All of me

16 Capítulo 16


Notas iniciais
Olá, pessoas lindas! Sei que estou alguns dias atrasada e que isso foi muita maldade de minha parte, mas não tive tempo meeeeesmo, sorry! Para compensar, todos os comentários maravilhosos de vocês estão devidamente respondidos :) Estou muito feliz com o retorno de vocês, sempre deixa o meu dia mais brilhante toda vez que eu vejo um novo comentário, então não parem! Agora vamos ver como os lindinho do Scorpy vai lidar com as consequências da decisão feita no último capítulo. Espero que gostem :)

Nem a comemoração do Natal que eu sempre gostei, muito menos a do ano novo, foi capaz de melhorar muito o meu ânimo. Toda vez que eu conseguia passar alguns minutos sem a ruiva de palavras afiadas martelando em minha mente, algo acontecia para que o fato se alterasse. Eram as coisas bobas e pequenas que mais me lembravam dela: a maneira como ela ria sem se conter quando estávamos só nós dois, a impossibilidade de ficar quieta quando ela sabia alguma informação sobre qualquer assunto, locais e memórias sobre as quais conversamos. Eu estava quase me rendendo a verdade de que tudo em minha vida tinha se misturado com a presença dela, não estava sendo fácil me achar sozinho em meio ao vazio que ficou.

Meus pais notaram o ar melancólico — como eles mesmos caracterizaram — que me dominava e não demoraram a fazer todo o tipo de perguntas. Nada menos do que o esperado. Eu sabia que eles se preocupariam, mas eu quis abraçá-los mais forte do que nunca quando qualquer tipo de inquisição foi interrompida assim que eu expliquei que eram problemas com a Rose. De algum modo, eles entenderam o que tinha se passado e se limitaram a me dizer que tudo se resolveria se tivesse que ser. Um sorriso amarelo foi tudo o que consegui responder, pois eu não enxergava algum cenário onde a nossa relação “tivesse que ser”.

Quanto mais o tempo passava, mais eu percebia como éramos diferentes. Claro que tínhamos muitas coisas em comum, mas onde eu era compreensivo, ela era teimosa. Quando eu dizia sim, ela insistia no não. Ela preferia se esconder enquanto eu não me importava em ser um livro aberto. Ela precisava ser a melhor, eu me sentia bem com o mundo em ser apenas eu sabendo do que eu era capaz. Pedaços de nossas personalidades que me pareciam a única explicação para todo meu esforço nunca ter dado em nada. Apenas não era o que ela queria. Provavelmente ela estava a procura de alguém que fosse uma versão de si mesma, e isso eu nunca seria.

O problema era que para mim, as diferenças eram tão cativantes quanto as nossas similaridades. Eu gostava de ter alguém por perto que me fizesse desafiar mais o mundo, porém eu não podia esperar que ela pensasse da mesma maneira.

Mantive a minha mente ocupada, livros, correspondências, atividades. Tudo para pensar o menos possível e me acostumar que ela não deveria mais ser parte importante do meu dia a dia. Esperança foi algo que eu cultivei por tanto tempo que se tornou complicado me livrar daquela sensação tentadora de imaginar que poderíamos voltar ao que era.

Eu precisava parar de me iludir.

E foi assim que voltei à estação de King’s Cross naquele comecinho cinzento de ano: determinado a ser apenas o Scorpius e não o Scorpius que amava a Rose. Fiz questão de chegar bem cedo e me despedir dos meus pais antes que o local se tornasse lotado de alunos. Eu os assegurei de que estava bem e que os avisaria se eu precisasse de qualquer coisa. Consegui entrar no trem primeiro do que a maioria de meus colegas, então não foi difícil achar uma cabine vazia. Não tive que esperar muito para que o Albus se juntasse a mim.

Meu amigo estava alegre depois das festas. Passamos o tempo todo até o trem partir, conversando sobre os dias em que ficamos longe um do outro. Eu me sentia bem melhor, conseguia perceber meu velho estado de espírito ressurgindo de algum lugar. Ele me agradeceu pelo presente que eu mandei, do mesmo modo que eu fiz em relação ao que ele me enviou.

