Basicamente fugindo, como o meu amigo já tinha me lembrado mais de uma vez, porém era um modo de me poupar de situações que não trariam nada de bom.
Aquele dia, no entanto, eu não fui tão sortudo. Caminhei sem pressa até a parte da biblioteca onde ficavam as mesas de estudo, eu tinha as mãos ocupadas por vários livros e pergaminhos onde estavam meus trabalhos inacabados. Notei que o local estava estranhamente cheio, cada uma das cadeiras ocupadas. Eu tinha então duas opções, ou voltar e lidar com o barulho dos meus colegas, ou me dirigir ao setor de estudos mais reservado onde eu não retornara uma vez sequer para que não houvesse uma certa ruiva me assombrando. Porém o Albus estava certo, eu não podia continuar alterando a minha vida por causa dela, então me enchi de determinação e fui averiguar se o local se encontrava vazio.
Claro que não estava.
Sentada de costas para mim, a Rose tinha a cabeça baixa, focada em algo que eu não conseguia enxergar de onde estava. Eu não precisava que ela virasse o rosto para ter certeza de que era ela, bastavam os cabelos volumosos cor de fogo, a maneira familiar com o qual ela empertigava as costas ou ainda o costumeiro nó no estômago que só aparecia em sua presença. Fiquei congelado por alguns segundos naquela posição, sem conseguir me decidir entre ocupar o único lugar vago em frente a ela ou a correr para o mais longe possível. Será que eu já era forte o bastante para me colocar tão perto? Ou será que eu tinha a quantidade ainda maior de determinação para me afastar da minha posição onde eu podia observá-la sem julgamentos?
Não tive chance de descobrir, pois acabei perdendo o balanço de todos os objetos que eu trazia nas mãos e, no esforço de não deixá-los cair, chamei atenção da garota que se virou imediatamente para ver quem invadia sua tranquilidade. Eu podia muito bem ter imaginado, mas por um segundo pareceu que os olhos dela aumentaram de tamanho com a surpresa de me ver ali parado encarando-a. Eu não conseguia desviar o olhar, nem mesmo quando ela visivelmente se endireitou e mascarou a expressão aturdida de antes.
—Vai ficar aí parado me encarando? — a voz dela não transmitia nada, nem raiva, nem apreensão, nem ansiedade apenas uma pergunta como outra qualquer. Essa serenidade, no entanto, não havia me encontrado, ainda mais depois de tanto tempo sem trocar nenhum tipo de palavra com ela.
—Eu… — me enrolei nos meus próprios pensamentos, sem conseguir achar nada que fizesse sentido para dizer. Minha intenção não tinha sido achá-la para poder ficar a observando, mas estava bem óbvio que era isso que eu estava fazendo quando não consegui sair de perto.
Mas era claro que a Rose sempre conseguiria agir em qualquer situação, muito mais desenvolta do que eu e obviamente muito menos abalada. Antes que eu pudesse revisitar a minha mente em busca de alguma resposta satisfatória, ela deu um pulo da cadeira e juntou rapidamente todas as coisas que tinha consigo.
—Não se preocupe, já estou de saída, você pode estudar em paz — os olhos dela não encontraram os meus ao dizer isso, o que novamente me afetou, idiota que eu era, e eu não soube dizer se ela realmente pretendia ir embora ou se eu havia agilizado o processo por causa da minha presença.
—Não precisa… — tentei argumentar que eu iria embora, ela não precisava sair, mas ela não me deu atenção, passou voando por mim, deixando-me sozinho do jeito que eu pretendia estar quando vim até a biblioteca.
Aquela interação constrangedora foi o suficiente para me distrair por alguns segundos do fato de que eu não precisava mais ficar ali parado com aquele peso todo nos braços. Respirei fundo, tentando afastar o ocorrido da mente e focar nas obrigações que eu tinha a cumprir. Meu corpo pareceu finalmente se acalmar e retomar controle de si mesmo, então cruzei a distância até a mesa e depositei meu material sobre ela, puxando a cadeira para me sentar.
Foi aí que eu notei que a superfície não se encontrava vazia. Abandonado sobre o móvel escuro, estava um envelope pardo selado. Sem saber o que fazer, pois aquilo provavelmente pertencia à Rose, encarei o papel como se fosse uma decisão muito séria a se tomar. Eu deveria devolver? Deixar onde estava? Aquilo me lembrou de como o Scorpius de ano atrás daria mais do que um saco de doces para achar uma oportunidade de ter um motivo para encontrar a Rose, porém eu não era mais aquele garoto, agora eu me escondia dela.
