All of me

12 Capítulo 12


Notas iniciais
Olá pessoas lindas! Capítulo novo de AOM para alegrar o feriado de vocês :) As coisas foram bem animadas no capítulo anterior, vamos ver como eles acordam agora... Espero que vocês gostem :)

Acordei no dia seguinte, estranhando o lugar vazio ao meu lado na cama. Tateei o colchão à procura da Rose, mas constatei que ela não estava mais lá. Ainda com os olhos pesados, eu chamei por ela, só uma tentativa ínfima, pois no fundo eu achava que ela tinha ido embora e não sabia o que sentir sobre isso.

—Rosie? — chamei em voz alta.

—Estou aqui, Scorpy — ela respondeu, a voz vindo pela passagem da porta aberta.

Ao escutar a voz dela, o nó que tinha se formado no meu estômago se desfez, ela não tinha ido embora, só acordado antes de mim e, se eu fosse apostar, estava terminando o trabalho de história da magia. Levantei da cama, percorri o caminho de volta para a pequena biblioteca, minha roupa ainda se encontrava no outro cômodo, então o jeito foi ir como eu estava, o que não me incomodou. Eu estava certo sobre as intenções da Rose ao levantar, mas a cena que me saudou, trouxe mais um sorriso ao meu rosto.

Ela estava sentada por cima de uma das pernas, debruçada sobre o trabalho, mas o detalhe que mais me chamou atenção foi ela estar usando a minha camisa, que nela chegava até o meio das coxas parecendo um vestido. Me aproximei, abraçando-a e depositando um beijo na sua bochecha.

—Bela escolha de vestuário — brinquei.

—Daqui a pouco eu devolvo.

—Ah, não pode ficar, aliás acho que devia ser o seu novo uniforme.

—Ia ser muito mais prático de colocar — ela levantou as sobrancelhas entrando na brincadeira.

—De tirar também — minha expressão atrevida a fez rir.

Eu me virei para alcançar a minha cueca, colocando-a rapidamente, antes de voltar para observar o que ela tinha feito.

—Eu oficialmente terminei o meu trabalho — disse orgulhosa.

—Já?

—Você ficaria impressionado com a minha rapidez quando não tem certos loiros me distraindo — ela empinou o nariz.

—Loiros? Preciso ter uma conversinha com esses outros por aí, não podem interromper a minha garota! — apenas depois que eu falei foi que eu percebi que a tinha tratado de maneira mais íntima do que eu sabia que ela estava disposta a ser chamada, porém para a minha surpresa ela nem se deu conta, apenas rindo antes de me responder.

—Vou me lembrar disso dá próxima vez, aliás você ainda não terminou!

—Fato esse que precisa ser corrigido hoje — eu resmunguei.

—Será que hoje é a minha vez de te distrair? — ela levou a mão ao queixo, ponderando o assunto.

—Você não ia me fazer tirar uma nota baixa, ia?

—Claro que não — ela se esticou e me deu um selinho nos lábios — mas agora eu preciso ir.

—Já? — perguntei novamente.

—Sim, ou você acha que ninguém vai notar que eu estou meio desaparecida desde ontem? — ela levantou as sobrancelhas me desafiando a contradizê-la.

—Quer dizer que eu vou ser abandonado para fazer o meu trabalho sozinho? — resmunguei fazendo bico.

—Para de ser dramático, nem falta tanto assim — ela ensaiou uma bronca, mas acabou rindo da minha cara de vítima.

—Tudo bem, mas eu vou precisar da minha camisa de volta — sorri provocante, antes de me aproximar dela e capturar a boca num beijo lento, minhas mãos já indo para os botões da roupa.

Já era quase hora do almoço quando eu voltei para a sala comunal, o Albus me viu chegar e veio atrás de mim até entrarmos no nosso dormitório que se encontrava vazio.

—Boa tarde, sumido — ele disse irônico — preciso dizer que você me deve mais uma por camuflar sua mais nova desaparição?

—O que você quer dizer com isso? — eu não tinha entendido a observação dele.

—O que eu quero dizer é que seu amigo aqui é muito legal, ou você acha que nunca saiu nenhuma fofoca desse dormitório sobre as suas escapadas noturnas por algum milagre? — ele cruzou os braços, claramente insatisfeito com a situação.

—Não vem com essa cara, ninguém te obrigou — reclamei, frente ao olhar acusatório dele.

—Gratidão não dói, viu Malfoy! Além disso, isso tem mais a ver com a Rose do que você — ele deu de ombros — apesar de que eu acho que ela sumiria das suas vistas se alguém soubesse o que se passa entre os dois — ele sorriu maldoso.

—Nossa vida não tem nada a ver com os outros — resmunguei — mas em todo caso, obrigado.