—É sério, Scorpius! Você não sabe o sucesso que aquele uniforme fez lá na casa da Vovó! — eu tinha achado um item de colecionador do time que ele e a maioria dos tios e primos torciam.

—Cuidado para não perder o presente então — eu brinquei.

—O James bem que tentou roubar de mim! Até a Rose… — assim que falou o nome da prima, ele parou imediatamente, os olhos arregalados me encarando como se esperassem uma reação explosiva — Scorpius, desculpa…

—Para com isso, Albus. Você pode falar dela, não me importo — aquilo não era totalmente verdade, mas era um passo na direção certa para mim. Eu precisava mergulhar na realidade e parar de viver do que não seria.

—Mas… — ele ainda parecia meio incerto.

—Não tem mas, é a sua prima, claro que você pode falar dela. Já superei, Albus — fiquei contente por conseguir soar tão convincente. Foi tanto que até eu acreditei um pouco mais.

—Tudo bem — ele deu de ombros e voltou a contar a história que tinha começado.

Eu podia ter decidido que estava bem, que conseguia escutar o nome dela e notícias de sua vida sem entrar numa espiral de memórias doloridas. Entretanto, isso não significava que eu fizesse perguntas sobre ela e muito menos que quisesse vê-la. O simples motivo para isso era que eu ainda desejava muito saber o que se passava na vida dela e também como ela estava. Meu coração desejava, mas minha mente sabia que não era bom para mim, então dei total atenção ao meu cérebro.

Porém Hogwarts não era um lugar grande o suficiente para que nós nunca mais nos víssemos. Até que conseguimos nos evitar muito bem, mas nos pequenos instantes em que ela cruzava o meu caminho, ou meu olhar vagava por tempo demais na mesa da Grifinória, eu ainda sentia uma pontada no peito. Para minha alegria, a sensação parecia cada vez mais contornável. Eu só não sabia se era a dor diminuindo ou eu me acostumando a ela.

Com o mês de janeiro indo embora, o campeonato de quadribol retornou. Por mais que eu não fosse um jogador ávido, gostava muito de assistir às partidas, até porque o Albus se recusava a perder uma que fosse. Entretanto, daquela vez eu não me animei em ir. Para que me fazer enfrentar horas onde a Rose ficaria desfilando de uma lado para o outro bem ao alcance dos meus olhos? O jogo nem era da nossa casa, Cornvinal e Grifinória que disputariam, então decidi permanecer no castelo.

—Ah, não Scorpius! Vamos! — meu amigo fez cara feia em minha direção, ele já estava completamente vestido e agasalhado para ir ao campo.

—Dessa vez não, Albus. Vou ficar aqui colocando minha leitura em dia.

—Que leitura? Você já leu praticamente todos os livros da biblioteca — ele revirou os olhos, vendo muito facilmente por trás da minha desculpa.

—Até parece…

—Anda, levanta daí e vai se arrumar — ele me empurrou da poltrona, mas eu ainda me recusava a sair — não vai ser tão legal se você não for!

—Você fica com seus primos, Albus, claro que vai ser legal — em jogos onde a Sonserina não disputava, nós dois sempre fomos a exceção a regra pois torcíamos pela Grifinória.

—Larga de ser chato — ele resmungou — além disso… você disse que estava tudo bem, que já tinha superado — ele nunca insistiu abertamente no assunto, mas daquela vez, escutei um tom de desafio em suas palavras.

—Não tem nada a ver com ela — eu protestei, querendo que fosse completamente verdade.

—Aham, claro que não — ele cruzou os braços, me mostrando o quão pouco ele acreditou em minha declaração.

—Albus — eu suspirei passando a mão pelos meus cabelos — eu só não preciso ficar me lembrando tanto que ela existe, entende? E ficar horas assistindo enquanto ela passa pra lá e pra cá montada naquela vassoura num uniforme chamativo, não vai ajudar em nada.