No entanto, algumas coisas não mudavam, eu ainda precisava satisfazer a minha curiosidade. Respirei fundo antes de me render ao inevitável e levei a mão até o envelope, fechando o papel entre os meus dedos, porém, quando eu virei o objeto para tentar achar mais alguma informação sobre ele, o que eu li fez os batimentos do meu coração errarem o compasso.
Ali, na escrita elegante da Rose estavam as letras que compunham o meu nome. Li novamente as palavras achando que algum feitiço despercebido pudesse ter me dado um acesso de loucura, mas elas ainda diziam “para Scorpius Malfoy”. Em poucos segundos, tudo o que eu sabia pareceu ter sumido da minha cabeça. O que aquilo significava? Ela tinha deixado aquele envelope ali de propósito ou fora um esquecimento? Eu deveria ler o que estava dentro, ou estaria apenas assinando mais um contrato que significava sofrimento e noites mal dormidas?
O problema era que aquilo era tão “não Rose” que eu não conseguia decidir como agir. Claro que eu queria saber o que tinha dentro, mas ao mesmo tempo tinha medo do que poderia encontrar.
—Você não vai deixar a Rose te atrapalhar mais, Scorpius! — briguei comigo mesmo, determinado a deixar o envelope de lado e fazer o meu trabalho. Puxei o livro que eu precisava e abri um dos meus pergaminhos em branco para começar a escrever o trabalho. No entanto, as linhas que escrevi não fizeram sentido algum, cinco minutos haviam se passado e parecia que a carta da Rose me encarava de perto. Eu não ia me concentrar daquela maneira. não sem ler o conteúdo e, afinal, tinha o meu nome, nada mais esperado do que abrir. Acabei por desistir de fazer qualquer tipo de trabalho, mas eu sabia que não estava no melhor lugar para descobrir que palavras me aguardavam, para isso eu queria o sossego do meu dormitório onde poderia me esconder do mundo se precisasse.
Juntei novamente minhas coisas, guardei a carta no bolso da minha calça e me levantei, parando apenas perto da saída da biblioteca para amassar o pergaminho onde eu tinha feito um péssimo trabalho e jogá-lo fora. Saí sem prestar muita atenção nos alunos que passaram por mim. Atravessei o conjunto de salas daquele andar, apressando o passo ao máximo para chegar rapidamente às masmorras, mas quando eu já estava próximo ao final do corredor, um som inconfundível de choro chegou aos meus ouvidos. Será que havia alguém precisando de ajuda? Fiquei dividido entre correr em direção ao meu dormitório ou dar meia volta e verificar se algum colega estava com problemas, porém nunca fora realmente uma escolha, eu não ia me sentir bem em simplesmente ir embora.
Refiz os meus passos em direção às salas até chegar àquela que tinha a porta apenas encostada, por onde se fazia escutar os barulhos reconhecíveis de alguém que lutava contra lágrimas. Sem querer assustar quem quer que fosse que estivesse com problemas, abri a porta com cuidado, mesmo estando meio impossibilitado com a quantidade de coisas que eu ainda carregava. Eu não sabia exatamente o que encontraria ali, mas nem num sonho maluco eu teria acertado a realidade.
Fiquei verdadeiramente espantado ao ver que os soluços vinham de ninguém menos do que a garota que tinha corrido de mim há alguns minutos.
—Rose? — minha voz saiu num fiapo, assustado com aquela cena que não tinha nada de corriqueira quando se tratava daquela ruiva.
Ela estava sentada na última cadeira da sala, de costas para a entrada, porém seus olhos encontraram os meus na fração de segundo que ela levou para se dar conta de que era eu ali e esconder novamente o rosto.
Mas foi o suficiente, eu enxerguei as lágrimas que tomaram toda a extensão do rosto que eu conhecia de cor, e uma sensação incômoda já queimava no fundo do meu estômago, me dizendo que eu não gostava de nada do que via. Quem tinha feito a Rose chorar? Eu nem precisei tomar a decisão de descobrir, pois quando dei por mim, já tinha deixado tudo o que carregava na mesa mais próxima e estava me aproximando de onde ela se encontrava.