Eu nunca tinha parado para pensar que nenhuma gracinha tinha chegado aos meus ouvidos sobre eu e a Rose estarmos juntos. Claro que ela sempre fazia questão de ser cuidadosa, mas não é como se agíssemos mais da maneira que era no começo, ela não negava minha presença e a satisfação que sentia com ela. Dessa forma, era de se esperar que alguém já tivesse começado rumores pelos corredores do castelo. A revelação do Albus, de que ele me acobertava nas noites em que eu não estava, explicou grande parte da razão para isso não acontecer;

—Não precisa agradecer, só devolver o favor — ele zombou, claramente se referindo à garota da Corvinal que andava em seus pensamentos já há algum tempo.

—Com certeza — afirmei, era o mínimo que eu podia fazer, e amigos eram para essas coisas.

Resolvi tirar logo do caminho o trabalho que eu precisava terminar, então voltei para a sala comunal depois do almoço que dividimos com os alunos da Grifinória. Os meses foram passando, nada de surpreendente aconteceu. As aulas continuavam difíceis, os trabalhos extensos e a Rosie ao meu lado, deixando o meu coração muito feliz. Já estávamos há uma semana das provas finais e não tinha como negar que uma certa ansiedade pairava no ar, era a expectativa de bons resultado e do término de mais um ano.

No sábado que antecedia a primeira prova — que seria na segunda — eu me atrasei um pouco para o café da manhã, tendo ficado debruçado sobre o livro de poções até muito tarde na noite anterior. Cheguei com uma cara de sono magistral para sentar no lugar vago ao lado da Rose na mesa da Grifinória. Ultimamente, era sempre do lado dela que sobrava um lugar para mim, eu achava ótimo pois não preferia estar ao lado de mais ninguém, mas achava também que tinha tudo a ver com os primos dela manipulando a situação para ficarmos perto um do outro, já que cheguei até a ver a Lily mudando de lugar quando viu que eu me aproximava. Não tinha como não gostar deles.

Me sentei ainda calado, porém não tive muito tempo para me acostumar com os barulhos do dia, como sempre nosso grupo ali estava bem animado e falante, o que eu pude notar pelas várias palavras que saiam da boca da Rose por segundo, mesmo que eu não conseguisse entender direito sobre o que ela estava falando..

—Que bom que você chegou! — disse o Hugo me encarando do outro lado da mesa.

—Eu? — apontei para mim mesmo, não entendendo o alívio dele.

—A Rose está nos enlouquecendo com a chegada das provas, Scorpius! — ele explicou exasperado, sem que eu conseguisse compreender qual era a relação com o fato de que eu estava ali agora — Diz pra ela que vai dar tudo certo.

—Hã? — frisei a testa, tentando entender o que ele queria dizer com isso.

—Se você falar ela vai escutar — ele continuou, recebendo afirmações de apoio dos primos.

—Vou? — a Rose olhou torceu o nariz para o irmão que a olhou como se a desafiasse a negar.

Aquele diálogo todo conseguiu me acordar de vez e me foi impossível não rir. Eu podia até ser considerado o mais patético dos seres, mas fiquei feliz sim de ouvir do Hugo que a mim a Rose escutaria, mesmo que ela tenha feito a parte dela para negar. Resolvi tentar apartar o que já tinha virado uma discussão entre os primos, com a Rose se defendendo ao dizer que não estava enlouquecendo ninguém e eles a rebater cada um dos argumentos dela.

—Rosie — coloquei a mão no ombro dela, fazendo-a cessar a discussão em que se encontrava para me olhar.

—Vai dizer que eu estou te enlouquecendo também? — ela levantou a sobrancelha, irritada.

—Eu sei que você fica ansiosa com as provas, mas vai dar tudo certo, tenho certeza de que ninguém estudou mais do que você.

—Não tem como você saber disso — ela falou me deixando ver a apreensão por detrás dos seus olhos — as provas deste ano tem fama de serem muito exigentes e…

—E você se preparou para isso — eu a interrompi.

Acabei esquecendo que tínhamos uma plateia, me focando apenas na pessoa ao meu lado que parecia não pensar em nada mais também.

—O que os professores podem perguntar que você não saiba, Rosie? — tentei tranquilizá-la.

—Essa pergunta foi a mais idiota de todas, Scorpy, se eu não sei, não dá para ter ideia! — ela revirou os olhos, quase me fazendo bufar com a mania que ela tinha de ser sempre tão literal.

—Você entendeu o que eu quis dizer, não precisa ficar nervosa, você vai se sair muito bem na semana que vem — declarei confiante.

