All of me
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Não dava para acreditar na completa infelicidade que foi aquela coincidência. A Rose poderia ter aparecido cinco segundos antes ou depois e tudo seria muito mais facilmente explicável, pois se tinha uma coisa que eu estava certo ao ver a expressão dela, era que milhares de pensamentos ferviam por baixo daqueles olhos azuis. Eu não parei para pensar em nada, não me dei tempo de ponderar no que fazer, eu sabia apenas que precisava ir atrás dela e foi o que fiz. Não me importei se estaria sendo rude com a garota que eu havia deixado no corredor ou mesmo se eu deveria ter ficado para brigar com ela. Tudo que importava era que eu conseguisse desfazer o problema que havia se formado.
Corri o mais rápido que pude, minhas pernas mais compridas não precisando de tanto para alcançar a Rose, mesmo ela sendo mais rápida. Consegui me aproximar já perto das escadas que ela se preparava para subir.
—Rose, espera! — eu pedi, minha voz entrecortada em partes pelo esforço, mas principalmente pelo nervosismo.
—Eu não quero falar com você, Scorpius — pensei que ela pararia pelo menos para falar alguma palavra irritada, mas ela não se dignou nem a olhar para trás, continuando seu percurso escada acima.
Me doeu escutar o gelo em sua voz, mas de certa forma eu entendia que aquilo tudo foi uma cena inesperada, eu só precisava me explicar.
—Rose, deixa eu explicar — tentei mais uma vez, finalmente alcançando o braço dela e parando-a já no andar de cima.
—Não quero ver a sua cara agora — ela rebateu ainda se recusando a virar em minha direção — ainda tem a imagem daquela Polly grudada nela na minha mente — ela estava brava, tão nervosa que eu a escutei enunciando cada palavra entre os dentes.
—Não foi nada disso, Rose, por favor — eu insisti levando minhas mãos aos seus ombros e virando-a para mim.
Eu nem prestava atenção se tinha alguém passando que pudesse presenciar aquela cena. Eu só precisava que ela olhasse para mim e me deixasse explicar, esclarecer tudo. Não tinha a menor possibilidade de eu permitir que tudo se estragasse dessa maneira.
—Me deixa ir, Scorpius — o rosto dela estava virado para mim, mas seus olhos encaravam o chão e, naquele momento, eu senti que ela tremia.
—Não, Rose! Eu não vou deixar você ir a lugar nenhum criando ideias erradas na sua cabeça.
—Erradas? — finalmente aquelas íris azuis encontraram o caminho para se prender às minhas, mas, diferente de antes, não tinha nenhum tom de carinho, apenas gelo — então quer dizer que você tem ótimas explicações? Pois, bem — ela empurrou as minhas mãos para longe e se dirigiu para a sala mais próxima. Porém, mesmo quando ela abriu a porta e apontou para dentro a fim de que eu entrasse, eu ainda sentia que ela não acreditava nem um pouco que eu realmente pudesse convencê-la de nada.
—Vamos escutar todas as maravilhosas razões que você está tão ansioso para compartilhar — ela puxou uma cadeira e se acomodou cruzando os braços e as pernas. Seus olhos não deixaram de desafiar os meus por um segundo sequer.
Respirei fundo e me aproximei. Eu estava agitado demais para conseguir sentar e demonstrar a calma afiada com a qual ela me encarava, então permaneci em pé a poucos passos dela.
—Ela me pegou de surpresa, Rose! Foi ela que me beijou — a verdade era que não havia outra explicação, podia parecer uma desculpa fraca mas era totalmente verídica.
—Eu sei — ela declarou seca. Sua reação não foi nem um pouco o que eu esperava. Achei que ela podia não acreditar, mas se aquele era o caso, por que ela continuava a me olhar como se quisesse ver qualquer outra coisa em sua frente?
—Então!
—Então o que? — a voz dela saiu do tom ameno, quase podendo ser classificado como um grito — pode muito bem ter sido ela a te puxar, mas você não fez nada para impedir isso! — ela apontava o dedo indicador para mim.
—Mas eu já falei que eu não esperava — novamente eu me defendi, não entendendo onde ela via problema se sabia que eu não havia beijado outra garota por vontade própria — você acha que eu queria beijar a Polly?