—Mas o problema é que ela existe e você não pode deixar de fazer o que gosta por causa dela!

—Eu sei disso — em alguma capacidade, eu tinha consciência de que não poderia deixar aquele término influenciar os meus dias, mas ainda era difícil de seguir totalmente.

—Ah, sabe? Porque não parece! — o total silêncio dele sobre o assunto até então se transformou numa saraivada de observações — ou você acha que eu não vejo como você faz questão de não ir nos locais que sabe que ela gosta? Mas são lugares que você gosta também! Nunca te vi ir tão pouco a biblioteca, ou acordar tão cedo para tomar café da manhã. Isso não está certo. Só continua dando espaço para ela nos seus pensamentos, é isso que você quer?

—Não… — foram decisões tão inconscientes que, até o meu amigo jogar todas na minha cara, eu não percebi o quanto alterei da minha rotina.

—Então está decidido! Vai pegar o seu casaco e a gente vai assistir o jogo. Exatamente como fizemos em todos desde o primeiro ano. A vida é sua, Scorpius e você não pode deixar a Rose mudar isso, porque você pode ter certeza que ela não está fazendo nada disso em relação a você.

Mesmo contra a minha vontade, escutar aquilo foi quase um soco no estômago. Então eu estava ali ainda pisando em ovos para me separar ao máximo de qualquer tipo de convivência quando ela, aparentemente, nem pensava nisso. Para ela não era um problema.

—Você está certo! — ele me convenceu.

Os argumentos dele foram certeiros. Eu não podia continuar como estava e me iludir pensando que alguma coisa estava melhorando para mim. Era de um tratamento de choque que eu estava precisando. Determinado a enfrentar o jogo inteiro sem me abalar com a visão da capitão do time da Grifinória, eu fui pegar o meu casaco no dormitório. Encontrei um Albus triunfante me esperando na saída. Ele não tocou mais no assunto da prima e fizemos o caminho até o campo conjecturando como seria o jogo.

Eu nem protestei quando o meu amigo partiu em direção à arquibancada onde se concentrava a maior parte dos alunos vestidos de escarlate. Era ali que sempre assistimos aos jogos, então era para lá que eu iria. Fazia muito tempo que eu não falava nem com a Lily nem com o Hugo, mas os dois me cumprimentaram como se eu os tivesse visto no dia anterior, o que ajudou a me deixar mais relaxado.

—Quais são as apostas para hoje? — a Lily perguntou, o tradicional sorriso Potter no canto da boca.

—Claro que a Grifinória vai ganhar — o Hugo respondeu convencido — o time da Corvinal não está com nada nessa temporada.

—Mas eles ganharam bem o último jogo que disputaram — eu argumentei — do jeito que o placar está todo meio empatado, não vão deixar o jogo fácil.

—Também acho, até porque eles tem um novo jogador, não é? — foi a vez do Albus comentar.

—Sim, pelo jeito é um batedor — o Hugo explicou — o antigo criou alguma confusão por lá…

—Estranho pensar em alunos da Corvinal brigando…

—Tá vendo, irmãzinha, brigas não são exclusivas da minha casa — meu amigo zombou acabando por fazer todos rirem.

—Bom, mas no final das contas não importa. Eles só vão ganhar se o nosso goleiro ficar cego e eles conseguirem um placar gigante com a goles, porque não tem a menor possibilidade da Rose não pegar o pomo — o Hugo adorava implicar com a irmã, e vice versa, mas tinha orgulho e confiança em cada uma de suas palavras.

Um silêncio incômodo caiu entre nós quando ele percebeu o que havia falado. Era uma situação que eu não queria que se repetisse, então fiz o que pude para contorná-la.

—Você tem razão, o apanhador da Corvinal não tem chances contra ela — minha voz nem tremeu, mesmo eu percebendo naquele instante que não conseguia dizer seu nome espontaneamente.

O clima entre o nosso pequeno grupo se amenizou com a minha declaração. Nossa conversa voltando a ter um tom descontraído. Não demorou muito para soar o apito do início do jogo e eu me preparei para ver a Rose surgir voando em frente aos meus olhos.