—O que você quer, Scorpius? — ela perguntou ainda sem se virar em minha direção, a voz embargada pela tentativa de conter os soluços — Veio matar a curiosidade ou tem mais alguma coisa para jogar fora? — o tom ríspido que tingiu aquelas últimas palavras não me passou despercebido.
—Jogar fora? — dei mais alguns passos me colocando a apenas alguns metros dela.
—Não estou com paciência para brincadeiras sem graça, vai embora! — o tom de voz cortante combinava mais com a Rose que eu conhecia do que o tremor que eu via em seus ombros ao tentar mascarar como estavam instáveis.
Porém ela estava muito enganada se achava que eu ia simplesmente embora sem entender aquela situação toda. Que ela estava brava comigo, não era novidade, mas aparentemente eu estava sendo acusado de algum crime do qual nem tinha conhecimento. Eu não precisava admitir que a minha vontade de ficar estava também relacionada com o desejo crescente que eu tinha de envolvê-la em meus braços até que ela conseguisse parar de chorar.
—Eu não sei do que você está falando — afirmei com convicção, tentando fazer com que ela me explicasse.
—Desconversar não adianta nada, eu vi você!
Uma suspeita apareceu em minha mente, será que ela estava falando do tal envelope misterioso que ela tinha deixado para trás? Num impulso, acabei fazendo uma aposta puxando o papel do bolso.
—Você me viu jogando fora isso? — levantei a mão com o envelope preso nos dedos, e naquele momento ela foi incapaz de permanecer de costas para mim.
—Está com você? Mas… — a visão clara do rosto dela, vermelho e inchado pelas lágrimas, apertou o meu estômago em vários nós.
Era impossível não notar que ela estava surpresa ao perceber que havia cometido um erro em relação a mim.
—Isso que dá tirar conclusões apressadas, era só um rascunho que eu joguei fora — expliquei, até que algo me ocorreu — Mas como você sabe disso? — indaguei, começando a ter ideias nada seguras para mim.
—Eu… — ela desviou os olhos para o chão, tentando enxugar as lágrimas e eu achei mais estranho ainda o fato de que ela não teve palavras para se explicar, me dando mais certeza de que eu estava certo nas minhas suposições.
—Você ficou me vigiando? — levantei a sobrancelha, tentando conter a vontade de dar risada da situação.
—Não! — ela respondeu alto demais e rápido demais para que soasse verdadeiro, os olhos arregalados agora presos nos meus.
Agora nos encarávamos frente a frente, o silêncio se instalou por alguns momentos cortado apenas pela respiração ainda pesada dela. A verdade era que eu não acreditei naquela negação, algo me dizia que ela tinha sim se escondido para vigiar as minhas ações, eu só tinha medo de ter a resposta para a razão disso.
—É por isso que você está chorando? — minha voz saiu baixa, quebrando o silêncio.
—Que absurdo, não tem nada a ver e… — ela passou as mãos no rosto para eliminar as lágrimas que ainda permaneciam e balançou os braços tentando enfatizar a nova negativa, porém saiu ainda mais forçada do que a anterior.
—Então você pode me dizer o que tem aqui? — desafiei, balançando o envelope.
—Não.
—Você escreveu pra mim, Rose, só quero saber o que.
Respirei fundo, não querendo me deixar ser vencido mais uma vez pela teimosia infinita daquela ruiva. Ela me escreveu uma carta, estava chorando por pensar que eu a havia jogado fora, como eu consguiria impedir minha mente de pensar que isso poderia significar algo importante? Mas eu não queria deixar minhas esperanças se descontrolarem.
—Isso deve estar sendo muito engraçado pra você, faz o que você quiser com a carta, eu vou embora. — a expressão da Rose se fechou completamente, seus passos certeiros passaram por mim, mais uma vez não querendo tocar em assuntos que a deixavam desconfortável.
—Não tem graça nenhuma — rebati, ao mesmo tempo que me virava e prendia a mão dela na minha, impedindo que ela continuasse o caminho até a porta — só queria que você me dissesse se eu tenho que esperar alguma coisa boa ou se me preparo para notícias ruins.
Ela ficou alguns segundos olhando para o local onde minha mão envolvia a dela, antes de respirar fundo e responder, não deixei de perceber que ela não fizera menção de cessar o nosso contato.
—Isso depende de você, não de mim — foi tudo o que ela ofereceu como explicação.