—Gosto dessa sua confiança, só queria sentir também — ela falou baixinho, apenas para os meus ouvidos e nesse momento eu vi o Hugo se inclinando na cadeira para conseguir distinguir as palavras da irmã. Foi aí que eu percebi os vários pares de olhos nos assistindo como se fôssemos um teatro, estava na hora de levar a apresentação para outro lugar.

—Se te deixar mais tranquila, estou indo para a biblioteca fazer uma revisão final, quer vir? — ela entendeu a minha deixa.

—Sim — respondeu com um sorriso, até se lembrar de um detalhe — mas você ainda nem comeu…

—Eu tenho doces — expliquei e ela caiu na gargalhada, sempre me provocando pelo meu gosto — vamos.

Nos despedimos rapidamente do grupo, que pareceu um tanto quanto decepcionado de perder o show, porém o Hugo murmurou um “obrigado” mudo em minha direção com a cara enfeitada de alívio. Chegamos rápido à biblioteca, era engraçado e até mesmo um pouco estranho ver a Rose agindo com tanto nervosismo, ela era sempre tão segura de si que parecia bobo demais se preocupar com algo tão trivial para ela quanto um conjunto de perguntas para as quais ela teria as respostas até dormindo.

—O que você quer rever primeiro? — perguntei.

—Hum… defesa contra as artes da trevas, eu acho.

—Tudo bem, posso te fazer perguntas então, vai ficar mais dinâmico — sugeri, e ela gostou da ideia.

—Scorpy — ela me chamou enquanto eu abria as minhas anotações da matéria.

—Hum…

—Você estava falando sério? Acha mesmo que as provas vão ser tranquilas? — levantei os olhos para encará-la e não gostei do que vi, não combinava com ela estar menos do que 100% confiante.

—Claro! Só não fui muito sincero numa parte… — falei tentando tirar a mente dela do assunto, o que deu certo, pois ela se apressou a perguntar.

—Qual? — me aproximei do rosto dela para responder

—Eu não disse lá, mas você me enlouquece todos os dias — lancei um sorriso sugestivo antes de completar — só que do jeito mais gostoso de todos.

—Você não tem jeito mesmo — ela falou, porém o sorriso que capturou os meus lábios era radiante.

Ficamos um bom tempo estudando, e é claro que ela soube todas as respostas para as mais variadas perguntas que eu fiz. Ao fim da última matéria, ela já parecia um pouco mais convencida de que estava preparada para a maratona de provas que encararíamos, o que não impediu um acontecimento inusitado na noite do domingo. Eu já estava deitado, assim como o resto dos meus colegas de quarto. Ma minha mente passavam tópicos e informações sobre a prova do dia seguinte, pois mesmo que eu não estivesse tão nervoso quanto a Rose, era muito importante para mim também que os resultados fossem bons,

Ao longe, eu podia ouvir o som do ronco do Albus e o ressonar dos dois outros estudantes que não perderam tempo em dormir, porém, o que me sobressaltou foi o farfalhar das minhas cortinas que deveriam ter permanecido fechadas em torno da minha cama, porém foram arrastadas para o lado como se houvesse uma força invisível. Mesmo apenas com a luz que entrava pela janela, eu pude ver que não tinha ninguém ali, o que me arrepiou. Eu me sentei num piscar de olhos, pronto para gritar se alguma coisa assustadora tivesse decidido que eu era um alvo interessante. O grito ficou preso na minha garganta quando senti o colchão se afundando perto das minhas pernas, eu tinha total certeza que a minha cara era de completo pânico. No entanto, antes que eu conseguisse sair do meu estupor e pedir ajuda, as cortinas foram fechadas novamente e eu ouvi um sussurro.

—Sou eu — a voz conhecida teve efeito instantâneo em descongelar os meus sentidos, não deixando porém, nada menos absurdo.

—Rosie? — indaguei para o nada a minha frente.

—Claro, Scorpy, quem mais? — de repente ela apareceu na minha frente, tendo nas mãos o que eu sabia ser a capa da invisibilidade que anteriormente pertencia ao seu tio e agora ao seu primo James — por acaso estava esperando outra pessoa? — ela perguntou mantendo a voz baixa, mas eu sempre gostava de escutar notas de ciúme do discurso dela, mesmo que mascaradas.

—Não, é por isso me assustei, o que você está fazendo aqui? — perguntei baixinho para não acordar os meninos que dormiam.

—Eu… — ela olhou para as mãos apoiadas nas penas dobradas, era difícil enxergar o rosto dela, mas me pareceu que ela estava sem graça — não consigo dormir.

—As provas? — perguntei, e ela apenas assentiu — não sei o que eu posso fazer pra te ajudar, Rosie…

Eu já tinha tentado acalmá-la, ajudado a estudar, não sabia mais como prosseguir para que ela se sentisse menos apreensiva em relação aos exames e muito menos para que conseguisse dormir.