Não foi tão difícil quanto eu pensei que seria. O jogo já rolava há um bom tempo e eu não tinha problemas em seguí-la com o olhar. A única coisa que martelava na minha mente era que talvez eu estivesse prestando atenção demais. Era um jogo de quadribol, portanto eu achava desculpas o suficiente na minha mente para procurá-la sem precisar me sentir um idiota por isso. Não tinha nada a ver com o fato dos cabelos dela estarem lindos ao vento, nem de como ela se movia de maneira determinada fazendo várias manobras que eu a vira treinando em primeira mão.

O placar estava ridiculamente a favor da Grifinória. Os artilheiros do time vermelho engolindo os adversários. Porém, eu prestava mais atenção mesmo nos dois jogadores que buscavam a bolinha mais importante — e difícil — do jogo. O que me ocorreu, era que a parte ofensiva do time da Corvinal estava bem mais preparado com a adição do novo batedor. O jogador parecia determinado apenas a tirar a Rose das jogadas, pois toda vez que ela parecia ter avistado algo, ou se aprontava para seguir algum movimento do apanhador adversário, lá estava ele bloqueando o caminho com o corpo ou um balaço.

—Você não acha que esse batedor está exagerando um pouco? — cochichei para o Albus quando uma das bolas pretas passou de raspão pela vassoura da Rose.

—Naah, a Rose aguenta — ele me assegurou sem tirar os olhos do jogo e vibrando quando mais dez pontos foram atribuídos à casa de seus primos.

Eu esperava que o meu amigo estivesse certo, mas eu ainda sentia uma sensação desconfortável. Nossa relação podia ter chegado ao fim, porém eu não seria capaz de afirmar que não me importava, principalmente se tivesse algo a ver com a Rose se machucando.

Tudo começou com um lance normal, daqueles que já foram vistos inúmeras vezes em jogos de quadribol. A Rose deu uma guinada repentina na vassoura, claramente tinha avistado o pomo. Com sua agilidade nata, ela desviou dos jogadores adversários que tinha em volta e foi em frente sem parar, os olhos fixos em algum ponto que não conseguiamos ver da arquibancada. A torcida da Grifinória se aquietou imediatamente, todos prendendo a respiração com a iminência da vitória, esperando apenas o momento correto para explodir em comemorações.

Porém, o caminho nunca era tão fácil para a captura do pomo. Em poucos segundos, o apanhador adversário estava colado na traseira da vassoura da Rose, pronto para emparelhar com ela e arriscar a captura. Ele também já enxergava o ponto dourado que insistia em se fazer invisível. Os dois estavam lado a lado, ambas a mãos esticadas, oscilando com a trajetória desbalanceada que o pomo fazia. Eu olhei mais a frente na direção em que os dois voavam, a bolinha estava claramente se encaminhando para passar por entre as barras dos aros defendidos pela Grifinória, não que fosse um problema, os jogadores passavam por ali inúmeras vezes, mas foi nesse momento que o estádio inteiro perdeu o fôlego.

A Rose conseguiu abrir uma vantagem sobre seu adversário, faltava pouco para que ela passasse entre os aros e ali, certamente, o pomo seria aprisionado em seus dedos, porém, assim que ela chegou ao local, um balaço veio em cheio em sua direção. A bola acertou-a no ombro, o que não causaria mais danos do que o normal — já que os jogadores usavam proteção para isso — se ela não estivesse a centímetros de uma barra de ferro. O impacto do balaço em si a desbalanceou e o cabo de sua vassoura acabou se chocando sem piedade com o metal.

Parecia que eu estava vendo um pesadelo. Uma cena distante e absurda criada por alguém com um senso de humor desagradável, pois não podia ser a Rose ali naquela vassoura que saiu rodando numa espiral desenfreada, jogando-a no ar de maneira tão rápida que não houve tempo de evitar a queda que fez todos os alunos exclamarem assustados. Eu não precisava olhar para os lados a fim de confirmar que meu amigo e o resto de sua família estava em choque como eu.