—Como eu vou saber? — os sentimentos levaram a melhor contra ela que não conseguiu mais ficar sentada, agora seu rosto estava bem mais próximo de mim, as acusações podendo ser sentidas de maneira mais profunda com cada palavra que ela deixava escapar daqueles lábios — o que eu sei é que ela é doida pra beijar você e não tem escondido isso de ninguém!
—Eu não leio mentes, Rose — aquilo começou a me irritar de uma maneira que eu não esperava, passei de me sentir contrito por algo que eu tivesse feito e que pudesse tê-la magoado, para experimentar as primeiras ondas de insatisfação correndo pelas minhas veias. Parecia que ela estava me acusando de algo pelo qual eu não tinha controle, um absurdo que estava sendo difícil de relevar.
—E nem precisa, ou você acha que eu não sei o tanto de atenção sua que ela vem requisitando nos últimos tempos? — O sorriso que surgiu em seus lábios não tinha humor nenhum, apenas a ironia cortante na qual ela era mestre.
—E você por acaso se importa? Porque ultimamente qualquer coisa tem mais atenção na sua agenda lotada do que eu!
Aquele não era o assunto dessa discussão, mas quando dei por mim, já tinha externado algo que vinha me incomodando nos últimos tempos. Passei os último meses tentando com tanto afinco deixar aquilo de lado que nem percebi o quão magoado eu me sentia com isso. Se ela podia reclamar da atenção que eu dava para outras pessoas, eu podia reclamar da atenção que ela não dava para mim.
—Já conversamos sobre isso, é muita coisa para estudar e…. — ela tomou uma atitude defensiva, mas eu não queria escutar a mesma desculpa. No ano anterior também era muita coisa para estudar e tudo era diferente.
—E ela é minha colega de turma, nossas conversas são só coisas acadêmicas.
—Me poupe, Scorpius, você é mais inteligente do que isso!
—O que você está insinuando? Que eu tenho que ser rude e mal educado com todas as minhas colegas porque pode ser que alguma queira sair por aí me beijando? — era muito difícil eu ficar nervoso, ainda mais com a Rose que tinha o meu coração na palma da mão, mas eu não conseguia mais parar.
—Eu não falei isso
—O que você falou então?
—Que você deu abertura, Scorpius! Ela não ia correr atrás de você se não achasse que alguma coisa podia sair daí, e não venha me dizer que não. Você é todo sorrisinhos e gentilezas — ela apontou aquilo como se fosse um defeito.
—Sou assim com todo mundo! — me defendi.
—Então talvez não devesse ser! — o rosto dela estava tão próximo do meu, que eu conseguia sentir a respiração acelerada dela na minha pele.
—Agora você quer comandar a minha personalidade também? Já não basta todo o resto?
—Que resto? Quando foi que você fez as coisas do meu jeito?
—Isso não é possível, você se escutou falando, Rose? — passei a mão pelos cabelos e balancei a cabeça tentando não rir na cara dela — desde sempre é tudo do seu jeito, porque você pode ter certeza, se fosse do meu, nada disso estaria acontecendo.
—Ah, sim, se fosse do seu jeito eu ficaria calada e satisfeita por você ter sido só “pego de surpresa” por aquela assanhada!
—Engraçado…. por que será que ela achou que tinha alguma chance comigo?
Uma situação tão idiota e aleatória parecia ter aberto a caixa de Pandora da nossa relação. Eu sempre fui tão paciente, tão otimista e compreensivo que quase não me reconhecia nas minhas respostas atravessadas, mas parecia que realmente todos tinham um ponto em que não aguentavam mais. A atitude dela, com todas as acusações que jogava em meu peito, acabaram sendo o meu limite, mesmo que ao entrar naquela sala eu não tivesse a menor ideia de que aquilo aconteceria. Será que se eu soubesse, teria deixado-a ir como ela pediu? Teria esperado para que os dois esfriassem a cabeça antes de conversar? Mas de que adiantaria? Os problemas e mágoas que eu expunha não mudariam e, mais cedo ou mais tarde, viriam a tona, pois enquanto a Rose se fechasse por trás daquela teimosia toda, não iríamos para frente.
—Exatamente, por quê? — ela bateu com o dedo indicador no meu ombro, mas eu agarrei a mão dela antes que ela pudesse repetir a provocação.
—Essa pergunta você não vai jogar pra mim, Rose — eu a puxei para perto de mim, minha voz baixa e incisiva — se tem alguém que pode responder é você.