—Não precisa fazer nada, só chega pra lá — não entendi direito o que ela pretendia, mas fiz como ela pediu.

A Rose dobrou com cuidado a capa, colocando-a por debaixo da cama, antes de vir se ajeitar do meu lado, passando as pernas para debaixo das minhas cobertas. A cabeça dela dividia o meu travesseiro com a minha, virei de lado para ela poder se acomodar melhor. Foi uma sensação diferente tê-la ali na minha cama, fora a parte de ser muito arriscado também.

—Boa noite, Scorpy — ela falou já de olhos fechados.

—Ei, espera, você vai dormir aqui? — meu coração deu um pulinho com a noção de que ela veio me procurar mesmo com as dificuldades todas, mas não consegui ignorar o fato de que estávamos quebrando tantas regras da escola que eu nem consegui a contar.

—Não posso? — eu não conseguia ver seu rosto, mas pelo tom de voz eu juraria que ela estava fazendo um bico.

—Claro que pode, é só que se alguém descobrir…

—Ninguém vai descobrir — ela falou confiante — amanhã eu saio cedinho com a capa, ninguém vai perceber.

—Tá bom… — ficamos em silêncio um pouco, mas tinha algo me matando de curiosidade — Rosie?

—Hum — ela respondeu, nada mais do que um sussurro próximo ao meu ouvido.

—Por que você veio até aqui?

—Porque eu não estou conseguindo dormir, já disse — ela sibilou.

—Eu sei… mas por que aqui? — senti a ansiedade surgindo durante a espera pelas palavras dela.

—Eu sempre durmo bem do seu lado… — meu coração se aqueceu com a declaração falada como se não fosse nada — vim atrás do meu sonífero e só — ela emendou zombando, mas eu tinha gravado a primeira parte, a parte sincera que assumiu que a minha presença não era igual a de todo mundo. Depois disso, ela podia dizer o que quisesse que não iria reduzir o meu sorriso, que por sorte ela não conseguia ver, se não faria o máximo para se desviar da responsabilidade de tê-lo criado.

—Disponha então — passei a mão por baixo da nuca dela, fazendo com que nossos corpos ficassem encostados, num abraço aconchegante — só mais uma coisa, posso saber como uma aluna da Grifinória está no dormitório da Sonserina.

—Você perdeu a parte da capa da invisibilidade?

—Claro que não, mas isso não explica como você conseguiu entrar…. eu não conseguiria entrar na torre da Grifinória nem que tivesse uma capa dessas — era a verdade, os entradas não foram feitas para serem acessíveis a alunos de outras casas, as senhas estavam lá por isso.

—Ah, eu sempre faço o Al me contar a senha quando muda — ela disse de maneira desinteressada

—Isso é tão a sua cara que eu não consigo nem ficar impressionado — cobri a boca com as mãos para não fazer barulho com a risada que queria sair

—Mas acho que agora não preciso mais brigar com ele para isso, você vai me dizer, não vai? — o pedido foi tão inesperado que minha risada evaporou.

—Depende, você vai me dizer a senha da Grifinória?

—Pra que? Você não tem uma capa da invisibilidade.

—Nem você — rebati, pois tecnicamente era a verdade.

—Bem colocado — eu escutei o sorriso na voz dela

—Vai que um dia eu preciso aparecer por lá? Pode ser que eu não consiga dormir também — senti a mão dela se apoiando sobre mim, um carinho pelo meu braço seguindo a ação.

—Tudo bem, eu conto — ela cedeu por fim, e para mim, isso significou mais do que apenas uma senha boba que provavelmente eu nem nunca usaria.

—Eu te digo também então — concordei — boa noite, Rosie, dorme bem.

—Eu vou, boa noite, Scorpy.

Realmente ela dormiu bem rápido enrolada nos meus braços, eu não demorei muito mais, apenas a animação daquele momento me impediu de dormir imediatamente. Acabei me esquecendo de tudo o que poderia dar errado e apenas aproveitei o momento. Acordei no dia seguinte com ela me chacoalhando de leve.

—Scorpy, acorda! — um sussurro insistente no meu ouvido.

—Só mais um pouco, Rosie, to com sono — resmunguei sem nem abrir os olhos.

—Eu preciso ir, daqui a pouco as pessoas começam a acordar.

—Você tem a capa — argumentei a apertando mais para perto de mim.

—Ela me faz transparente, não inexistente, se alguém esbarrar em mim dá no mesmo.

—Mas tá tão bom aqui… e as provas são só a tarde — afundei o rosto no pescoço dela.