—Ela não está se mexendo! — o Hugo foi o primeiro a conseguir falar alguma coisa, a juíza já havia parado o jogo e os outros jogadores desceram das vassouras.

Eu estava completamente paralisado, cada pedacinho de mim querendo gritar de medo. E se ela tivesse se machucado gravemente? Ao ouvir a voz do Hugo e a constatação dos meus olhos que não conseguiam me dizer se ela estava bem ou não, algo se despedaçou dentro de mim e eu só percebi que foi a minha resolução de me manter afastado quando os meus pés já estava me levando em direção às escadas. Eu corri o mais rápido que pude, só pensando que eu precisava chegar perto dela, ter certeza de que ela estava bem.

A areia do campo dificultava um pouco os meus passos, mas eu não diminuí o ritmo. O problema foi que quanto mais perto eu chegava, mais eu percebia que não conseguiria vê-la. Uma multidão de pessoas se formava em torno do lugar em que ela caiu. Eram alunos que desceram das arquibancadas, professores e os colegas de time. Assim que a barreira me impediu de passar, percebi que o Albus, a Lily e o Hugo estava logo atrás de mim. Mas onde eu estava tendo dificuldade para fazer as pessoas à minha frente me darem licença, o Hugo conseguiu passar como se estivesse abrindo caminho em um rio.

Claro que eles passariam, eram a família dela, já eu não era nada. Nem amigos nós éramos mais. Que direito eu tinha de tirar seus colegas de time ou de casa dali só para que eu conseguisse acalmar meu coração que ainda não havia parado de bater como um louco? De repente, eu não queria mais estar ali. O medo e a apreensão que me dominavam só se juntaram a dor de constatar que, pra mim, não existia nenhum caminho que levasse a ela e que isso ainda tinha força sobre os meus sentimentos. Sem esperar mais, eu dei meia volta e me afastei. O Albus se encontraria comigo depois, no momento, eu era a última de suas preocupações e eu sabia que ele não se importaria com a minha decisão de não esperar.

Não tinha nenhum outro lugar para ir além do meu quarto. Mais uma vez eu estava escondido do mundo atrás das grossas cortinas verdes da minha cama por causa da Rose. Porém, eu escolheria partir o meu coração milhões de vezes me separando dela do que ter que escutar uma vez que fosse a notícia de que ela tinha realmente se machucado. Eu tentei me acalmar, falando a mim mesmo que nossa escola tinha uma bruxa extremamente competente no que se tratava de cuidados médicos, mas não estava sendo o suficiente. Minha respiração ainda não saia normal, meu peito continuava carregando um peso que não existia antes.

Desisti de me impedir de ter o pouco consolo que eu conseguiria, então engatinhei até o malão que estava ao pé da minha cama e pesquei de lá de dentro o pequeno embrulho que eu ainda carregava comigo. Aquele presente foi comprado numa época em que eu ainda enxergava apenas corações e felicidade quando o assunto era a Rose. Meu último pedacinho de memória boa. Voltei a me apoiar no encosto da cama. Abraçando as minhas pernas, eu afundei o rosto em meu joelhos, segurando o presente como se aquilo fosse ajudar de alguma forma no desenrolar daquele acidente.

—Não vai acontecer nada com ela — eu falei baixinho para mim mesmo.

Uma tolice sem sentido, mas que me fez ficar um pouco mais confiante, embora eu já sentisse algumas lágrimas assustadas escorrendo pelas minhas bochechas. O mais engraçado era saber que se a Rose me visse assim, ela provavelmente rolaria os olhos, colocaria as mãos na cintura e diria que uma besteira daquela não era o suficiente para pará-la. Dei um riso fraco ao imaginar nitidamente a cena até me dar conta do meu erro. Eu estava chorando, mas ela não diria nada.

Não existiam mais palavras entre nós.