Não ia adiantar insistir naquele assunto, o melhor a fazer era descobrir por mim mesmo o que eram as palavras contidas naquele envelope.
—Fica, eu vou ler — pedi, largando a mão dela para rasgar o selo da carta, mas antes que eu conseguisse, ela se adiantou em minha direção.
—Não! — a Rose quase gritou, tomando a carta da minha mão — não é pra você ler assim — percebi o nervosismo em sua voz, quase notas de pânico.
—Assim como? Só tem um jeito de ler alguma coisa.
—Não quero que você leia do meu lado — ela levou a carta para trás de si, como se quisesse colocá-la o mais longe possível de mim.
—Por quê? — eu estava cada vez mais curioso para saber o que tinha escrito ali para que ela ficasse naquele estado.
—Eu… deixa pra lá, isso foi um erro — ela sacudiu a cabeça e novamente se colocou a caminho da porta.
—Nem pensar, pode parar aí! — eu não permitiria que ela fosse embora assim, não depois desse show todo, me apressei a dar passos maiores do que os dela e consegui me colocar entre ela e a saída, barrando a passagem sem nenhum constrangimento nisso — você se dá a todo esse trabalho para não me deixar ver o que tem dentro?
—Mudei de ideia, me deixa passar! — ali estava novamente a Rose de sempre, batendo o pé e destilando a voz imperativa, mas parecia que eu tinha aprendido a teimar também.
—Você não pode fazer isso! — rebati no mesmo tom determinado.
—O que você quer, Scorpius? — a pergunta foi feita de maneira tão clínica que eu acabei me irritando.
—O que eu quero? — deixei um riso desprovido de humor escapar dos meus lábios — Você não pode brincar assim comigo, Rose! É cruel até pra você — me arrependi daquelas palavras imediatamente após tê-las proferido, ainda mais quando consegui ver um lampejo de mágoa no azul dos olhos que me encaravam.
—Eu sou cruel? Sou, não sou? — de alguma forma, a Rose parecia me desafiar a negar, porém o leve tremor nas mãos fechadas, que ela mantinha firmes ao lado do corpo, me mostrava que a fachada controlada que ela dispunha, não passava disso: um teatro.
Eu a tinha magoado, e ainda era apaixonado o suficiente para que doesse em mim também.
—Eu não quis dizer isso… — tentei esboçar uma desculpa, dei um passo a frente para conseguir pegar as mãos dela mais uma vez, porém ela se afastou.
—Sou cruel com os outros, sou cruel comigo… — o sussurro chegou quase cortando o meu peito, naquele momento ela parecia resignada com uma verdade que não podia mudar.
—Para com isso, Rose! Não é verdade! — eu não podia deixar que a besteira que eu havia falado a colocasse em dúvida consigo mesma, claro que ela não era a pessoa mais fácil do mundo, mas tampouco era uma pessoa má e cruel.
—E você para com isso também! Para de me defender, essa Rose maravilhosa só existe na sua cabeça. Essa Rose só existe pra você, ela não é de verdade. Você que sempre enxerga uma versão melhorada da realidade.
—E você quer sempre que tudo seja mais difícil!
Ela revirou os olhos, balançando a cabeça como se eu não conseguisse entender nada do que se passava ali.
—Sim, essa sou eu: teimosa, complicada, difícil… cruel. Então eu vou ser cruel comigo mesma — ela fez uma pausa, me deixando preso em suas palavras antes de cruzar a distância entre nós e praticamente balançar o envelope na minha cara — Você quer saber o que tem na carta? — mais uma vez a pergunta soou como um desafio.
—Não vou te forçar a dizer o que não quer — rebati de mau grado, eu não ia aceitar nenhuma caridade dela.
—Eu não quero dizer que eu fiz tudo errado, eu não quero dizer que joguei fora tudo que significava tanto para mim. Não quero admitir nada! — a voz dela foi aumentando, cada palavra me deixando menos disposto a continuar com aquela conversa, eu não ia me arrasar mais uma vez por causa da teimosia dela, se ela não queria me dizer o que tinha na porcaria da carta, que fosse.
—Então pode ir! — retruquei sem me importar que eu pudesse ter soado ríspido, de repente atingi o limite do que eu iria aguentar, porém as próximas palavras da Rose não foram nada do que eu esperava.
—Não quero, mas…. mas preciso.
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