—Larga de ser manhoso, Scorpy, se eu for pega aqui não vai ter mais prova nem pra mim nem pra você porque vamos estar muito ocupados arrumando os malões para ir embora.

—Meu Deus, o seu pai me mata! E a sua mãe… — de repente a extensão das consequências me atingiu e eu sabia que precisava ajudá-la a sair dali.

—Se ajudar o meu caso, eu te mato também — ela riu baixinho.

—Ei, mas você que quebrou as regras primeiro, nem é minha culpa.

—Sua culpa é ser dorminhoco!

—Não estou te vendo se mexer — reclamei, pois ela continuava exatamente no mesmo lugar, abraçada a mim, com a mão no meu peito.

—Você que está me prendendo.

—Não seja por isso — me desvencilhei dela deixando o caminho completamente livre.

—Hum… talvez mais cinco minutinhos — ela voltou a se encostar em mim, e a minha vontade era esquecer qualquer prova e ficar ali o dia inteiro.

Porém nós éramos responsáveis demais e preocupado demais com o nosso futuro para faltar a uma prova. Os cinco minutos que ela quis se transformaram em quinze, mas pouco tempo depois tivemos realmente que levantar.

—Espera aqui, vou me vestir rápido — ninguém tinha acordado ainda, estava realmente muito cedo.

Fui até o meu malão e peguei o meu uniforme. Coloquei a calça e a camisa, fechando os botões e ajeitando a gravata automaticamente, precisão adquirida de tantos anos repetindo o processo. Por último eu peguei o meu suéter cinza, deixando a capa de lado. Terminei de me arrumar e vi que um par de olhos me encarava por uma fresta nas cortinas.

—O que você está fazendo me olhando! — algum dos meninos podia acordar.

—Só apreciando a vista, sua gravata está torta — antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela se inclinou para frente, abrindo as cortinas e levando as mãos ao meu pescoço para colocar o tecido no lugar.

Ela estava com uma camisola simples, mas como sempre, linda. Eu me sentia com o humor nas nuvens, como poderia ser diferente quando eu tinha dormido e acordado do lado dela? No entanto, não dava para ficar admirando por muito tempo pois o risco era grande demais.

—Prontinho — ela declarou quando a minha gravata estava de acordo com as preferências dela.

—Obrigado, mas vai pra debaixo da capa logo — tirei o tecido do local onde se encontrava e joguei por cima dela. Ela desapareceu, porém um segundo depois, seu rosto estava de novo me encarando.

—Obrigada Scorpy — ela se inclinou para me dar um selinho rápido, voltando a se tornar invisível logo depois, me deixando com o habitual sorriso bobo.

—Eu vou andando e você vem atrás de mim, ok?

—Sim — a voz dela me avisou.

Saímos pé ante pé do dormitório. Eu sentia a mão dela fazendo pressão no cós da minha calça onde ela se mantinha presa para que eu não a perdesse de vista. Parecia que tudo ia dar certo, chegaríamos a saída sem maiores incidentes e meu coração poderia voltar a bater num ritmo normal, porém não foi tão fácil assim.

—Scorpius? Acordado tão cedo, nunca te vejo aqui nessa hora — eu não precisava me virar para saber que era a Polly que me encarava, mas mesmo assim tive que parar e cuidar da situação;

—Ah, oi, Polly. É, geralmente acordo mais tarde, mas sabe como é…. provas e tal, tenho que dar uma passada na biblioteca.

—Agora?

—Sim, eu… esqueci umas anotações lá — tentei desconversar, falando a primeira coisa que veio a minha mente.

—Você pode pegar as minhas se quiser — ela ofereceu sorridente, e eu escutei a Rose bufando, além de um puxão nada delicado às minhas costas.

—O que foi isso? — a Polly se assustou com o barulho que não devia ter vindo de lugar nenhum.

—O que? Não escutei nada… — mentir não estava entre as minhas melhores habilidades, mas até que funcionou bem.

—Ah… eu devo ter imaginado — ela chacoalhou a mão, apesar de ainda estar meio desconfiada.

—É, eu já vou indo, obrigado pela oferta.

—De nada, Scorpius, eu posso ir com você se você quiser — ela ofereceu de novo.

Era a última coisa que podia acontecer, sermos acompanhados por ela, mas como recusar sem parecer suspeito ou indelicado?

—Imagina Polly, não vou te dar esse trabalho, você tem prova hoje também

—Não vai ser trabalho nenhum, já estou com toda matéria em dia — ela me assegurou dando um passo mais a frente.

A Rose me deu um beliscão e eu tive que me conter pra não fazer cara feia ou reclamar.

—Sabe o que é… é que eu estudo melhor sozinho… — falei sem graça, ela tinha que aceitar essa desculpa.