Eu sequei o meu rosto e me endireitei, decidido a interromper aqueles pensamentos pesados e cortantes que não me faziam bem. Forcei a minha respiração a entrar num compasso ritmado, colocando na cabeça que em breve eu teria notícias. O Albus demorou menos do que eu pensei que demoraria. Ele entrou no dormitório chamando por mim, o que me deu tempo apenas de esconder o presente — que eu ainda tinha em mãos — embaixo do meu travesseiro.

—Aí está você — ele falou quando eu abri as cortinas — não consegui te achar naquela multidão.

Para o meu alívio, a cara dele não carregava nenhuma preocupação profunda. Ele sentou na ponta do meu colchão e ficou me olhando por algum tempo antes de continuar.

—Você quer saber como ela está? — quase o agradeci por não me fazer perguntar, mas não tanto, pois ele me fez admitir.

—Claro que sim!

—Achei mesmo que ia querer — ele deu um sorrisinho minúsculo que me faria questionar seus motivos se eu não tivesse tanto na minha cabeça naquele momento — foi uma queda feia, a Madame Pomfrey a levou direto para a enfermaria e...

—Mas ela vai ficar bem? — na minha ansiedade acabei interrompendo-o.

—Calma, sem pânico — ele levantou as mãos na tentativa de me acalmar — ela vai ficar bem, só não de um dia pro outro, claro. Ela quebrou um braço e duas costelas e bateu forte com a cabeça.

Eu senti meu estômago afundar com cada notícia negativa, o que provavelmente estava estampado na minha testa.

—Mas a Madame Pomfrey já tratou de tudo, ela só vai precisar de repouso por alguns dias sob observação e vai ficar dolorida, deu tudo certo. Só vão sobrar alguns roxos e arranhões.

—Eu… — o que eu teria a dizer sobre isso? Que estava aliviado, feliz por saber que ela ficaria bem? A verdade era que eu queria vê-la e não apenas notícias de segunda mão.

—Olha, Scorpius....eu não vou falar pra você ir ou não ir vê-la, isso é com você.

—Ninguém pode receber visitas na enfermaria nesse horário — já era o meio da tarde, eu nem tinha me importado em comer, a fome estava totalmente esquecida.

—Eu sei, é por isso que nós concordamos que, por 24 horas, você vai ser o primeiro Malfoy a ter um empréstimo muito especial — eu não entendi as palavras dele até perceber pela primeira vez o volume que ele tinha ao seu lado.

Sem dizer nada, ele colocou o que eu sabia ser a capa da invisibilidade que era de seu pai em meu colo.

—Mas como isso está aqui? — James era o novo dono do artefato e ele havia se formado no ano anterior.

—Você não conhece o nosso poder de persuasão, conseguimos convencer o James de que a capa tinha que ficar conosco até todos terminarem a escola, onde mais seria tão útil? Claro que eu perdi no quesito de permanecer com ela, já que, de acordo com a Rose, tem mais de nós na Grifinória. Então nós nos revezamos.

—Você não me contou isso — eu franzi a cara, ligeiramente contrariado.

—Me poupe, Scorpius! Presta atenção na parte importante, ela é sua até amanhã. O que você vai fazer com ela é problema seu.

—Eu… — fiquei sem palavras para agradecer o gesto — obrigado, Albus.

—Não precisa me agradecer, seu pateta, até porque a ideia não foi só minha, a Lily que sugeriu e eu e o Hugo concordamos. Era a vez dela de ficar com a capa.

—Mesmo assim, eu sei o quanto é valioso — argumentei, pegando o tecido em minhas mãos.

—Tá vendo, só? Isso é o tanto que gostamos de você, devemos estar com a cabeça fora do eixo — ele deu um sorriso debochado e acabou arrancando uma risada de mim.

—Imagina se seu pai sabe que a capa dele anda passeando por aí com um Malfoy — eu brinquei, tentando me distrair o dilema que já tinha se alojado em minha mente quanto ao que eu faria com a posse daquilo.

—Acho que não seria nada tão ruim quanto você imagina, sua presença foi muito estimada e sua falta muito sentida depois da derrota magistral que tivemos no natal durante nossa competição de perguntas e respostas — ele falou bem humorado.

—Essa parte você não me contou também.