—Não venha colocar a culpa em mim, Scorpius! Não fui eu que fiquei de conversinha com ela pelos corredores — ela libertou-se do meu toque e deu dois passos para trás, quase como se a proximidade a incomodasse.
—Não, mas foi você que fez questão desde sempre de minimizar tudo o que existe entre nós. Então no final das contas eu sou o que seu? Como as pessoas nos vêem? Eu não sou namorado, não sou nada, alguém que você procura toda vez que quer se divertir ou para te ajudar a dormir…
—Até hoje eu não escutei reclamações.
—Então está escutando agora! Sou sempre eu correndo atrás de você, Rose, enquanto você faz de tudo pra me esconder dos olhos de qualquer um. Só que quando alguém quer tomar o seu brinquedo, aí sim você mostra sua propriedade, mas é só isso, não é? — eu queria que ela admitisse, que ela finalmente reconhecesse que estava tão envolvida quanto eu. Era tudo o que eu precisava para extinguir o pedacinho do meu coração que doía e me impulsionava a continuar aquela discussão.
—Você está sendo ridículo, Scorpius! — claro que ela não me daria o que eu desejava.
—Ridículo? Quantas vezes eu já tentei falar sobre nós, sobre a nossa relação?
—O que isso tem a ver com a Polly te agarrando?
—Pode não ter nada a ver, mas se você tem suas razões para estar brava no momento, eu também tenho as minhas.
—Essa conversa já foi longe demais — ela chacoalhou as mãos, fazendo menção de ir até a porta, mas eu me coloquei em seu caminho, propositalmente impedindo a passagem. Ela não ia fugir tão fácil.
—Muito pelo contrário, agora vamos até o final com isso!
—Você quer ir até o final, Scorpius, é isso? — ela apertou os olhos e eu sabia que pela frente vinha seu golpe final, quase me arrependi da insistência, porém não tinha mais como voltar atrás em nada — então eu vou deixar tudo bem fácil pra você: eu não gostei nem um pouco de te ver perto dela, se for crime então sou culpada! E quanto a esse “nós” que você tanto adora trazer a tona, se não está bom pra você, sem problemas, a gente separa o “eu” do “você” de uma vez!
Pela primeira vez desde que eu coloquei os meus olhos naquela ruiva eu me senti derrotado. Magoado, triste, mas acima de tudo derrotado. Ela soava tão incisiva, mas eu vi o quanto ela apertava as mãos para não me mostrar que tremiam, o quanto ela piscava para conter as lágrimas brilhantes que começavam a encher seus olhos. E foi naquela hora que eu percebi que nunca ia ganhar. Eu nunca conseguiria passar por cima do que quer que a impedisse de dizer sim ao que eu pedia. Aquela era uma decisão dela, e eu estava cansado de tentar. Aquela conclusão fez a minha garganta se apertar, e eu sentia as minhas próprias lágrimas pedindo liberdade. Um suspiro desanimado escapou dos meus lábios, e eu não pude evitar balançar a cabeça ao dizer:
—Você é tão teimosa, Rose, eu consigo ler nos seus olhos que nem você acredita no que diz, mas mesmo assim não dá o braço a torcer. Qual é o problema? É por que eu sou da Sonserina? Por que sou um Malfoy? Não consigo te entender, sinceramente…
Ela não tinha problema nenhum em vir se sentar na mesa da Sonserina comigo e o Albus, não pareceu nada incomodada ao me perguntar sobre a minha família. Talvez eu só estivesse procurando desculpas para o fato de que ela não queria gostar de mim. Não por eu ser um Malfoy, não por eu ser de outra casa, apenas por ser eu.
—Eu não estou pedindo para você entender nada! — ela empinou o nariz, mas eu vi a mão que ela levou rapidamente ao olho, tentando secar uma lágrima antes que ela caísse.
—Aí está de novo, a atitude altiva de sempre — eu desejava estar por perto no dia que ela descobrisse que tanta teimosia não a levaria a nenhum lugar que ela gostaria de estar, mas não seria naquele momento e para mim, tínhamos chegado a um fim — Quer saber, Rose, eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas eu cansei. Já chega dessa sua atitude de me tratar assim, eu gosto sim de você, provavelmente mais do que seria bom pra mim, mas isso não te dá o direito de me usar, porque diferente do que você acha, eu não vou mais aceitar tudo.