—Ah… tudo bem, é que eu vi você e a Rose Weasley na biblioteca outro dia e achei que você gostasse de companhia.

—Ah isso! Não! Ela só estava lá porque eu não tinha entendido uma parte da matéria e eu pedi ajuda — mais uma mentira, e essa eu nem sabia porque estava contando.

—Era só por causa disso então?

—Claro, ela é muito inteligente, só isso — confirmei.

—Que bom! — o sorriso dela me pareceu meio fora de contexto, mas eu decidi ignorar e conseguir de uma vez por todas sair dali antes que ficasse impossível.

—Agora eu tenho que ir mesmo, tchau, Polly

—Tchau, Scorpy! — ela falou acenando antes de se virar indo em direção às mesas.

Aquilo soou tão errado aos meus ouvidos, mas ignorei também, eu tinha uma missão pela frente. Abri a passagem, deixando a Rose atravessá-la antes de mim. O caminho foi feito em silêncio para evitar qualquer atenção das poucas pessoas que passaram por nós. Seria muito estranho ser visto perto da torre da Grifinória então combinamos que eu iria só até o mesmo andar, eu já estava pronto para me despedir, mas a Rose abriu a porta da única sala daquele corredor, me puxando para dentro sem que eu nem visse.

—Tchau, Scorpy? — ela perguntou de cara feia surgindo por debaixo da capa.

—Hã? — do que ela estava reclamando? Aquilo era ainda sobre a Polly?

—Todo mundo te chama assim agora?

—Não.

—Oferecendo anotações e companhia… Essa garota é muito íntima pro meu gosto — ela continuava com a cara fechada, agora os braços estavam cruzados em frente ao corpo.

—Pro seu gosto? — provoquei sorrindo, não tinha como não ficar feliz com aquela reação no mínimo possessiva. Era tão raro qualquer coisa assim vindo dela, que eu não me negava a felicidade.

—Foi só um comentário, Scorpius — ela revirou os olhos amenizando a situação — não fique imaginando coisas, até porque eu só sou inteligente e nada mais, fui só te explicar a matéria — foi uma sombra de frustração que eu vi nos olhos dela?

—Não estou imaginando nada, claro e você sabe que eu estava só procurando uma distração — expliquei, meu sorriso estampado no rosto — mas então não tem problema, né? A Polly me chamar assim? — eu fiz a pergunta por pura provocação, e só pra ver como ela reagiria.

—Tem! — ela disse imediatamente dando um passo à frente, antes de perceber o que tinha feito.

—Por quê? — agora eu queria tudo até o fim, tudo o que ela fosse capaz de me dizer.

Prendi as minhas mãos nas dela, trazendo-a para perto de mim a fim de envolvê-la num abraço.

—Porque eu que inventei esse apelido, é meu! — ela disse sem me encarar.

—É difícil definir propriedade de apelidos — brinquei.

—Desse não — ela repetiu baixinho.

Meu coração batia imenso no meu peito, faltava pouco, tão pouco para eu finalmente escutar o que queria. Tantos anos que eu esperava, mas eu já acreditava totalmente que o momento em que ela me diria com todas as letras que gostava de mim estava mais perto do que nunca. Por mais que eu preferisse não ter que me separar dela, era inviável que ela permanecesse de camisola fora do dormitório, acabamos nos despedindo logo depois. Eu disse brincando que lembraria à Polly que o meu apelido era de uso exclusivo da Rose, e ela se separou de mim com um sorrisinho no rosto.

A semana de provas foi uma correria desenfreada, por sorte, tudo acabou dando certo. Depois do primeiro exame — no qual ela teve notas perfeitas — a Rose se tranquilizou, finalmente colocando na cabeça que não seriam as provas do sexto ano que a fariam ir mal. Engraçado como passávamos dias a fio nos preparando, para terminar tudo tão depressa. Quando conseguimos um momentos para respirar, já era hora de arrumar os malões e fazer o caminho habitual para a estação e embarcar no trem que nos levaria de volta para casa e os três meses mais do que merecidos de férias.

O caos das centenas de alunos chegando ao mesmo tempo na plataforma para embarcar no trem, foi o suficiente para que eu e o Albus não conseguíssemos encontrar nenhum dos primos dele. Entramos no primeiro vagão que conseguimos e nos instalamos numa cabine vazia. A euforia por finalmente estarmos de férias era palpável na nossa conversa.

—Nem acredito que as provas acabaram e estamos voltando para casa! — o Albus comemorou se afundando no estofado.

—Pois eu nem acredito que a próxima vez que voltarmos será a última… — por um momento esse pensamento me deixou um tanto nostálgico, os anos passaram mais depressa do que eu poderia ter previsto.

—E essa cara de bunda por quê? Vamos nos formar! — ele deu um tapa no meu ombro.