—Não era nada que não desse pra imaginar — ele deu de ombros.

—Quanto a vocês perderem, você está completamente certo — eu brinquei, sentindo em meu peito uma calorzinho feliz por imaginar aquela família, que eu tanto tinha gostado, querendo a minha presença.

Ele acabou me convencendo a ir com ele jantar. Fiquei meio distraído o tempo todo, pensando no que eu iria fazer. Eu deveria ir vê-la e tirar de vez as preocupações que me incomodavam? Ou isso seria um passo para trás no caminho que eu havia escolhido para mim? Não cheguei a nenhuma conclusão por um bom tempo. Apenas quando todos foram dormir e a oportunidade de fazer o caminho até a enfermaria apareceu, que eu não consegui mais resistir. Afinal a quem eu estava tentando enganar? Claro que eu queria vê-la. Constatar com meus próprios olhos que não faltava nenhum pedacinho dela. Não dava para deixar passar a chance de fazer isso sem dificuldade alguma. Se eu tivesse sorte, ela nem estaria acordada.

Me debrucei pela borda da cama para alcançar a capa que estava debaixo do móvel. Eu não tinha nem trocado de roupa — prova incontestável de que eu estava apenas adiando o que já estava decidido em minha mente — então foi rápido me cobrir com o tecido esvoaçante e sair, mas não sem antes pegar o pequeno embrulho que havia ficado escondido no meu travesseiro. Passei despercebido pelo dormitório e pela sala comunal que se encontrava deserta. Nunca fui dado a aventuras noturnas onde várias regras da escola fossem quebradas de uma vez, pelo menos não quando o assunto não incluía a Rose. Entretanto, cheguei a conclusão de que era o mesmo caso dos anteriores, pois a razão ainda era a ruiva.

Assim que me vi de frente a porta que levaria para dentro da enfermaria, eu sabia que não tinha mais volta. Eu não percorri os corredores da escola inteira quase sem respirar com medo de ser pego para desistir ali. Empurrei a porta o mais delicadamente possível, não me arriscaria a fazer as coisas de qualquer jeito e acordar Madame Pomfrey que, certamente, dormia nas proximidades dos leitos.

Não foi difícil achar a Rose, pois todas as outras camas estavam vazias. De longe eu não consegui perceber se ela estava acordada ou não, então fui quase na ponta dos pés até o lado da cama onde ela estava deitada. Mesmo com a pouca iluminação do ambiente, eu enxerguei perfeitamente o rosto que eu conhecia de cor, um suspiro surpreso escapando de meus lábios ao notar todas as marcas que eu nunca havia visto. Ela dormia profundamente e o frasco no criado mudo me dizia que a razão era uma poção do sono, de forma que não tive receio algum de puxar o tecido que me cobria para vê-la melhor.

—Ah, Rose — murmurei baixinho, sem conseguir controlar meus dedos que foram passear nas mechas rubras que caiam de seu ombro,

Ela tinha o braço esquerdo enfaixado. O ombro exposto pela alça fina da camisola estava arranhado, mas o pior estava em seu rosto. A bochecha tinha um corte que provavelmente doía mais em mim do que nela, o canto da testa parecia tingido de um tom estranho de roxo, assim como a beirada de um de seus olhos. Cada machucado que eu achava aumentava um pouco mais a pressão que me apertava o peito. Eu nunca a tinha visto dessa maneira. Ali dormindo toda debilitada ela parecia tão frágil. As sardas em seu rosto apenas adicionando o ar juvenil que ela insistia tanto em esconder com olhares altivos e determinados.

Meu cérebro me dizia que ela ficaria bem, mas meu coração besta e — mesmo contra minha vontade — apaixonado não conseguia me fazer parar de pensar que eu trocaria de lugar com ela num segundo apenas. Fora isso, a saudade chegou mais violenta do que nunca. Com o toque da pele dela sob os meus dedos, eu dimensionei a imensidão do buraco em meu peito.

Porém não adiantaria de nada.