Eu não tinha vergonha de assumir o que sentia, por mais que no momento não estivesse me trazendo nada de bom. Senti a primeira lágrima escorrendo pelo meu rosto, porém diferente dela que fazia questão de esconder, eu a deixei a vista, quase uma acusação em si, mesmo que provavelmente a Rose não fosse se incomodar em nada com isso.
—Te deixei mal acostumada e isso acabou mal para mim, culpa minha, eu admito — eu respirei fundo, tentando estabilizar a minha voz que já saía entrecortada — só que você não pode fazer as pessoas de brinquedo e esperar que elas aceitem isso pra sempre. Então chega, não precisa mais falar comigo, nem me procurar, vou fazer o mesmo favor pra você. Boa sorte sendo muito feliz sozinha, ou achando alguém que consiga preencher bem o meu papel.
Ela escutou completamente calada, o que para mim estava ótimo, pois eu não queria mais ouvir nada. Não tinha mais o que dizer, nenhum argumento que salvasse aquela causa, não de minha parte, pelo menos. Ela continuava paralisada, então eu apenas me virei para sair. Eu já estava com a mão na maçaneta quando escutei a voz dela num último contra ataque.
—Você se acha tão insubstituível, não é?
Eu podia ter simplesmente ido embora, mas parecia que eu tinha mais orgulho do que eu mesmo sabia, além de que eu tinha plena consciência da pessoa que eu era e da pessoa que ela era. Então, mesmo com os olhos úmidos e a voz baixa eu respondi.
—Nem um pouco, mas você pode ter certeza que não existe ninguém que sinta por você o mesmo que eu.
O som da porta se fechando pareceu ecoar dentro de mim. Eu nunca acreditei que corações pudessem se partir de verdade, mas a dor que eu sentia no peito me fez ter que reavaliar os meus conceitos. O mundo a minha volta se mostrava esmaecido, como se as cores vibrantes que eu enxergava antes não fizessem mais sentido para os meus olhos que só queriam chorar. Orgulho não era uma das minhas características mais marcantes, mas não significava que eu não tivesse uma cota significativa, por isso, enxuguei o rosto com os punhos da minha camisa e ordenei aos meus pés que me levassem o mais depressa possível para o dormitório, onde eu poderia deixar tudo se libertar.
Claro que eu tive que descer vário lances de escada até chegar à entrada nas masmorra, mas a verdade é que não me lembraria do percurso. Minha mente estava inundada de imagens da Rose me olhando com término escrito em cada parte de seu rosto. A voz dela repetindo em meus ouvidos, dizendo de novo e de novo que não haveria mais nada entre nós, só para se juntar à minha que deu o último adeus.
Foram tantos anos de espera e expectativas, tanto esforço que eu empenhei para conseguir me aproximar e agora eu sentia que tudo não tinha passado de um grande desperdício. Eu terminei completamente apaixonado e ela ainda apegada àquela teimosia irritante que barrava a minha passagem. Isso só me fazia pensar em como eu havia sido, e ainda era, um belo idiota. Me apeguei a algo que nunca se mostrou concreto e, mesmo tendo sido eu a dar a palavra final, meu coração não tinha recebido a notícia ainda, pois não parecia nem um pouco menos perdido pela garota que se recusou a deixar seu coração se perder também.
Não sei quanto tempo levou, mas eu cheguei a passagem que levava à minha sala comunal. Eu sabia que a minha cara estava péssima, que todos os meus sentimentos deviam estar escritos para qualquer um que se dispusesse a ler. E quem entendia mais de mim do que o meu melhor amigo? Eu o avistei logo que entrei, sentado em sua poltrona favorita em meio a alguns livros e pergaminhos. Os olhos dele encontraram os meus e eu vi o exato momento em que ele registrou que algo estava errado.
—Scorpius…. — ele me chamou assim que eu me aproximei, mas eu não tinha intenção nenhuma de parar ali ou de falar com ele.
—Agora não, Albus — minha voz foi apenas um sussurro, mas eu sabia que ele tinha ouvido pelo simples aceno sutil que ele deu com a cabeça.
Segui direto para o quarto, ele não me incomodaria e, se eu desse sorte, mais ninguém pois o horário não era nada propício para alguém estar deitado. Me joguei em minha cama, parando apenas para fechar as cortinas antes de afundar o rosto no travesseiro, onde os meus soluços seriam abafados.
—Droga! — não sei pra quem eu estava reclamando, mas a exclamação me deu um certo alívio, como se alguém pudesse ouvir toda a dor que eu sentia.