—É você tem razão, mas falta um ano inteiro ainda, não se anime tanto.

—Por que eu estou sendo o otimista dessa conversa e você o pessimista? — ele me olhou confuso — tem papéis invertidos aí.

Eu acabei rindo e abri a minha boca para responder, mas fomos interrompidos pela chegada da Rose que desviou a minha atenção do meu amigo para ela.

—Oi, meninos — ela nos cumprimentou sentando de frente pra mim — o James pediu pra te chamar, Al. Eles estão no vagão da frente, na segunda cabine — ela explicou.

—O que ele quer?

—Sei lá, só estou passando a mensagem — ela deu de ombros, mas algo sutil na maneira dela me deixou um pouco desconfiado

—Vou até lá ver o que o chato quer — ele bufou já se levantando — comportem-se — ele finalizou debochando de nós antes de sair.

—Você por acaso expulsou o seu primo daqui? — perguntei querendo constatar a minha dúvida.

—Eu? Claro que não, isso é com o James — ela deu um sorrisinho e veio se sentar ao meu lado.

—Depois eu agradeço o James então — brinquei e ela riu.

Estava claro pra mim que ela tinha dado um jeito de conseguir uma viagem a sós para nós. Sem nenhuma cerimônia, ela se esticou no banco ao meu lado apoiado o corpo em mim, de modo que eu ajeitei meu braço para envolvê-la. Era deliciosa a sensação de tê-la tão perto, confortável ao estar junto de mim, sem precisar nem de palavras para preencher o espaço vazio da cabine. Ficamos um bom tempo em silêncio, a respiração dela começando a ficar mais cadenciada, indicando que em breve ela estaria dormindo. Seriam três meses de férias, três meses em que não nos veríamos, e eu senti uma necessidade de deixar tudo mais explicado entre nós. Eu sabia que ela era teimosa, que seria difícil conseguir qualquer coisa, mas precisava tentar.

—Rosie? — chamei baixinho para não acordá-la caso realmente estivesse dormindo.

—Hum… — ela respondeu se ajeitando ligeiramente mais pra perto de mim.

—Três meses de férias pela frente… — eu não sabia muito bem como abordar o assunto.

—Como sempre — ela completou.

—Sim, mas…

—Mas o que? — ela inclinou a cabeça para conseguir me olhar por cima do meu ombro.

—Você vai ficar com saudade de mim? — assim que as palavras saíram da minha boca eu me arrependi, não tinha nada que ter sido tão direto, mas engoli o meu desconforto e continuei aguardando a resposta.

Ela ficou séria e se sentou direito no banco, sem deixar de me olhar por um instante sequer.

—Depende… — ela começou, já dando nós no meu estômago — você vai sentir saudade de mim? — a pergunta foi feita num tom muito menos seguro do que eu estava acostumado, o que acendeu uma pontinha de esperança dentro de mim.

—Claro que vou — eu respondi com um sorriso tímido, minhas mãos automaticamente indo de encontro as delas.

—Se é assim, então talvez — o olhar desafiador que ela me lançou, foi o suficiente para me dizer que ela havia gostado da resposta, e embora a dela não fosse exatamente o que eu queria, foi ao menos promissora, o que me fez insistir indo contra tudo o que eu achava que devia fazer.

—Só talvez? — resmunguei.

—Alguém está querendo muita atenção, hein… — ela rebateu em meio a um sorriso.

—Não muita, só um pouco — insisti, dando um sorriso de lado.

—Tudo bem — ela revirou os olhos — então talvez provavelmente eu fique com saudade.

Ela tentou parecer séria, mas falhou, seus lábios esboçavam um sorriso quando eu a trouxe de encontro aos meus num selinho rápido. Claro que eu preferia um sonoro “sim” para a minha pergunta, mas no nível “Rosie” de respostas, eu considerava que estava indo muito bem. Apoiei minha testa na dela antes de continuar a conversa.

—Rosie, você e eu… — comecei a proferir as palavras ensaiadas a tanto tempo na minha mente, mas ela me interrompeu colocando o dedo indicador nos meus lábios.

—Vamos deixar as coisas como estão, Scorpy — ela falou baixinho — está tudo bem assim, não está?

—É só que…

—A gente se dá bem, nos divertimos, pra que mexer nisso? — por um momento eu pensei escutar um tremor na voz dela, mas foi tão passageiro que provavelmente eu inventei.