Eu tinha ido até ali apenas para me certificar de que ela estava bem. Pronto, já tinha visto, podia ir embora, mas algo me mantinha no lugar.

—Só mais um pouquinho — não sei para quem eu estava tentando me justificar, talvez fosse para convencer a mim mesmo de que eu não estava sendo idiota.

Me permiti acariciar mais um pouco os cabelos dela, parando os dedos na pele macia de sua bochecha. Deixei uma exclamação baixinha escapar quando ela se mexeu um pouco, virando o rosto em minha direção. Meu coração deu um pulinho, enxergando todas as conclusões erradas. Eu precisava ir embora, quanto mais tempo eu ficava, mais difícil era de me convencer a partir. O peso do presente que eu trazia no bolso voltou a minha atenção e — num impulso descabido — eu o peguei e abri a caixa. O pingente vermelho me encarava como uma promessa. Um voto que agora não era nada além de impossível, vazio, mas a lucidez devia ter me abandonado do lado de fora de enfermaria, pois eu retirei a correntinha delicada da embalagem e — com cuidado — a prendi no pescoço da garota que devia tê-la ganhado.

Combinava perfeitamente com ela. A pequena rosa vermelha capturava o brilho das velas que nos rodeavam, complementando a cor dos cabelos dela. Senti um sorriso se insinuando em meus lábios, ela ainda era a garota mais bonita de todas para mim, não importava quantos roxos tivessem escondendo seu rosto.

—Você vai ficar bem, Rose — eu me aproximei do ouvido dela jogando para longe todo meu bom sendo que dizia que eu estava apenas machucando a mim mesmo — e não se preocupe que, mesmo o outro apanhador tendo conseguido pegar o pomo na hora que você caiu, vocês ainda ganharam o jogo. Você só tem que ficar boa logo, seu time precisa de você para ganhar a taça.

Não sei o que me fez elaborar aquele discurso, ela nem estava me escutando, mas tinha algo de reconfortante em fazê-lo, então continuei.

—Seu irmão e seus primos ficaram muito preocupados também, então nada de demorar muito a se recuperar. Você tem que voltar para as aulas para não chatear os professores que te adoram e todos os seu amigos e… — fiz uma pausa, mesmo sem testemunhas parecia difícil de dizer — e por mim também. Eu sei que você não quer saber do que eu quero, mas eu preciso te ver bem, tá? Vai ser de longe mesmo, só…. só faz isso por mim.

Aquilo me fez sentir um vulnerabilidade que não havia me atingido ainda. Se ela abrisse os olhos naquele momento e me pedisse para não sair de perto nunca mais, eu provavelmente teria aceitado na hora. O que só me dizia mais ainda que eu tinha que ir embora. Chacoalhei a cabeça para expulsar aqueles pensamentos que tinham a Rose por toda parte e me abaixei para pegar a capa que estava jogada no chão. Eu estava prestes a me cobrir novamente com o tecido quando me interrompi, a vontade foi mais forte do que eu.

Voltei para perto dela e me inclinei, aproximando meus lábios de sua testa. O beijo foi rápido e delicado, apenas um roçar de lábios, mas eu senti em todos os cantos do meu corpo.

—Tchau, Rosie, durma bem.

Com um último olhar em sua direção, eu desapareci debaixo da capa pronto para voltar para o dormitório e encarar uma bela noite de insônia.

Notas finais
Ai ai ai! Não sei se fico com mais pena do Scorpius, se me preocupo com a Rose ou se digo que o Al é um amigo nota 100 hauhauha Que situação difícil para o nosso fofinho... ele quer superar, mas não é tão fácil assim e sejamos sinceras, não queremos que ele consiga, né? Maaaaas ele deixou o presente com ela! O que vocês acham que vai acontecer? Será que a Rose vai se tocar que é dele? Se ela se tocar, o que vai fazer com o colar? Não se esqueçam da teimosia magistral da menina hauhauha Me contem todas as suas teorias e opiniões lá nos comentários, vou amar ler cada uma delas. Será que alguém cede no próximo capítulo? Até a próxima, pessoal! Bjus