Eu não tentei mais refrear as minhas lágrimas que agora caiam livres umedecendo a fronha do meu travesseiro. Tudo desmoronava dentro de mim, formando um vazio que tinha o contorno exato da Rose. Eu não teria mais o sorriso que ela deixava aparecer só pra mim, não escutaria mais a risada contida com qualquer besteira que eu falasse. No passado ficariam as lembranças dos toques, dos beijos, dos carinhos e das conversas. A tristeza preencheu cada canto de mim e a minha vontade era de gritar o mais alto que eu pudesse, mas meu fôlego estava ocupado tentando controlar o choro.
Perdi totalmente a noção do tempo. Talvez tenham sido minutos, talvez tenham se passado horas. Eu só sei que fiquei ali, jogado na cama até não ter mais nenhuma lágrima para chorar. Até tudo ter se esvaído de mim, até eu não sentir mais nada. Só restava tentar me convencer de que sofrer era normal, eu perdi a guerra na qual lutei batalhas e batalhas só para chegar derrotado no final. Meu coração tinha sido o dano colateral, mas uma hora teria que passar, certo?
A luz já não passava pelas frestas das minha cortina quando eu escutei alguém entrando no quarto. O passo silencioso, o cuidado ao respirar, tudo me indicava que só podia ser uma pessoa.
—Scorpius? — meu amigo me chamou baixinho, me dando toda a chance de fingir estar dormindo, porém eu sabia que ele estava preocupado.
—Estou aqui — eu murmurei e a mão dele apareceu pela abertura da cortina, puxando o tecido para que pudesse me ver.
—Rose? — claro que ele saberia a única razão que me levaria a uma condição daquelas.
—O que mais seria? — eu tentei soar bem humorado, mas meu fiapo de voz não carregou sentimento nenhum.
Percebi que ele estava desconfortável com a situação, mas mesmo assim continuava ali por mim. Eu tinha um ótimo amigo.
—Vocês…. — ele fez uma pausa, não querendo terminar a frase, não era necessário, eu entendi.
—Não tem mais nada entre nós — será que realmente houve um dia?
Poder ter sido a minha mente me pregando peças depois de tanto transtorno, mas pensei ter visto uma flash de confusão passar pelo semblante dele.
—Que droga, cara…. — ele levou a mão até o meu ombro, apertando de leve numa tentativa de consolo — você quer ficar sozinho?
Eu dei de ombros, sem realmente ter uma opinião sobre aquilo, não importava.
—Então espera um pouco aí — ele deixou a cortina aberta, mas sumiu do meu campo de visão, indo em direção a própria cama apenas para voltar logo em seguida com algo nas mãos — tira essa cara do travesseiro, anda, senta aí.
Não era bem o que eu queria fazer no momento, mas quem era eu para ter alguma opinião confiável naquela situação? Fiz o que o Albus pediu, me sentei encostando na madeira da cama, e ele veio se sentar ao meu lado, esticando as pernas no colchão.
—Toma, você está com cara de quem deveria comer um desses — ele tirou uma das barrinhas de chocolate que eu tinha trazido de presente para ele de dentro do saco e me entregou.
—São suas últimas, Albus.
—Não importa, você tá precisando mais do que eu — ele balançou de novo a embalagem e eu aceitei o gesto.
Fome era a última coisa na minha cabeça, mas ele tinha se preocupado comigo e aquele chocolate era tão gostoso que, ao colocá-lo na boca, eu quase consegui me lembrar de como era não estar triste.
—Obrigado, Albus.
—De nada, você trás mais pra mim na próxima viagem — ele sorriu pegando a última barra para si.
Comemos em silêncio por algum tempo, o único barulho era o do chocolate quebrando entre os nossos dentes.
—Eu sei que… — ele quebrou o silêncio chamando minha atenção do nada que era a minha mente — eu sei que ela é minha prima, mas se você precisar falar qualquer coisa, bem, mal, tanto faz, eu escuto. Ninguém vai ficar sabendo.
—Não tem nada pra falar, Albus… nem bem, nem mal. Nem assim eu consigo não gostar dela…. — suspirei, eu parecia um caso perdido.
—Você é a melhor pessoa do mundo, Scorpius, ela vai se arrepender…
—Não foi ela que terminou — confessei.
—Não? — agora ele estava genuinamente chocado.
—Eu só… só cansei.
—Tem muitas outras garotas por aí, Scorpius — ele tentou me animar.