Ela criava uma história toda só para ficarmos sozinhos, me procurava a todo momento e eu sabia que ela gostava da minha companhia, gostava de mim. Porém, toda vez que eu tentava arrancar alguma confissão, alguma declaração, ela se esquivava mais rápido do que um gato arisco. Eu não conseguia entender o que a impedia de admitir o que quer que fosse, mas precisava colocar na minha cabeça que nem todas as pessoas eram iguais. Enquanto para mim não era nem um pouco difícil declarar o quão apaixonado por ela eu era, para a Rose outras barreiras existiam. Barreiras essas que eu não sabia como contornar além de continuar da maneira que eu vinha fazendo. Mesmo ficando decepcionado com o desvio no assunto, eu sabia que não era bem assim que ela se sentia e no meu interior se repetiam as palavras: “Rose, ainda tem mais um ano, mas só mais um”.

Respirei fundo, me afastando ligeiramente para encará-la e tentando disfarçar o clima estranho que se instaurou além de também contornar a situação em que me coloquei. Eu não ia passar três meses longe dela, tendo como palavras de despedidas as últimas que ela me disse.

—Tudo bem — concordei tentando parecer mais satisfeito do que realmente estava — mas esses três meses vão passar bem devagar.

—Vão passar como todas as outras férias — ela rebateu, mas sem muita convicção, o que não deixou de aquecer o meu coração que se apegava a qualquer detalhe por mais minúsculo que fosse.

—Eu posso escrever pra você? — perguntei sem ter a menor ideia da resposta, sabendo apenas a que eu queria ouvir.

—Não quero saber de uma montanha de cartas todos os dias, Scorpy — ela revirou os olhos rindo, me deixando na dúvida do que ela realmente queria dizer com isso, mas ao ver um sorriso voltando aos lábios dela, eu preferi não insistir.

—Você vai passar o verão inteiro na casa dos seus avós? — mudei radicalmente o assunto, preferindo voltar para o tom leve.

Ela retornou a posição de antes, novamente abraçada a mim, enquanto me dizia os planos de viagem com os pais durante as férias. Quando ela me perguntou o que eu faria, respondi da maneira mais sincera dizendo que não sabia. As férias dos Malfoy nunca eram planejadas com tanta antecedência, ia depender do que animaria a todos. A conversa continuou por caminhos seguros, até percebermos a parada do trem, tinha chegado a hora de nos despedirmos.

—Chegamos — ela declarou repentinamente.

—É.

Ainda ficamos alguns instantes paralisados na mesma posição até que não foi mais possível adiar o inevitável.

—Vamos, Scorpy, nossos pais devem estar nos esperando — ela deu um pulo do banco, nem esperando por mim para abrir a porta e se juntar ao mar de alunos que escorria pelos corredores.

Eu não ia embora sem me despedir, de jeito nenhum! Com uma habilidade de passar entre filas de pessoas, que eu nem sabia que possuia, consegui me adiantar até alcançar a Rose que já estava praticamente na porta do trem. Ela estava colocando o pé no primeiro degrau quando eu enlacei o braço dela com os dedos e puxei-a de volta para dentro do trem, onde olhares de fora não poderiam nos ver.

—Você ia embora sem se despedir? — indaguei sem conseguir deixar de soar um pouco sentido.

—Eu sabia que você não ia — ela respondeu com um sorrisinho atrevido.

Levei-a um pouco mais para dentro do corredor que agora estava vazio, enrosquei as mãos nos cabelos dela pronto para colar nossas bocas, mas foi ela que eliminou o espaço entre nós num beijo que nos fez esquecer do local em que estávamos pelo período que durou.

—Tchau, Rosie, boas férias — falei assim que nos separamos.

—Tchau, Scorpy, pra você também — ela ficou na ponta dos pés para estalar um selinho nos meus lábios antes de se virar para sair.

Minhas mãos permaneceram nas dela até que a distância fosse grande demais para conseguir manter o contato. O jeito foi vê-la sumir pela porta do trem e seguir logo depois para encontrar os meus pais que deviam estar ansiosamente me esperando. Eu estava morrendo de saudade deles, mas algo me dizia que a saudade da minha ruiva favorita não seria menor.

Notas finais
Nem sei comentar todos os momentos fofos desse capítulo... só acho que a Rose já está mais perdida do que consegue entender... hauhauha E aquilo foi uma crise de ciúmes??? Aparece a Polly em ação para tirar a Rose dos eixos... não sei vocês, mas acho que o Scorpius gostou kkkk E depois de provas e tudo o mais, temos as féras em frente! Os dois lindinhos separados, como será que vão encarar isso? Quem aí acha que o Scorpius vai escrever trocentas cartas? Ou será que ele não vai escrever? No próximo capítulo temos finalmente uma presença significativa dos papais Malfoy vamos ver se eles são realmente do jeito que todos os bruxos acham que são... Não deixem de me dizer nos comentários todos os seus pensamentos e opiniões, amo ler cada um deles! Até o próximo capítulo Bjus