—Nenhuma igual a ela — murmurei a verdade que mais me assustava — eu me lembro que você me disse uma vez que ela ia partir o meu coração. eu devia ter prestado mais atenção.
Aquela primeira semana foi o mais difícil de tudo. Quando a relação que tínhamos construído nos últimos anos se desintegrou em meros segundos foi impossível que os hábitos desaparecessem junto. Sem perceber, eu ainda procurava inconscientemente pelos cabelos dela na multidão de alunos. Uma parte de mim ainda esperava que ela aparecesse para sentar ao meu lado no jantar. Locais em que ficamos juntos traziam memórias que se recusavam a me deixar. Descobri da pior maneira que só porque eu tinha decidido ficar longe, não queria dizer que eu não sentiria falta dela.
Nos cruzamos apenas uma vez nos corredores. Nenhum de nós se relegou nem a levantar o olhar. Eu não queria ver como ela estava. Me mataria descobrir que havia um semblante sereno ou sorridente me encarando quando tudo ainda parecia um redemoinho dentro de mim. Mas talvez me doesse mais ver sofrimento estampado em qualquer canto daquele rosto que eu amava tanto. Eu ainda levaria um tempo para me acostumar com a ideia de que eu não tinha que me importar mais. Só que eu ainda não havia chegado lá.
Meu amigo não tocou mais no nome da prima, tampouco eu perguntei alguma coisa, por mais que meus pensamentos não conseguissem se desviar muito. Assisti a todas as aulas distraído naquela semana. Nem a comida tinha o mesmo gosto. E me peguei apostando comigo mesmo que ela nem pensava mais em mim, ou será que pensava? Eu só queria voltar ao normal, me sentir eu novamente, com a cabeça no lugar e o coração batendo sem esforço. Mas quem era o Scorpius que não gostava da Rose? Eu nem o conhecia mais e a busca estava se mostrando árdua.
No primeiro final de semana, eu fiz o que já não fazia há tempos e sentei na mesa da Sonserina para tomar meu café da manhã. Poucos minutos depois, meu amigo se juntou a mim num ato de solidariedade. Porém, eu sabia o quanto ele gostava daquele momento com os primos, eu não o privaria disso para preservar os meus sentimentos.
—Não precisa ficar aqui, Albus, pode ir tomar café com seus primos.
—Nem começa, Scorpius, não vou te deixar aqui sozinho — ele protestou.
—Já fizemos refeições separadas inúmeras vezes e eu não estou sozinho, não está vendo? Tem uma mesa inteira aqui comigo — eu apontei para os dois lados onde os alunos estavam acomodados.
—Não é a mesma coisa.
—Claro que não — eu concordei — mas eu sobrevivo, agora vai, anda. Vou me sentir mal se você ficar aqui só por minha causa.
Ele ainda pareceu meio relutante, mas acabou cedendo e indo se juntar aos primos que conversavam na mesa da Grifinória. Eu não devia ter deixado meus olhos vagarem até lá, pois claro que eles encontraram a garota que estava quieta, concentrada no prato a sua frente sem comer com muita atenção.
As semanas se passaram levando o resto do ano consigo. Não troquei uma única palavra com a Rose. Parecia que tínhamos desenvolvido algum tipo de radar que nos colocava sempre em lugares que o outro não estava. Melhor assim. A saudade já doía o suficiente sem vê-la. A Polly ainda tentou falar comigo nesse meio tempo, mas confesso que não prestei a menor atenção. Eu sabia que a culpa de tudo o que aconteceu não era estritamente dela, mas a ajuda foi o suficiente para que eu guardasse um ressentimento que me fez ser bem descortês em todos os momentos em que ela me procurou, até que ela desistiu.
Enfim o dia de sair de férias para o natal chegou. Arrumei meu malão, não vendo a hora de sair daquele castelo e ir para minha casa onde nada lembrava a Rose. Achei a caixinha que guardava o presente que eu tinha comprado para ela de natal. Fiquei rodando o embrulho de uma mão para a outra sem decidir o que fazer. Não tive coragem de me desfazer dele que acabou indo parar no meu bolso, num impulso nada saudável. Eu realmente queria me livrar de todo o sentimento que ainda morava dentro de mim, mas na prática nada era tão simples, por isso me permiti aquele deslize. Apenas um pedacinho de memória. Minha esperança era de que até a volta à Hogwarts eu já me sentisse melhor.
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